Contos da Seleção - Parte Dois

15 O Chefe da Guarda - Capítulo 5


Shae

Cormier se levantou, batendo a faca na taça. Ainda estava pensando na tarde que passáramos juntos na biblioteca. Não lêramos, óbvio, mas fora divertido passear pelos títulos, brincar com eles e nos beijar sob eles. Depois na outra tarde, quando ele me pedira para tocar piano para ele e descansara as mãos sobre a minha cintura. E pensava na depois dessa, quando fomos até a torre mais alta ver o nascer do sol.

Eu me sentia montada em uma pequena nuvem cor de rosa quando olhei para ele para saber o que tinha a dizer.

–Eu gostaria de chamar a atenção de todos para um comunicado importante. – A rainha Daphne e o rei Fredrick trocaram um olhar confuso. Os outros convidados desviaram o olhar para meu príncipe francês. – Agora que os acordos foram todos assinados, há algo muito urgente que preciso anunciar.

Não consegui imaginar o que poderia ser, mas continuei olhando para ele, meio boba.

–Princesa Shae. Os últimos dias têm sido incríveis. – Ele olhou direto para mim e me senti como se fosse derreter sob os olhos azuis escuros dele. – Os melhores, ouso dizer.

–Ah, você.

Respondi, revirando os olhos. Tinha certeza de que estava corando. Comecei a me sentir incomodada com toda a atenção. Porque ele chamara toda aquela atenção para aquilo?

–Eu tenho pensado muito em um assunto importante e que não é nada fácil de se ponderar sobre. E embora eu ache que muitos vão me julgar tolo, eu não sou. Tenho certeza que estou fazendo o que muitos jamais teriam coragem.

Uni as sobrancelhas, imaginando sobre o que ele estava falando. Cruzei as mãos em uma prece para que ele não dissesse nada midiático. Seus olhos se fixaram em mim.

–Eu decidi... – Ele respirou fundo. – Abdicar do meu trono em favor do meu irmão, Giuseppe. – A rainha Daphne segurou-se a mesa com o olhar arregalado, como se temesse cair. O rei Fredrick passou a mão sobre a própria cabeça semi-calva e Giuseppe sorriu, animado. – E pedir a mão da princesa Shae, de Illéa, em casamento.

Meus ouvidos começaram a apitar. O burburinho da nobreza encheu meus ouvidos e me senti pequena e assustada e não consigo respirar. Já não estou corada. Na verdade, duvido que haja uma gota de sangue sequer em meu rosto. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, a rainha da França pegou seu filho pelo pulso e o arrastou para fora do salão.

–Shae, você está bem?

Perguntou meu pai, preocupado com a minha palidez repentina.

Balancei a cabeça.

–Acho que preciso vomitar.

Tristan

–Tristan! Tristan, acorde!

Charlie entrou no quarto, gritando. Pulei de pé, alcançando a arma, tentando engatilhá-la e manter os olhos abertos.

–O que foi?! – Perguntei, cambaleando de sono. – O castelo está pegando fogo?!

–Não, é pior!

Arregalei os olhos, pensando na família real, nas suas crianças e em Shae.

–Ora, diga, homem!

–Shae vai se casar!

Demorei a entender a notícia. Por um segundo, me pareceu bobo perto de um ataque lhe tirando a vida. Mas então a seriedade de tudo caiu sobre mim com um peso sufocante. Caí sentado na cama, desolado.

–C-como? Quando?

–Eu não sei! Aquele príncipe francês pediu a ela no meio do jantar!

Deixei a arma de lado e passei as mãos pelo cabelo. Que jeito péssimo de ser acordado. Tome aqui! Um bagel e más notícias! Olhei para minhas mãos vazias.

–E o que ela disse?

–Nada. A mãe dele o arrastou para fora. Panaca.

Respirou fundo. Havia esperança. Tempo.

–Biblioteca. Agora.