Notas iniciais
Ol pessoas! Bem-vindos ao primeiro conto para uma tarde nublada ♥O conto de hoje ter uma pitada de fantasia e suspense... Digam-me o que acharam!Boa leitura ^^

A tarde estava escura quando o avô de Davi o chamou para casa. Nuvens escuras e cinzentas preenchiam todo o céu, até o imenso horizonte. Os animais pressentiam que logo a chuva cairia sobre a terra e alguns já procuravam um abrigo para passar a noite.

–Vamos entrando Davi, o dia já escurece e além do mais, a chuva se aproxima. Apressa-te!

–Tudo bem, avô.

–Onde está seu casaco?

–Eu o tirei. Estava correndo, não senti frio.

–Não subestimes o frio, criança, ele é traiçoeiro. Se pegares tu um resfriado, chamarei tua mãe, para que o leve para casa mais cedo.

–Não, ainda não está na hora de ir para casa!

–Então entre logo, há leite e biscoitos sobre a mesa, cozinhei-os há pouco. –Antes de seguir o caminho de seu animado neto, o velho senhor olhou por uma última vez a floresta perto de sua humilde casa. Com o tempo nublado, suas árvores e sombras deixam-na ainda mais sombria. Muito se ouvia sobre ela, mas apenas os mais corajosos atreviam-se à explorá-la. Inúmeros segredos e criaturas escondiam-se abaixo de suas folhas e galhos.

☼ ☼ ☼

–Vovô... –O garoto tinha um bigode formado pelo leite e um pequeno biscoito em mãos.

–Diga. –O velho fumava seu cachimbo, como de costume.

–Me conte uma história, as suas são as melhores!

Fumaça saiu de seus lábios antes que o avô respondesse.

–Que tipo de história queres tu ouvir?

–Quero ouvir sobre aquela floresta. –O pequeno curioso olhava pela janela, além das cercas e do rio, o misterioso lugar. –O porquê de precisarmos ficar longe dela, principalmente a noite.

–Desejas ouvir histórias de aventura, criaturas amedrontadoras? –Aproximou-se o velho, ainda com seu cachimbo.

–Sim. –Seus olhos pareciam brilhar em meio à pouca luz do local sem energia elétrica.

–Então aconselho-te a pegar mais biscoitos. Vamos para a sala.

O avô sentou-se em sua antiga poltrona e Davi acomodou-se no tapete à sua frente. As chamas da lareira iluminavam seus rostos, assim como retratos na parede e os livros na prateleira. Antes de falar, o velho fumou algumas vezes. A chuva que começava timidamente a cair sobre o gramado, era um dos únicos barulhos a serem ouvidos, acompanhado apenas pelas mordidas do neto em seu biscoito favorito, até que o homem começou a falar:

–A história que irei lhe contar, garoto, é algo que muitos juram de pé junto ser verdade, já outros, pensam que é apenas a imaginação de algum sem noção desocupado. Tudo aconteceu há alguns anos atrás, tempo esse em que tu sequer pensavas em nascer. Bom, chega de enrolação, vamos à história:

Um jovem rapaz possuía o costume de caçar pela floresta, mas sempre era alertado: “Se queres ir, então vá! Mas volte antes do escurecer, quando todas as bestas tomam conta da sombria floresta. Tenha cuidado, meu jovem, as sombras tentam entrar em nossos corações, iludi-nos, quando vulneráveis”. O rapaz passava horas na floresta. Caçava, alimentava-se de frutas colhidas diretamente das árvores e também e banhava-se no rio, trazendo alguns de seus peixes para casa. Aquelas árvores eram seu território, conhecia seus campos como seu próprio quintal. Num belo dia de sorte, caçara um grande lobo que ousara aparecer durante o dia e desde então usara sua pele sobre as costas, fato que causou-lhe um apelido, do qual interessou-se e aprovou a ideia. Chamavam-no de “O lobo da floresta”.

–Lobo! –Um conhecido lhe chamou certo dia. –Tu poderias ajudar-me com o telhado de casa antes de ir para a floresta?

–Depende, caro amigo.

–Verdade? Prossiga.

–Aceitarei apenas se oferecer-me um bom copo de café após o serviço. –Sorriu.

–Minha esposa pode oferecer-lhe também um pedaço de bolo que está cozinhando, como acompanhamento.

–Aceitarei, tens uma excelente cozinheira em casa. Mas ela mima-o demais com suas receitas, está ficando gordo!

–Gordo? Deixe disso, são as roupas!

Os dois amigos seguiram rindo para a casa, onde ao chegar, Lobo deparou-se com uma escada e escalou, porém, ainda nos primeiros degraus, lembrou-se de algo e voltou. Colheu uma flor do jardim e retornou à escada, à caminho do telhado.

No segundo andar, havia uma janela aberta, decorada com pequenas flores. No quarto, encontrava-se uma jovem concentrada nas palavras escritas em seu pequeno livro.

–Bela! –A voz do rapaz, trouxe a garota de volta ao seu mundo. –Continuas linda.

–Lobo! –Levantou-se alegremente, estava muito feliz por vê-lo.

–Não imaginei que visitar-me-ia no dia de hoje.

–Estou à pedido de teu irmão, ajudá-lo-ei com o telhado. Mas antes, trouxe algo para tu. –Entregou-lhe a flor.

–Agradeço, é linda! És um encanto de pessoa, Lobo.

–Sou eu quem devo agradecer-lhe pelas doces palavras, Bela. Agora preciso ir, até breve.

–Até breve, espero vê-lo mais vezes.

☼ ☼ ☼

Com o telhado devidamente consertado, Lobo foi até a mesa de seu amigo para um café da tarde, como lhe fora prometido.

–Lobo, Lobo! –Os pequenos filhos de seu amigo corriam para cumprimenta-lo.

–Olá, crianças! Vocês estão crescendo cada vez mais rápido.

–Lobo, é verdade que tu vais à floresta à noite? Falam que espíritos dançam por lá e roubam a visão de que ousa entrar em sua moradia, cruzes!

–Já enfrentaste muitos monstros nas caçadas, Lobo? –Perguntou o outro. –Pode contar-nos a história da pele em suas costas?

–Ficarei feliz em contar-lhes a história, meninos, mas... Minha garganta está um tanto seca. –Mostrou-lhes o copo vazio.

Rapidamente, as crianças buscaram o café e serviram-lhe, que após um bom gole, continuou:

–Agora está melhor.

O homem falava-lhes sobre ter enfrentado um feroz lobo de dois metros de altura e cinco de comprimento, sem ao menos ter usado sua arma de caça, matando-o com seu punhal.

–Teu amigo é muito criativo. –Disse a mulher da casa ao seu marido.

–Ele sempre foi um bom contador de histórias, tal qual o pai.

☼ ☼ ☼

Mais tarde, Lobo partiu para sua segunda moradia: A floresta. Tentou caçar um cervo, mas este fugiu. Talvez o dia não estivesse tão bom quanto os outros.

☼ ☼ ☼

A tarde exibia seus últimos raios solares. Lobo trilhava o caminho de volta à sua casa, quando algo prendeu-lhe a atenção: Alguém espionava-o cautelosamente por detrás das árvores. Caminhou disfarçadamente, ainda sentindo-se vigiado, contornando a árvore, até de repente correr em direção à quem lhe observava.

Rapidamente, uma misteriosa mulher caminhou para trás, assustada, mas não demorou a parar, quando percebeu o que o rapaz fizera o mesmo.

–Não fuja! Não irei machucar-lhe.

Mas a garota não respondeu, ainda assustada. Seus cabelos lisos misturavam-se com o vento, possuindo três cores: Preto, cinza e branco. Os olhos amarelados lembravam o doce mel, produzido delicadamente pelas mais hábeis abelhas. Vestia apenas uma pele sobre seu magro corpo, na qual escondia suas mãos. Após observá-lo a garota correu, adentrando cada vez mais a misteriosa floresta.

Lobo desejou segui-la, mas hesitou. Observou ao seu redor, a noite logo cobriria todo o lugar, assim como seu caminho para casa. Decidido, resolveu ignorar a despedida do sol, assim como todas as histórias e maldições que ouvira por toda a sua vida. Seguiu a misteriosa garota. A cada passo de sua corrida, o escuro aumentava, assim como a distância da trilha que o levaria de volta à vizinhança.

Árvores apareciam por seu caminho, mas o rapaz as ignorava, mudando sua direção rapidamente, até que algo o impediu. Sentiu seu corpo cair, sendo impedido pelo chão onde seu rosto logo bateu. Um de seus pés havia ficado preso entre algumas pedras, causando-lhe uma imensa dor, onde também sangrava.

O tempo passava lentamente e Lobo não conseguia livrar-se das rochas que haviam agarrado-lhe inesperadamente. O escuro tomava conta do local e seus pensamentos amaldiçoavam-no pela escolha que havia tomado, tudo pelo fato de ser um grande curioso. Quando já havia desistido de desprender-se por um momento, ouviu um som diferente dos gritos e demais insetos que encontravam-se por ali: Passos tímidos aproximavam-se cada vez mais, até que finalmente, alguém parou frente à ele. A luz da lua parecia mais intensa naquela floresta e iluminava uma bela jovem usando peles de animais.

A garota aproximou-se desconfiadamente, nenhuma palavra foi dita. Não demorou muito até que ela, cuidadosamente, retirasse o pé ferido. A dor o fez gemer, mas ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado. Tentou levantar-se, contudo não havia em que apoiar-se, tornando a tarefa algo muito complicado. A misteriosa jovem desapareceu entre as sombras novamente, mas dessa vez não demorou a reaparecer e trazendo consigo, uma espécie de cajado, o qual fora entregado ao homem, que conseguiu levantar-se com suas dificuldades. Não conseguia apoiar o pé ao chão.

O frio aumentava a cada minuto. A jovem caminhou, mas logo virou-se observando o rapaz e convidando-o com o olhar para segui-la e ele o fez. Em uma desconhecida caverna, Lobo teve seus ferimentos tratados com certos tipos de ervas, quais ele não conhecia. Precisava apresenta-las para os médicos de sua vila, elas seriam muito úteis, pois apresentavam bons resultados rapidamente.

–Obrigado. –Disse Lobo.

A misteriosa garota sorriu. Um simples, mas belo sorriso.

Tentaram dormir, mas o rapaz sabia que a garota sentia frio, a pele que a agasalhava não cobria todo seu corpo, que tremia com a gélida brisa noturna. Lobo aproximou-se, deitando-se próximo a jovem, com a intenção de esquentá-la. A princípio, a garota assustou-se, mas logo deixou de importar-se, o ambiente havia se tornado algo muito aconchegante.

O jovem não conseguia ignorar a fragrância da incrível junção de várias flores que emanava da pele da garota à sua frente, seu perfume era algo novo, não sentira aquele aroma mesmo nos perfumes das mais ricas senhoras. Inconscientemente, mergulhado em pensamentos e aromas, Lobo acariciou-lhe os cabelos, até que a garota virou-se para o hipnotizado rapaz. Antes que pudessem impedir, seus lábios já estavam unidos e os dois passaram a noite juntos.

☼ ☼ ☼

O sol iluminava o dia em seus primeiros minutos, enquanto Lobo e sua companhia dormiam tranquilamente abraçados, até que algo os interrompeu: A caverna onde descansavam estava sendo invadida.

A garota de olhos como o mel rapidamente acordou e levantou-se, o que fez o rapaz despertar-se. A jovem parecia ter raiva, seus olhos intimidariam qualquer um que a encarasse. Quando Lobo finalmente olhou para o outro lado, assustou-se. Havia um enorme urso marrom, impedindo que fugissem do local. Antes que pudesse pegar seu cajado e sua arma, algo prendeu-lhe completamente a atenção: Sua companheira da noite passada corria em direção ao feroz animal, mas seus olhos não acreditavam nos detalhes que estava a ver.

O urso preparava-se para atacar ou talvez defende-se de uma mulher que a cada segundo transformava-se em algo diferente: Pelos cresciam por todo seu corpo, assim como a sua calda, com as cores preto, cinza e branco. Suas unhas estavam incrivelmente grandes, assim como garras e seu corpo mudava de estatura, assim como o rosto. O rapaz, descrente, esfregou rapidamente os olhos, só poderia estar sonhando. Quando voltou à acompanhar a cena, viu um lobo atacando a garganta do urso que berrava. Não parecia ser um sonho.

Quando a luta finalmente acabou, o animal de olhos amarelados transformava-se novamente em uma mulher, que vestiu-se com a pele após recolhe-la do chão. O enorme animal estava morto e provavelmente também iria virar um agasalho. O belo e doce rosto dela, repleto de sangue, estava virado para o confuso e assustado homem, encarando-o enquanto o mesmo tentava levantar-se.

–Tu... –Dizia ele, trêmulo. –És um mostro! –Com a ajuda de seu cajado, tentava correr para a saída, mas não era muito rápido.

–Espere! –A garota aproximou-se rapidamente.

–Não te aproximas de mim! –Antes que pudesse impedir a si mesmo, Lobo já estava com sua arma de caça em mãos e a mesma já havia disparado uma bala, atingindo o braço da jovem.

Ainda assustado, Lobo partiu o mais rápido que pode para casa, local este que não tinha mais vontade de deixar.

☼ ☼ ☼

Meses passaram-se e Lobo não havia mais voltado à floresta. Surgiam os mais diversos boatos e fofocas sobre o homem, que passava o dia em sua poltrona. Não possuía mais a vontade de sair ou contar suas aventuras. Imaginava as mais estranhas criaturas que poderiam existir mudo à fora e que poderiam mata-lo facilmente.

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Uma noite de tempestade formava-se, logo começaria chover. Lobo estava pensativo, próximo à lareira, quando ouviu um barulho. Ao erguer seus cansados olhos, deparou-se com uma imagem familiar.

–O que fazes fora da sombria floresta?

–Preciso que ouça o que tenho a dizer. –A garota dos olhos de mel carregava uma pele de animal enrolada em suas mãos.

–Vá embora da minha casa. –O homem procurou algo ao lado de sua poltrona com a mão, até encontrar sua aposentada arma de caça e aponta-la para a criatura à sua frente. –O que pretendes fazer? Creio eu que nada de bom virá de um ser maligno como tu, que pode transformar-se.

–Não podes matar-me! Do contrário uma maldição cairá sobre seu corpo. –Carregou com ainda mais força sua pele.

–És uma bruxa? Não deixarei que amaldiçoe à mim, nem à ninguém de modo algum! Queimarás no inferno, onde é teu lugar!

Um tiro atingiu o peito da jovem garota, que não podendo fazer mais nada, caiu no chão. A pele que minutos antes era agarrada com força, foi para os pés de Lobo, onde pode observá-la melhor. Dentro do macio conjunto de pelos que já pertencera à algum animal, havia algo em que os olhos do rapaz não conseguiam acreditar: Um recém nascido.

Ao acariciar a criança, despertou-lhe algo profundo em sua alma, algo dizendo que o pequeno possuía o mesmo sangue que ele. Seu corpo estava diferente. Sensações que nunca havia sentido tomavam conta de si e sua aparência mudava.

Correu para a cozinha de uma maneira que nunca havia corrido antes, milhares de vezes mais rápida. Ainda mancava, entretanto agora com mais apoio. Tudo estava diferente: Sua maneira de enxergar, de sentir... Tudo. Olhou-se em uma jarra prateada, mas seu reflexo estava completamente diferente, ele havia transformado-se em um verdadeiro lobo. Um animal tão escuro quanto a noite. Lobo fugiu desesperadamente para a floresta e ninguém nunca mais o viu.

Naquela mesma noite, Bela encontrou uma criança enrolada em uma pele na porta de sua casa. Ela cuidou do pequeno como se fosse seu próprio filho, mas sempre aparecia-lhe a dúvida sobre quem seriam seus verdadeiros pais e quem havia deixado-lhe em sua porta.

Todas as noites, quando um sombrio uivo era ouvido da floresta, a criança remexia-se e a gentil mulher lembrava-se do homem que um dia amara e que provavelmente nunca encontraria novamente: Lobo.

Fim.

–Uau! –Exclamou Davi. –Que história incrível avô.

Batidas foram ouvidas na porta da casa.

–Deve ser tua mãe. –Disse o velho.

Ao abrir a porta, o menino encontrou sua mãe, assim como o avô de consideração havia dito.

–Vamos embora, querido, antes que comece a chover novamente!

–Mas está cedo mamãe...

–Cedo? Deixe disso, já está escuro! –Riu ela. –Agradeço por cuidar dele durante o dia, Davi gosta muito do senhor.

–Sou eu quem deve agradecer, aprecio e muito uma companhia.

–Bem, melhor irmos embora agora. Até breve, senhor. –Despediu-se ela.

–Nos vemos em breve, avô!

–Que Deus abençoe seus caminhos, jovens.

☼ ☼ ☼

Já estava escuro, mas mesmo assim, o velho andou em direção à varanda de sua casa e ouviu que algo se aproximava.

–É... Ele cresceu bastante, será um bom rapaz. Lembra-me muito tu, quando era garoto. –Disse o velho. –Avisei que não andastes pela floresta durante a noite, meu jovem menino...

Caminhando de forma manca, parou ao lado do velho um lobo, olhando para frente, assim como o mesmo. Seus pelos eram tão escuros quanto a noite.

Notas finais
E então, o que acharam?Até a próxima o/