Contos de uma Viajante do Tempo Vol 2- Gene Kelly
12 Capítulo 12
— Eu malho sempre! Faço Boxe às Terças, corro às Quintas e no Sábado faço Aeróbica. Em tudo em perco minerais e vitaminas e a alimentação não é suficiente para repor. É por isso que eu tomo Suplemento Vitamínico Solgar. Agora para mulheres.
— Corta! Ficou ótimo. Obrigado Olívia!
—Eu que agradeço.
Olívia deixou o cenário montado e entrou em seu camarim improvisado. Haviam deixado flores Azaléias para ela. Ela logo pensou em Gene e ao olhá-las de perto, viu um pequeno envelope azul.
“Vamos jantar hoje? Me liga.” – G
***
— Tenho uma boa notícia para você e uma muito ruim.- Disse Mort sentando no sofá da sala de Gene.
— O que pode ser pior do que um filme dar errado? – perguntou Gene
— A boa noticia é que você e Olívia estão sendo notados , suas fotos estão em todas as revistas e ela acabou de receber um convite para atuar em um musical do Robert Lewis. O Bing Crosby vai ser um dos principais e eles chamaram uma bailarina chamada Jean Marie.
— Jeanmaire.- corrigiu Gene. – Uma bailarina francesa e muito boa. O que mais?
— Agora vem a parte ruim... O O’Connor veio falar comigo pessoalmente ,porque ele soube que eu estava agenciando a Olivia, e perguntou se eu podia perguntar a ela se tinha interesse em participar do filme.
— Ele veio pessoalmente? – Gene cruzou os braços – Com certeza ele sabe de nós dois e ainda tem a cara de pau de vir convidar... certeza que é par romântico.
— Sim, é. Falei com o Robert e ele disse que estava pensando em pôr a Mitzi Gaynor mas se a Olívia disser que quer ele fica com ela. Donald também disse que procurou por ela na MGM e não a encontrou e por isso veio falar comigo.
— Eu vou ter que dizer isso a ela e ela mesma vai decidir se quer participar do filme ou não. – disse Gene, insatisfeito por não poder resolver isso por ele mesmo.
— O que você vai fazer se ela aceitar?
Gene queria ter a resposta na ponta da língua mas não conseguiu.
— Quero crer que ela não vai aceitar.
— E se aceitar?
— Não posso obrigá-la a nada.
— Por que você não faz o que vem planejando há semanas ? Se você quiser, amanhã ou depois eu mesmo falo com ela mas depois que você deixá-la preparada. Há uma chance dela recusar o papel e você mesmo disse que ela não gosta de aparecer ou dançar. Você devia tentar.
***
Gene quis servir o jantar na sua própria casa. Ele estava sentindo um peso no coração e ele sabia que parte deste peso era ciúmes e outra parte era tristeza de pensar que Olívia estaria dançando em um filme com Donald enquanto que recusou uma dança com ele. Após o jantar, ela o ajudou a colocar os pratos na máquina de lavar pratos e tomaram uma xícara de café.
— Olívia, tem algo que eu preciso te falar. Ano que vem, meu contrato com a MGM acaba de vez e eu pretendo trabalhar de forma independente na França com teatro e musicais. Mort me disse que você já está bem instalada financeiramente, independente e pode se virar bem sem mim.
Olívia o olhou confusa, pressentindo que algo ruim viria a seguir.
— Ele disse que aquelas acusações sobre mim já foram esquecidas e acho que não faz mais sentido a gente manter o contrato de “fingir que estamos namorando.”
— Oh... – Olívia calmamente colocou a xícara na mesa de chá a sua frente- entendo.
— Nós tivemos bons momentos... eu gostei de estar com você.Muito! Eu nunca conheci uma moça que gostasse das mesmas coisas que eu, sem que eu precisasse ensinar antes.
— Sim. – Olívia mantinha o sorriso amarelo.
— Você se aborreceu comigo nestes meses que passamos juntos?
— Eu? Não,muito pelo contrário.
— Então, tivemos bons momentos juntos...
— Sim.
— Mesmo fingindo um romance...
—Sim,foi bom.
Olívia sentia que as lágrimas estavam querendo vir mas ela piscava os olhos para disfarçar. Ela estava sendo dispensada, de novo. Ela percebeu que Gene queria falar algo mas não conseguia e isso a deixava impaciente. Então ela impetuosamente cortou o silêncio.
— Gene, eu estou entendendo. Não se preocupe, eu sei que foi um contrato, não precisa se sentir mal por isso. Eu sei que foi um contrato, você não me pro...
Olívia interrompeu a fala assim que seus olhos viram uma caixa preta nas mãos dele.
—É o que eu estou tentando te dizer – disse ele e logo se ajoelhou. – Eu nunca te prometi nada porque não tinha certeza se você sentia o mesmo que eu. Mas algo me diz, que seu eu te deixar ir embora, vai ser o maior erro da minha vida.
Olívia sentia as lágrimas virem à tona diante daquelas palavras.
“Era verdade mesmo?” – pensou ela – “Ele acha que o certo sou eu na vida dele?”
Ele abriu a caixa e revelou um anel, cujo desenho era uma gota , cravejado de diamante ao redor e no meio uma pedra azul.
— Você quer casar comigo?
— Quero. – ela não pensou duas vezes. – Eu só quero isso.
Visivelmente aliviado por não ter ele levado um fora, Gene colocou o anel no dedo dela e beijou.
— Eu achei que você estava me dispensando. – disse ela
— Nunca.
Ela olhou a aliança com carinho e riu.
— Uma gota de chuva.
— Foi onde tudo começou: na Chuva.
Quatro dias depois, a foto deles com um anel em forma de gota estava estampando todos os jornais. O anúncio oficial de noivado foi usado estrategicamente para ocultar os acontecimentos no Alabama, onde Martin Luther King estava promovendo boicote aos ônibus. Em sua casa, enquanto estava diante da sua prateleira de livros limpando a poeira, Mort fez uma visita friamente calculada. A informou, de forma desinteressada e sem mostrar sinais de que tinha conhecimento do affair, que Donald O’Connor o procurou pois estivera atrás dela no Studio e não a encontrou. Queria dar a ela um papel em um musical. Olívia pegou o enredo onde estava uma interrogação para o nome da atriz que faria par romântico com Donald.
— Eu não posso aceitar Mort, você sabe que não sou de fazer filmes.
— Seria uma grande oportunidade.
— Não... eu não quero contratos ou patrões nas minhas costas. Por favor Mort, agradeça-o por mim.
Olívia sabia que se Donald foi pessoalmente procurá-la e dar aquela oportunidade de fazer filme era porque ele queria uma reaproximação pela ultima vez . Para esquecer mais uma vez as lembranças dele, tentou limpar a lareira, atividade que há meses ela vinha protelando e arrumou o armário onde escondeu a televisão e a caixa com as escutas. No seu notebook, músicas dos anos 70 a todo vapor: The Mamas and The Papas, Procon Harum e The Pholhas, o favorito de sua mãe.
Olívia gostava de ouvir The Pholhas e lembrar de histórias engraçadas que sua mãe contava sobre os brasileiros dançarem romanticamente músicas trágicas cuja tradução eles ignoravam por completo, como por exemplo a música My Mistake da mesma banda, onde falava de um homem que matou a esposa que fugira com o amante e fora preso. Os amantes brasileiros dançavam com o rosto coladinho até suar. Aconteceu o mesmo quando o filho de Eric Clapton morrera afogado e ele escreveu a música Tears in Heaven e uma prima de sua mãe queria colocá-la no casamento e ela teve que alertar que aquela música na verdade falava da morte de alguém.
Quando ela rompeu com Donald pela primeira vez, Reflections Of My Life dos The Marmalades era a música que não saia de sua vida e o mesmo para My Sorrow de Pholhas. Mas ouvindo-as de novo, Olívia percebeu que já não doía mais. Estava livre cada dia mais.Mas ela já esteve muito presa e mergulhada nas trevas da eterna dor de cotovelo: De cantar Tina Charles a James Blunt,de chorar no sofá assistindo A Esposa do Viajante do Tempo e de cantar Back to Black de Amy Winehouse quando achava que já tinha se recuperado. Dias difíceis. Ela encontrou o diário onde anotou tudo sobre Donald, inclusive a letra de James Blunt, Goodbye my Lover.
Olívia procurou o Album de Amy Winehouse, sua “melhor amiga” , deu o play, sentou no chão começou a folhear o diário que ela chamou de O Livro Dele.
Querido Diário
Hoje conheci o homem mais lindo do mundo. O nome dele é Donald O’Connor e ele é de família irlandesa. Ele tem olhos azuis como safiras, como o fundo do mar, como o céu. Eu nunca vi uma pessoa assim antes. Ele perguntou se eu queria fazer um teste para cantar em um filme da MGM mas apenas dublando, não como coadjuvante. Aceitei na hora e eu nem sei que filme é.
Querido Diário
Hoje conheci alguma pessoas do filme Cantando na Chuva. Um dos atores se parece tanto com o diretor do filme que eu não sabia quem era quem, mas nem me interessava. Hoje Donald pegou na minha mão. Eu vou morrer de amor.
Querido Diário
Já são 1 da manhã e tenho que ir dormir mas quero deixar registrado que Donald me beijou. Estou apaixonada.
Olívia folheou algumas páginas, algumas fotos caíram e leu algumas letras de músicas que ela escrevera sem dizer o autor.
Querido Diário
Levei muito tempo para escrever isso mas voltei para casa. Meu tempo de trabalho na MGM chegou ao fim. Eu estou em casa e sozinha. Donald disse que voltaria para a esposa e eu comecei a beber porque não consigo aceitar. Onde foi que eu errei? Ele disse que me amava. Eu achava que ia casar com ele mas ele disse que queria dar uma outra chance para a esposa dele, alguém cujo nome não me recordo e nem quero lembrar.
Eu bebi muito hoje e ontem e antes de ontem. Gastei mais de 200 dólares em bebida. Espero que Deus me resgate porque se depender de mim...
Eu estou bebendo por causa de um homem. Nunca pensei que chegaria tão baixo na minha vida.
A última página escrita tinha:
Querido Diário
Estou morando sozinha. Está difícil viver sem ele e me isolei. Parei de beber, graças a Deus mas algo me diz que posso cometer suicídio porque não basta ele ter me deixado sem nenhuma explicação digna de crédito,eu me sinto sem propósito desde que vim da Guerra. Minha vida, como diz Jane Austen, tem sido uma sucessão de vários nadas. Eu nunca vou me levantar... nunca.
Olívia procurou uma caneta, sentou na mesa da cozinha, e escreveu na página em branco do diário.
Querido Diário
Tenho agora 28 anos e vou me casar com alguém que salvou minha vida. Alguém que tirou de mim aquela vontade estranha de me matar por falta de propósito. Ele disse que quer casar ainda este ano, 1956 e a cada dia que passa me recupero do furacão O’Connor. Donald vai casar com outra pessoa, de novo. Só Deus pra me dar uma família, um propósito e me ajudar a ajudar as pessoas. Tchau, Donald.
Fim do Livro Dele.
Olívia colou a carta dele na ultima página e fechou.
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