Contos da Seleção - Parte Dois
5 A Primogênita - Capítulo 5
Notas iniciais
Shae
Ouvi um assobio alto do outro lado do corredor e revirei os olhos. Charlie e Tristan guardavam as portas do meu quarto e Tristan segurava o riso frente à sutileza de Charlie.
–Está maravilhosa, Vossa Majestade!
–Seu lixo insolente! – respondi, incorporando a voz enjoada com que Sylvia me ensinava e cumprimentar as realezas. Já era ruim quando eu era só princesa, mas agora eu precisava soar mais esnobe e mais melosa. – Como se atreve a falar com sua futura soberana desta maneira.
–Uau, S. Já conseguiram transformar você.
Sorri, encostando-me à porta entre os dois, levantando as pesadas saias para revelar as botas de combate. Tristan não conseguiu segurar o riso.
–Você pode tirar a garota da selvageria, mas não pode tirar a selvageria da garota.
–Estou convencido.
Assegurou Charlie, dando um soquinho em meu ombro. Suspirei, tirando um fio de cabelos ruivos da frente dos olhos.
–E como vai a busca pela garota misteriosa?
–Ela virou fumaça, Shae. Puf! E o pobre Tristan já está perdendo as esperanças. Olhe a carinha de cãozinho perdido dele.
Apesar do ar sombrio que tinha assumido com minha pergunta, ele sorriu e empurrou Charlie de leve. Sorri, mas ainda estava preocupada com Tristan. Fiquei na ponta dos pés para tocar na cabeça dos dois.
–São meus meninos. Tenho uma hora para almoçar. Querem ir me proteger nas cozinhas?
–Temos ordens estritas de não arranjar confusão com você.
Fiz uma careta, abrindo minhas portas.
–Eu nem queria mesmo.
Fechei a porta atrás de mim e uni as mãos à frente do corpo enquanto Dawney me recebia e anunciava o menu de hoje. Suas palavras me passaram longe.
Eu nem queria mesmo.
–Eu tenho mesmo que fazer isso?
–É a sua primeira entrevista desde o decreto. Ia acontecer cedo ou tarde. – Respondeu minha mãe, embora se apiedasse de mim com o olhar. – Não se preocupe. Vai dar tudo certo.
Suspirei, tirando um fio de cabelo dos olhos, nervosa.
–Poda ser uma revista ou um jornal. Só para começar. Precisava ser em rede nacional?
–Você nunca teve problema com as câmeras antes.
–Eu não ia ser rainha antes.
–Até parece que você não gosta de atenção.
Estava prestes à revidar quando Silvia entrou na antessala de forma esvoaçante, mandando ordens para todos os lados.
–Rainha America, por favor, é sua hora. Srta. Shae, ombros para trás, sorri. Quero ver você flutuando por aquele corredor.
Troquei um olhar apavorado com minha mãe e ela riu antes de beijar minha testa e ter as portas do salão abertas para ela.
As palmas diminuíram depois de algum tempo e eu sorri, sentindo-me mais confiante. Aquele era o meu elemento, princesa ou rainha.
–Princesa Shae! Você é a garota do momento! O reino todo está falando sobre você! Como é que você está se sentindo depois do decreto do seu pai?
–Surpresa, na verdade. Nunca imaginei nada parecido. Já estava conformada em ter que me casar com algum príncipe.
–Como príncipe Cormier, não é?
–Sem comentários.
Respondi e soube que estava corando. Gavril, a exemplo do resto da mídia, nunca se esquecera do que a imprensa gostava de chamar de “incidente do beijo francês” e sempre dava uma jeito de trazer Cormier à tona.
–Mas, de qualquer forma, acho que estou feliz. Já estive em toda parte e não encontrei nenhum lugar que eu seria capaz de amar como amo Illéa.
As palmas retornaram em aprovação à minha sinceridade. Eles sabiam. Sempre souberam. Eu era deles e, agora mais do que antes, eu sempre seria. Aquele povo era tudo pelo que eu sempre vivera.
–Tenho certeza de que a Srta. será uma ótima rainha.
–Ora, obrigada, mas espero que demore um longo tempo até meu pai decidir me dar algum susto assim.
Olhei para ele por cima do ombro e ele sorriu para mim.
–Sim, é o que esperamos também! Mas cá entre nós, o que você faria se assumisse hoje?
Sorri, tocando o queixo enquanto pensava. Provavelmente abriria os portões e daria uma festa para Angeles inteira. Mas eu tinha sido severamente instruída a não propor nada que Gavril pudesse sugerir acatar.
–Acho... Que eu sentaria naquela mesa enorme de mogno e colocaria os pés em cima, dando uma risada bem malvada.
O povo riu comigo. Sorri, vitoriosa. Nada mal.
–Isso sim é assustador. Mas voltando ao assunto... Agora que você não precisa mais se casar para ser rainha... Como vai ao coração?
Suspirei, mexendo nervosamente no cabelo.
–De certa forma, a lei me libertou para me casar como uma pessoa normal. Por amor à pessoa e não ao meu país. Por outro lado, também limitou minhas opções. Nada de primogênitos da realeza, Cormier incluído. O que me deixa o resto da realeza jovem, até porque não existem Seleções para futuros príncipes filhos de Illéa.
Gavril riu, ajeitando o cabelo.
–E você desejaria uma Seleção?
–Bom, toda menina desejaria um bando de meninos brigando por ela. Mas dá para imaginar todos aqueles homens tentando me conquistar? Se a competição entre garotas já é ferrenha, tenho certeza que seria letal entre garotos.
Rimos, assim como a plateia. Sorri para minha mãe, que me dirigiu um sinal de positivo com o polegar.
–É verdade, é verdade. Só podemos lhe desejar sorte.
–Obrigada.
–Por nada. Mas nos conte, como vai o treinamento de rainha?
–Achei que você tinha dito que eles esqueceriam Cormier.
Desabafei com Silvia, enquanto soltava o cabelo, de volta à antessala. A acessora escrevia com fúria na sua agenda.
–Eu disse provavelmente. Foi um escândalo, Shae, e as pessoas adoram isso. Gavril sabe disso.
–Qual é? Foi só uma vez.
–Exatamente. Seu único amor. Desde sempre. A mídia precisa das migalhas dela. E não acho que importe agora. Ele está fora dos limites para você. E falando em limites, é hora de dormir porque há muito a fazer amanhã.
Suspirei. Eu não sou uma criança!
–Certo. Vou só me despedir dos meus pais.
–Oi, mãe. Oi, pai. Só passei para dizer boa noite.
Mamãe se levantou da penteadeira e veio até mim para me dar um abraço e beijar minha testa. Papai se distraiu das fotos novas para me dirigir um sorriso cansado.
–Você foi ótima essa noite, princesa.
–É, acho que sim. Só queria que parassem de falar de Cormir.
–Eles vão parar. Não se preocupe.
Assegurou mamãe. Assentiu para ela, respirando fundo. Abracei meu pai e estava pronta para ir embora quando ele me segurou por alguns momentos a mais.
–Estou muito orgulhoso de você, minha querida.
–Obrigada, pai. Mas eu não fiz nada ainda.
–Ainda. – Ele beijou minha cabeça. – Você está destinada a coisas grandes. Eu sei.
Sorri para ele antes de me afastar.
–Ah, você pode dar uma olhada no seu irmão antes de ir deitar? Ele não quer que eu o ponha para dormir porque já é velho demais, mas tenho medo que ele não se cubra direito.
Assenti, revirando os olhos para a sua preocupação boba de mãe.
–Claro. Boa noite.
–Shalom? – Chamei baixinho, entreabrindo a porta. Ele estava deitado na cama, olhando para o teto. – Tudo bem?
Ele deu de ombros. Fui até ele, ajeitando as cobertas sobre ele e sentando-me no canto da cama.
–Qual o problema? Não consegue dormir?
Ele fez uma careta.
–Eu ia ser rei. Não você.
Suspirei, ajeitando seu cabelo.
–Acredite em mim, não é nada divertido. Só tem trabalho, trabalho e trabalho. Você vai se dar melhor como príncipe.
Sua expressão se suavizou.
–Posso ter uma Seleção mesmo assim? Eu quero conhecer meninas.
Ri, bagunçando seu cabelo.
–Claro que pode garanhão. Mas sou eu quem vou escolhê-las.
–Me mande umas bem bonitas!
Levantei-me para sair, mas Shalom segurou minha manga, impedindo-me de ir embora.
–Antes de ir... Você canta para mim? Que nem a mamãe?
–Ela pode fazer isso, sabe? Foi ela quem me mandou aqui.
Ele voltou a fazer uma careta e eu revirei os olhos.
–Certo. Certo. Eu canto. Mas você sabe que eu não sou tão boa quanto ela...
Tristan
As rondas noturnas eram sempre as mais tediosas.
Meu pai sempre dizia que, quando ele tinha a minha idade e era novo no castelo, ainda na época que minha mãe era uma Selecionada, as noturnas eram as mais emocionantes, as mais tensas, em que qualquer sombra poderia ser um dos rebeldes.
Mas hoje em dia, a única emoção era quando havia uma briga de rua do outro lado do muro e podíamos ouvir as vozes bêbadas xingarem.
Mudei de posição, sentindo o cansaço tomar conta de mim. Estivera nas últimas noites de folga rodando a cidade e os bares, procurando aquela voz e aqueles olhos do Twenty Five. Era estúpido e os outros guardas não perdiam uma oportunidade de dizê-lo, mas eu mesmo não conseguia entender. Não era do meu feitio ficar correndo atrás de mulheres. Mas ela era diferente, eu podia sentir. Ela não parecia desconhecida.
Ouvi um sussurro de vozes acima de mim, em uma das janelas. Uma melodia suave começou a soar e comecei a fechar os olhos, embalado pela música, quando, de repente, arregalei-os.
A voz. Era a voz ela.
Afastei-me da parede e contei as janelas do quarto do rei até o quarto de Shae até o quarto de... Shalom? O que ela estaria fazendo lá?
Ela está no castelo. Pensei, atordoado. Estou mais perto dela do que nunca.
–Oi, meninos. O que estão aprontando?
Shae chegou, com um dos seus espalhafatosos vestidos novos de futura rainha e os cabelos desconfortavelmente presos em uma trança ao redor da cabeça como uma coroa. Estávamos de serviço do lado de fora do gabinete do rei, eu e Charlie mais uma ver. Meu pai costumava me escalar com Charlie porque eu era um dos únicos com paciência para o sempre radiante Ledger.
–Ah, você sabe. Protegendo a realeza uma porta de cada vez.
–Ah, eu vejo. Tristan está com uma carinha melhor hoje.
Sorri para ela, assentindo.
–Progredi na busca.
–Ah, isso é ótimo! Queria mesmo poder ajudar, mas estou presa em queen duty.
–Sem problemas. Trist aqui está muito perto.
Shae sorriu, mas havia algo de tristeza por trás do verde familiar dos seus olhos. Ela abaixou a cabeça e assentiu.
–Que bom. Espero que vocês a encontrem. Hum... Eu preciso ir. Meu pai está esperando.
Chalie abriu a porta para ela e soltou uma interjeição de curiosidade ao fechá-la.
–O que é que foi?
–Ela não está bem.
–É, eu notei também.
–Acho que essa coisa toda de rainha está mexendo com ela.
–Acho que mexeria com qualquer um. Não é só festa como todos pensam. É muito trabalho duro e Shae sempre acha que tem que ser perfeita para o pai dela.
Charlie assentiu e suspirou.
–Eu sinto falta dela. No salão comunal.
–É, eu também. Mas ordens são ordens.
Ficamos calados, cada um perdido nos próprios pensamentos.
Fale com o autor