Contos para uma tarde nublada
5 Um mundo preto e branco
Notas iniciais
A noite estava fria e chuvosa. Eu tremia de medo e minha barriga de fome, mas não havia nenhuma maneira de fugir. Encolhi-me, procurando livrar-me, ao menos um pouco, da gélida chuva que não parava por sequer um momento.
Quando amanheceu, após uma longa noite sem dormir, a chuva havia parado e resolvi tentar me localizar, desviando das pequenas poças d’agua que haviam se formado. Ao caminhar para frente, senti uma dor em meu corpo, uma ferida provavelmente sangrava. Com um pouco de dificuldade, ao andar, pude enxergar minha própria imagem refletiva na água: Olhos verdes encaravam-me e orelhas pontudas estavam em alerta para qualquer tipo de som. Forcei para que minhas quatro patas, com suas garras à mostra, continuassem seu caminho. Meu pelo preto e branco estava completamente molhado, deixando meu pequeno corpo ainda mais sensível.
Não pude andar muito, então sentei-me e observei o local em que eu estava, procurando uma possível saída, mas não encontrei nenhuma maneira indolor: Estava em um alto telhado, apenas eu e as pequenas gotas que a chuva deixara para trás. Pular não seria a melhor das opções, mas não havia nenhum lugar por onde pudesse descer sem me machucar.
Chamei repetidas vezes, mas ninguém apareceu. O medo tomava cada vez mais conta de mim, até que ouvi um som que talvez fosse uma resposta e logo o que parecia ser várias vozes se juntaram, mas eu não entendia o que estavam dizendo, então continuei a gritar, esperando que minhas preces fossem atendidas e algo acontecesse. Não podia ficar para sempre em um lugar frio e úmido, onde não havia nem um mísero grão de comida ou qualquer gota de leite.
Para meu desespero, a chuva voltou, com toda a sua força, assim como estava na noite passada e fui obrigada a voltar para onde a água tinha um pouco mais de dificuldade para me alcançar.
Dois dias se passaram e eu não havia encontrado uma maneira de fugir dali. Estava com muito frio, fome e dor, mas não importava o quanto eu gritasse ou chorasse, nada parecia mudar. De repente, quando a chuva havia cessado, ouvi vozes e barulhos que me assustavam, mas não havia para onde fugir. Pouco depois, um par de olhos me encarava, nesse momento, não consegui emitir nem mais um som. Estava preparada para fugir de alguma maneira, caso fosse possível, mas duas mãos humanas carregaram-me. Fechei meus olhos enquanto debatia-me, tentando escapar. Minha ferida parecia doer muito mais agora.
Quando finalmente encontrei algo para apoiar, corri o mais rápido que pude para o primeiro local que parecia-me seguro: Um lugar com areia ainda seca, coberta por enormes folhas de uma árvore. Fiquei por ali muito assustada, pois não sabia o que deveria fazer ou para onde ir, entretanto, só uma coisa me importava agora: Eu estava livre.
A chuva voltara, mas dessa vez eu não a senti, apenas a gélida brisa que passava pelas folhas. Encolhi-me na tentativa de me aquecer, talvez não mudasse nada, mas pelo menos fazia com que eu me sentisse melhor.
Mais tarde, pressenti que alguém se aproximava. Era uma humana, mas não a mesma de outrora, era menor e diferente, apesar de muitas semelhanças. Ela abaixou-se na lama do lado de fora das folhas, deixou algo e foi embora para seu abrigo, que parecia ser um lugar enorme. Quantos humanos poderiam viver nessa enorme caixa? Acredito que vários.
Quando voltei a ficar sozinha, notei que a humana deixara algo que tinha um cheiro bom e tentador. Aproximei-me cuidadosamente e examinei com o faro alguns pequenos grãos. Parecia ser algo comestível, ou talvez a fome estivesse me enganando, mas não quis pensar duas vezes e comi o máximo que pude, desejando mais.
Naquele mesmo dia, a garota voltou, dessa vez com um pouco de leite o que fez-me lembrar de quando ainda estava com minha mãe. Um longo braço coberto por um tecido colorido estendeu-se para perto de mim, cuidadosamente. Desconfiada, porém curiosa, aproximei-me devagar e cautelosamente até que enfim, consegui sentir seu acolhedor aroma e ela sorriu. Ainda não sabia se aquela expressão era algo bom para os humanos, mas de certa maneira, parecia algo pacífico.
O tempo passava; A curiosidade inquietante de explorar aquele novo local vencia e eu precisava sair de debaixo das folhas, mas sempre que alguém aparecia, acabava voltando. Aos poucos, os humanos conseguiram cada vez mais a minha confiança, até que certa vez, fui carregada novamente e senti uma espécie de água ser borrifada em meu machucado. Sem pensar, saí correndo em direção a meu esconderijo, pensando que talvez fosse realmente o melhor lugar para mim, contudo, percebi que a ferida parava de dor e curava-se cada vez mais rápido, talvez pelo estranho líquido. Decidi, então, me aproximar de uma vez por todas daqueles estranhos gigantes.
Muitos anos se passaram desde então e eu nunca me arrependi de ter ficado com aquela família. Deram-me um nome, abrigo contra as traumatizantes noites de chuva e tempestade, que lembravam-me dos amargos dias e noites em que passei no telhado, além de também alimentarem-me e acariciarem-me. Mesmo com brigas, arranhões, pisadas e todos os poréns, agradecia por não terem me abandonado em seu telhado, onde provavelmente, teria morrido em pouquíssimo tempo.
Pensava em tudo isso e como mudanças haviam ocorrido durante tanto tempo enquanto observava grãos de ração em meu pote, que outrora pareciam irrecusáveis, mas neste momento perderam toda a sua cor e fragrância. Deitei-me e ignorei-os.
Os próximos dias foram bonitos e ensolarados, contudo, eu já não possuía a animação de sempre. Emagreci repentina e absurdamente, mas nada fazia-me mudar de ideia. Em uma tarde, ainda com os mesmo sintomas, lembrei-me de tudo o que já havia acontecido e me senti bem com aquilo.
Mais tarde, meu gélido corpo foi carregado por uma humana novamente, como havia sido há alguns anos atrás.
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