Fevereiro

Elisa Yard era uma das assistentes de guarda-roupa de Gene Kelly. Ela chegou na casa de Olívia por volta das 10 da manhã de um sábado. Olívia estava de pijama e tomava café no sofá,ouvindo rádio e lendo A Abadia de Northanger de Jane Austen, sua obra favorita, quando Elisa batera em sua porta. Três homens entraram em sua casa e espalharam pela sua sala 3 suportes móveis de roupas.

— Quando devo devolver estas roupas? – perguntou Olivia

— Devolver? Não,você não precisa. São suas.

— Minhas? Estas roupas lindas são minhas?

— Gene as comprou para você.

Elisa aproximou-se dos suportes e mostrou os sapatos que existiam em cada um deles e uma etiqueta onde indicava que aquelas roupas eram para ser usadas pela manhã – tarde e noite.

— As roupas da manhã e da tarde geralmente podem ser trocadas,as da tarde usadas pela manhã e vice-versa mas nunca use as roupas da noite fora da noite, entendeu?

Quando Elisa foi embora, Olívia empurrou os 3 suportes até seu quarto. Haviam mais de 10 pares de sapatos,casacos de pele falsa, 30 vestidos que ela apenas sonhara em vestir mas nunca imaginou que esse dia chegaria. Gene Kelly havia pago por tudo aquilo e não pararia por aí: as roupas do Oscar e outras festas importantes eram à parte. Olívia teve vontade de comprar um presente para ele mas o que ela poderia dar que fosse a altura de tudo o que ele estava fazendo? Talvez, trabalhando bem para promovê-lo já seria uma boa forma de pagamento.

Agora,Olívia estava há quase 2 semanas sem vê-lo.

Ele estava com virose e cancelou os compromissos contra sua própria vontade. Ele fez a cena de Singin in The Rain , debaixo de “chuva” e com febre de 40 graus, mas agora com diarreia e vômito, ele não teve escolha. Ele não queria que Olívia o visse no estado que estava nem queria passar o vírus. Eles só se falavam pelo telefone e Olívia estranhamente começou a sentir falta. Queria um pretexto para vê-lo mas foi estritamente proibida.

Já que ficaria famosa, decidiu então que malharia mais horas e faria uma restrita dieta cortando o carboidrato e aumentando a quantidade de proteínas. Estava planejando pegar três ou quatro quilos de peso e levantaria dois quilos com as pernas. Ela havia montado uma pequena academia em casa mas as vezes a preguiça a dominava então tudo ainda estava empacotado: os halteres, as caneleiras,o sapato novo de corrida , os suplementos vitamínicos e proteico e o colágeno em cápsulas que Lúcia havia conseguido para ela. Olívia havia aumentado o quadril e as pernas ficaram bastante torneadas por correr na praia com caneleiras de 1kg em cada perna, como vira o jogador Cristiano Ronaldo fazer.

Na semana seguinte, Gene Kelly havia melhorado e saiu para cuidar de seus afazeres sem Olívia e também ficou dias sem ligar para ela. Seu agente entregou a agenda que ele teria com ela:

10/02 – Jantar beneficente no Hotel Astoria às 19:00, Nova York

13/02 – Baile de Máscara, Dia dos Namorados , 22:00, Califórnia.

15/02 – Reunião do projeto Invitation to Dance

22/02 — Premier Filme “The Conqueror” e festa na casa do diretor Dick Powell

02/03 – Inicio do Ensaio Geral

10/03- Início das Gravações ( Consultar )

Certa tarde, Olívia havia terminando de ler A abadia de Northanger e estava guardando seu livro na pequena prateleira.Ela estava se desafiando a ler grandes quantidades de páginas em poucos dias. Ela se identificava 100% com Catherine Morland e adoraria encontrar um Mr. Tilney. Veio à sua memória uma conversa que ela tivera com seu pai sobre romances e suas mudanças ao longo dos séculos. Seu pai disse algo que ela só veio entender agora:

“Nós devemos nos apaixonar por quem nos casamos e não casar com quem nos apaixonamos.”

Ela achava que o pai era contrário ao amor e a finais felizes, até que ela conheceu Donald O’Connor e entendia que se apaixonar era,como diz Gigliolla Cinquetti “Fatalidade,o amor é uma fatalidade. Mesmo quando era uma grande sorte, ainda assim é uma fatalidade.”

“Você precisa saber se a pessoa por quem você se apaixonou vale tudo isso que você acha ou se é apenas fantasia. Ela esta apta para o casamento? Se você tirar a paixão, ela é uma pessoa que você admira ou ela te faz passar vergonha? Estes romances são muito bons mas 90% é pura fantasia para vender.”

O pai dela tinha razão. Olívia jamais se casaria, por exemplo, com aqueles homens de mal-humor, rudes,grossos ou metidos como Mr. Darcy por achar que um dia aprenderia a gostar dele.Ela tinha colegas que adorava um bandido ou um homem rude por pura fantasia.

Se ele é rude e grosso no namoro, ele não vai melhorar no casamento. Olívia tinha experiência para afirmar que a forma como você trata seu namorado/noivo é a forma que você vai tratá-lo quando se casar. Ela pensou em Donald e percebeu claramente que ele não era apto para casar e ela não o admirava totalmente: ela odiava circo, ele não a fazia rir com seu humor apesar dele ser engraçado, ela não gostava de seus programas e ele bem que poderia fazer filmes melhores .Ele também bebia e ele não iria parar por causa dela. No fundo, ela sabia que seu pai reprovaria Donald assim que colocasse os olhos nele.

Mas ela tinha uma certeza: se ele quisesse realmente, eles poderiam ser muito felizes. Também ,tinha outra certeza: ela era um mulherão perto dele e ela merecia mais do que um marido alcoólatra.

Mas que tipo de homem ela iria procurar? Ela não queria se casar com alguém por quem ela tinha asco ou vergonha e ela tinha a certeza absoluta que Gene Kelly era a ultima pessoa com quem ela se casaria. Ela leu algumas coisas sobre ele que ela salvara no seu laptop: Rude, metido, esnobe e o pior de tudo: nunca pedia desculpas pelas suas merdas. Pensando bem, se ele fosse algum personagem de Jane Austen ele seria claramente Mr.Darcy.

— Apesar de que houveram alguns maus entendidos, Darcy era metido sim. – disse ela em voz alta enquanto escovava seus cabelos. – Não me admira que Elizabeth preferiu por um tempo investir no primo dele, General Fitzwilliam. E também, muito fácil colocar homem bonito como o Matthew Macfadyen pra fazer o papel do malvado, quero ver na vida real, esse povo feio daqui, dando piti e esnobando geral. Duvido que alguém queira casar. Não...- ela ficou com o olhar perdido- eu sinto que vou me arrepender de me casar com Gene Kelly, eu sei que não é a pessoa certa mas meu coração diz que eu posso estar errada e as vezes eu me sinto estranha perto dele. Minha cabeça diz uma coisa, meu coração diz que estou errada.

A campainha tocou e tirou Olívia de seu monólogo. Ela correu para abrir a porta e uma lufada de ar gelado a deixara arrepiada mas não foi somente isso: se deparou com um Gene Kelly diferente,com cabelo despenteado, barba crescendo e com aspecto de cansado.

— Uau. – disse ela saindo da frente e dando passagem para que ele entrasse em sua casa.

— Eu sei, estou horrível.

— Não, muito pelo contrário.

Ela fechou a porta atrás de si e o olhou de cima a baixo, enquanto ele estava de costas andando em direção a sala. Gene parecia um lenhador: desarrumado, barba por fazer, másculo e sexualmente perigoso.

“Pena que você seja tão metido.” – pensou ela.

— Estou atrapalhando você? – perguntou ele

— Não. Eu estava penteando os cabelos. – ela andou na direção da lareira e aumentou o fogo. – Você está com a cara bem cansada.

Gene havia se deitado no sofá dela.

— Realmente, estou. Fiquei com fraqueza depois daquela virose. – ele respirou fundo. -Tive algumas reuniões essa semana e eu to com a nossa agenda aqui. – ele virou o rosto para Olívia enquanto ela aumentava o fogo- Ah, me desculpe. Eu não perguntei como você estava.

Olívia levantou-se da lareira e andou em direção a ele, despreocupada por ele não ter sido “educado”.

— Eu estou na mesma. Mas e você? – ela pegava algumas almofadas e jogava no chão para sentar por cima. – Você melhorou ?

— Sim, mas ainda estou fraco até para malhar.

— E ainda assim você saiu de casa.

— Foi.

Olívia estava acariciando a barba mal feita dele.

— Você fica bonito sem aquela gosma no cabelo e com a barba mal feita.

— Eu pareço um mendigo.

Olívia riu.

Ele tomou a mão dela e beijou .

— Senti sua falta. – confessou ele

— Eu também senti. Você não me deixou vê-lo.

— Não.

Tornou a beijar a mão dela. Ele conseguira arrancar a confissão que esperava ouvir.

— Trouxe algo pra você ler. – ele pôs a mão no bolso e tirou um papel dobrado – É a nossa agenda.

Olívia desdobrou o papel .

— Você não brincou quando disse que teríamos uma agenda cheia. – disse ela – Onde conseguirei minha fantasia pro dia dos namorados?

— Existem alguns no estúdio da MGM. Vamos viajar para Nova York dia 9 de manhã e voltamos dia 12. Já esteve em Nova York alguma vez ?

— Sim. Minha avó tinha uma casa lá e passamos alguns natais com ela.

— Gosto dos parques e das lojas.

— Gosto das livrarias e dos sebos.

Ele riu.

— Fiquei feliz por você ter aceitado o contrato e salvo minha reputação. – disse ele

— Se precisar é só chamar.

Ele se levantou do sofá e olhou no relógio.

— Bom, eu já vou.

— Já ?

— Já. Estou com sono.

— Ah...

Olívia o levou até a porta.

— A gente se vê daqui há uns dias. – disse ele e virou-se sem beijá-la, sem dizer mais nada.

Ele atravessou a rua e entrou em seu carro.

Olívia continuava na porta e só entrou quando ele virou a esquina e sumiu. Ao fechar a porta, ela a encarou por algum tempo, na mesma posição. Ela voltou-se para o corredor com o olhar perdido.

— Meu Deus! Não pode ser... eu não posso gostar dele. Ele é uma pessoa horrível! – disse ela a si mesma, negando qualquer sentimento.

Gene dirigia pensativo. Ele estava avançando em suas investidas em Olívia bem lentamente.

“Mas ela é tão fria.”- Pensou ele

Mas algo dizia a ele que ela valia a atenção que ele dispensava a ela. Algo muito forte o dizia que ela não era igual as outras de Hollywood.

O que Gene não sabia era que o gelo já estava quebrado.

***

Olívia olhou o relógio e pegou o telefone e discou apressadamente um número.

— Dennis? Oi sou eu, você está podendo falar? Eu consegui dinheiro esta semana. Posso passar aí daqui pra sexta-feira?

Abuso Infantil em Hollywood.

Quando eu era criança eu lia As Aventuras de Tom Sawyer . Percebi que Mark Twain mostrava algumas realidades duras na vida das crianças como negligência familiar e as vezes espancamento. As crianças do livro fugiram de casa e foram para uma ilhazinha por perto dali. Qualquer pessoa lê isso e acha que é apenas um conto infanto-juvenil. Mas não é.

Você já parou para pensar como o nosso país falhou e falha em proteger nossas crianças? Quantas meninas e meninos não foram abusados sexualmente constantemente dentro de casa pelo padrasto, amigo da família, talvez até pelo pastor. Como eu sei disso? Ora, veja a vida dos atores e atrizes de Hollywood! De cabeça conheço 5 que foram abusados. E fugindo um pouco do abuso, podemos falar sobre a falta de amor e proteção que toda criança merece. Alguns país confundem rigidez na educação de crianças rebeldes com abuso, espancamento e humilhação psicológica. E o trabalho infantil?

A sociedade americana é metade conservadora e metade liberal. Alguns liberais se esquecem que tudo precisa de limite mas não significa que deve haver controle estatal. Os liberais, junto ao capitalismo, usam tudo e qualquer coisa para gerar dinheiro. Um amigo meu certa vez disse que se os liberais pudessem criar um prostíbulo do lado de uma creche eles o fariam “ em nome do capitalismo”. Estes liberais acham normal que crianças façam filmes em Hollywood ou trabalhem em circos e não estudem ou façam isso para levar dinheiro para casa, ignorando que os pais podem estar usando e abusando da pequena estrela, afinal Hollywood dá dinheiro e muito. MUITO.

Conheci pessoas que trabalharam desde a infância nestas casa de apresentação como o empreendimento mais famoso que temos aqui chamado Vaudeville. Judy Garland quando chegou em Hollywood, apesar de desejar, não foi protegida pela mãe: tomava remédios, era chamada de feia, de gorda. Em 1950, Judy não dava mais um caldo.

Alguns dançarinos como Donald O’Connor, o mais novo de vários filhos, levava dinheiro para a casa através do cinema e era apenas um menino!Bobby Driscoll? Ficou extremamente famoso com Canção do Sul e depois foi encontrado morto,quase que desconhecido. Alguem tem notícias de Shirley Temple?

Entendam, eu não estou afirmando que os pais abusam de seus filhos e os obrigam a trabalhar em Hollywood, mas estou afirmando que Hollywood não tem lei de fiscalização com crianças e adolescentes dentro da indústria. Isso acarreta sequelas a longo prazo quando estas crianças e adolescentes trabalham longas jornadas para divulgação de filmes e nem se quer estudam ou fazem faculdade. Quando Hollywood esmagar estas frutas e as jogarem no lixo, só o bagaço, do que elas vão viver? Mais uma vez: Vejam Judy Garland. Começou acredito que em 1938 e em 1950 ela se aposentou por stress.

Hollywood precisa ser fiscalizada.

Falei.

Faltava um dia para a viagem e Olívia marcou de tomar um café com Dennis Mitchel em um lugar distante da cidade. Ela pegou um taxi e o esperou na porta de uma farmácia onde o carro dele a pegara e se afastaram dali.

Ela pediu um café e ovos com bacon e quando a garçonete serviu a ambos e se afastou, eles puderam conversar tranquilamente.

— E aí, o que você descobriu? – disse Olívia

Dennis passou um envelope que continha resumos de coisas que Olívia pedira.

— Nada muito alarmante. – disse ele. – Grace Kelly vai casar com o príncipe Ranier de Mônaco. Rita Hayworth casou com um príncipe também mas se divorciou em 53. Eu acho muita infantilidade destes homens virem aqui casar com atrizes consagradas. Pura vaidade.

—Concordo.

— Sua atriz favorita deu entrada no hospital esses dias.

— Rita Hayworth?

— Ela esta tento crise de falta de memória e as vezes não fala nada com coisa alguma. Tem bebido bastante mas os médicos acham que são os barbitúricos que ela toma e não o álcool.

“Não, é o início de Alzhaimer”- pensou Olívia.

— Também, eu soube que meu amigo Harold tem uma equipe que trabalha infiltrada na Paramout e na MGM e fica de olho nas meninas que entram lá. As vítimas de abuso em potencial eles geralmente mandam uma carta contando como é a vida lá e para elas pensarem bem se querem esta vida mesmo. Conseguiram afastar duas meninas dos estúdios que eram muito desenvolvidas para a idade de 13 anos.

— Muito bom. – disse ela sorrindo triunfante – Nosso trabalho será recompensado.

Olívia passou o envelope para ele.

— Consegui uma boa quantia, aqui tem 1.000 dólares.

Ele assobiou.

— Eu recebi um convite para um baile no Hotel Astoria em Nova York.

— Astoria? – ele riu.- Aquele lugar tem um altar satânico.

— Então a lenda é verdadeira?- Olívia fingia que nada sabia mas já havia lido muita coisa. Apenas queria saber o que era verdade e o que era lenda.

— Sim... tudo o que se passa nos Estados Unidos primeiro é consagrado no altar. Os únicos que eles não conseguem derrubar é o Partido Republicano e a Igreja. De resto, tudo passa no altar: Os abusos infantis, os filmes, o cigarro, a idolatria aos jovens rebeldes, a prostituição de atrizes, orgias. A cada 10 anos os temas em Hollywood mudam mas antes se consagra lá.

—Se eu me lembro bem, do pouco que conheço da família Astor, eles também consagram suas causas sociais .

— Esse ano eles estão trabalhando para regulamentar a venda e uso de cigarros mas ao mesmo tempo estimulam o uso.

— Não demora pro partido esquerdista usar isso para regular tudo e colocar impostos.

— Exato.

— Não sem antes passar por satanás.

Ambos riram.

Quando chegou em casa, ainda pela manhã, quase na hora do almoço, Olívia sentou no sofá e releu as anotações com novos nomes: Sandra Dee e Bettie Page.

Sandra Dee foi abusada pelo padastro dos 4 anos até o dia da morte dele. Tinha comportamento errático, bebia e usava drogas.É conhecida como a Virgem de Hollywood.

Bettie Page, capa da Playboy de 1955. Famosa Pin-up que faz poses eróticas, acusada de causar delinquência juvenil. Foi estuprada pelo pai, esteve em um orfanato com as irmãs e sofreu estupro coletivo em um beco: o caso foi registrado na polícia. Tem comportamento errático.

Dennis era seu confidente de teorias da conspiração. Eles acreditavam um no outro e ela pagava a ele por qualquer informação sobre abuso e negligencia infantil para que ela pudesse deixar registrado no livro que ela queria lançar apenas quando morresse, para não levantar suspeitas quanto as datas dos fatos que havia escrito. Dennis era amigo de Donald mas ela não perguntava sobre ele, apenas sobre teorias. Tudo o que ela sabia e que pudesse servir de noticias boas ela dava a ele já que ele escrevia uma coluna nas revistas de fofocas. Ela dava entrada de jornalista em eventos mas eles sempre evitavam conversar em público devido ao nível perigoso de trabalho que eles compartilhavam. Dennis está curioso quanto ao livro dela e prometeu que se ela morresse antes dele, ele publicaria seu livro e se ele morresse antes, seu filho publicaria.

Olívia guardou o envelope entre seus textos em rascunho e começou a fazer as malas.