Gene e Olívia viajaram em um voo comum e não foram reconhecidos.Ele constantemente acariciava as mãos dela enquanto conversavam sussurrando e Olívia não recusava nenhum desejo dele de carícias, atenção e gracejos. A quem eles estavam enganando? Aquilo era quem eles eram e não um contrato da MGM. Ela, em seu coração, manteve o propósito de não repetir os erros do passado e dizia a seu ego que tentasse não atrapalhar pois ‘’vai que eu caso com ele”. Ela precisa de atenção, carinho e família, mas não podia fraquejar como antes.

Ao chegar no hotel, Gene fez aquilo que todo homem faz: exagerar para agradar a amada. Exigente e elegante, ele ficou no hotel mais caro da cidade, pediu um quarto na cobertura onde os quartos eram conectados por uma porta e tinha aquilo que Olívia mais amava: Uma lareira no quarto. O quarto dela não era grande mas arrumado e aconchegante e do tamanho ideal para circular o calor da lareira. Havia uma janela que estava coberta de gelo, uma espreguiçadeira, uma grande cama de casal e uma porta bem no canto , conectada com o quarto de Gene. No apartamento havia cozinha, sala, 3 banheiros, lavanderia, secadora, ferro de passar e uma vista incrível. Eles fariam uma visita aos parques mas Gene aproveitou a neve que começara a cair e sugeriu que ficassem no quarto até a noite seguinte, no dia do Jantar Beneficente em Astoria.

Nesta primeira noite no hotel, Olívia não conseguira dormir. A pedido de Gene, ela deixou a porta que conectava os quartos aberta e ele ouvira que ela se mexia na cama muitas vezes. Porque costuma dormir quase de manhã, Gene estava desperto na madrugada e levantou-se para ver o porquê dela estar agitada. Ele a viu sentada de frente para a lareira.

— Ei.- disse ele – Está com insônia?

— Acho que sim. Estava com sono e cochilei e depois não consegui dormir.

— Quer ficar aqui comigo? Conversar até pegar no sono, como você gosta?

— Pode ser.

Olívia pegou o edredom e seu travesseiro e andou até o quarto dele. Gene manteve a lareira alta e o quarto estava mais quente que o dela. Ela viu pela janela que havia geado e o vidro estava embaçado de gelo e a cidade estava escura e com neblina pesada.

— Quer conversar sobre o que? – perguntou ele, se arrumando debaixo das cobertas.

Maliciosamente ele uniu seu edredom ao dela e abriu um espaço para que suas mãos se tocassem, assim como seus pés. Olívia deitou-se mais próxima a ele. A luz da lareira clareava parcialmente o rosto de ambos.

— Sei lá. Puxa aí algum assunto. – disse ela

— Como uma pessoa como você namora Donald O’Connor? – perguntou ele

Olívia revirou os olhos.

— É serio , Gene? – perguntou ela, rindo sem graça.

— Estou curioso.O que ele tem?

Olívia não esperava ser perseguida por este nome, outra vez.

— Eu era pré-adolescente quando vi Donald pela primeira vez no filme do Mark Twain.Depois ele começou a aparecer dançando com outras meninas cujo nome não me recordo e... virou amor platônico, eu acho. Eu o conheci nos estúdios da Disney e foi amor a primeira vista por que depois que a gente se viu... não nos desgrudamos.

— Ele sabia que você tinha esse amor platônico?

— Não, mas eu disse que era fã numero 1 só para massagear o ego mas eu não sou fã dele.

— Você mentiu para massagear o ego dele ?

— Eu não menti, eu só fui gentil e isso massageou o ego dele.

— Só uma pergunta, você nasceu em que ano?

— 1928 – Olívia já estava preparada para quando este dia chegasse. Tinha que ter as datas memorizadas.

— Você sabe que ele é alcóolatra, não é? – ele voltou rapidamente pro assunto.Ele jogava várias perguntas para conhecê-la muito mais a fundo.

— Ah, eu sei muito bem, passei por uns apertos com ele.

— Você o ama?

— Ele bagunçou minha vida. – cortou ela sem querer pensar exatamente no que sentia.– Agora ele vai seguir em frente, feliz e eu que me foda, como sempre.

Ela respondeu em um tom amargo que ele conseguira captar, entendendo que Donald ainda era motivo de dor . Apesar da meia claridade, ele notou que seu rosto havia endurecido mas se ele apertasse mais, ela falaria.

— Vocês transaram?

Olívia respirou fundo, encabulada com as invasivas perguntas dele. Por que todo homem quer saber se ela é virgem ou se transou com A ou B?

— Gene, que pergunta!

Ela conseguia ver que ele estava rindo. O silêncio se fez e ela entendeu que ele ia exigir respostas.

“ Ridículo.”

— Não, Gene. A gente não transou. Ele evitou por que ele tinha uma estranha idolatria a minha virgindade.

Sem que ela percebesse, ela havia respondido a uma dúvida que ele tinha . Ele já havia transado com virgens de 16-18 anos mas, de 27 anos nunca. Dizem que as mais velhas são as melhores: São mais famintas e cede fácil a qualquer coisa depois que conhecem o pecado. As deusas de 30 anos eram as heroínas de Balzac.

Enquanto ela falava das vezes que Donald a evitava e que ela, infantilmente, achou que se transasse com ele acabariam se casando, a cabeça dele estava trabalhando em sexo. Gene tinha peculiaridades sexuais: ele gostava de sexo um pouco mais rude. Ainda que houvesse passado mais de 10 anos casado com a mesma mulher, não foi plenamente saciado por causa de certos protestos e esfriamento da relação. E se ela, sendo uma página em branco nos assuntos do amor, fosse a peça perfeita que encaixava nele? Ele tinha medo de machucar as mulheres com quem dormia e mais ainda: que se espalhasse o boato que ele era bruto, rude, agressivo e até pior que Marlon Brando. Gene tinha pavor de que sua reputação ficasse suja ao longo dos tempos mas admitia que o medo de arriscar realizar suas fantasias o deixava frustrado.

Olívia estava mexendo com seus hormônios e neurônios : menina jovem, virgem, responsável, pobre, sem emprego , órfã. Virgem. Ele sentia seu egocentrismo trabalhar para que ela não tivesse opção se não casar com ele. Mas ele queria se certificar que Donald não estaria entre eles. Nunca. Gene tinha medo do abandono e da rejeição e isso o deixou alerta, ciumento e competitivo.

— ... e eu me pergunto: e se eu tivesse engravidado? Graças a Deus, apesar das minhas escolhas, tudo deu errado. – disse ela

— Concordo. E o James Dean?

Olívia o olhou surpresa.

— O senhor está sabendo de muita coisa, heim?

— Todo mundo sabe de você e do James Dean.

— Imagino. – ela deu de ombros. – Ele me chamou para sair e eu aceitei. Ele costumava me sequestrar das minhas aulas de enfermagem e eu subia na moto e andávamos por Los Feliz até de noite.

— Foi com ele o acidente que você sofreu?

— Sim. – ela levou a mão dele, inocentemente, até a cicatriz do quadril. – Esta foi a cicatriz que ganhei. Daqui até o joelho.

Gene sentiu uma excitação que ele não conseguiu conter, enquanto tocava na cicatriz em seu quadril.

— Foi um corte bem grande. — disse ele tentando disfarçar o problema nas calças.

— Eu estava sozinha no hospital e Donald me achou.

— Foi?

— Ele ficou preocupado,achando que algo pior tinha acontecido e ele cuidou de mim. Eu estava meio que indigente lá.

— E aí, você se encontraram de novo.

— Exato. Foi mais do mesmo! Nada novo entre nós.

— Mas e ...

— Não! – ela interrompeu gentilmente pondo um dedo na boca dele. – Agora é minha vez.

— O que você quer saber? – Gene imaginou que as coisas iriam esquentar.

— É verdade que você briga com suas parceiras de trabalho? – ela vomitou tudo.

Gene tentou encontrar a palavra certa para começar a responder.

— Como assim?

Olívia descreveu tudo o que sabia: Debbie Reynolds, Esther Williams e outras.

— Quem te contou? Foi a Debbie?

— Não, as figurantes.

“Internet”

— Eu não sei o que contaram mas nunca bati em mulher na minha vida! Eu apenas não tinha paciência. Eram muito jovens, algumas muito criança e sempre diziam que dançar era difícil e queria abandonar o barco. Tive que ser duro com elas.

Ele fez uma pausa e tentou julgar o que Olívia estava pensando através de suas expressões faciais. Ela apena o encarava, serena.

— Eu admito que não fui gentil. Algumas até me bateram e me xingaram mas eu não tinha problema com as profissionais como Rita Hayworth e a Judy Garland. Olívia,acredite em mim: nunca bati em mulher.

— Eu acredito,Gene. Algumas me falaram que você fazia elas chorarem e nem se quer pedia desculpas. Deixava elas se sentindo um lixo.

Era verdade e ele não tinha nada dizer em sua defesa. Como criança culpada, ele a fitou.

— Eu só perguntei para saber se era verdade ou boato. Nunca achei de fato que você batia em mulheres ou maltratasse sua ex-esposa. – Olívia jogou uma isca para saber quem ele era em casa.

— Nunca. Eu posso ser chato mas bater, nunca. Eu abomino isso.

— Eu acredito em você.

Olívia acordou por volta das 9 da manhã, sozinha, na cama dele. Havia sido uma noite de revelações e lavagem de roupa e dormiram quando já era dia. Levantou-se e andou na direção da cozinha. Encontrou uma mesa posta e coberta com protetores de alumínio, conservando o calor da comida. Serviu-se do que tinha e depois tomou banho. Após o banho , percebeu que alguém já tinha vindo e entrado no apartamento, limpado a bagunça e trazido um lanche: geleia, frutas, torrada, chá, croissant. Eram 10 da manhã quando Gene reapareceu.

— Bom dia. – disse ele.

— Bom dia.

Ele andou na direção dela e deu um beijo no rosto.

— Já comeu?

— Sim e mal digeri já trouxeram um lanche.

— Eu nem comi nada. – disse ele, tirando os sapatos e andando na direção da cozinha.

— Porque não?

— Não costumo tomar café de manhã.

“Péssimo hábito” – pensou ela, torcendo o nariz.

— Você já arrumou seu vestido para hoje a noite?

— Já, só não sei como vou arrumar meu penteado. Estou em dúvidas.

— Você vai com aquele vestido preto sem alça?

— Esse mesmo.

— Prenda o cabelo então. Você tem um pescoço lindo.

— Own... você é um fofo. – disse ela

— Vai ter uma apresentação do Ballet de Bolshoi aqui, amanhã. As entradas se esgotaram mas consegui uma cortesia com um amigo meu, para sentarmos nas cabines.

— Uau... Bolshoi! Eu nunca assisti um antes. Eu adoraria ir.

— Eu imaginei que você diria isso.

***

Parecia um palácio mas era apenas um Hotel. Mas não qualquer Hotel: era o Astoria. Fundada pela família Astor, uma das 12 famílias mais satânicas do mundo. Astor é uma grande família corrupta que no inicio de 1800 ganhou o comércio americano através de ajuda maçônica e de presidentes americanos que faziam parte das lojas maçônicas como Thomas Jefferson. Para ganhar influência social e modificar a opinião pública, criou projetos sociais como A Liga Feminina da Temperança Contra o Alcoolismo que foi o maior projeto de contrabando de bebidas. Ganharam dinheiro fingindo ajudar os “necessitados”. Um dos proeminentes membros foi o Coronel John Jack Astor e sua esposa Madaleine Astor. Jack morreu no Titanic e sua esposa foi uma das sobreviventes.

Lá estava Olívia, com seu vestido preto e cabelos presos com berilos implantados loucamente por dentro . Ela e Gene entraram de braços dados como mandava o figurino. Seu casaco de pele foi deixado na recepção do hotel e um jovem os levou ate o salão. Brooke Astor, uma elegante mulher de 54 anos iniciou a apresentação agradecendo as generosas doações da Pilgrim Society ( fundada pela própria Família Astor) na luta contra Alcool e Tabagismo. O Jantar beneficente arrecadaria dinheiro para a Vincent Astor Foundation para aliviar a miséria humana. Aplausos ecoaram por todo o salão. Olívia olhou para Gene de relance e viu que ele estava tão morgado quanto ela. Depois de muitos aplausos, bajulações, uma lista enorme de agradecimentos eles foram direcionados a uma festa nas dependências internas daquele salão. O que estava por vir, deixou Olívia de cabelos em pé.