Contos de Europa
7 Brisa
Notas iniciais
A noite havia sido bem normal para mim. Eu não tive nenhuma dificuldade para dormir, apesar de tudo o que poderia acontecer no dia seguinte. Acho que eu estava segura pelo fato de ter Cássio para me ajudar, mas eu também tinha convicção de que tudo iria dar certo.
No dia em que iríamos fugir, eu acordei cedo. Bem cedo. O fato de eu ter conseguido dormir não significava que eu não estava ansiosa. Eu também não havia me adiantado e arrumado as coisas durante a noite, então teria que arrumá-las cedo, antes de ir. Peguei minha mochila e vi que ela já estava desgastada demais e não iria aguentar, se a viagem durasse muito tempo. Sendo assim, vesti minha capa verde, peguei meu arco e uma adaga, desci de meu esconderijo no antigo prédio e comecei a andar pela Floresta em busca de material para fazer uma nova mochila.
Ainda estava um pouco escuro e uma névoa densa pairava por toda a Floresta. Também estava frio, então me enrolei mais em minha capa e passei a emitir luz para me esquentar – não muita, pois não queria gastar energia demais. Depois de andar, andar e andar, percebi que estava na mesma clareira em que havia conhecido Cássio. Ela estava da mesma maneira que a havíamos deixado naquele dia. Vidro quebrado espalhado pelo chão, madeiras infestadas de cupins, plantas que cresciam em todos os lugares. A única diferença era que as paredes da velha casa que estava lá haviam caído e agora escombros se espalhavam por todo canto. Aquilo não me ajudaria com muita coisa, então fui andando.
Porém, antes de sair da clareira, avistei algo muito familiar. Parecia um animal grande, mais de dois metros de comprimento, tinha o pelo escuro e nojento, e exalava um cheiro não muito agradável. Cobri o nariz com a mão e me aproximei para descobrir o que era aquela coisa. Eu já estava a, mais ou menos, um metro e meio de distância daquilo quando me dei conta do óbvio. Era o ghoul que Cássio havia matado. Ainda com a mão cobrindo o nariz, andei em torno do monstro e o avaliei. Não estava em estado de decomposição – ainda. Ghouls eram resistentes quanto a isso. Demorava pelo menos uma semana para que eles começassem a se decompor, isso porque a matéria que compunha seus corpos não era desse mundo, e os seres decompositores demoravam um tempo maior para reconhecê-la e destruí-la. Até nisso aqueles seres eram abomináveis.
Virei-me para ir embora, mas não fui. Por quê? Porque, em minha mente, houve uma luz. Sabe aquelas lâmpadazinhas que aparecem nos quadrinhos, – sim, eles ainda existem em Europa — quando os personagens têm ideias? Bom, era exatamente assim que eu me via: uma personagem baixinha de história em quadrinhos que tem uma lâmpada acima da cabeça porque descobre uma maneira um pouco fora do comum para fazer uma nova mochila. Comecei a rir comigo mesma, pois a ideia não era ruim. Muito pelo contrário, era realmente boa, mas talvez fosse perigosa.
Puxei minha adaga e a encarei. Pedi aos deuses que me ajudassem. Eu queria arrancar o couro do ghoul, mas duvidava que seria fácil. Eu não conhecia as – talvez devastadoras – propriedades do sangue daquelas bestas. Poderia ser tão venenoso ao ponto de, quando em contato com a pele, corroê-la. Ou apenas cheirá-lo poderia ser letal. Mas eu não tinha escolha. Dali a algumas horas, Cássio estaria em meu abrigo para me buscar e nós podermos partir. Era aquilo, ou minha velha mochila desgastada.
Usei minha luz para envolver e proteger minhas mãos e usei um pouco de cera de abelhas, que havia achado em uma colmeia vazia, para cobrir o nariz. Então, só assim comecei a tirar o couro do bicho. Foi até fácil e, além do mais, eu não precisaria de todo o couro. Apenas o suficiente para fazer uma boa mochila. Também coletei um pouco do sangue dele, com cuidado e usando uma garrafinha que sempre levava comigo, pois poderia servir para alguma coisa. Então, peguei o que havia tirado e voltei para o abrigo.
Lá, descobri que não seria preciso curtir o couro, pois o do ghoul já estava praticamente bom para confeccionar qualquer coisa. Essa era, pelo menos, uma vantagem daqueles monstros. Rapidamente, usando as habilidades de Vulcano, fiz uma mochila de tamanho médio, bastante resistente e escura, por causa da cor do couro. Ela tinha muitos bolsos, que eram bem grandes e serviriam para guardar algumas armas e suprimentos. Feita a bolsa, passei a guardar tudo o que precisaria para a fuga: roupas, capas, comida, armas. Sem esquecer do sangue de ghoul.
Eu tinha acabado de arrumar tudo o que seria preciso, quando ouvi Cássio chamar.
– Brisa! — ele gritou – Está aí?
– Sim! — respondi.
Fui até a varanda e me inclinei para vê-lo lá embaixo. Entrei novamente e peguei minha nova mochila com as coisas que precisaria, e dei uma olhada geral para me certificar de que não havia esquecido nada. Eu ficaria com saudades daquele abrigo. Mesmo tendo sido minha casa por pouco tempo, eu havia gostado de ficar ali. Mas não era tempo para lamentações. Dei adeus ao local – sim, eu fiz isso – e voltei à varanda. Pedi para que Cássio se afastasse um pouco e então pulei sobre a grade, aterrissando — modéstia à parte – lindamente e levantando um pouco de poeira. Sacodi a terra dos cabelos e olhei para Cássio enquanto sorria.
– Oi – falei.
– Oi – ele disse. Segurava uma mochila um pouco maior que a minha e usava roupas escuras, com o mesmo sobretudo que estava usando quando nos conhecemos, e um cinto onde estavam suas facas de cabo preto – Está pronta?
– Sim. Quando partimos? — perguntei.
– Daqui a pouco – respondeu – Primeiro, tenho que te falar umas coisas.
Nos sentamos em umas rochas que haviam ali por perto e ele começou a falar sobre a conversa com a mãe. Contou sobre o que as pessoas achavam, a possibilidade de guerra, a ajuda das outras cidades. Eu não estava surpresa, já sabia de muita coisa sobre aquilo. Cássio ficou intrigado com a minha reação.
– Eu pensei que você ficaria assustada... — ele murmurou.
Eu sorri. Era engraçado quando Cássio falava baixo, porque era como se ele estivesse pensando alto, e não falando, de tão baixo que seu sussurro saia. Ele olhou para mim e me encarou. Rapidamente, parei de rir.
– Eu já sabia disso, em partes. Passei por algumas cidades antes de chegar aqui, fui em alguns lugares para me informar, ouvi coisas. Por isso não me assustei. Mas... eu ainda tenho medo.
Ficamos calados por algum tempo e não olhávamos um para o outro. Estávamos presos em nossos próprios pensamentos e dúvidas. Mas então eu quebrei o silêncio.
– Você tem mais alguma coisa para me falar?
Cássio deu um sorriso. Parecia que era uma notícia boa, sendo assim, sorri também. Ele foi tirando algo da bolsa, parecia com uma pequena mochilha, só que de metal. Franzi a testa quando ele tirou outro aparelho parecido e me entregou. Então, percebi que era um Aurora, um aparelho usado para voo. Era pequeno, com duas alças, tinha um buraco minúsculo e um teclado com números no topo e, nas laterais, era revestido com placas de energia solar. Arregalei os olhos e falei:
– Você quer voar. Inteligente. Vai despistar os Rastreadores... a não ser que eles também voem.
Cássio adorou ser chamado de inteligente. Tanto que seu peito inflou com o elogio. Tive que dar-lhe um tapa na cabeça para que ele parasse de parabenizar a si mesmo.
– Poderia me explicar como funciona? — perguntei assim que me desculpei pelo tapa. Eu não sabia como usar aquilo. Por ter ficado boa parte da minha vida presa, eu só ouvia falar dos ótimos aparelhos desenvolvidos ao longo do tempo.
– Claro – Cássio respondeu – Você coloca um fio de cabelo seu nesse buraquinho aqui e digita o dia e a hora do seu nascimento. Então, ele gera as asas.
– Interessante. — comentei.
– Bom, acho que, depois dessa explicação, já dá para irmos, certo? — perguntou ele.
– Claro... mas eu não estou muito segura de que vou saber usar essas asas...
– Vai sim, tenho certeza. Vamos. O fio de cabelo vai primeiro.
Arranquei um fio mas, na verdade, vieram três de vez. Coloquei um deles no buraquinho e digitei o dia e a hora do meu nascimento: catorze de dezembro às quinze horas e sete minutos.
Soltei o aparelho, quando ele começou a esquentar e sacodir. Queimei um pouco minhas mãos, mas não tinha importância. As asas já estavam ali.
Eram lindas. Tinham as cores do arco-íris, que mudavam com o movimento, e eram tão leves ao ponto de parecerem ser feitas de uma névoa colorida, que se dissiparia se fosse mudada de lugar. Não pareciam com as asas das fadinhas delicadas que víamos nos livros infantis. Eram reais, grandes e feitas exatamente para mim. Quanto ao formato, eram simétricas, mas o contorno mudava com o movimento, assim como as cores. Estendi a mão para tocá-las e percebi que eram sólidas e resistentes, ótimas para voar. Apaixonei-me por elas, naquele instante.
Estava tão entretida com minha nova aquisição, que só fui ver as asas de Cássio quando ele me cutucou para irmos embora. Eram tão bonitas quanto as minhas. Pareciam ser da cor do céu durante a madrugada, tinha pequeninas estrelas brilhantes e pareciam mais sólidas que as minhas, apesar de serem praticamente iguais nesse quesito.
– Vamos? — ele perguntou.
Fiz que sim com a cabeça e coloquei o aparelho nas costas, mas me perguntava como aquilo funcionava. Não precisei perguntar. Cássio esclareceu tudo.
– Tudo o que você precisa fazer é pegar bastante velocidade. Depois, dá impulso com os pés e salta. A parte difícil é saltar e girar.
– Girar? — perguntei.
– Sim – ele respondeu – Você precisa girar para pegar a luz do sol, que é o que faz esse treco funcionar, basicamente. Quanto mais luz, ou seja, mais energia, mais altura e velocidade.
Pensei por alguns segundos. Girar não era o problema, mas sim girar e pular ao mesmo tempo. Está certo que as modificações genéticas feitas há muito tempo ajudariam nisso, mas era algo novo para mim. Sendo assim, pedi para que Cássio fizesse primeiro e depois eu o acompanharia. Ele aceitou, pegou a mochila e começou a correr ao longo da Floresta. Eu ia perdê-lo de vista, então peguei minha mochila e o segui. Ele corria cada vez mais rápido, e eu também. Continuei seguindo-o até que ele deu um pulo seguido de um giro e se levantou no ar.
Tive poucos segundos para pensar no que fazer, mas sabia que não podia parar de correr. Continuei ganhando velocidade e, quando cheguei no mesmo ponto em que Cássio havia saltado, juntei toda a minha energia em minhas pernas e pés, cruzei-os, e girei enquanto saltava, como uma bailarina. Logo, eu estava voando.
– Muito bem, Brisa – Cássio falou atrás de mim. Ele estava sorrindo e seus olhos estavam semicerrados por conta do sol forte – Vamos?
– Vamos. — falei.
– Ah, mais uma coisa: você deve girar de vez em quando, para que o Aurora absorva mais energia – ele explicou.
– O.k. — respondi.
Então, voando com um aparelho esquisito chamado Aurora, segurando mochilas com comida, veneno e armas, eu e Cássio partimos de Égia para que eu assumisse o posto que me havia sido dado e restaurar a paz de Europa de uma vez por todas.
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