Notas iniciais
Este é um dos mais complexos e longos que já tive. Os próximos não serão tão extensos. Por favor, comentem!

Era um pequeno grupo, dez pessoas no máximo, todas amontoadas numa sala de concreto com as paredes sulcadas. A única fonte de luz solar e ar fresco era uma janela pequena, e embora uma brisa leve atravessase-a, nenhum alívio ou conforto era proporcionado, o cômodo estava abafado de tensão. Ninguém sabia a razão de estar lá, muito menos a maneira de como havia chegado naquele lugar, aonde quer que fosse.

Apesar disso, todos tinham a consciência de que algo estava errado. Apenas um garoto parecia estar entendendo mais a situação. De pele pálida e aparência jovem, talvez dezesseis anos, os olhos azuis e frios como a neve eram emoldurados por longos cachos dourados; sua voz foi dura e inexpressiva quando disse:

“Vamos começar.”

~.~

“Isto é o seu melhor? Eu sei que não é.” Ele nunca alterava seu tom de voz, era inflexível.

Ela puxou a corda do arco; mirou e errou. A garota conseguia sentir todos os olhares sobre si; mas o que mais pesava, sem dúvida, era saber que aqueles olhos azuis perfurantes pairavam sobre ela.

“Vamos!”

O movimento havia se tornado quase que mecânico, de tantas vezes que ela já o tinha feito. A flecha voou do arco com um zunido, as penas arranhando de leve o seu rosto. O pequeno trinco que estava na sua mira foi finalmente atingido, um alvo difícil para alguém que nunca havia manejado um arco antes.

“Muito bem.” Foi tudo o que ele disse.

Mas ela sabia que aquelas palavras não possuíam valor. Nada tinha valor algum ali.

~.~

Aquela mulher tinha tido uma ótima performance nos últimos dias, ela pensou consigo mesma. Talvez seja por isso que ela vai sair. A precária porta de madeira foi aberta com um simples estalar de dedos do garoto, e mesmo estando prestes a cair aos pedaços, apenas ele conseguia abri-la. Foi naquele momento que a garota viu que magia jazia dentro do garoto, um dom que havia se tornado extremamente raro.

Conforme a mulher caminhava pelo corredor, uma segunda porta se abriu. Nomes eram visíveis nas paredes, dezenas deles e ela se perguntou o que eles significavam. Um pressentimento ruim tomou conta dela, mas foi posto de lado; naquele lugar ela sempre tinha aquela sensação. Quando a mulher passou pela segunda porta esta se fechou com força atrás de si, logo seguida pela primeira. O garoto estava recostado sobre a parede, as mãos tocando a superfície encardida e o rosto impassível como sempre. Então os gritos começaram. Gritos de puro desespero e dor emanavam das paredes, pareceu que vinham de todos os lados. Era a morte da mulher.

A garota tapou os ouvidos, não queria ter de ouvir algo como aquilo. A Morte havia adquirido uma voz, e ela consiguia escutá-la com mais clareza do que desejava. Fechou os olhos com força, receosa de que lágrimas temerosas pela própria vida viriam a jorrar. Após certo tempo os gritos pararam, e o silêncio que recaiu sobre eles era como um balde de água gelada. Pelo menos o sofrimento dela tinha chegado a um fim.

A menina tirou as mãos de suas orelhas e abriu os olhos, apenas para ver que o garoto dos cabelos dourados estava com ambas as palmas na parede, luz esbranquiçada emanando por entre seus dedos. Quando as retirou de seu apoio, um nome estava gravado na superfície áspera; o nome da mulher, da mesma maneira que ela devia ter escrito quando estava viva, uma caligrafia desleixada.

“Bem, ela não passou no teste final. E estava ficando sem espaço no corredor.”

Ele se virou para ela, e mais uma vez sua frieza a surpreendeu. A maneira com a qual ele encarou tudo aquilo, como se a perda de uma vida não fosse algo importante, era perturbadora. Seu rosto, sua voz e até sua alma pareciam gelo; transparentes e sem expressão alguma. Algo na feição da garota deve tê-la denunciado a ele, que parou na sua frente e tocou seu rosto com as costas da mão. Era surpreendentemente quente. Ela pensou que seu complexo frio acompanhava o resto do corpo; por uma fração de segundo ela imaginou se o que tivesse visto em seus olhos teria sido vulnerabilidade, mas da mesma maneira que aquela dúvida se acendeu, ele lhe deu as costas e se afastou.

Pela primeira vez durante tantos dias ela se perguntou quem ele realmente era, o motivo dele estar lá e a razão dele estar fazendo tudo aquilo. Qual era o propósito?

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Semanas se passaram, mais nomes foram gravados na parede. Nenhum deles saiu daquele quarto, e aquelas paredes haviam se transformado numa espécie de casa, porque lar era algo impossível.

Não eram apenas os melhores que eram mandados pela porta, os piores também. O resultado era que aqueles que aprenderam a utilizar as armas voltavam, na maioria das vezes; severamente machucados, mas nada que a mágica do garoto de cabelos dourados não fosse capaz de curar. Porém, os mais fracos nunca voltavam e eles não podiam fazer nada a não ser escutar seus últimos momentos.

Ela tinha tanto medo de ser mandada para lá. Os que voltavam não lembravam de qualquer que tivesse sido o desafio de trás da porta, mas algo tinha se quebrado em cada um deles. Ela suspeitava de que o garoto bagunçava suas memória enquanto os curava, para não dar a chance de preparação.

Cada um deles havia se especializado com alguma arma. No começo todos treinavam com as mesmas, mas com o passar do tempo criaram um laço de habilidade com alguma das armas que estavam à sua disposição. A garota passou a manusear com perfeição o arco.

Os cativos uma vez tentaram matar o rapaz e fugir, mas assim que a rebelião estourou, foi controlada como um balde d’água apaga uma fogueira: rápida e direta. Ele tinha mais magia do que qualquer um deles poderia ter imaginado. Nem foi preciso muito esforço da parte dele para desviar e destruir os objetos que foram jogados em sua direção. A represália pelo o que haviam feito era algo que ficaria marcado na memória dela. Não foi um castigo físico, mas psicológico.

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Ela viu uma criança pequena brincando no campo, seus cachos dourados tinham ainda mais brilho por causa do Sol e um sorriso inocente estava estampado em seu rosto infante. Uma sombra cobriu o menininho de dois anos e uma mulher de olhos tristes olhou nervosamente à sua volta, pegou a criança no colo e partiu.

A garota acordou de sua visão do passado pensando em apenas uma coisa: O garoto dos cabelos dourados tinha sido roubado.

~.~

Pessoas começaram a brotar das paredes e a sair de portas que antes eram inexistentes, todas com o olhar confuso e perdido. Conforme elas apareciam, os nomes gravados nas paredes desapareciam; o rapaz tinha gravado as pessoas no concreto por meio de seus nomes, uma das formais mais reais de se representar alguém. Fosse qual fosse a tarefa que ele havia sido incumbido de realizar, ele tinha salvado aquelas pessoas. O assustador era que até crianças emergiam das paredes. Com um movimento de seu braço um pedaço da parede foi pelos ares, poeira e detritos dando lugar a uma passagem para o lado de fora; a grama nunca pareceu tão verde. Desesperadas para alcançar sua liberdade, a multidão correu para ela, como se aquilo tudo pudesse desaparecer caso demorassem demais.

Mal resistindo ao impulso de ir também, ela reteve seu olhar no jovem feiticeiro. Ele estava desorientado, seu mundo havia ruído, e ela podia ver que ele não conhecia o mundo dela. Ele, de certa maneira, havia salvado todos eles, mas ninguém lhe deu atenção; apenas o deixaram escondido nas sombras, perdido. Sua máscara fria tinha se desmanchado, e a garota conseguiu ver aquela vulnerabilidade mais uma vez; as barreiras que ali existiam se transformaram em água e caído por terra. Foi olhando para ele que ela sentiu pena como nunca tinha sentido antes.

“Venha conosco” ficou surpresa com a doçura da própria voz.

“Irei aonde seu sorriso for.”

Estavam criando um exército, mas nem o garoto de cabelos dourados sabia o motivo. Havia cumprido ordens durante toda a sua vida, e de maneira cega; ele disse que só percebeuque era errado depois de anos.

Iriam descobrir juntos o significado daquilo tudo.

Notas finais
Por favor, comentem sobre o conto! Me deixaria muito feliz!