Contos da Cidade Central [EM PAUSA]
1 Capítulo 1 - Visão de Mundo
Notas iniciais
Olá, você aí! Me disseram que vocês estão à procura de uma boa história prá passar o tempo! Já que estão por aqui, vou contar a vocês um pouco sobre a minha tribulada vida.
Eu era uma menina sapeca: corria, brincava, brigava, subia em árvores e sempre voltava para casa emporcalhada de tão suja. Meus cabelos sempre trançados já naquela época eram dourados e o Tio dizia que meus olhos da cor do céu, não me deixavam mentir. Falando no Tio, eu sempre morei com ele... Nunca tive pai ou mãe e muito menos irmãos. Eram sempre o velho Tio, os animais da fazenda e, por vezes, uma das rameiras que o Tio trazia para passar a noite em casa. Eu morava com ele em uma das grandes fazendas de uma cidadezinha ironicamente batizada de “Sete Fazenda”. A ironia vem do fato de que a cidade em si, era um vilarejo minúsculo, porém era cercado por sete enormes fazendas, que deu origem ao nome, grafado errado na placa. Quando criança, eu tinha muitas amizades com as crianças da vizinhança que regulavam de idade comigo, mas diferente das demais meninas que não tinham o direito de saber ler ou escrever, o Tio sempre fez questão que eu desenvolvesse a inteligência. Frequentei a Escola Primária de Sete Fazenda, mas a escola secundária ficava em outra cidade, muito distante para nós, então meus estudos pararam no 4º ano do primário. Mas o Tio sempre pegava no meu pé para eu continuar lendo, escrevendo e praticando aritmética. Ele sempre disse que se eu não estudasse, ia acabar casada com um cara mais velho que ele, presa dentro de uma casa servindo de empregada e parindo um filho por ano. Eu nunca quis isso. Nem casar, nem ficar presa, mas queria ir embora. Tinha vontade de conhecer a cidade grande. O Tio sempre me contava história da expulsão e expurgo dos seres mágicos. Eu sempre via, quando ia vender as coisas da fazenda na cidade, os rapazes com seus chapéus altos, aquelas máscaras protetoras redondas, cheias de enfeites e alguns deles usam uma coisa estranha no rosto, como um arame torcido com vidros redondos que o Tio disse que se chama “óculos”. E as mulheres... As mulheres usavam aquelas saias curtíssimas na frente e volumosas na parte de trás, botas altas e cinta ligas, corpetes que sufocam e marcam o corpo com perfeição. Eu queria ser como elas, queria me vestir como elas, queria ter a elegância e a beleza delas. O Tio era contra. Ele dizia que lá não era lugar para uma menina como eu e que aquelas moças não passavam de rameiras da cidade grande e eu acatava suas decisões, como a boa “fia” que eu era. O tempo foi passando e eu fui vendo as meninas que brincavam comigo sendo forçadas a casar com um comerciante disso ou daquilo e os meninos sendo enviados para a guerra que já acontecia há alguns anos no norte do território.
Meus dias, se resumiam a levantar antes do sol, tomar café, trabalhar na plantação e com as criações até a hora do almoço, comer, voltar a trabalhar até o pôr-do-sol, tomar banho, jantar, estudar ou conversar ou jogar baralho e ir dormir. Aos 13 anos, quando o sangue da lua veio pela primeira vez, eu bati o pé e o Tio concordou em me deixar mudar meu quarto para a parte de cima do celeiro, por que afinal de contas, eu estava crescendo e queria um pouquinho de privacidade, e já estava ficando incomodada com as companhias noturnas do Tio e das vezes que ele ia para a cidade beber e acabava voltando bêbado. Por sorte, o seu cavalo era ensinado a voltar para casa sozinho, com ele já adormecido sobre a sela. O Tio conseguiu me manter em casa até os meus 16 anos, afinal o que eu vivia já não era o suficiente: eu queria mais, ampliar meu horizonte, tirar a prova de que o mundo era maior do que os 45 alqueires. No dia do meu aniversário, havia geado durante a noite e uma camada fina de gelo deixava a grama quebradiça a cada passo que eu dava em direção à casa principal. Lá estava o Tio, com o café pronto, fumando seu cachimbo e me esperando:
– Senta, fia. Vamo prosiá antes d’ocê saí. – Ele me disse com aqueles olhos azuis leitosos olhando para mim de um jeito que parecia enxergar minha alma e adivinhar meus pensamentos.
– Dia, Tio. – Eu respondi, já servindo as nossas xícaras de ágate com café e leite recém-ordenhado.
– Fia, eu sabia que uma hora ocê ia querê í imbora daqui. Era só questão de tempo. Ocê é igurzinha sua mãe, a minha irmã. – Fez uma pausa para bicar a xícara de café e fazer uma careta. Enquanto ele colocava açúcar suficiente para adoçar a garrafa toda, tomei a palavra:
– Minha mãe...? Ocê nunca falô dela, Tio...
– Por que num é da sua conta! Agora, isso aqui é. – Ele pegou o saco de moedas do banquinho tripé ao lado. – Tem 50 peças de ouro aqui prá sua viage. Era o dote do seu casamento, mas sei que se depende d’ocê, home nenhum chega perto. – Tinha um certo orgulho no tom de voz. – Eu ainda vivo das cabeça de gado e das cabra e das galinha que tem aqui, mas ocê vai pricisá trabaiá e eu sei que preguiça ocê num tem.
– Num tenho mêmo. O sinhor me insino direito como se uma boa pessoa. – Eu disse, mimando o velho enquanto finalizava meu café.
– Tem mais uma coisa procê, fia. Fica aí que eu vô busca. – Ele saiu em direção ao quarto antes ocupado por mim e trouxe um belo estojo de camurça vermelha enfeitado com detalhes dourados. – Isso aqui eu ganhei no poker semana passada. – Ele abriu a maleta e lá estava uma belíssima pistola bucaneira com balas e pólvora. – Eu insinei ocê atirá e ocê é boa nisso, intão, se ocê pricisá si protege, já vai sabe como.
– Brigada, Tio! – Eu disse, contendo as lágrimas. O Tio nunca gostou de choro. – Tenho que i, Tio. Já preparei a Véia, vou com ela.
– Tem certeza, minina? Não pudia pegar um cavalo mais novo que a Véia?
– Eu aprendi montar nela, Tio! Sempre cavalguei nela. Vô indo!
Levantamos da mesa e ele me acompanhou até fora da casa, onde a égua malhada de cinza já estava selada e pronta para a montaria. Antes de eu montar, o Tio me disse:
– Essa época do ano é comum as caravana de comércio vim das outra cidade prá capitar. Se incontrá arguma pelo caminho, segue junto a ela.
– Certo, Tio. Brigada por avisá.
Subi na sela e o Tio pegou minha mão:
– Vai bem, Fia. Sabe que se pricisá, a fazenda é sua mêmo. Pode vortá. – Havia lágrimas nos olhos leitosos.
– Pode dexá, Tio. Amo ocê. – Apertei a mão do velho que me criou, tentando passar naquele gesto tudo que eu estava sentindo naquela hora.
– Vai logo, caraio! O sor já tá nascendo! – Ele retribuiu soltando a mão de forma brusca.
Só quando comecei a cavalgar é que veio a resposta:
– Também amo ocê, minha fia.
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