Passada a euforia da viagem e do baile dos namorados, Olívia estava limpando a casa enquanto a roupa estava na máquina. Apesar de não ter costume de viajar muito, ela amava voltar para casa, fazer suas atividades domésticas, ir à manicure e comprar livros. Enquanto limpava a janela da sala, percebeu uma van parada do outro lado da rua e que a via constantemente ali desde que voltara de viagem. Provavelmente, cogitou ela, era a chegada de um novo morador que usava a Van a trabalho.

Nos dias seguintes, Gene outra vez deu um chá de sumiço, ligando apenas 1 vez naquela semana toda.

— Sim, eu vi nossa foto na seção de eventos do Variety. – disse Olívia sentada no sofá e folheando uma revista com outra foto deles.- Lúcia me ligou e disse que nossa foto em Nova York saiu numa revista chamada TV-Radio Annual. Nunca ouvi falar nesta revista antes, mas as fotos estão boas. Comprei a revista e eles foram bem generosos: fotos grandes e textos pequenos e colocaram outra na Radio TV Mirror.

Olívia ouviu barulhos na linha e deduziu que Gene estivesse fazendo alguma coisa no seu escritório enquanto se falavam.

— Quero ver estas fotos, Mort disse que não encontrou nenhuma revista falando de nós. Você teve sorte.

— Quando você aparece aqui? – perguntou ela enquanto folheava a revista

— Não sei, mas estou pensando em não ir para aquela premier do filme que nos convidaram pra passarmos um tempo juntos, o que acha?

— Eu poderia recusar sair com você. – disse ela – Você anda me cozinhando por dias a fio sem nem ligar ou vir me ver. Talvez eu devesse dar o troco.

Ele riu do outro lado da linha enquanto fazia alguma coisa cujo barulho não parava.

— Você sabe que eu estava ocupado.

— Sei?

Ele riu de novo.

— Estava chegando tarde em casa.

Olívia ia responder mas seus olhos se detiveram em uma matéria especial sobre Donald O’Connor e seu novo affair Gloria Noble.

— Tá bom, eu perdoo mas só desta vez. – disse ela – Liga para mim amanhã?

— Ligo, prometo.

— Tá bom, então. Vou deixar você trabalhar,aí.

— Na verdade estou deitado olhando pro teto.

Olívia franziu a testa. De onde pombas, então, vinha este barulho?

— Então... até amanhã.

— Já está se vingando de mim?

— Oi?

— Estou sentindo que você quer desligar o telefone.

— Não... não... não... — Ela fechou a revista rapidamente — é que pensei que você estivesse trabalhando. Sobre o que você quer conversar?-Apagou a luz do abajur da sala e ficou deitada no sofá, enrolada em seu roupão, sob a luz quase fraca da lareira.

— Na verdade acho que vou dormir, estou ficando anormalmente com sono esses dias.

— Então, também vou.

— Até amanhã.

— Até.

Olivia colocou o telefone no gancho, acendeu o abajur e voltou a folhear a revista. Havia 4 fotos dele com Gloria Noble e uma em especial, bem grande, no famoso Club Ciros. O texto falava que eles estavam saindo há algum tempo e eram vistos juntos constantemente no Set de filmagem e que depois de ser visto com algumas garotas, “O’Connor parece finalmente ter encontrado alguém que dança em seu coração.”.

Ela revirou os olhos. Apesar de ainda sentir certo aborrecimento em relação a este assunto, para ela inacabado, sentia que algo estava mudando em seu coração: ela tinha a impressão de que estava aceitando o fato de que ela perdera o jogo. Colocou o telefone desajeitadamente no lugar, em uma mesa no corredor e jogou-se na cama do jeito que estava. Nesta mesma noite, assim como em outras que viriam, ela sonhara com Donald: eles estavam sempre em algum quarto, estavam arrancando a roupa um do outro, se beijavam com saudades, mas sempre havia a presença de Glória no sonho, esperando por ele fora do quarto ou ligando para saber se ele apareceria para jantar com ela. A agonia que ela sentia com a presença dela a fazia acordar triste, tendo a sensação de estar sendo e de ter sido traída por ele. Ela, no passado, se apaixonara pela pessoa errada e ela estava ciente disso.

Passou o dia irrequieta e aborrecida. Saiu de casa várias vezes porque não suportava ficar sozinha e não queria que aquele sentimento de solidão a atacasse de novo. Comprou legumes, almoçou fora de casa e depois passou a tarde correndo em Los Feliz. De noite, cansada e com um humor diferente, ficou sentada à janela vendo os trovões e relâmpagos em um céu sem chuva porem carregado, no escuro da sala. Meditou sobre seus sentimentos, seu sonho e seu mal humor e admitiu para si própria a verdade que ela preferia pensar mas não confirmar: ela estava gostando de Gene Kelly apesar da mente estar ligada a outro. Não. Ela não quer admitir que estava se apaixonando pelo homem de quem ela tivera asco: este era o real motivo de sua saudade mas, depois de Donald ela nunca mais tivera coragem de falar sobre seus sentimento e nem conseguia mesmo que tentasse. Entretanto, seu ego era o dobro de sua altura e por causa disso ela escondia este “absurdo sentimento” muito bem.

Olívia queria riscar Donald da vida deles dois para que Gene confiasse que ela não era do tipo que tem recaídas à lá Scarlet O’Hara por Ashley Wilkerson. Olívia carregava culpa pois amou ardentemente um homem que não a quis e não consegue amar Gene Kelly com a mesma intensidade. Ela sabe que ele merece ser imensamente amado mas ela não consegue.

***

— Gostei das fotos. – disse Gene folheando a revista enquanto comia seu sanduiche sentado no chão, perto da lareira, onde Olívia insistiu em ficar.- Mort disse que está saindo em várias revistas de fãs sobre nós dois e que já estão comentando.

— Então nosso plano maquiavélico deu certo.

— Mort disse que seria bom sermos vistos na praia e nos Clubes.

Olívia estava enchendo seu pão com maionese quando percebeu que o silêncio tomou a sala. Ela olhou de relance e percebeu que ele estava lendo a matéria sobre Donald.

Pense rápido,pense rápido.

— Vai ser bom sairmos juntos. Você tem me abandonado muito e eu acho, posso está errada, que é difícil convencer as pessoas que você tem namorada quando esta fica isolada em casa.

Ele riu do comentário e jogou a revista de lado.

— É para convencer que a gente está namorando? – perguntou ele – Achei que fosse apenas para sair junto e causar polêmica.

— Não senhor! As fãs querem ver namoro dramático. Elas gostam de shippar: Gelívia, Ogele,Kweiss.

— Nunca ouvi falar disso. Vocês fazem isso pelas nossas costas?

— A gente até faz reza para que se casem. – brincou ela limpando a boca com um papel toalha.

—E você? Você reza para casar?

Ela fora pega de surpresa.

— Anh...eu nunca parei para pensar nisso... na verdade.Eu sempre peço a Deus para não ser solitária mas nunca parei para pensar desta forma.

— Mas como você não quer ser solitária se não quer casar? – perguntou ele

Olívia não tinha resposta.

— Sei lá... vou levar os pratos pra cozinha!

Olívia vinha demonstrando dificuldade em falar de seus sentimentos. Ela queria que Gene simplesmente a pedisse em namoro ou em casamento, qualquer coisa desde que ela não precisasse avançar, ou melhor, repetir o mesmo erro que cometera com Donald. Ao voltar para a sala ele estava olhando alguns livros de sua prateleira e selecionando alguns na mesa.

Ele costumava mexer em sua biblioteca pessoal quando estava aborrecido, pensativo ou precisando segurar sua impulsividade. Queria arrancar dela a verdade sobre seus sentimentos por ele. Gene nunca errava em seus julgamentos e sendo assim, ele hoje teve a certeza que, por ela sentir falta dele, reclamar de sua ausência, que fora proposital e não a trabalho, tinha pelo menos 50% de seu coração somente para ele. Ele queria tudo.

Naquela tarde, Gene havia descoberto algo que o deixara furioso, nervoso e com instinto ciumento em níveis elevados. Ele decidira que tomaria Olívia para si e mandaria uma mensagem a Donald O’Connor em letras garrafais nas capas de revistas e jornais: Ela não está mais disponível para sua vaidade. Mort Viner estava conversando com alguns fotógrafos que faziam bicos por fora e também sabiam da vida alheia.

— Eu soube que o Gene Kelly está com aquela moça que namorava o James Dean.É verdade mesmo?

— Un-hum... – afirmou Viner acendendo um cigarro,fingindo desinteresse.- a própria.

—Olha, eu vou contar algo mas não espalhe, ok?

— Certo.

— Eu soube por um colega de profissão que alguém pagou pra ter fotos dela.

— Pagou para ter fotos dela? Nua?

— Não sei, mas um colega disse que um ator famoso pagou a ele para fingir que estava interessado em por fotos dela em uma revista e ele pagou bem pelas fotos. Pelo que ele falou, não acho que tenha sido nuas por que ele usou a desculpa que ela ia sair na revista Life.

— Quando foi isso?

— Faz tempo... ele me contou tem uns 3 anos mais ou menos.

— Você sabe quem era o ator?

— Não, ele não me disse, mas estou contando porque eu soube que a revista Confidential ficou questionando a sexualidade do Gene Kelly e se ele casar com essa moça, seria de grande valor que você tivesse as fotos em mãos e a negativa porque se esta revista souber destas fotos, vai publicar e pagará o dobro por elas.

— Estas fotos nunca foram publicadas?

— Nunca.

Mort Viner pediu o nome do fotógrafo e foi atrás dele. Era editor da Revista TV-Radio Annual. Mort, que já conhecia esta prática que alguns atores tinham de ter sua “playboy” particular,batendo fotos comprometedoras de algumas colegas de trabalho e até de dançarinas, não encontrou dificuldades em entrar no assunto.

— Quem te contou?

— A própria senhorita Weiss. – mentiu Mort.- Ela mesma disse que nunca viu nenhuma das fotos nas revistas e como eu e você conhecemos bem este meio de fotografia privada, acredito que alguém pagou pelas fotos dela. Você as tem?

— Sim.

— Posso ver?

Ele torceu a cara e levantou-se de sua mesa. Abriu uma gaveta onde haviam várias pastas cujos nomes Mort não conseguira ler e tirou uma pasta amarela com o nome Weiss,Olivia.

— Nunca tiveram acesso a estas fotos, posso te garantir isso.

Mort esticou a mão e pegou a pasta. Olhou friamente as 10 fotografias coloridas e viu que a negativa estava lá.

— Gene gosta desta moça... – começou Mort – ele não vai gostar de saber que alguém andou comprando fotos dela. Quanto quer pra me dar estas fotos e com a negativa? Eu não quero nunca que estas fotos sejam publicadas.

— Cinquenta mil.

Mort Viner deu uma risada sarcástica.

—Promete que nunca vai mencionar estas fotos? Nem para a o The Confidential?

— A negativa está aí e não tenho cópias.

Mort Viner assinou um cheque no valor pedido e foi embora. Ele era o melhor amigo de Gene Kelly e viu de perto o quanto ele fora humilhado e exposto pelas revistas em seu divórcio. O jornalismo de Hollywood destruía facilmente a vida de alguém a não ser que a própria Hollywood publicamente desprezasse a revista em socorro do artista. Ele tinha a convicção de que ele queria casar com ela e a ultima coisa do que ele precisava era de histórias sobre triângulo amoroso ou fotos de biquíni dela na capa.

Ao chegar na casa de Gene, já estava com pelo menos 2 sessões de fotos agendadas para começar a fazer as fotos do casal rodarem por toda a América. Contou para ele o que havia descoberto.

— Com certeza foi o O’Connor quem pediu. – disse Gene olhando as fotos.

Olívia estava em trajes de banho ou em shorts curtos, deitada, lendo vários livros. Nada obsceno mas em posições agradáveis o suficiente para chamar a atenção de qualquer homem. Gene poderia ter se excitado mas invés disso ele sentia raiva pois ela havia sido usada para a vaidade sexual de Donald achando que estava pousando para a Life. Mais do que tudo, ele queria protege-la pois não importava sua patente no exército, Olívia era uma mulher e sozinha e precisava ser protegida caso contrário seria usada e talvez abusada.

— Poderíamos começar com uma reportagem falando sobre ela e com varias fotos de vocês dois. – disse Mort. – Depois outra sessão de vocês na praia para dar ênfase a profundidade do relacionamento.

— Vou falar com ela. Obrigado Mort,por trazer estas fotos.

Gene achou as fotos sujas e desonrosas por causa do motivo por trás destas e as queimou junto da negativa. Ele prometeu a si mesmo que jamais deixaria Donald se aproximar dela.