Contos da Seleção - Parte Dois

4 A Primogênita - Capítulo 4


Notas iniciais
Obrigada pelos reviews, Catnip e Believe! Vocês são umas lindas! Um capítulo um pouco maior de Shae crescida para vocês.

Shae



–Você tem certeza que devemos?

Terminei de esconder o cabelo vermelho sob o chapéu. Olhei para Dawney pelo espelho.

–Não. Nós não devemos, D. Mas nós queremos. E não é a primeira vez.

–Eu sei, mas... E o anúncio do seu pai? Ele deixou bem claro que você precisa estar lá sem falta.

–Essas coisas levam tempo. Voltaremos com tempo de sobra. E, além disso, é a festa pós prova da Academia Aérea de Illéa. Todo mundo vai estar lá.

–Mas não vão notar que você não está aqui?

–Relaxe, Shalom vai cobrir para nós.

–Estamos dependendo do seu irmão de 9 anos? Ah, ótimo. É hoje que eu perco meu emprego.

Puxei-a pelo pulso, revirando os olhos.

–Eu nunca deixaria isso acontecer. Vamos logo. Astra já preparou o carro de fuga.

Fomos até o fim do corredor e apertei o interruptor que conhecia como a palma da minha mão. A porta na parede se abriu para revelar os túneis dos criados. Dawney me seguiu, calada.

Batemos palmas, embora o artista não tivesse sido assim tão bom. Mas essa era a graça nas festas do Twenty Five. Todos estavam bêbados demais para saber diferenciar o bom do ruim. E cantando bem ou mal, pelo menos você era ouvido.

O 25 era o tipo de lugar que faria a realeza com quem eu convivia ter pesadelos sobre pesadelos com esse lugar. Era sujo, povoado e arriscado. Só na semana passada, um cara tinha sido esfaqueado e espancado por uma garrafa. Não necessariamente nessa ordem. Mas a música compensava. Às vezes.

O apresentador subiu ao palco, gritando sua frase clássica:

–Dois ou cinco?!

Celebridade ou mediano? Foi unânime. Um dois era muito difícil de alcançar.

–Cincoooo!

O clube gritou.

–Quem é o próximo?!

Dawney se levantou. Eu e Astra trocamos uma careta surpresa. Ela só podia estar muito bêbada. Dawney nunca sequer levantava a voz quando sóbria – exceto para mim, que precisava escutar algumas poucas e boas de vez em quando.

–Eu!

Ela correu até o palco sob palmas. Ela sussurrou à banda o que tinha me mente e correu até o microfone. A música começou a Dawney começou a cantar. A mãe tinha sido uma cinco e, embora ela não tivesse muito da velha senhora, a criada até que dava para o gasto. Era uma canção sensual e divertida, que nós já tínhamos cantarolado muito em nossas tardes juntas no quarto. Enquanto cantava, ela pegou outro microfone e atirou na minha direção. Agarrei-o e me levantei, subindo na mesa, juntando minha voz à dela.

Surpreso, o público gritou.

It’s gonna happen!

Cantei.

Happen sometime!

Respondeu Dawney.

Maybe this time, I’ll win!

Prolonguei a última palavra, sendo ajudada pelo baixo, que me acompanhou. Quando meu fôlego acabou, a plateia veio abaixo. Copos contra mesa, pés contra o chão.

Astra puxou minha calça, chamando minha atenção. Olhei para ela, atordoada com toda aquela atenção barulhenta. Ela apontou para uma televisão esquecida no canto do bar. O evento do meu pai! Eu tinha esquecido completamente!

–Vamos!

Chamou ela, puxando-me pelo pulso. Lutamos contra a multidão para sair do bar. Esbarrei em alguém na hora de sair e levantei os olhos, sorrindo envergonhada.

–Perdão.

Ajeitei a touca sobre o cabelo, sem ver o rosto de quem eu esbarrara, para evitar ser reconhecida e corri atrás da minha prima pelas ruas geladas de Angeles. Atrás de nós e através da porta lotada ouvidos a multidão gritar: Dois!



Eu e Astra nos esprememos nos nossos vestidos no caminho pelas passagens e saímos bem perto do salão. O guarda não disse nada. Só nos dirigiu um olhar cansado ao abrir a porta. Imaginei que minha mãe já tivesse descoberto a minha ausência.

–Isso foi loucura.

–Isso foi vida. E nós chegamos bem à tempo.

Apontei para o palanque onde meu pai subia, pedindo aos músicos uma pausa. Ele olhou diretamente para mim e, embora tivesse uma ponta de irritação no olhar, sorria.

–Senhoras. Senhores. Personalidades de Illéa e do mundo. Eu gostaria de chamar a atenção para um comunicado muito importante.

Todas as câmeras se viraram para ele e se aproximaram, filmando-o de todos os ângulos.

–Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a presença de todos e a audiência de todos que estão assistindo. Gostaria de agradecer à minha querida esposa que, como sempre, deu tudo de si para esse evento.

Minha mãe revirou os olhos, mas assentiu para as câmeras que se viraram para ela.

–Quando minha filha Shae tinha 5 anos de idade, ela disse à mãe que queria ser rainha. Ela ia até o meu gabinete enquanto eu trabalhava e se sentava na minha mesa, dando ordens a todos que entrassem na sala, eu incluído.

Todos riram, felizes por saberem que não eram apenas os próprios filhos que eram selvagens. Cruzei os braços, imaginando aonde aquilo iria.

–Mas como explicar à uma criança as regras da herança? Como explicar que ela não poderia herdar o direito de governar o país que ela tanto ama devido às leis inflexíveis anteriores à existência da nossa nação?

Troquei um olhar com Astra, que deu de ombros. Ao nosso redor, todos pareciam tão confusos quanto nós.

–E isso iniciou anos de pesquisa. Passados por documentos antigos, recuperados, partidos, queimados. Tudo nos levou um passo mais perto deste dia. – Suas mãos tremeram. Ele olhou na direção da minha mãe em busca de apoio e ela sorriu, incentivando-o a continuar. – Eu declaro que, a partir deste dia, as princesas primogênitas de Illéa podem assumir o poder do nosso país ao atingir a maioridade, independente de laços de matrimônio ou do número de herdeiros masculinos do rei e da rainha vigentes.

O silêncio foi tenso e pesado à medida que a notícia caía sobre todos. Meu pai engoliu em seco e olhou para mim, estendendo a mão para apontar onde eu estava ao lado de Astra.

–Senhoras e Senhores de Illéa, eu vos apresento sua nova futura governante, Shae Screave.

Todos aplaudiram. Minha cabeça girou.

Preciso de ar.

Onde é que você estava hoje?

Perguntou minha mãe, entrando no quarto enquanto Lorien soltava meu cabelo e o escovava antes que eu fosse para a cama. Dawney ainda não tinha voltado. Imaginei que ainda devia estar se divertindo.

–Na festa. Você me viu.

–Não se atreva a mentir para mim, Shae. Seu pai passou anos se preparando para isso e você quase não apareceu. Nós dissemos o quanto era importante que você fosse!

–Sempre é importante. Como é que eu ia saber que vocês iam me dar o país?

Ela suspirou e pousou a mão sobre o ombro de Lorien.

–Lorien, querida, pode ir. Eu e Shae precisamos conversar sério.

Ela assentiu e entregou a escova para minha mãe antes de sair. Mamãe assumiu a tarefa, escovando calmamente.

–Você não pode continuar saindo escondida. Qualquer coisa poderia acontecer com você.

–Eu só queria me divertir... Você podia quando tinha a minha idade.

–Eu tinha que trabalhar para poder comer. E eu não era a princesa herdeira. E nem sonhava em vir para Angeles. – Ela deixou a escova de lado, ajeitando meus cabelos com as mãos. – Eu sei que esse lugar é sufocante. Deus sabe como eu sei. Mas há males que vem para bem. Você entende, não é?

–Sim. – Encaro meu reflexo. Os olhos do pai. O cabelo da mãe. – Acho que sim.

–Chega de escapar então?

–Sim. Chega.

Ela beijou o topo da minha cabeça.

–E chega de usar o seu irmão como cobertura. Ele é péssimo.

Sorri, dando de ombros. Mamãe começou a sair, mas deteve-se com um sorriso.

–Dois ou cinco?

Convencida, ergui o queixo.

–Dois.

–É a minha menina.

Ela saiu do quarto, deixando-o silenciosos. Eu vou ser a rainha de Illéa. Senti um arrepio percorrer meu corpo todo.

Escorreguei pelos corrimãos da passagem até o fim da escada. Abri a porta, mergulhando na atmosfera agradável da sala comunal dos guardas.

–Sua majestade!

Gritou Doria, provocando-me!

–Meus meninos! – Fui até a mesa onde estavam todos amontoados. Era a quinta do baralho. Os novatos ganhavam folga na quinta e se juntavam para um pequeno campeonato. – O que está rolando?

Perguntei, me enfiando entre Sirius e Callaway.

–Você devia perguntar ao Tristan. Ele deve ter alguma novidade. – Disse Dorian, embaralhando as cartas com habilidade. – Está com aquela cara desde ontem a noite.

Tristan estava sentado no canto da mesa, encarando a madeira sem piscar. Parecia meio pálido. Senti uma ruga de preocupação surgir entre as minhas sobrancelhas.

–Tristan. – Levantei-me, tocando-lhe o ombro. – Tristan, acorde. – Ele piscou, levantando a cabeça. – Qual o problema? Parece que viu um fantasma.

–Um fantasma? – Ele bufou. – Pode bem ter sido. Num minuto ela estava lá e no outro não estava.

Um silêncio surpreso se espalhou pela mesa.

Será que meus ouvidos me enganam? – Dorian sentou-se na mesa. – O bravo Tristan está apaixonado?

–Eu nunca ouvi o filho do chefe suspirar de amor.

Provocou Sirius. Tristan se levantou e saiu de perto da mesa a passos pesados. Troquei um olhar com Charlie, que me seguiu quando fomos atrás de Tristan. Ele foi até o corredor e se enfiou em seu quarto. Eu e Charlie fomos atrás e fechamos a porta.

O quarto dos meninos era apertado, mas simpático. Charlie tinha um pôster da Academia Aérea de Illéa, cuja prova ele fazia todo ano, preso na parede. Na mesa de cabeceira, a foto dos pais: Aspen e Lucy. Tristan tinha algumas folhas secas penduradas e algumas fotos de casa, dos pais e da irmãzinha, Kiera.

Tristan sentou-se na sua cama, respirando com profundidade.

–Deixa esses caras para lá. Você sabe que eles são uns idiotas.

Disse Charlie, sentando-se de frente para ele, na sua própria cama.

–Mas eles têm razão numa coisa... – Eu disse, sentando-me ao lado de Tristan. –Você nunca se apaixonou antes. E eu sei porque eu já chutava o seu traseiro no berço. Quem é esse garota?

–Eu não sei. – Ele deu de ombros, sem levantar o rosto. – Eu nem tive a chance de dizer nada. Eu só a vi cantar e no segundo seguinte ela tinha sumido. Então ela esbarrou em mim e só deu tempo de ver seus olhos.

–E só precisou disso.

Disse Charlie, jogando uma bolinha de borracha para cima.

–Eu sei que não faz o menor sentido, mas eu não consigo parar de pensar nela. Naqueles dois segundos que ela olhou para mim... É como se eu a conhecesse a vida toda.

Eu e Charlie ficamos em silêncio, sem saber como reagir à intensidade de todo aquele sentimento repentino.

–Você tentou perguntar por ela?

Ele assentiu.

–Ela vai com as amigas de vez em quando. Não fala com mais ninguém. Chega cedo, sai cedo. Ninguém se lembra muito bem dela. Exatamente como um fantasma.

–Eu adoraria ajudar, mas estou proibida de sair.

Dei de ombros, com pena dele. Tristan balançou a cabeça.

–Tanto faz. Me deram horas extras esse mês e meu pai quer que eu o ajude com alguns assuntos da guarda. Não vou ter tempo de ficar bancando o caça fantasmas.

Eu e Charlie nos entreolhamos, sem saber o que fazer. Tristan deitou a cabeça no meu ombro e acariciei seus cabelos.

–Não se preocupe. Ela está aí fora. Em algum lugar.