Contos de Europa
8 Brisa
Notas iniciais
Já estávamos voando em silêncio há algumas horas, não por falta de assunto para conversarmos, mas sim porque tínhamos que nos concentrar tanto no controle e na direção do voo quanto na estrada da Floresta abaixo de nós. Precisávamos ficar atentos para não sermos surpreendidos por Rastreadores. Eu tinha certeza de que, mesmo possuindo tantos poderes, eles não conseguiriam voar. Porém, um de seus dons era uma inteligência sem igual, por isso não me surpreenderia que eles tivessem a mesma ideia que nós e usassem um Aurora para se locomover pelos ares. Além disso, suas habilidades rastreadoras eram incríveis e algo me dizia que não estaríamos a salvo por muito tempo.
Cássio parecia estranhamente calmo por fora, mas seu olhar dizia o contrário. Ele olhava para baixo e para os lados, preocupado com alguma coisa. Eu podia sentir a aura dele alternando-se entre calma e agitada. Não podia haver um farfalhar de árvores, pois se houvesse ele virava o rosto e levava a mão até uma de suas facas, que também reluziam de modo esquisito, quase assustador. Depois de um tempo, ele começou a ficar bastante inquieto, mais do que já estava, então resolvi puxar assunto.
– Preocupado? — perguntei, sem olhá-lo nos olhos.
Ele desviou sua atenção para mim por um instante, mas em seguida voltou a olhar para a estrada abaixo de nós.
– Um pouco – respondeu – Estava pensando no que os rastreadores seriam capazes de fazer.
– E... o que eles seriam capazes de fazer? — perguntei, ainda puxando assunto.
– Não sei direito — ele disse e deu um giro para pegar energia — São tantas histórias contadas sobre os Rastreadores, que é difícil saber quais são verdade e quais não.
– Bom... Me conte algumas, então — pedi, depois que girei também.
– Certo... Dizem que eles se comunicam com os ghouls e que podem usá-los como transporte ou animal de estimação. Outras pessoas dizem que eles correm absurdamente rápido apenas usando as próprias pernas. E outros contam que eles conseguem se teletransportar.
Eu engasguei ao saber daquilo. Comunicação com ghouls? Correr a velocidades absurdas usando as próprias pernas? Teletransporte? Os Rastreadores definitivamente não poderiam mais ser considerados humanos. Se bem que Cássio conseguia se transportar pelas sombras, mas ele era um escolhido de Plutão. Os Rastreadores na maioria das vezes eram pessoas comuns, sem qualquer tipo de poder. Bom, aquilo não importava. Mesmo que eles não tivessem todos aqueles poderes, ainda eram assassinos de primeira classe. Se fossem designados para matar, faziam isso sem dó e — por mais incrível que possa parecer — sem deixar vestígios.
– Ainda tem mais — Cássio continuou, dessa vez olhando em meus olhos — Dizem que há um Rastreador que é o melhor que já existiu. Dizem que ele consegue atingir você no seu ponto mais fraco, até se tornar insuportável viver.
– E qual seria o ponto fraco? — perguntei, contendo um misto de raiva e medo.
– Varia de pessoa para pessoa — ele disse e, agora, não olhava mais em meus olhos — Mas dizem que o ponto fraco é emocional. Não se sabe ao certo o que é. Ninguém sobreviveu para contar.
Naquele momento, um vento forte nos sacudiu e eu quase colidi com uma árvore. Para minha alegria e salvação, Cássio me segurou.
– Você está bem? — indagou ele.
– Sim. Mas não posso dizer o mesmo do meu cabelo. — respondi.
Meu cabelo estava todo assanhado e cheio de folhas, pois, na minha quase batida, ele havia ficado rapidamente preso em um dos galhos da árvore. Cássio deu uma sonora gargalhada, mas logo se posicionou para me ajudar a tirar as folhas. Quando a derradeira delas havia sido tirada, ele perguntou:
– Então... você não sabia de nada sobre os Rastreadores?
– Sabia apenas como e por qual motivo eles se transformam. Só isso — respondi — Por quê?
– É que... já que você viveu em um lugar próximo ao deles, eu pensei que você pudesse saber algo... — ele disse isso e abaixou a cabeça, talvez envergonhado por estar errado.
Eu dei uma risadinha.
– Olha, eu ficava trancada numa cela com outras cobaias na maior parte do tempo, só saía para os experimentos.
– Você não ficava...
– Entediada? — completei — Algumas vezes sim, mas aquilo era mil vezes melhor do que os experimentos. Depois de um tempo, eu cansei e passei a pedir livros para ler.
– E eles te deram? — Cássio perguntou.
– Sim. Mas como eles não gostavam de sair por causa da raiva da população, só me davam os livros que eles já tinham por lá. Isso significa antigos livros de história sobre a Grande Guerra e o Império Europeu. Falavam de como era o mundo antes, sobre as várias batalhas que houveram antes da Grande Guerra, o que causou aquilo tudo, o descobrimento das divindades, a formação e revitalização de Europa. Era até interessante.
Cássio ouvia tudo com atenção, sem falar. Parecia até que eu o hipnotizava. Ele só se pronunciava quando eu parava de falar.
– Eu devo te dizer que nunca fui muito bom em história — ele riu — Colava em quase todas as provas.
– Não me diga! — disse eu, fingindo espanto — E eu que pensava que você era o Sr. Certinho.
– Pois é. História não era para mim. Que tal se... você me desse uma aula básica? — ele pediu.
– Claro. — respondi — Então... por onde eu começo? — mordi o lábio e inclinei um pouco a cabeça para me lembrar. Não demorou muito e eu achei em minha mente o que estava procurando — Ah, lembrei. O mundo era dividido em seis continentes, América, Europa, África, Ásia, Oceania e Antártida. Isso mesmo, Europa era um continente e ela era dividida em vários países. O povo Europeu vivia bem, até que começou a faltar água em vários locais e as coisas começaram a complicar. Ninguém vive sem água, e ela estava tão escassa para abastecer o mundo devido a desperdícios e falta de cuidados, que começaram a brigar por ela. Além disso, um país chamado Estados Unidos da América, que na época era uma das maiores potências, havia se envolvido em muitas guerras, perdendo umas e ganhando outras. Os países derrotados resolveram formar a ACEUA, Aliança Contra os Estados Unidos da América, e começaram a planejar ataques contra os Estados Unidos. Entre esses países, estavam alguns europeus, outros asiáticos, e outros que já guardavam ressentimentos dos EUA havia muito tempo, como Cuba e a Coréia do Norte. E a Aliança ganhava cada vez mais adeptos.
"Mas foi quando os Estados Unidos resolveram pegar boa parte da água mundial que a coisa começou a esquentar. Uma grande quantidade dessa água ficava no Brasil, que, na época, ocupava o primeiro lugar na lista dos países com mais água potável. Contudo, o Brasil estava em dívida com os EUA e viram a busca pela água como uma maneira de saldar seu débito. Erro deles. A ACEUA, que não suportava quem ajudava os Estados Unidos, resolveu atacar o Brasil e fizeram isso com força total. Bombas foram lançadas, cidades foram dizimadas, milhões de pessoas foram mortas e outras milhões ficaram desabrigadas, sem ter para onde ir. Então, os Estados Unidos resolveram revidar, junto com os países que ainda estavam do seu lado, mas eram poucos. Os EUA não haviam se preparado bem para uma guerra, mas ainda era forte, tinha bombas atômicas, causou muita destruição. Contudo, a ACEUA conseguiu persuadir a Rússia, que possuía muito armamento, a se juntar a Aliança. Com uma força bélica maior, o resultado foi o triunfo da ACEUA, depois de vários anos de guerra."
"Porém, houveram muitas mortes, a população mundial foi reduzida a menos da metade, e a terra estava devastada, com poucos territórios que se podia considerar se viver. Boa parte desses territórios se encontrava na Europa e na Rússia, e alguns na América do Sul. Então, iniciou-se a reconstrução desses lugares. Foram criados hospitais, escolas, moradias, usinas nucleares para a produção de energia, e várias outras coisas necessárias. Os territórios não foram intitulados países, mas sim Impérios. Eram três ao todo: Império Sul Americano, Império Europeu e Império Russo. Toda a população restante no planeta foi dividida entre os três Impérios e não havia muitas coisas com o que se preocupar. Então, assim que foi terminada a reconstrução e todos estavam bem, os deuses se mostraram pela primeira vez em milênios e explicaram para a população sobre sua existência e afins."
– Nossa... — Cássio riu, depois de um bom tempo pensando — Você sabe mesmo.
– Vários anos lendo livros com a mesma história causam isso. Você aprende tudo e ainda descobre outras coisas por si só — devolvi o sorriso.
– Você me explicou em pouco tempo tudo o que um professor de história levaria um mês para me fazer entender — ele disse — Agora, me diga uma coisa: o povo de antigamente tinha livros, músicas, programas, enfim, muita coisa que nós temos hoje. Quero dizer, coisas que eram deles, mas que resistiram. Como?
– Ah, entendi. Antes da Grande Guerra começar, as pessoas de antigamente guardaram as coisas que, para elas, eram preciosas. Ou seja: livros, cd's, filmes etc. Para quê? Para preservar sua cultura e sua essência. E nós as preservamos até hoje.
Cássio olhou para o horizonte e deu uma risada baixa. Depois, olhou para mim, sorriu e disse:
– Ainda bem, pois não vejo minha vida sem Shakespeare, Machado de Assis, Eça de Queirós ou Yanni.
Retribuí o sorriso e continuamos voando, girando eventualmente, para completar nossa missão.
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