Contos de uma Viajante do Tempo Vol 2- Gene Kelly
8 Capítulo 8
O salão de janta do hotel tinha uma quilométrica mesa de jantar que dava para os 130 convidados VIPs que estavam no local. Havia enfeites góticos, gárgulas e estátuas que lembravam as de cemitério e que remetiam ao período inglês vitoriano. Edgar Allan Poe com certeza se inspiraria aqui. Uma mulher com uma enorme máscara de corvo ofereceu uma cesta a Olívia e Gene onde havia máscaras e eles eram livres para escolher. Olívia pegou uma máscara que lembrava o Carnaval Veneziano que cobria a testa até o nariz e Gene encontrou um rosto de raposa.
— Gene, que porra é essa? – sussurrou Olívia
— Não faço a mínima ideia.
— Será que é um culto satânico?
Gene riu.
— Não, é apenas o histerismo de quem não tem com o que gastar dinheiro.
De repente, um casal entrou com mascaras de bodes . O salão os aplaudiu e Olívia teve a impressão de que eles eram os responsáveis pela festa para “ aliviar a miséria humana”. O Barão e a Baronesa Astor.
— Obrigado por vir prestigiar a festa, queridos amigos. Comam, bebam, dancem e se divirtam. – Disse o Barão.
Um grupo no canto do salão começou a tocar músicas clássicas que Olivia reconheceu ser as 4 estações de Vivaldi. Olívia evitou comer e beber qualquer coisa daquele lugar e tinha vontade de ir embora.Gene encontrou alguns amigos e os apresentou a Olívia, além do prefeito de Nova York e do Governador e sua esposa. Enquanto Gene conversava, Olívia foi abordada por uma mulher baixa, com voz rouca e com um véu preto no rosto.
— Posso ler sua mão,querida?
— Claro. – Olívia estendeu a mão e seu coração batia tão forte que parecia que estava na sua cabeça e não no peito.
— Hum...- Ela segurou a mão direita de Olívia .
Olivia sentiu como se uma dormência estranha tivesse invadido seu corpo mas longe de ficar zonza. Uma sensação de conforto a deixou mais calma diante da pequena mulher que não mostrava seu rosto. Ela pegou a mão esquerda de Olívia e analisou silenciosamente. Ela finalmente levantou o véu e revelou um rosto de uma mulher de 50 anos mas muito bonita e de um nariz perfeitamente desenhado com um minúscula boca.
— Você veio de muitos lugares, menina. Você veio de muitos lugares mas ainda não pertence a lugar nenhum.
“Cacete”
— Você está com medo de mim?
— Na verdade ninguém nunca leu minha mão antes. Estou com medo do que a senhora vai dizer.
— Ah bom... – ela voltou a olhar a mão de Olívia e novamente o torpor tomou conta de sua cabeça.
“Que merda é essa.”
— Estou vendo que você anda demais, mas não por muito tempo. – ela tocou na maior linha da mão esquerda dela. – Você vai sofrer um golpe, querida. Mas não se preocupe porque você vai descobrir quem te ama de verdade. – Ela olhou para Olívia. – Existe dois homens que te ama muito mas há alguém que gosta muito de você, muito mais e sua indecisão não te deixa seguir em frente.
Olívia engoliu seco. E balançou a cabeça, afirmando. Ela largou a mão de Olívia e andou na direção do Governador de Nova York. Ela sentiu alívio por ter se livrado dela.
— O que ela disse? – perguntou Gene
— Ah... ela disse... – Olívia não sabia o que dizer. – ...que eu ia ser feliz.
— Isso é bom.
Voltaram para o hotel de madrugada depois de Olívia comer na primeira lanchonete de rua que encontrou. Tomou um banho quente e demorado, para tirar o cheiro de Satanismo e Nova Ordem Mundial da pele. Passou seu óleo corporal e seu creme de pés ressecado e entrou no quarto de Gene. Ele estava com seu Hobby aumentando o fogo da lareira. Olívia não havia acendido a lareira de seu quarto e com a luz apagada o observava, da porta. Ela tinha desejo sincero de gostar dele cada vez mais, se entregar e derrubar as paredes que por ventura impediam que ela fosse mais longe mas tinha medo.
Ela sabia que ele era um bom homem e que ele tinha condições psicológicas e emocionais de oferecer a ela a segurança que Donald não tinha nem para si próprio. Ela tinha medo de que ele ficasse se comparando a Donald e chegasse a conclusão de que ele não era amado o suficiente. Ela queria Donald longe deles dois.
— Gene, posso dormir com você hoje? Meu quarto está frio.
— Claro.
Ela andou em sua direção. A camisola curta marcava seu corpo e à meia luz do abajur ,o que chamou a atenção dele.
— Estou ansiosa para ir ao Bolshoi amanhã. Tenho certeza que vou amar. – disse ela ciente de que estava sendo observada.
— Os melhores são os Russos e os Franceses.Podíamos viajar para ver quando a temporada do Bolshoi acabar. – disse ele perdido pela visão dela.
— Eu quero ver. Acho que quando voltarmos, vou comprar algumas coleções de literatura Russa em algum sebo. – ela recostou-se perto da lareira tornando seu quadril mais visível e suas pernas trabalhadas a ferro mais sedutoras.- Nunca li Dostoievisky completamente mas dizem que os contos são bons mas são pesados e complexos.
Seu corpo desenhava a mais bela forma feminina que Gene já vira e ele a comia com os olhos enquanto ela falava de Tostoi e Stendhal.
—... as vezes é cansativo, é verdade. Um leitor não pode jamais afirmar que já largou o livro pela metade, é vergonhoso...
As pernas mais caras de Hollywood era de sua parceira de dança Cyd Charisse mas Olívia poderia facilmente tomar o lugar dela se ela gostasse de dançar. Exceto pela cor de pele, Olívia era morena quase indígena e Charisse era branca, as duas se pareciam muito.
—... fora que sempre tem um metido que diz “ Noooffa, você não conseguiu ler tudo? Eu li a coleção completa.”
— Você gosta muito de ler? – perguntou ele, aproximando-se dela na intenção de acariciá-la.
— Estou na meta de ler pequenos volumes de romance em no máximo 5 dias porque quero aprender a ler muitas folhas em pouco tempo.
— As vezes leio pequenos romances em 1 dia. – disse ele
— Sério?
— Sim.
Ele estava muito próximo. Seus rostos estavam próximos. Suas mãos acariciavam o quadril que o deixou em péssima situação na noite anterior. Gene era 5 cm maior que Olívia quando ela não estava de salto alto o que era bom pois ele tinha um sério complexo com mulheres muito altas.
— Você é tão linda.
Antes que ela pudesse pensar em qualquer coisa, Gene agarrou seu quadril e a puxou para si. Ele a beijou do jeito que ele sabia fazer melhor do que ninguém: o beijo Francês. Quando seus lábios se afastaram, Olívia estava vendo luzes e estrelas piscando. Ela estava anestesiada.
— Por que você foge de mim? – perguntou ele
— Oi?
Ele não repetiu a pergunta.
— Eu? Eu não fujo.
— Você sente alguma coisa por mim ?
A pergunta quase a engasgou.
— Sinto... mas....
— Mas o que?
— Acho que você não acredita.
Ele ficou em silêncio.
— Por que você acha isso?
— Você pergunta demais pelo outro. – desabafou ela – Eu não acho que você acredita que eu possa sentir algo por você.
— Eu só quero me certificar de que ele não vai estar entre nós, nem em seus sonhos.
— Não vai. Eu geralmente sonho que estou na guerra, não com ele. – brincou ela mas ele não riu. – Eu não acho que você acredita em mim, Gene.
— Eu acredito.
— Você ainda não acredita e nem confia. Ainda.
Ele acariciava os cabelos dela em silêncio.
— Se você acha que fico beijando as fotos dele ou lambendo, isso não acontece.
Ele a olhava, ouvindo atentamente suas palavras. Quando apenas o crepitar da lareira era o único barulho, Gene resolveu falar.
— Vamos dormir. Amanhã, vamos dar uma volta pela cidade antes do recital.
***
Olívia dormia encolhida debaixo do edredom de casal que havia na cama. Gene estava acordado, ainda, olhando pro teto. Ela tinha razão: ele não confiava. O amor que ela sentiu por Donald, a forma como ela detalhava o que havia acontecido não era algo que se acabava do dia pra noite. Foram anos indo e vindo até que ele decidiu casar com outra. Gene sabia que Donald não havia sido sincero totalmente com ela mas ele jamais falaria sobre isso.
Na situação em que ele estava, casado, a esposa poderia alegar infidelidade ao juiz caso ela descobrisse Olívia ou caso ele a assumisse publicamente antes do divórcio estar oficializado no tribunal e isso custaria metade dos bens e uma pensão gorda por causa do “ mal que ele causou a ela com uma amante.”. Para um homem ambicioso como Donald, ele ficaria injustamente pobre por causa de duas mulheres e ele não poderia suportar isso. Ele também não queria se curar de seu problema com álcool que Gene tantas vezes o alertava, nem de cocaína nem de cigarros.
Ele não a merecia e nunca vai.
***
Olívia estava em um vestido de gala, azul com rendas pretas e com um casaco de pele e usava uma pedra azul como gargantilha Ela estava deslumbrante e Gene adorava sentir o cheiro doce do perfume dela. Sentados na cabine, ela se sentia a própria Ana Karenina com seus vestidos caros e seus casacos de pele andando pelas ruas da Rússia. Gene pôs a cadeira mais perto dela e caçou um binóculo para poder analisar melhor os passos dos dançarinos como ele sempre faz.
Olívia encontrou o papel do recital contendo informações do conteúdo do recital.
Giselle
A história se passa em meio a festa da colheita da uva em uma região da França e conta a história de uma camponesa de nome Giselle. Ela se apaixona perdidamente por um rapaz que se diz ser um camponês de nome Loys. Este faz mil juras de amor a ela e até lhe promete casamento. Mas o que Giselle não sabe é que seu amado Loys na verdade é um nobre de nome Albrecht, e que além disso já está de casamento marcado com Bathilda. Giselle descobre a verdade através de Bathilda e se mata.
Com Galina Ulanova e Nikolai Fadeyechev
As luzes se apagaram e os aplausos tomaram conta do teatro quando dois dançarinos entraram no cenário. Logo após, entra Galina em seu vestido branco e corpete azul. Ela parecia uma fada e seus movimentos tão leves mantiveram os olhos de Olívia vidrados. Havia momentos que ela pensava que Galina não era uma pessoa mas um pacote de algodão diante da leveza e fluidez da dança. Ela agora entendia o porquê dos homens se apaixonarem por bailarinas.
Após o recital, eles saíram para jantar e o ar frio de Nova York fez valer o casaco de peles. O que Olívia não contava era com a quantidade de fotógrafos na porta do teatro. Ela depois se deu conta que eles não eram os únicos famosos ali mas alguém vazara a informação de que eles também estavam lá.
Ao chegarem no hotel, Olívia estava sob o efeito da magia da noite que tiveram. Após o banho, ela arrumou a mala deixando apenas alguns pertences de fora. Gene encostou na porta do quarto dela com um pacote vermelho nas mãos.
— Eu comprei algo para você. – disse ele
Ela olhou para a mão dele.
— Um presente? Amo presentes.
Ela andou na direção dele que estendeu o pacote.
— Obrigada, Gene.
Ela balançou perto do ouvido para adivinhar o que seria. Achou que fosse uma joia, um colar, um par de brincos, devido ao formato quadrado médio do presente.
— Hum... não faz barulho.
Ela desembrulhou gentilmente o presente e ficou boquiaberta e logo se desfez em sorrisos: ele havia comprando livros de literatura Russa.
— Eu não acredito... literatura Russa. – disse ela.
As Três Irmãs — Tchekhov
Noites Brancas e outros contos – Dostoiéviski
— Gene,eu amei. Muito obrigada.
Ela o abraçou forte. Olívia sabia que tinha que começar a ler Literatura Russa mas tivera péssima experiência com Crime e Castigo e desistiu de investir. Ela tinha uma vontade estranha de voltar a ler Tolstoi e Dostoieviski mas sempre procrastinava e voltava-se para outro título.
— Este foi o primeiro Fiodor Dostoiéviski que li. – disse ele. – Acredito que você vá gostar.
— Eu tenho absoluta certeza que vou.
Ela tinha a impressão de que Gene seria a primeira pessoa no mundo que não erraria em dar livros de presente. Sua mãe não gostava de ler e logo não a presenteava com livros e seus amigos sempre davam livros de auto- ajuda, o que ela abominava ou então livros que só pelo título já se mostravam difíceis de ler: “ A Insustentável Leveza do Ser”. Ela nunca lera e vendera o livro sem nem saber do que se tratava.
Ela deitara-se na cama dele e levou consigo os livros que ganhara. Ela ficou folheando os livros sob a luz do abajur enquanto ele se trocava no banheiro. Abriu uma página qualquer de Noites Claras:
“Talvez eu estivesse predestinada a amar outro alguém que tivesse mais compaixão de mim. Se sente que o seu amor é suficientemente grande para poder afugentar do meu coração o amor que antes o habitava...se quiser ter piedade por mim, se não quiser abandonar-me ao meu destino, sem consolação, sem esperanças, se quiser amar-me tanto quanto me ama agora, então, juro-lhe, a minha gratidão... o meu amor acabará por ser digno do seu... Aceitaria a minha mão?”
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