Contramão

2 Capítulo 2


Gabriela corria mais uma vez para o restaurante perto da escola, onde almoçava a maioria das vezes. Para ela, era mais fácil comer na rua, do que ir até sua casa e de lá para as suas diversas atividades. Além disso, a jovem adorava ficar a sós ou com os amigos. Ir para casa implicaria justamente na companhia dos pais, o que ela vinha evitando o máximo possível. Não sabia bem em que momento havia se tornado tão difícil conviver com eles, mas ela acreditava que foi no instante em que eles começaram a querer minar e fazer com que ela se desfizesse daquilo a que mais tinha amor na vida: o vôlei.

O pai gostava que a filha se divertisse nos jogos, porém, quando percebeu que a sua vontade era levar aquilo a sério, sendo uma profissional do esporte ou se dedicando à uma faculdade de educação física, essa visão mudou. Ele não poderia aceitar que sua filha, a quem ele estava preparando para substituí-lo no escritório de advocacia, ‘perdesse seu tempo com besteiras do tipo’. Ela faria Direito e para ele, a conversa estava por encerrada, se preciso fosse, a proibiria de frequentar os treinos e qualquer outra medida necessária, seria tomada. Para a garota, esse tipo de atitude a entristecia e abalava muito. Sabia que muitas vezes a carreira de um educador físico poderia ser difícil, mas era aquilo pelo que havia se apaixonado, como poderia abandonar assim seus sonhos, só para viver o que o pai considerava ideal? A mãe, pouco se ocupava de criticar ou podar as atitudes da filha, só não desejava causar conflitos com o esposo e por isso, tentava conciliar as discussões. Na maioria das vezes, ficava do lado do marido, causando mais revolta à Gabriela.

Envolta em devaneios sobre como seria o treino de mais tarde, nem percebeu a chegada de alguns alunos do terceiro ano que também almoçavam por lá, foi desperta pela voz de Luiz, um dos garotos populares da escola.

-- Ei, Mari Castro! -- cumprimentou o jovem, chamando-a pelo apelido que havia dado a ela, em homenagem à Mari e à Sheilla, jogadoras da seleção de vôlei das quais, Gabriela era grande fã.

-- Nossa, oi Luiz. Nem te vi chegando.

-- Jura? Como se fosse novidade, né? Você a cada dia fica mais ‘viajandona’! Deve ter um mundo bom de se viver aí dentro dessa cabeça, você não sai dele!

-- Ahh, nem é tanto assim! Eu só rememoro muito as coisas, mas nada tão absurdo quanto vocês dizem.

-- Vocês? Se mais de uma pessoa já constatou, isso é um fato!... Nem precisa discutir.

-- É, tudo bem, não tava disposta a isso mesmo.

-- Ok. Vou ali pegar meu prato e chego aqui pra gente almoçar junto. Vou chamar a galera também.

-- Nem precisa, Luiz, eu já to terminando, olha meu prato. -- disse indicando o prato já quase vazio.

-- De novo? Você sempre dá um jeito de fugir de almoços com a nossa turma!

-- Não to fugindo, to atrasada! Tchau, tchau! -- respondeu levantando-se e indo em direção ao caixa.

Depois de pagar a conta, saiu do restaurante e foi caminhando em direção ao ponto de ônibus. Estava na verdade, adiantada, tinha usado a desculpa apenas para não ter que ficar ali com todas aquelas pessoas das quais nem era amiga. Conhecia quase todos de vista, mas daquela turma, conversava apenas com Luiz e com o Miguel, que não costumava almoçar com eles. Pra variar, o que menos desejava era companhia de gente que não era a sua gente.

Essa mania de se afastar de todos muitas vezes a prejudicou, porém era coisa com a qual ela não conseguia lidar e apenas aceitava. Não podia ser tão menos intimista quanto era. Isso lhe pertencia e por vezes ela chegava a gostar. Considerava-se seletiva nas amizades e isso lhe fazia bem, pois sempre alcançava o que chamava de ‘nível verdadeiro’. Era amiga sem culpas, sem tensões, sem falsidades. Sabia o quanto podia contar com seus amigos e que não precisava se omitir, nem fingir coisas com as quais não se sentia à vontade. Para ela isso bastava, importava mais ter dois amigos assim, do que vinte com os quais nem falar sobre os seus sentimentos era capaz.

Mais uma vez perdida nos seus pensamentos, quase perdeu o ônibus que esperava, por sorte, haviam outras pessoas aguardando o mesmo. Subiu no circular, encontrou um banco n’um canto qualquer onde não chamasse a atenção de ninguém e aguardou o fim do trajeto.

***

A quadra estava praticamente vazia. Por ter se adiantado por conta da sua fuga dos colegas de escola, Gabriela chegou mais de meia hora mais cedo. Sentou-se na arquibancada e sorrindo olhou para a quadra. Estava retornando aos treinos depois de quase um mês afastada por conta de uma inflamação em uma das articulações da perna. Passou por sessões de fisioterapia, se medicou e enfim poderia novamente voltar às quadras. Até chegar ali não havia se dado conta de quanta saudade tinha sentido. Naquele mês, nem mesmo ir até o ginásio para acompanhar o treino das colegas conseguiu. Era doloroso ver todas ali se dedicando e divertindo-se, tendo que estar afastada. Com esse pensamento de felicidade, dirigiu-se ao vestiário para trocar-se e aguardar o início da atividade.

Enquanto estava no banheiro, ouviu vozes se aproximando. Eram duas colegas do time que sempre andavam juntas, amigas do tipo unha e carne. Não perceberam a presença de Gabriela em um dos boxes do banheiro e continuaram o papo que vinham tendo.

-- Fer, nem fala de grana menina. Você sabe como to pobre esse mês e ainda por cima tem essa competição por vir ainda. Vai ser mais uma graninha pra gastar, não to podendo.

-- Aí, Amanda, eu sei! Mas pensa que vale a pena né?! Vamos jogar, ver gente nova...

-- Ver gente antiga! – exclamou Amanda, interrompendo a colega.

-- É, né? De gente antiga você gosta.

-- Eu? Eu não, elas é que gostam de mim... -- respondeu rindo.

Neste momento, Gabriela saiu do compartimento em que estava. Já estava vestida e não se sentia à vontade de ouvir as duas falando sobre suas vidas amorosas, nem tão pouco lhe interessava. Pegas de surpresa, Fernanda e Amanda se assustaram, mas sorriram ao ver quem estava ali.

-- Mas olha quem tá aqui! Enfim nossa líbero voltou, Fer!

-- Pois é, to vendo... Apesar dela parecer uma assombração surgindo do nada assim, eu to vendo ela sim, sim. Com toda sua costumeira beleza americana.

-- Ahh meninas!... Oi pra vocês também! Hahahaha – respondeu Gabriela rindo. – Não sou nem de longe assombração viu? Muito menos americana e bonita, mas to aqui sim. Até que enfim! Já tava morta de saudades. Enlouquecendo em casa já. Como vocês tão? Os treinos como tem corrido?

-- A Gabi tão indo. Corridos demais até. O Lequinho tá pegando até no nosso pé por causa desse campeonato que tá chegando. – respondeu Amanda.

-- Um fato! E você se prepare, porque ele chorou sua ausência todo santo treino. Não conseguimos nenhuma líbero para te substituir, você sabe que é única aqui!

-- Eu única? Sei, sei... É só porque todo mundo quer jogar atacando a bola, eu sou a única que se satisfaz com um simples defender. Nisso sou única mesmo!

-- E a gente não sabe, menina? Por isso você tem que correr atrás do prejuízo, falta menos de um mês pra competição. Você vai né? – questionou Fernanda.

-- Olha não sei, pra falar a verdade, não tava nem sabendo que iríamos competir.

-- Mas agora tá e a gente quer você lá! Vou ali trocar de roupa pra não atrasar pro treino. – disse Amanda se dirigindo para um dos boxes.

-- É, eu também vou. Te encontramos na quadra, Gabi. – dirigiu-se para o outro compartimento.

Gabriela juntou suas coisas e saiu do vestiário. Gostava bastante das duas colegas que encontrou. Eram divertidas, sem papas na língua e sempre a trataram com muito carinho. Elogiavam sua beleza, sua docilidade e seu jeito tímido. Não conseguia compreender bem porque, mas gostava dessa atenção que recebia e buscava retribuir da melhor maneira possível. Igor, quando assistiu um jogo do time pela primeira vez, jurou de pés juntos que as duas tinham um caso amoroso. Gabi nunca levou em consideração as ideias do amigo. Não por estranhar o relacionamento entre duas meninas, mas porque havia visto em diversas oportunidades as duas mencionando outras pessoas com as quais se envolviam, como no papo que ouviu no banheiro.

Chegando à quadra, o treinador já estava lá. Quando viu Gabriela, não conteve um sorriso enorme. Foi até seu encontro e abraçou-a, levantando-a do chão, enquanto pulava de alegria.

-- Não acredito, americana, você voltou! Que saudade! – exclamou o treinador enquanto ainda a abraçava.

-- Nossa, Lequinho, calma! Quem vê pensa que eu fiquei fora dez anos... Pode me soltar vai.

-- Mas foi um mês que durou dez anos. Você fez falta, você sabe que sempre faz.

-- Ah e você sabe o quanto sinto falta daqui, né? Foi um mês difícil mesmo, mas passou e eu to aqui, pronta pra outra.

-- Nem brinca! Não vai ter outra jamais.

-- É, eu espero que não mesmo.

-- Então vai lá dar uma corrida, fazer um aquecimentozinho enquanto as outras meninas chegam.

-- Tá bom.

Agora, novamente atleta, Gabi se dirigiu à quadra e deu algumas voltas para aquecer. Inicialmente teve receio de que sentisse dor, mas à medida que realizava os exercícios, percebeu que estava bem, sem nenhum resquício do problema anterior. As colegas do time foram chegando e cumprimentando a todos. Algumas demonstraram bastante alegria e entusiasmo ao ver que Gabi estava de volta, outras foram mais contidas. De forma geral, o retorno foi tido como uma esperança a mais para a competição que estava por vir. Era um fato que Gabi era a melhor líbero da cidade e da região. Tinha muita habilidade e mais ainda, era uma das poucas ali que gostava de jogar naquela posição. No time do Clube Sanjoanense, era a única. Por isso, todos valorizavam sua presença, pois sabiam o quanto o time ganhava em alguns fundamentos com a sua participação. Nesse clima de festa, o treino foi iniciado. Durou cerca de uma hora e meia, tendo quase todas as atletas comparecido normalmente. Após o seu final, algumas meninas decidiram tomar açaí e aproveitar para comemorar o retorno de Gabriela aos treinos. A jovem, como não tinha muita escolha, acabou topando e depois de passarem pelo vestiário para um banho rápido, se dirigiram à lanchonete onde se reuniam nesse tipo de ocasião.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.