— Eles vão lançar em Dezembro a continuação do Sissi e a Disney quer lançar aqui em Março do ano que vem. Vamos ter que correr contra o tempo. Acho que em Dezembro já deve estar por aqui o filme e logo começaremos a dublagem isso porque acho que vai chegar em Dezembro, o que não acredito.

Olívia estava sentada na cadeira da sala do diretor – executivo da Disney, seu “novo chefe”.

— Mas ainda tem a questão do tradutor e depois a gente te dá o script.

— Assim que estiver tudo pronto me mande que eu lerei imediatamente. – disse ela

Após a reunião, Olívia pegou o carro que havia alugado, por insistência de Gene, e andou pela cidade procurando a tal loja de noivas, que parecia não existir na cidade. Estava com vontade de pegar a estrada e só voltar para casa tarde da noite. Quando encontrou a loja não gostou dos vestidos que viu, experimentou 3 e disse que voltaria na semana que vem, quando chegariam novos vestidos. Ela nunca havia pensando sobre vestidos de noiva e agora estava estressada por causa deles.

Colocou gasolina e andou até Bakersfield, por 2 horas. Eram 3 da tarde e ela estava rodando pela cidade,para se distrair, até sentir fome. Viu um supermercado com uma placa que indicava um restaurante no final do corredor e decidiu entrar. Havia uma variedade de comida que você podia levar para casa ou consumir no local. Olívia encontrou comida japonesa, italiana e Indiana. Decidiu pegar dois pratos de Salmão com outros tipos de peixe e procurou a mesa mais reservada e escondida. Encontrou em uma pequena sala com bambus, agua corrente, e uma incrível vista para a cidade e sentou-se, esperando que montassem seu prato.

Uma jovem mal humorada, com lápis borrado no canto dos olhos, perguntou sem interesse algum de querer servir, se Olívia queria algo para beber e esta respondeu que “não”. Minutos depois, a mesma moça voltou.

— Um homem pediu para que eu te entregasse este papel aqui.

Olívia pegou o guardanapo dobrado, agradeceu e abriu.

“Você é Anne Masterson? Se for, olhe para trás.”

Olívia estava calma pois desde sempre instruiu-se a negar que era Anne mas sua sobrinha. Olhou para trás e viu um homem envelhecido acenando para ela. Ah... aquele rosto engraçado ela jamais se esqueceria. Ninguém jamais se esqueceria: Buster Keaton.

Ela abriu um grande sorriso e levantou-se para ir na direção dele mas ele foi mais rápido, se levantou e foi em sua direção. O garçom que serviria aquele homem parou no meio do caminho e o acompanhou com os olhos para saber aonde ele iria e levou a comida para a mesa de Olivia.

— Eu não acredito que a gente se encontrou de novo! – disse Olívia abraçando o homem que era menor do que ela.

— É você mesmo?- perguntou ele

Olívia o abraçou mais uma vez e beijou a careca dele.

— Como é possível? – perguntou ele, sentando-se a sua frente. – Você ainda está nova e muito forte. Você está um mulherão!

Olívia riu.

— Continuo malhando.

Eles pararam de falar quando a comida dela foi servida e só depois que estavam a sós eles continuaram.

— Onde você esteve todos esses anos? – perguntou ele – Eu não entendo como você ficou jovem desse jeito. Aquilo que você me falou é verdade? Sobre sua teoria da Viagem no Tempo?

— Você lembra?

— Claro, você me contou que zombaram de você na faculdade. Agora tudo faz sentido para mim. Mas me diga, é verdade mesmo?

— Sim... eu viajo no tempo... nunca achei que você fosse acreditar.

— Mas você tem quantos anos? 100?

— Eu nasci em 89.

— 1889?

— 1989!

Ele fez as contas de cabeça.

—Então, você tem uns... err.. trinta e...

— Vinte e oito.

— Só isso?

— E já está muito! Mas me diz, como você tem passado? Já se passaram o que? 20 anos?

— Treze anos desde que sai do hospital e você parou de mandar cartas. Casei com uma moça de 21 anos na época e estou sóbrio e casado até hoje.

— Sério? E cadê ela?

— Está visitando a mãe lá na Califórnia. E você?

Olívia contou o episódio que sofrera um choque elétrico que a obrigou a voltar no tempo de 1939 para 2010.

— Eu não posso ficar pulando de uma época para outra ou posso ter anemia e morrer por falta de proteína. Eu gasto muita energia e tenho que consumir muita carne de porco, ovo cozido... essas coisas.

— Quem diria que a arte imitaria a vida. O H.G. Wells ficaria orgulhoso em ver a obra dele tomando vida própria. Você já leu a Máquina do Tempo?

— Três vezes.

— É parecido?

— Sim, mas sem a máquina e com o dobro de fome.

— O que mais aprontou? Quando você saiu de 1939 você fez o que?

— Eu fui pra França, Segunda Guerra.

— Você não tinha um lugar melhor para ir não?

Olívia gargalhou.

— Foi involuntário!

— Que bosta.

Olívia amava conversar com Buster desde sempre. Ele nunca ficava surpreso com nada. Ele também tinha uma outra peculiaridade: ficar sério em momentos engraçados e foi isso que o fez ficar conhecido como “O Palhaço que Não Ri” ou “O Homem do Rosto de Pedra”. Ele manteve a mesma cara mesmo depois de velho.

— Meu nome é Olivia.

— Olívia? Não é Anne?

— Anne foi o nome que eu usei para evitar cruzar meu nome ao longo das eras e perceberem que a mesma Olivia Weiss aparece na Segunda Guerra, nos bastidores dos filmes de Buster Keaton e nas fotos Bíblicas dos livros das Testemunhas de Jeová.

— Seu sobrenome é Weiss? – ele a olhou espantado, ignorando com certeza quase tudo do que ela havia revelado. – Você é da família do Mágico Houdini, o ilusionista?

— Como é que você sabe?

— Era o melhor amigo do meu pai, foi ele quem me deu o nome Buster. Dizem que ele tinha poderes de teleportar-se mas ele negou tudo e disse eu era mágica e ilusionismo.

O nome dele era Erinch Weisz, com “Z”. Foi primeiro e único grande ilusionista do Vaudeville. Ele e a família vieram da Hungria sendo a primeira família Weisz registrada em solo americano. Depois eles mudaram para Weiss com “S” por causa da perseguição aos judeus.

Buster pegou a carteira e mostrou a foto. Olívia e Houdini tinham o mesmo desenho zangando de sobrancelha e atrás dele estava Buster Keaton, muito jovem.

—Como ele era? – perguntou ela olhando a foto deles.

— Igual a você.

Ela desviou os olhos da foto.

— Como assim?

— Personalidade forte,cabeça dura. Você gosta de mágica?

— Nunca gostei. Mas já tive desilusões amorosas com mágicos e palhaços.

— Ah,isso é sempre. A gente não presta! Como você é conhecida aqui?

— Olívia Weiss. – ela devolveu a carteira — Digo que Anne Masterson é minha tia que trabalhou aqui no passado.

— Bastante prudente. E o que faz aqui em Bakersfield?

— Sumi um pouco. Ando trabalhando muito e estava a fim de andar.

— Ainda trabalha em Hollywood?

— Sim, nos bastidores. Faço dublagem.

— Apareceu um rapaz chamado Sidney Sheldon querendo fazer a história da minha vida no cinema.

— Sidney Sheldon?

— Conhece ?

— Pessoalmente não, mas no futuro ele vai ser escritor. Vai vender muito.

— É? Bom... ele disse que queria fazer um filme sobre mim. Eu tenho um pressentimento que vai dar merda mas... me ofereceram 50 mil dólares e estou procurando uma casa por aqui.

— Cinquenta mil dólares? Tá pouco!

— Dá pra viver.

— Você merece mais.

Ele deu de ombros.

— E quem é que vai fazer seu papel no cinema?

— Um rapaz que também veio de Vaudeville com a família, o O’Connor.

Olívia ficou muda.

— Donald ... O’Connor?

— Esse mesmo. Conheci a família antes dele nascer. O pai dele era muito bom, igual Houdini. Fazia de tudo: dançava, cantava, dava saltos mortais, tudo! Pena que morreu cedo. Ele deve aparecer a qualquer momento, marcamos de nos encontrar aqui.

Olívia sentiu o chão se abrir. Tentou esconder o nervoso com risos e conversas sobre
“Minha Tia Anne Masterson” e sobre projetos para programas de humor.

— Eu sempre achei que você acabaria como diretor e não como humorista na TV. Talvez, um dia, eu pegue meus diários sobre minhas viagens no tempo e transforme em série de TV.

— Você registrou tudo?

— Sim e mantenho tudo guardado para não me perder.

— Seria uma boa série de Ficção Cientifica. Eu soube que compraram os Direitos Autorais do Alfred Hitchcock pra uma série chamada The Twilight Zone e tem viagem no tempo mas não sei exatamente do que mais se trata.

Depois que terminou de comer, limpou a boca e consultou o relógio.

— Quer uma cerveja? – perguntou ele – Em nome dos velhos tempos.

— Aceito.

Buster Keaton pediu duas cervejas.

— Casou? – perguntou ele olhando para o anel.

— Ainda não.

— Quem é? Eu o conheço?

— Acho que sim, é o Gene Kelly.

— O rapaz que dança? Eu sei quem é. – ele acendeu um cigarro.- Um bom rapaz, bom partido. Ele é um dos poucos homens virtuosos de Hollywood.

— Ele é uma amorzinho. — Disse Olívia olhando pro anel

O garçom retirou os pratos e colocou duas garrafas de cerveja na mesa. Eles brindaram e continuaram a jogar conversa fora.

— Você devia voltar a escrever, Olívia. Me ajudou muito com aquelas histórias que você contava de cabeça quando eu estava bloqueado. Você se saia melhor do que aqueles 10 analfabetos da MGM. Péssimo ano aquele.

— Foi foda...a MGM é uma empresa muito estranha. – concordou Olívia. – Eu tenho vontade de voltar a escrever mas queria reescrever meus diários de viagem no tempo.

Olívia virou a garrafa de cerveja e disse:

— A cerveja de antigamente era melhor.

— Concordo. – disse ele

Ele a observava carinhosamente enquanto ela virava a garrafa.

— Você não mudou nada. Mesmo cabelo desgrenhado, grande e palavrões de chocar a sociedade conservadora. Você ainda usa aquela calça de homem? Como era mesmo o nome? Calça James?

— Calça Jeans. – Ela gargalhou – Na verdade, eu uso um short bem curto de chocar a família tradicional.

— E seu noivo diz o que?

— Até que ele não reclama. – disse ela, procurando na memoria o dia em que ele a regulou.

— Ainda. – disse Keaton – Escreva: quando casar ele vai trocar seu guarda-roupa. Se tivesse casado comigo, ia andar na régua. Mostrava demais essas pernas, esses braços.

Olívia corou.

— É, digamos que exagerei um pouco mostrando meus braços musculosos enquanto pintava o cenário.

A conversa fora interrompida com a chegada de Donald. Buster levantou-se para cumprimentar mas logo percebeu que houve uma mudança em ambos ao trocarem olhares. Olívia levantou-se para cumprimenta-lo em seguida. Eles trocaram dois beijos e ele apertou uma das mãos dela, o que não escapou aos olhos de Keaton.

— Vocês se conhecem? – perguntou ele

Os dois responderam ao mesmo tempo, de forma desajeitada ,tentando esconder toda a bagunça vivida.

— Mas...- perguntou Donald – vocês se conhecem?

Olívia ia responder mas Keaton, sem perder o humor e a oportunidade, passou na frente.

— Sim, namorei com a tia dela.

Donald olhou para ambos com surpresa e Olívia comprimia os lábios tentando prender a risada, desviando o olhar dele. Apesar de nunca terem namorado, e não por falta de oportunidade, Keaton e Olívia eram muito próximos e tinham um laço de amizade forte, apesar dos anos que o separaram. Foi durante as recaídas de álcool, divórcio e internação, além do bloqueio e picos de depressão que Olívia passou mais tempo ao lado dele. Foi nesta época que ela revelou parte de seu segredo.

— Que mulherão, rapaz! –continuou ele. – Usava calça apertada pra pintar meus cenários.

Olívia gargalhava.

— Chocava a sociedade inteira.

— Você nunca me contou isso . – disse Donald olhando pra ela.

— Digamos que mulheres não gostam de falar sobre suas tias gostosas para seus namorados.

— Vocês namoraram? – perguntou Keaton

— Sim, a gente saiu um tempo . –disse Donald sem jeito.

— Sei... – Keaton passava os olhos de um para outro e via o quão desconfortável e sei jeito eles ficavam um com o outro. – Quer cerveja?

— Sim, claro.

Keaton fez sinal para que trouxessem mais 3 garrafas.

Eles falaram do projeto do filme e Olívia insistia que o filme fosse feito com muita fidelidade ao que de fato aconteceu, mesmo que deixasse a MGM em maus lençóis. Keaton temia que suas duas ex-mulheres viessem processar a Columbia Pictures caso o nome delas saíssem no filme e Donald olhava para a aliança no dedo dela.

— Como era mesmo o nome da que quase te faliu? Tamar?Talmage? – perguntou ela

— Talmadge. – disse ele com pesar – Como disse sua tia, na época, ela botou pra arrombar.

Ele contou para Donald o estrago financeiro que sua primeira esposa havia feito antes mesmo do divórcio.

— Tem mulher que o diabo senta pra aprender. – disse Keaton virando a garrafa de cerveja. – Falando em mulher, cadê sua tia?

Olívia deu uma risada maliciosa.

— Ela casou em 1940 e foi morar em... – Olívia procurou rapidamente uma cidade bem distante dali. Ah.. em Centralia.

Ambos a olharam confusos.

—Centralia? – perguntou Donald –Não sei onde fica.

— Nem eu . – disse Keaton — Acho que ainda não foi fundada. – ele deu uma piscadinha para ela que gargalhou.

— Boa. – ela levantou a garrafa para fazer um brinde com ele

Donald ficou perdido na piada mas preferiu não perguntar. Depois de uma longa conversa, Olívia descobriu que já eram 9 da noite. Keaton disse que também ia embora pois tinha que buscar a esposa na Califórnia e olhar umas casas por lá amanhã. Olívia trocou numero de telefone com Keaton e Donald chamou um taxi para ele. Depois que ele foi embora, Donald voltou-se para ela.

— Que noite agradável! Faz muito tempo que não ria deste jeito. – disse ele acendendo um cigarro.

— Nem eu. Ele é um homem incrível.

— Estou ansioso pra fazer o filme.

— Espero que dê tudo certo.

— Estou bem surpreso que vocês dois tenham este companheirismo tão grande. Parece até que vocês se conhecem desde sempre.

— Ele é um amor. Impossível odiá-lo. — disse Olívia

— Ele namorou mesmo sua tia?

— Eu não acho que tenha sido um namoro mas ela ficou do lado dele quando ele se afundou no álcool ,na depressão e nos dois divórcios .

Houve um silêncio após a declaração. E não foi isso que Olívia fez por Donald?

— Mas do jeito que ele falou, parece que houve um grande sentimento.

— Ela nunca me confirmou nada, ela suspirava mais pelo Clark Gable mas ... agora que você tocou no assunto, eu acho que o fato dela ter ajudado ele sem tocar no dinheiro, sem tentar extorquir nada, deve ter feito ele ter uma certa quedinha por ela. Ela já limpou vômito dele quando estava bêbado, já o colocou pra dormir. Acho que ele achou que ela seria a mulher perfeita.

Donald ouvia atentamente.

— Ela nunca quis casar com ele?

— Acho que ele nunca pediu e também ela já estava noiva mas estava trabalhando aqui pra juntar dinheiro para casar.

— Entendo... acho que ele ficou tentado por ela, já que estava fazendo aquilo que a esposa deveria estar fazendo.

— Pode ter sido isso.

Olívia sentia que Donald estava tentando puxar assunto mas resolveu se despedir.

— Estou indo para casa. Quer carona?

— Não, meu carro está estacionado na praça.

Ela se despediu dele com dois beijos.

— Foi bom te ver. – disse ela

— Igualmente.

Ela entrou no carro e quando estava de partida, buzinou para ele que retribuiu com aceno. Eles evitaram falar de Gene e Glória e Olívia estava feliz em saber que poderia, talvez no futuro, está diante dele com Gene sem trazer grandes complicações. Mas ainda era estranho para eles conversarem pois não se olhavam direito nos olhos. Ainda havia algo.