Contramão

1 Capítulo 1


Mais um dia de aula, mais uma tortura. Era isso o que Gabi pensava ao acordar todas as manhãs, que mais uma vez iria sofrer por horas. Não que não gostasse de estudar, só não tinha vontade. Considerava todo aquele ritual uma obrigação imposta pelos pais e como qualquer adolescente, não queria seguir. Sabia que era importante para seu futuro, mas naquele momento, via que seus pais depositavam uma carga excessiva sobre ela e não agüentava mais. Queria um tempo pra ela, um tempo para não se preocupar com esse tipo de coisa, com a escola, com sua futura profissão e nem com nada que todo mundo ao redor dela pensava, mas esse tempo nunca vinha e Gabi ia levando a vida assim.

À mesa do café da manhã, ela se sentia cansada já, como se o dia estivesse terminando. Os pais estavam “presentes-ausentes” da mesma forma que nos dias anteriores e ela fingindo não se importar com aquela distância. Era mais fácil fingir que tudo estava bem, a relação entre os três era perfeita e quando estava na rua, Gabi sentia que era assim que funcionava. Entretanto, quando voltava pra casa, os problemas, a rotina voltava, por isso ela fazia o maior número de atividades durante seu dia, só para não precisar ficar em casa. Terminada a refeição, ela pegou uma carona com o pai e este a deixou na escola.

Era o que era. Mais uma manhã que constrangia Gabriela. Como ela já previa, entrou na sala de aula e a maioria de seus colegas estava debruçado sobre cadernos e livros, provavelmente copiando algum dever esquecido, já que suas cabeças eram ocupadas demais durante os dias para se lembrarem de qualquer coisa que fosse importante. Sentou-se à sua habitual carteira, no canto esquerdo e ao fundo da sala. Detestava aquele estereótipo de turma do fundão, mas era a ela que pertencia, então era irresistível sentar-se lá. Na verdade, estava pra ser criado algum estereótipo com o qual ela concordava, definições vazias era apenas o que eles exprimiam.

-- Oi, xuxu! – Manu, uma das poucas amigas de Gabi havia chegado na sala e a cumprimentava. Negra, de cabelos crespos e atitude, eram assim que gostava de se definir. E não tinha como negar que ela era assim. Uma das poucas alunas negras daquele colégio de classe média, sofria um preconceito velado, mas tirava-o de letra, justamente por acreditar nela mesma.

-- Oi, negona! Vejo que acordou de bom humor... Tá até achando que eu dou em tudo quanto é lugar, né? Tipo, xuxu...

-- Eu? Até parece que eu acho isso só quando to de bom humor, né, gata? Você sabe que na verdade, isso é o que eu menos acho, porque se você desse tanto assim, o seu humor é que tava melhor, vamos combinar, né?

— Há há há há! – Respondeu Gabriela, acompanhando seu costumeiro olhar de exasperação quando a amiga acertava em cheio nas suas colocações. Sabia o quanto andava intragável naqueles tempos, não conseguia explicar exatamente o por que, mas compreendia todas as indiretas da amiga com relação a isso. E a amava mais ainda por ser capaz de ainda assim suportá-la. O diálogo não pode ser estendido por mais tempo, já que o sinal para o início da aula havia tocado. Logo a professora que daria os dois primeiros tempos chegou à sala, duas ótimas aulas de química para começar aquele dia interminável.

O tempo se arrastou da forma costumeira, já que Gabriela considerava tudo tão chato, previsível e sem sentido. Ela vinha pensando muito sobre isso, em que momento se tornara tão ensimesmada no que era chato e tinha se tornado tão capaz de dar atenção a ele. Tinha percebido o quão “adolescente” estava sendo, que era tudo o que não desejava, pois considerava-se muito adulta, séria e ser assim tão sem propósito só a fazia ser como as meninas da idade dela, tão constantemente insatisfeitas. Queria muito dar uma virada em sua vida, sair da casa dos pais, ser independente, pra ver se conseguia ver a vida de outra forma, porém, como ainda faltava mais de um ano para prestar vestibular, tentava se satisfazer com o que possuía em mãos. A tarefa como ela percebia, não tava sendo fácil e, menos ainda, produtiva.

Perdida nesses pensamentos, demorou a dar-se conta de que a aula tinha, enfim, terminado. Já era a primeira vitória do dia, só faltavam mais quatro. Dois horários de geografia, dois de inglês e estaria livre. Antes, porém, como nada é perfeito, teria que sobreviver ao recreio. É, ter que aguentar todas aquelas pessoas falando, falando a sua volta, falando sobre coisas que pareciam tão pequenas e sem significado. O momento só compensava por poder ficar mais perto da Manu e do Igor, os amigos que ela considerava os melhores. Igor era um menino diferente dos outros, era doce, sensível, inteligente, cuidadoso, amoroso. Para Gabi ele possuía tantas qualidades que ficava imaginando como não tinha se apaixonado por ele até hoje, porque ele sim poderia ser o cara pra ela namorar. Como até hoje isso não tinha acontecido, ela já tinha perdido as esperanças... E tinha o fato também de que ele era assumidamente gay, então o detalhe devia estar aí, não adiantava se apaixonar.

O menino loirinho, cabelo cortado n’um moicano estilizado, de olhos verdes aguardava as colegas num dos bancos que ficava ao lado de uma das quadras do colégio. Como toda escola que se preze, ali também havia todo aquele ritual básico de convivência. As turminhas tinham cada uma seu lugar cativo ao redor do pátio e tudo era bastante respeitado, tinha todo um significado intrínseco. Os três amigos ocuparam o seu lugar de direito e deram início a mais um papo descontraído, comentando acerca do programa da televisão de segunda à noite, que havia abordado uma reportagem sobre a honestidade de alguns serviços.

-- Mas gente, eu fiquei impressionado com a cara de pau daquele pessoal gente. Devolvia o que foi perdido, mas tirava uma graninha, ninguém merece, né?

- Verdade! O povinho que gosta de tirar proveito das coisas, esse brasileiro. – Comentou Manu.

- ‘Cê tem razão viu, amiga... É sempre assim, um querendo passar por cima do outro, honestidade, cadê? Por isso que é cada dia mais comum quem age corretamente ser reconhecido e aplaudido como se tivesse fazendo algo extraordinário. – Redarguiu Igor. – Além disso, tem algo cada dia mais comum também nessa escola: A Gabriela estar cada dia mais mosca morta, né não, Manu?

Gabi percebendo que mais uma vez tinha se ausentado da conversa, tendo mais uma de suas viagens para um mundo que tinha o mínimo sentido, desculpou-se com os amigos e pediu que mudassem de assunto, já que não havia visto o programa.

- Como assim não viu? O que você fez ontem?

- Ué, Igor, não fiz nada demais... Só ando sem paciência pra TV, você sabe. Tava era só na internet mesmo.

- Ah é verdade! Eu esqueço que você é uma viciada completa!

- Pô, Manu, não começa! Vocês dois também ficam na internet ué, não sei porque tu sempre implica comigo.

- Eu implico?

- É, você sim...

- Vai ver que é porque eu tenho uma vida, além de ter internet... De você, eu não sei se posso dizer o mesmo, né?

- Aff!... Você sabe que pode! Eu estudo, faço aula de inglês, espanhol, francês, treino vôlei, pratico piano. Isso não é ter uma vida, não, fala pra ela Igor...

- Olha meninas, eu não vou entrar nessa discussão de vocês de novo não. Eu não sei de nada, nesse momento não sei nem o que é uma vida...

Pra sorte do garoto, o intervalo não era longo e logo o aviso sonoro para a volta às salas de aula havia soado. Salvo pelo gongo de mais uma extensa discussão das amigas acerca do modo com que cada uma levava a vida, ele se dirigiu à sala do terceiro ano, enquanto as duas iam para a sua classe no mesmo andar.