Notas iniciais
Boa leitura, tripulantes!

Homens, mulheres e crianças andavam próximos à praia naquele simples dia de sol. Ora, simples! Para mim, essa manhã poderia ser chamada de qualquer outro nome, exceto algo que possuísse sentido próximo de “comum”.

O enorme navio estava ancorado no porto. Os marinheiros carregavam as caixas que faltavam para iniciarem sua mais nova jornada, em direção á outro continente. Logo mais, eu me juntaria á eles.

Observava o enorme barco flutuando no mar, que por enquanto estava calmo e pacífico. O frio percorreu-me a barriga, como na noite passada, quando tomei a mais gelada cerveja que encontrara, procurando saber se ela controlaria minha ansiedade enquanto ainda estava em terra firme. Contudo, dessa vez, eu não havia tomado nem ao menos um copo d’água.

Mulheres com seus filhos e filhas despediam-se dos maridos com calorosos abraços. Todos aqueles homens vestiam uma calça e camisa branca, com detalhes azuis, assim como eu. Os que não usavam um chapéu da mesma cor, o seguravam nas mãos.

O suor em meus dedos fazia com que a alça da mala deslizasse pela minha mão, precisando trocar a bagagem de lado a cada certo período de tempo.

Ver todas aquelas pessoas entre beijos e abraços me fez lembrar sobre o motivo pelo qual estava naquele local, rodeado de gaivotas inquietas e água salgada: A minha família. Havia sido obrigado a alistar-me para a marinha, mesmo com o medo que sempre tivera de barcos e água. Seria algo digno de orgulho e respeito, segundo meu pai, este quem sempre sonhara em ter um filho marinheiro, por não ter agarrado esta oportunidade quando era mais jovem.

Sem procurar por demais conflitos, cacei todo o otimismo que havia em minha alma e coração para seguir em frente com o sonho do velho de barba branca que sempre estava com um jornal em sua mão e da senhora com quem se casara, que havia carinhosamente preparado uma refeição para que eu levasse até o navio e saboreasse mais tarde, durante a viagem. Busquei também, pela coragem (esta que fora realmente mais difícil) para levantar de minha agora tão desejada cama e partir em direção à praia com aquela roupa branca e azul, tão diferente do que costumava usar.

As despedidas acabaram, o grande momento de subir á bordo chegara. Minhas pernas não pareciam colaborar muito, mas cheguei até o navio (mesmo sendo o último tripulante), onde todos receberam-me com uma salva de palmas e cumprimentos, onde tentei não parecer tão nervoso ao exibir um sorriso um pouco trêmulo.

Caminhei em direção à minha cabine, onde deixei a mala e deitei em minha nova cama. Encarei o teto, onde parecia conseguir enxergar as boas lembranças de casa, todas confortáveis e nostálgicas. Quando me dei conta, o porto já estava distante e agora só me restava seguir em frente, assim como todos esperavam desde que mamãe, orgulhosa, contava que seu filho iria ser um grande marinheiro e logo estaria em alto mar.

O silêncio que caía muito bem com o balançar do navio fora interrompido com a voz de um homem que acabara de abrir a porta do lugar em que eu estava.

–Ei, você é um dos novatos, não? –Ele parecia animado e confiante. –O que está fazendo aqui dentro? Dormindo? Venha! Vamos lá para fora, temos uma bela vista do porto daqui.

“Lá fora”, ele disse. A cabine parecia um lugar ótimo, mas “lá fora”... A imagem das ondas balançando o barco e a terra firme muito distante de nós era algo que não me deixava confortável. E se eu caísse no mar, o que aconteceria? Não gostava de imaginar as terríveis tempestades que precisaríamos passar até chegarmos ao novo continente, o que não seria rápido.

–Eu estou bem por aqui mesmo, não se preocupe. –Falei.

–Ora, vamos! –Senti meu braço ser puxado em direção à porta, por onde meu corpo passou aos tropeços, procurando por equilíbrio. A luz forte deixou meus olhos desconfortáveis, mas logo se acostumaram com a claridade.

Todos estavam o mais próximo que podiam do mar, observando felizes as águas e o porto, que parecia cada vez menor.

Por insistência dos demais, caminhei cuidadosamente até um desses lugares, segurando firmemente a madeira do navio, em barris, cordas ou outros objetos que encontrava próximos á mim. Quando finalmente parei, não consegui observar o mar por muito tempo, o balanço do navio e das ondas causavam-me calafrios e voltei rapidamente para a cabine.

Mais tarde, os marinheiros decidiram fazer uma pequena festa de boas-vindas, em homenagem os homens que haviam juntado-se à tripulação recentemente.

Havia muita bebida e alguns deles tocavam instrumentos musicais e cantavam. Muitos já estavam bêbados. Certos homens insistiam que os outros não deveriam abusar de toda a fartura em bebidas, pois elas poderiam fazer falta daqui alguns dias, mas todos só queriam saber de festejar e não perderiam essa chance.

Tomei a bebida e observei enquanto um grupo cantava animado e os outros batiam palmas, divertindo-se com a performance. Olhei para o outro lado do navio, onde não havia ninguém e pensei em chegar perto ao mar, como tentara fazer de manhã. Talvez o álcool tenha achado a coragem que havia se escondido, pois levantei e caminhei até o local. O vento estava forte, assim como as ondas ficavam cada vez mais, mas como se estivesse hipnotizado pelo mar, desejei me aproximar. Apoiei minhas mãos na borda do navio e debrucei sobre ela, finalmente apreciando a beleza da tarde e do sol, que logo se encontraria com o mar.

O navio agora balançava muito mais forte, fazendo as poucas nuvens flutuarem rapidamente pelo céu, divertindo os homens festeiros e preocupando outros. O frio na barriga parecia agora uma tempestade de neve, mas mesmo assim eu estava contente pela vista que possuía naquele momento.

A cada minuto, o navio parecia balançar-se muito mais forte, suas velas estavam totalmente estufadas pelo vento. Agora, apenas os totalmente bêbados estavam rindo despreocupados com a situação e os novatos procuravam saber o que deveriam fazer.

Com o grito de algum deles, saí de meu transe e tentei voltar para a cabine, mas agora estava extremamente difícil manter o equilíbrio. Quando o navio foi “pra cima” por causa do vento, tentei segurar-me em algum lugar, para que na hora em que ele voltasse eu aproveitasse para correr em direção à cabine. Entretanto, não consegui. O navio foi para o outro lado rapidamente e pude ver que alguns homens seguravam-se e ajudavam uns aos outros, mas não havia ninguém próximo á mim e senti meu corpo caindo ao mar.

“Homem ao mar!” Pensei ter ouvido alguém gritar antes que meu corpo fosse engolido pelas frias águas do oceano.

Mesmo se eu fosse bom em natação, não havia como ir para a superfície, contudo mantive minha respiração presa e o desespero tomava conta de mim. A luz do sol distanciava-se cada vez mais, eu estava afundando. Meu corpo foi se aquietando e logo eu parecia muito tranquilo, mesmo com a agonia de não poder respirar.

A morte deveria estar nadando ao meu lado, na forma de um peixe talvez. Ou talvez ela fosse até a própria água, o próprio oceano ou oxigênio a quem eu tanto procurava e só assim poderia descansar em paz.

Minha visão estava desfocando e escurecendo, acompanhada de uma sensação horrível, como se eu estivesse sendo enforcado, mas não queria encher meus pulmões com água salgada. Estava pensando em desistir (eu sabia que essa carreira seria minha ruína, entretanto ninguém aceitava essa opinião), até que, algo me fez querer focar a minha visão: Parecia um enorme cardume de peixes. Observei-os nadando próximo á mim e logo apareceram as mais diversas espécies de animais marinhos. Por um momento, esqueci-me de tudo. A dor, a agonia e o pessimismo haviam sido tomados pela emoção de apreciar uma cena tão linda, nunca havia visto nada igual e naquele momento, mesmo com tanta tranquilidade e paz de espírito, preenchi-me com uma imensa vontade de viver e aproveitar o oceano.

Meus olhos apreciavam a vista, querendo focar-se mais, porém tudo escurecia e os peixes tornavam-se cada vez mais parecidos com sombras se mexendo, perdendo sua cor e brilho, até que tudo ficou escuro.

░ ░ ░

Tudo ainda estava sombrio, mas aos poucos, minha visão clareou-se. Meu corpo doía. Respirar, de repente, tornou-se um ato incrivelmente difícil.

–Você tá bem? –Perguntou um homem com roupa de marinheiro que limpava um vidro de remédio próximo á mim.

–...O que aconteceu? –Falei com dificuldade.

–Você quase morreu, foi isso. Por pouco não o perdemos para o mar. Se o vento não tivesse parado um pouco não conseguiríamos tê-lo salvado.

Fiquei em silêncio.

–Você foi encontrado no fundo do oceano. –Completou ele.

Aos poucos, me lembrei de tudo o que havia acontecido naquela noite e uma sensação totalmente nova de tudo que já sentira invadia minha alma, fazendo-me ficar totalmente entusiasmado e animado, como nunca havia ficado antes. Sorri.

–Ei, a onde você vai? –Perguntou o marinheiro quando levantei rapidamente da cama, indo para fora, mas o ignorei. Precisava olhar para o mar.

Quando o vi, me senti uma nova pessoa. Não tinha mais medo, nem sinal de nevascas em minha barriga, pois agora eu podia enxergar toda a beleza que o nervosismo tampara de minha visão. E aquela era a sensação da qual eu não queria me desapegar nunca mais e não iria.

Subi próximo à escada do navio, por onde descemos quando estamos em terra firme e caminhei pela borda.

–Você é louco? –Gritavam os outros.

–Saia daí! Não vamos resgatar você de novo se cair, seu maluco!

–Desça daí, marinheiro louco!

Mas não dei ouvidos á eles. Agarrei-me á uma rede e segurei no mastro. A bela paisagem à minha frente e o vento balançando meus cabelos deixavam o momento ainda mais impressionante.

O mar incentivava-me a seguir em frente, minha vida acabara de começar.

Notas finais
Opiniões?!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.