Contos de Europa
9 Cássio
Notas iniciais
Depois de um longo período de tempo voando, nós estávamos ficando cansados. As mochilas pareciam mais pesadas, o suor escorria de nossos rostos e estávamos famintos. Além disso, já estava começando a escurecer e voar no escuro não era e nem nunca tinha sido uma das minhas metas para a fuga. Sendo assim, resolvemos descer para descansar.
A poucos metros de onde nós estávamos havia uma grande clareira, mas resolvemos não descer por lá. Se houvessem Rastreadores ou até mesmo pessoas, eles veriam e iriam verificar. Por isso resolvemos descer pelas árvores, fazendo o mínimo de barulho.
Assim que chegamos, percebemos que o lugar onde estávamos possuía vários pontos onde poderiam ser feitos esconderijos e armadilhas. Era bastante escuro, mesmo durante o dia, pois as copas das árvores eram altas e as folhas eram enormes. Ali era uma rua de antigamente, e várias paredes de casas estavam caídas de modo que podíamos ver como eram as moradias por dentro. Televisões, quadros velhos, computadores, geladeiras, cadeiras, fogões; todos queimados ou parcialmente destruídos. Não haviam esqueletos, ou qualquer indício de que alguém com má sorte havia morrido ali. Talvez porque, realmente, todos tivessem saído a tempo. Ou talvez pelo fato de, quando a Guerra acabou, os governantes na época mandaram recolher os cadáveres. Um bom perito saberia dizer qual das informações era a certa, a partir de uma análise minuciosa do local; mas nós não tínhamos um, certo? Errado. Sem querer me gabar, eu era o perito. Como um escolhido de Plutão, eu conseguia sentir se a Morte havia passado por ali. Mesmo depois de anos, o rastro dela poderia continuar bastante marcado. Concentrei-me em enxergar além do que os olhos podem ver, concentrei-me na aura daquele lugar.
Então eu vi. Algumas coisas estavam borradas, porém iam ficando mais nítidas com o tempo. Uma rua agitada, pessoas correndo, gritando, tropeçando nos próprios pés e levantando-se em seguida. Ouvi o alarme. Enxerguei crianças chorando e correndo ao mesmo tempo. Algumas estavam perdidas, mas logo encontravam seus pais. Namorados puxavam suas namoradas pela mão e acalmavam-nas, diziam que tudo iria ficar bem. Idosos se esforçavam para correr ou eram levados em cadeiras de rodas para os ônibus que se encontravam no final da rua, onde havia também uma bela marca característica de pneus de carro. Todos embarcavam. Todos estavam assustados. Todos se ajudavam. Era amedrontador. Mas também bonito. Os ônibus estavam ligados, naquele momento. Eu podia sentir o alívio das pessoas em saber que iriam sair daquela área de risco para um lugar seguro. Eu também estava aliviado. A Morte não havia passado por ali, mas o medo dela estava pregado em todas as paredes de todas as casas. Por isso eu conseguia sentir tudo aquilo.
Foi quando os transportes começaram a sair que Brisa me acordou do meu transe.
– Cássio?
Ela olhava para mim com seus belos olhos verdes e assustados. Também me sacudia de leve e sua luz envolvia tanto a ela própria quanto a mim. Era uma proteção.
Percebi que estava num lugar diferente de onde estávamos quando chegamos. Parecia uma esquina. Havia placas quase totalmente escondidas entre as árvores ou caídas e no chão havia uma marca antiga de pneu que apontava para a esquerda. Eu me toquei. Havia refeito todo o percurso daquelas pessoas que estavam fugindo das bombas há vários anos atrás. Todo o meu corpo tremia, minha respiração estava entrecortada e eu suava frio.
– Cássio, você está bem? — Brisa perguntou. Ela me sacudia com mais força e eu podia sentir suas mãos geladas e trêmulas.
Demorou um pouco para que eu respondesse. Por fim, com a voz falha, eu o fiz.
– Estou. E-eu só... Só tive uma visão. Apenas isso.
Brisa ainda me olhava com os olhos arregalados de medo. Ainda assim, ela ergueu a mão para me dar um tapa na cabeça. Como não conseguiu alcançar, se contentou com um murro – muito forte, por sinal – em meu ombro.
– Nunca mais me assuste desse jeito – ela disse – Nunca mais, ouviu?
– Ouvi – respondi enquanto massageava o ombro que havia levado o murro – Você tem um soquinho forte, hein? Doeu.
Ela riu e se dispôs a examinar meu ombro, dando uns tapinhas nele, de vez em quando.
– Pra uma garota? — perguntou – Bom... Os Canalizadores diziam que para canalizar os poderes de algum deus devia-se ter um corpo saudável, forte. Por causa disso eles nos mandavam treinar três vezes por semana. Eram treinos pesados. Logo no primeiro dia, via-se quem não estava apto a ser uma boa cobaia. Os treinos duravam quatro horas e nós tínhamos o resto do dia para nos recompormos. Mesmo assim, no outro dia ainda continuávamos roxos e doloridos.
– Nossa – falei – Pelo menos isso serviu para alguma coisa. Vou pensar duas vezes antes de fazer alguma besteira, se tiver você por perto.
Brisa não falou nada nem riu. Ficou calada com um olhar aparentemente desagradável. Apenas abriu a boca para falar quando terminou de me examinar.
– Boa notícia: não quebrei nenhum osso seu.
– Ótimo – falei – Agora só temos que arrumar um lugar para dormir.
Já estava bem escuro e só conseguíamos enxergar por causa da luz de Brisa. Saímos para procurar algum lugar bom para nos escondermos. Após muita busca, acabamos encontrando um velho porão praticamente enterrado abaixo das ruínas de uma casa. Removemos algumas das pedras dali e abrimos um buraco grande o suficiente para podermos entrar. Ao chegar lá embaixo descobrimos que era um cômodo pequeno e escuro, porém seguro. O teto era baixo para mim, mas para Brisa, era do tamanho ideal. Tinha vários móveis velhos – sofás, estantes, cadeiras, mesas e aparelhos eletrônicos quebrados — e quinquilharias por lá; tudo coberto por muita poeira. Havia um banheirinho pequeno em um dos cantos que, incrivelmente, ainda tinha água. Contudo, preferimos não usá-la, pois a radiação poderia ter sido tirada do ar, mas acreditávamos que poucas pessoas tinham se lembrado da água. Subimos novamente e usamos as várias pedras para cobrir a entrada que havíamos feito.
Ao descermos novamente, guardamos os Auroras em um armário encardido ao lado de um pequeno sofá velho e tiramos comidas das mochilas. Enquanto matávamos a fome, eu contava a Brisa sobre minha visão. Ela ouviu tudo atentamente e parecia que, a cada palavra, um peso era posto sobre seus ombros e ela se curvava. Quando terminei meu relato, Brisa estava tremendo.
– É uma história interessante, não é? — ela perguntou, talvez tentando puxar assunto para ficar mais relaxada.
Balancei a cabeça, concordando. Ela ainda não havia parado de tremer, então percebi o quão burro eu estava sendo. Ela era uma escolhida de Apolo, estava acostumada com o calor e era bastante sensível ao frio. Já eu podia aguentar temperaturas baixas por algum período de tempo. Iria demorar vários minutos para que eu sentisse frio de verdade.
– Você está com frio – falei – Espere um pouco.
Peguei minha mochila e tirei de lá um aparelhinho achatado e circular — um regulador de temperatura. Coloquei-o no chão e apertei um único botão. Logo todo o porão estava em uma temperatura agradável e Brisa parara de tremer.
Estava tudo muito quieto, e eu me sentia incomodado, constrangido. Queria puxar assunto, mas não sabia o que falar. Não tinha tanta intimidade ou confiança para perguntar sobre a família de Brisa ou seus amigos, não me sentia a vontade em fazê-la lembrar de seu passado como cobaia. Então, minha única alternativa era perguntar sobre seus poderes e habilidades.
– Ah... — eu não sabia como começar – Eu estava aqui pensando nos... em quais... em quais podem ser os seus poderes...
Brisa me encarou por um momento, séria. Parecia estar analisando cada osso, cada nervo, cada célula do meu corpo. Parecia que ela poderia pular no meu pescoço a qualquer momento, mas procurei me manter calmo. Sustentei seu olhar por longos minutos até que ela simplesmente sorriu. Um sorriso sarcástico e desafiador. Como se ela dissesse que descobrir quais eram seus poderes era uma árdua tarefa.
– Bem... — ela finalmente disse – Apolo é uma divindade que abrange vários quesitos. A verdade, a música, a cura, do equilíbrio, da razão. E até o próprio Sol. Ele é um dos deuses mais amados da atualidade. E também um dos mais poderosos. Ele não apadrinha as pessoas tão facilmente, por isso sou rara.
– Tá bom – interrompi, rindo – Pode parar de se gabar e comece a falar sobre o que realmente interessa.
– Certo, certo. Bom, Apolo é o deus da verdade. Sendo assim, eu consigo saber quando alguém está mentindo ou não. Antes que você pergunte como, eu não sei. É como se eu lesse os pensamentos da pessoa. Mas se for uma mentira guardada há muito tempo ou uma bem ruim, como esconder que assassinou alguém, eu simplesmente não aguento ficar perto. Sinto muita dor.
– Isso acontece com frequência? — perguntei.
– Não. Hoje em dia, não. Mas, quando eu era uma cobaia, acontecia sempre. Muita gente morreu nas mãos dos canalizadores. Muita mesmo. Mas eles não contavam para as cobaias para não assustá-las.
– Devia ser horrível — parecia que Brisa não se importava em falar de seu passado. Muito pelo contrário. Era como se ela se orgulhasse do fato de ter conseguido sobreviver e fugir das garras dos Canalizadores.
– E era – Brisa puxou uma mecha do cabelo para trás da orelha – Foi por causa disso que eu quase não canalizei poder algum. Certo. Continuando... Apolo também é deus da razão e do equilíbrio. Isso significa que estou quase sempre sã na questão mental e posso fazer pessoas retomarem suas mentes.
– Já aconteceu de você precisar fazer isso?
Brisa balançou a cabeça dizendo que sim.
– Muitas outras cobaias acabavam loucas por conta dos experimentos feitos e ficavam sensíveis, com medo de praticamente tudo, até da comida. Isso os enfraquecia e eles acabavam morrendo. Quando os Canalizadores descobriram o que eu era capaz de fazer, passaram a colocar essas pessoas para dormir no meu dormitório. Mas ajudá-las não era fácil. Geralmente eram muito sensíveis ao barulho e tinham medo de tudo, então eu tinha que fazer amizade com eles ou elas e só depois começar a ajudá-las. Na maioria das vezes levava uns três dias, uma semana no máximo.
Brisa ficou calada por um tempo. Acredito que ela pensava nos maus momentos que havia passado enquanto ajudava as cobaias enlouquecidas. Após um longo tempo, ela recomeçou a falar.
– Posso manipular a luminosidade, me proteger com a luz, aumentar a temperatura ambiente e o sol aumenta a minha energia e precisão nas horas em que preciso. Sendo o deus da cura, Apolo também permite que eu faça coisas parecidas com o que fiz com você há alguns dias atrás. Eu também tenho o dom da profecia, mas esse ainda estou praticando. O E-view também é um dom dado por Apolo, porém separadamente. Qualquer pessoa pode recebê-lo. E... há outra habilidade minha – ela hesitou por um momento e, depois, sorriu tímidamente – Música.
– Música? — indaguei.
– Sim – ela respondeu – Eu posso fazer música com praticamente qualquer coisa e para qualquer fim.
– Como assim “para qualquer fim”?
– Posso fazer músicas para as pessoas se acalmarem ou se irritarem. Para que entrem em transe ou saiam dele. Para que sintam ou não. Para que tenham visões. Para que durmam ou não – ela falava com um certo mistério na voz.
Pensei por um momento. Eu estava completamente esgotado, minhas pálpebras caiam e minha visão estava ficando turva. Um de nós teria que vigiar para o caso de algo acontecer e o outro estar dormindo. Então pensei que não seria nada mal um cochilo rápido.
– Ah... Brisa – falei – Eu estou realmente morrendo de sono, e acho que devíamos dormir em turnos. Será que você poderia ficar de vigia primeiro?
– Claro – ela disse. Depois que ajeitei meu pequeno local de descanso, ela perguntou – Que tal uma ajuda para dormir?
– Não seria nada mal – respondi.
Assim que parei de falar, ouvi um assobio suave e baixo. Era uma música lenta e parecia antiga. Ela me deixava confortável, leve e sonolento. Achei que nunca mais ia querer acordar em minha vida. A melodia rica da música me acompanhou até que eu pegasse no sono e também durante meus sonhos.
Porém, quando acordei, estava vivendo um pesadelo.
Brisa gritava desesperadamente e algo com a forma de uma pessoa voava e tremulava acima dela de um modo fantasmagórico e assustador.
Fale com o autor