Contos para uma tarde nublada
2 Nem a morte irá nos separar
Notas iniciais
Mais um dia terminava e eu não havia tomado atitude alguma. Não sei ao certo o que sentia: Talvez medo ou simplesmente o fato de não querer observar meu fabuloso mundo de idealizações apagar-se.
Ela era a pessoa mais linda que havia visto em minha vida, não existia ninguém que sequer pudesse ser comparado à ela.
Não havia um minuto que não fosse gasto observando (seja pessoalmente ou por fotografias) ou imaginando como seria perfeito viver ao seu lado.
Oh, idealizações... Somente idealizações. Queria eu que meus pensamentos encontrassem uma saída de minha pobre, confusa e triste mente. Estava envolvido por uma melancolia sem fim, contudo, ela imediatamente desfazia-se quando eu encontrava a mulher que parecia ter sido trazida à terra pelos mais magníficos anjos. Meus pensamentos, outrora melancólicos, clareavam-se e meu peito enchia-se de uma alegria inexplicável.
Noites em claro foram gastas com sonhos aparentemente impossíveis e o inacessível desejo de tê-la comigo. Emagreci muito, pois preferia caminhar para observá-la em seu horário de almoço ao invés de comprar ou preparar minha própria comida. Não sentia fome, não sentia sono, não sentia frio, nem calor. Apenas sentia seu perfume (algo provavelmente criado pelos deuses). Meus olhos pareciam cada vez mais pesados, estavam escuros pelas olheiras e meus cabelos e barba cresciam sem que eu me importasse com aquilo.
Não sei ao certo quando essa paixão sem fim deu-se início, mas sei que era algo que nunca havia sentido. Se esse amor incontrolável machucava meu coração? Ele o massacrava! O arrebentava e o dilacerava sem dó, nem piedade; Mas se fosse por ela, eu aceitaria com enorme prazer que o esquartejasse quanto fosse preciso.
Certa vez, o dia estava o mais comum possível. Não acontecera nada de impactante, tudo estava o mesmo. Pássaros sobrevoando as casas da cidade, idosos jogando Xadrez na praça pública, adultos trabalhando e crianças correndo pelas ruas. Entretanto, foi em um dia comum como esse que decidi tomar a decisão mais marcante de toda a minha vida: Resolvi que declararia meu sufocante amor à pessoa responsável por ele. “E seja o que os deuses quiserem!”.
Ensaiei por dias o que iria dizer, até que finalmente o grande momento chegou. Encontrei-a sozinha e expliquei minha deplorável (ou talvez nem tanto, em certo ângulo) situação e esvaziei em forma de suaves palavras toda a carga que estava trancada em meu coração e em minha alma. No começo, a pobre mulher parecia totalmente confusa pelo ato tão repentino. Preparei-me para a pior das piores respostas que poderia receber. Antes ajoelhado, levantei-me e parti em direção à minha velha casa, até que uma voz angelical impediu-me: “Espere!” Aquela simples e inofensiva palavra mudou completamente minha vida. A bela moça se comovera com minhas frases e aceitara meu pedido de namoro.
Os próximos meses foram sem sombra de dúvida os melhores que uma pessoa poderia imaginar. Passávamos a maior parte do tempo juntos. Aos fins de semana eu a levava para parques, cinemas, teatros e qualquer outro lugar que desejasse. Além de extremamente meiga e bonita, ela era também muito humilde e não consegui achar nela um sequer defeito, mesmo depois de nos tornarmos tão próximos quanto unha e carne.
Prestei devida atenção à minha saúde, pois ela dizia que sentia-se bem ao ver que eu também estava. Quando enfraquecia, eu lia para ela capítulos de seus livros favoritos e preparava minhas melhores receitas, não questionaria se eu mesmo precisasse alimentá-la, sentia-me até feliz com isso e ela agradecia, dizendo que eu era muito gentil. Como alegrava-me ouvir tais palavras. Aliás, tudo relacionada à ela, de alguma maneira, alegrava-me de uma maneira incrivelmente bela.
O tempo passava rápido enquanto ela estava ao meu lado e quando parei para refletir, já estávamos noivos, após magníficos anos de namoro. Amigos e parente apareceram no dia da cerimônia de casamento, todos felizes por nós. Passamos os dias de recém-casados hospedados em um bonito hotel em frente à praia no exterior, dias divinos foram aqueles. Semanas, meses e alguns anos se passaram e eu não poderia pedir mais felicidade, visto que seria algo impossível, pois eu já havia conquistado todos os níveis de uma vida feliz que qualquer apaixonado poderia querer.
A vida estava seguindo em mil e uma maravilhas, tudo estava impressionantemente bem, até que algo extremamente chocante aconteceu: Ela me deixou. Sem dizer sequer uma palavra, me abandonou em um mundo de melancolia e loucura. Tudo parecia estar perdido, eu era absolutamente nada sem a presença daquela mulher, até que me veio um pensamento: “Eu disse que não a abandonaria de maneira alguma... Eu vou busca-la! Vou trazê-la novamente para meus braços e comigo ela permanecerá!”.
E assim, o que fora dito, logo fora feito: Procurei-a por toda parte, precisando invadir alguns locais, até que finalmente a achei e a trouxe para nosso aconchegante lar.
Ela estava diferente de quando a havia visto pela última vez, já não era a mesma. Sua pele estava pálida e quando a toquei, estava mais fria que de costume. Precisei sair à procura de medicamentos e cuidei de minha amada, assim como fazia antes, mas eu diria que um pouco mais de atenção, não queria perdê-la novamente. Ela recebia meus cuidados silenciosamente, como sempre estava à partir do momento em que havia me abandonado.
Alguns que diziam-se nossos amigos, afastaram-se de nós cada vez mais. Chamavam-me de insano, apenas por insistir em algo tão belo e sereno como era o nosso amor. Eu apenas os ignorei.
Mais uma noite caía sobre a terra quando eu a carreguei para nossa cama e li sua história favorita enquanto a abraçava. Sua beleza continuava intacta, graças aos medicamentos que eu havia me preocupado em comprar. Seus enigmáticos olhos encaravam as palavras escritas no livro em minhas mãos. Em uma das pausas que fiz na leitura para observá-la, percebi algo que deixou-me incomodado e por um breve momento, zangado. Ora, quanta audácia! Expulsei a mosca que outrora havia pousado em um dos lindos olhos de minha amada, mas ela continuava do mesmo jeito em que eu havia a deixado, sem pronunciar uma palavra, um movimento, um olhar. Mas não me entristeci, sua presença já era o suficiente para que eu pudesse sentir-me o homem mais satisfeito do mundo.
–Eu lhe disse que nem a morte irá nos separar.
Beijei delicadamente sua testa e após admirá-la por mais algum tempo, voltei à decifrar as mais variadas frases de seu livro favorito.
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