Contos para uma tarde nublada
6 Pindorama
Notas iniciais
O dia estava ensolarado e quente, como de costume. Eu, acompanhada por outras mulheres, preparava mandioca, retirando sua casca. Perto de mim, algumas cuidavam de suas crianças, faziam cestos ou cultivavam plantas. Puxei alguns longos e pretos fios de cabelo para trás de uma orelha para que não atrapalhasse meu serviço.
O sol incomodava-me um pouco, contudo, era uma ótima época para o cultivo de rabanetes, morangos, coentro, entre outros ricos alimentos. Pouco depois, os raios solares foram obrigados a mudar de direção, com o passar do tempo e assim, a sombra de uma enorme árvore incentivou-me á um trabalho mais caprichado.
Os homens da tribo forjavam suas ferramentas e ensinavam os mais jovens á se ternarem grandes homens algum dia, mostrando-lhes a melhor maneira para impedir a fuga de sua desejada presa. O Cacique (guerreiro mais forte e experiente) observava os imaturos índios, dando-lhes preciosas dicas e alertando-os dos erros que cometiam. Um garoto exibiu seu mais confiante sorriso quando sua flecha atravessou um pássaro que ingenuamente pousara de seu voo; Ele levaria orgulhosamente o prêmio para sua mãe limpá-lo mais tarde e quem sabe, usar suas belas penas para algum acessório, visto que eram coloridas e chamativas.
Tudo estava tranquilo e comum, como sempre fora e como irá ser até o fim dos tempos, quando de repente alguém surgiu da mata, vindo da praia, pedindo pela atenção de todos, principalmente do Cacique.
–Alguma coisa estranha está vindo em nossa direção! –Gritou ele. –Preciso que venham comigo, para que não pensem que é mentira!
–O que está vindo? –Uma pessoa pergunta próxima á mim.
–Eu não sei... É grande e diferente de tudo o que já vimos em nossas vidas. Parece uma imensa canoa, com peles enormes presas á algo parecido com uma lança em pé.
–Uma canoa gigante? –Debochou um homem. –Bateu a cabeça em alguma pedra e agora está tendo alucinações?
–Ou talvez... –Um menino juntou-se ao deboche. –Tupã tenha mandado uma canoa maior, quem sabe assim você não consiga pescar uns peixes bons o bastante para matar a fome?
Risos foram ouvidos entre eles.
–Não brinque com o Pai Superior, garoto! O pajé acabara de sair de sua Oca para ouvir os novos boatos. –Quer que tenhamos tempestades em um belo dia como esse, abençoado por Guaraci?
Os risos foram tomados pelo silêncio. Apenas podíamos ouvir o canto dos pássaros.
Á pedido do Pajé, o Cacique, então, caminhou para a praia, seguido por alguns guerreiros.
–Vamos! –Chamou ele. –Quero ver de perto essa “canoa para gigantes”!
Conversas cresciam cada vez mais sobre o que ocorrera e algum tempo depois, outro homem chamou o resto dos guerreiros, falando para preparar suas armas e força, pois algo totalmente desconhecido e possivelmente perigoso aproximava-se pelo mar e em pouco tempo estaria em terra firme.
Os mais curiosos, para descobrir o que estava acontecendo, correram em direção à praia e eu os segui, enquanto algumas mães continuavam o serviço, acreditando que talvez fosse melhor ficar por ali, com seus filhos.
Ainda dentro da mata, os guerreiros apontavam suas flechas e lanças para o mar, deixando que os mais fortes ficassem na frente e afastando aqueles que só estavam ali para entender o que estava acontecendo e se tudo era realmente verdade. Subi numa árvore próxima para que pudesse ter uma boa visão do que estava por vir.
–Ela está parada! –Gritou um índio.
–Cale a boca e preste atenção, ela pode atacar! –Respondeu outro.
E tudo o que haviam dito era verdade: Algo gigante estava próxima á nós e vindo dela, uma espécie de canoa menor se aproximava com pessoas. Mas não pessoas como nós, essas eram totalmente diferentes, contudo, não havia dúvida de que se tratava de gente.
Após chegarem às puras areias, os estranhos homens de cara pálida mostraram-se pacíficos e os guerreiros, desconfiadamente, abaixaram suas armas e decidiram levá-los para se comunicarem com o Pajé, já que de suas bocas rodeadas por pelos, saíam palavras enroladas, torcidas e incompreensíveis.
Todos voltaram para a tribo, querendo saber mais sobre os novos convidados: Quem eram, de onde vinham, o que queriam e incontáveis curiosidades.
Com a supervisão do Pajé e do Cacique, oferecemos alimento para os homens que cobriam-se com peles estranhas e usavam uma espécie de acessório em suas cabeças, além de possuírem mal cheiro. Eles pareciam enjoados, cansados, alterados e completamente famintos, pois comeram toda a comida que trouxemos sem pensar duas vezes.
Após a refeição, todos foram dormir e continuaram por horas. Não sabíamos ao certo se era pela vinda de um lugar longe de nossa terra ou se não passava de mais um de seus costumes estranhos.
No outro dia, os levamos para banharem-se no rio e tirar aquele incômodo odor. Depois, eles nos mostraram diferentes objetos que trouxeram em seu navio (nome pelo qual chamavam a enorme canoa), não sabíamos ao certo que utilidade eles teriam, talvez por que para nós não tivesse nenhuma. Ao olhar por um deles, era possível enxergar coisas que estavam muito longe perfeitamente. Ao molhar uma grande pena em um pouco de tinta, eles pintaram pequenos símbolos em uma folha branca e pude ouvir as palavras “escrita” e “caligrafia”. Outros objetos eram várias dessas folhas (algumas amareladas) cheias de símbolos juntos, que provavelmente também foram feitos com uma pena após ser mergulhada na tinta preta. Em outro, enxergamos nossos próprios rostos, assim como no rio.
Os homens ofereceram uma bebida, qual o Pajé examinou e experimentou, porém logo a cuspiu, o gosto provavelmente era muito diferente do que estávamos acostumados. Trouxemos da floresta frutas para que experimentassem e pareciam gostar muito do que mostrávamos. Também os levamos até nossas canoas e ao fim do dia cantamos em homenagem a essa nova amizade. Eles pareciam ter facilidade para mexer com as armas e ferramentas, mas mesmo assim as admiravam e estudavam.
Dias de tentativas de comunicação entre nossa tribo e os homens brancos de peles estranhas sobre o corpo se passaram até que os excêntricos convidados decidiram ir embora. Não me aproximei tanto deles quanto algumas pessoas, afinal era apenas uma visita improvisada para um local diferente, provavelmente nada iria mudar e os dias continuariam abençoados por Guaraci.
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