Contos para uma tarde nublada
3 Estrilo
Notas iniciais
O dia estava diferente do comum. Não conseguia enxergar muito bem, tudo parecia embaçado e sombrio, como em um sonho. Não lembrava-me de nada que havia acontecido na noite anterior, como se tudo tivesse sido apagado de minha confusa memória.
Talvez tudo fosse resultado de uma longa noite e algumas velhas garrafas de bebida alcóolica. Talvez fosse algum acidente ao andar em minha moto ou ainda, poderia ser o efeito colateral dos medicamentos que costumo usar. A verdade é que não conseguia recrear qualquer cena do dia de ontem que pudesse ter ocasionado esse vazio em minha mente e o cenário à frente, onde tudo parecia uma ilusão.
Caminhei, mas tudo movia-se lentamente, inclusive minhas pernas. A leve brisa soprava as folhas de figuras enigmáticas que imaginei se tratar de árvores. Quanto mais andava, meus olhos se acostumavam aos poucos com a nova paisagem, talvez tudo já estivesse voltando ao normal. O lugar parecia-me familiar e nostálgico, contudo, ainda não havia sequer um rastro de minha memória perdida.
Ficaria vagando por todo aquele misterioso lugar sem nenhum rumo caso não tivesse avistado uma figura conhecida. Corri em sua direção, completamente feliz em vê-lo, entretanto, ele não parecia ter a mesma animação em que eu me encontrara. Sua imagem não era totalmente nítida, mas reconhecível o suficiente.
–Que bom te encontrei! –Exclamei. –Estou extremamente confuso, não entendo nada do que está acontecendo, será que você poderia me explicar?
Mas não obtive nenhuma resposta.
O homem à minha frente parecia verdadeiramente triste e aquilo parecia algo totalmente incomum para mim. Talvez a falta de um caloroso sorriso em seus lábios fosse o motivo. Eu parecia estar desacostumado em ver a melancolia presente em seus olhos escuros, onde também havia olheiras marcadas e o sinal de quem havia chorado mais cedo.
–O que aconteceu? –Perguntei, preocupado. –Você não está bem? – Esperei, mas o rapaz continuou encarando o nada, ignorando o mundo ao seu redor, assim como minhas inquietas perguntas.
De repente, uma antiga lembrança percorreu por mim, parecia realmente importante. Enxerguei apagadamente, um pequeno garoto aproximando- se de mim, enquanto ainda era uma criança. Ele, carregando seus brinquedos, sentou-se ao meu lado na fria areia, oferecendo companhia para a pequena criança que brincava sozinha, inventando mil e uma histórias diferentes para seus mini personagens de plástico. “Posso brincar com você?” Ele dizia. “Meu nome é...”
–Antônio! –Gritei. –Antônio, fale comigo!
Mas o homem que havia sido meu primeiro e melhor amigo não respondeu. Ele parecia arruinado.
–Antônio... –Continuei. –Por que não me responde? Por que não olha para mim? Foi algo que lhe fiz noite passada? Se for, me desculpe, mas literalmente não lembro nem mesmo o que jantei, isso é se jantei ontem à noite. Eu não estou tão bem quanto queria, está tudo embaçado e confuso. Talvez tenhamos passado um pouco do limite dessa vez no bar. Mas é estranho... Não sinto dores de cabeça nem cansaço. Por que você está assim?
A cada momento, novas lembranças de nossas vidas floresciam em minha mente. Havíamos tido uma bela infância: Aprontávamos muito, mas sempre ajudávamos um ao outro quando precisávamos. Gostávamos de explorar novos lugares e voltávamos para nossas casas só ao pôr-do-sol, muitas vezes, machucados por pular muros e cair durante fugas inesperadas.
–Todas essas memórias... Todos esses momentos... Não significaram nada para você? –Eu estava começando a preocupar-me, Antônio nunca gostou de pegadinhas e brincadeiras desnecessárias, na verdade, sempre as odiou. Se fosse qualquer outra pessoa, eu simplesmente voltaria para casa, procurando entender o que aconteceu, mas como se tratava dele, algo mais sério sem dúvidas havia acontecido e eu estava determinado a descobrir o que, afinal, sempre fora um verdadeiro irmão para mim.
Todas as tardes, assistíamos desenhos animados ou filmes na TV, torcendo desesperadamente para que os heróis ganhassem dos cruéis e traiçoeiros vilões. Nossas mães, sempre que podiam, deixavam um lanche ou um agrado para a hora que a barriga roncasse, pedindo por um pequeno petisco. Nas férias, costumávamos dormir semana na casa de um, semana na casa de outro, de modo que os quartos virassem um completo caos, cheio de trapos e brinquedos espalhados, principalmente após as épicas guerras de travesseiro, que só acabavam quando já estávamos totalmente exaustos ou alguém viesse nos interromper.
Quando Antônio apaixonou-se por uma garota (já após muitos anos terem se passado das maiores bagunças e traquinagens), eu paguei suas bebidas após o enorme e inesquecível “fora” que levara. No dia seguinte demos às boas-vindas (ou nem tão boas) à nossa primeira ressaca.
–Ei... Olhe para mim! –Falei. –O que te deixou tão decepcionado ao ponto de ignorar uma amizade construída há anos?!
Sem o mínimo sinal de uma possível resposta, voltei a gritar. –Antônio! –Cheguei ao ponto de me desesperar, não sabia mais o que fazer e desejava que tudo aquilo fosse apenas um sonho, como parecia ser.
Quando todos os sentimentos que eu poderia ter resolveram se unir, assim como a força de minhas cordas vocais, gritei seu nome mais alto possível e após isso, tudo ficou diferente. Era como se até este momento, algo estivesse aprisionando minha voz, que com esse último grito, ganhou um imenso poder, esse que nem eu teria a capacidade de imaginar.
Meu velho amigo olhou para mim. Seus olhos ainda estavam figurativamente perdidos, fitando além de mim.
–Antônio... –Sorri. –Que bom que você me ouviu. Preciso falar com você, mas antes, me diga por que você...
–O que foi? –Uma voz feminina atrás de mim interrompeu-me, de modo que eu não pude concluir minha frase. Aquela era uma voz conhecida... A de minha irmã.
–Nada. –Respondeu Antônio. –Achei ter ouvido alguém me chamar.
–Ficamos tempo demais aqui... –Disse ela, suavemente. Aproximou-se do homem e o abraçou, convidando-o a caminhar. –Venha, vamos embora.
Ele olhou pela última vez para trás e partiu.
Sem entender, observei meus dois irmãos afastando-se ainda mais de mim. Uma considerada por sangue e outro apenas por boas lembranças.
Olhei para a direção oposta aos dois, onde tudo continuava embaçado e estranho... Exceto por uma única imagem: Focando-se um pouco mais a cada momento em que eu a fitava, estava ali, diante de minha distorcida mente, a imagem de meu corpo, com seus olhos devidamente fechados, ao lado de vários tipos de flores e velas acessas, com o fogo que se embaçava ao olhá-lo, tremeluzindo, assim como as folhas das árvores mais cedo.
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