Contos da Cidade Central [EM PAUSA]
2 Capítulo 2 - Liberdade
Notas iniciais
Sair da fazenda para mim sempre foi algo que me deixava ansiosa: mesmo que fosse para a vila apenas para vender os produtos do nosso cultivo. Como o espaço da vila era pequeno, todos me conheciam. Os “bons dias” iam me saudando por onde quer que eu passasse. Na frente da taverna/bordel onde o Tio costumava vir beber e conseguir companhia, o dono (e algumas moças familiares a mim) acenaram e gritavam um “boa sorte” e outras um “volte logo”. No armazém, onde o Tio comprava nossos produtos de higiene, o dono que costumava comprar de nós leite de cabra e ovos veio em minha direção:
– Dia, Jessy. Bão?
– Dia, Harry. Bão i ocê?
– Bão tamém. Vai mêmo?
– Tô indo já!
– Sei. Mais logo ocê vorta. A vida lá é difício. E seu tio mimou demais ocê. Ocê num vai sabe se virá lá fora.
Eu sorri e respondi de forma áspera:
– Eu fui criada por um lutador, intão sou uma lutadora tamém. Passe bem, Harry.
Esporei a Véia e segui viagem. A Cidade Central, como é chamada a Capital do Reino fica a 5 dias de cavalgada. Mas contando que eu não tinha como fazer paradas em estalagem e muito menos trocar de cavalo, eu sabia que levaria no mínimo uma semana. Eu tinha suprimentos básicos, um saco de dormir quase novo, água e aveia para a alimentação da Véia... Enfim, eu estava pronta e determinada a chegar na capital.
Os três primeiros dias de viagem seguiram sem grandes rumores. Exceto a noite, quando eu via o movimento de coisas pequenas perambulando por aí, que eu não sabia muito bem o que era. Essas criaturinhas barulhentas sempre fugiam ao raiar do dia, sem deixar rastros de que estiveram lá. Na terceira noite de viagem, eu avistei uma daquelas caravanas mercantes que o Tio havia comentado comigo antes da minha partida. Não sei se foi devido a minha criação sem muito contato com outras pessoas, ou o fato de eu não ser muito boa em socializar, mas não fui capaz de chegar até a caravana. Montei meu acampamento numa certa distância deles. Podia ouvir gritos, risadas e sentir um cheiro maravilhoso de ensopado de frango com legumes que vinha de uma das maiores tendas. Acendi minha pequena fogueira, esquentei meu pão, derreti o queijo e quando estava quase pronto, me dei conta de que estava sendo observada. Quatro rapazes, aparentando mais ou menos a minha idade, estavam descaradamente me olhando e cochichando entre eles. Senti meu rosto corar e fingi, com todas as minhas forças que não era comigo. Parei de dar atenção aos meu observadores quando meu queijo já estava no ponto e eu havia acabado de começar a comer, percebi um deles sentando-se ao meu lado. Era o mais alto, e provavelmente o mais velho dos quatro. Tinha o corpo largo e forte e cabelos cor de trigo maduro e os olhos negros como noite sem lua. Ele abriu um sorriso largo de dentes amarelos e disse:
– Noite, moça!
Eu o olhei apreensiva e voltei a encarar com muito interesse o queijo derretido do meu pão que estava borrachento por ter esfriado. Mas ele não desistiu:
– Qual é a sua graça? – Como vi que não ia desistir, respondi:
– Jessy...
– Óia só! Ela fala! – Disse ela numa estrondosa gargalhada de trovão – Eu sou o Beau! A sinhorita tá indo assim, sozinha, prá onde?
– Vou prá Cidade Central. – Eu respondi, mordendo meu pão já frio.
– Mais sozinha? Ocê é de lá? – Perguntou ele, confuso.
– Não, é minha primera veiz fora de casa. Vou tentá uma coisa mió por lá.
– Bom, nossa caravana vai prá lá, tamém. Vem com a gente! Assim ocê pode comê cum nóis tamém. A Mãe tá fazendo ensopado de frango!
– Não, brigada. Tô bem aqui. – Eu disse de forma mecânica.
– Pare! Vamo lá! Nóis trata da sua égua tamém!
Olhei para a Véia, coitada, tão cansada. E me decidi:
– Tá bão. Eu vô co’cê.
Juntei minhas coisas, apaguei a fogueira e, enquanto isso, Beau foi trazendo a Véia, com um cuidado de quem já é acostumado a lidar com animais. Quando fomos nos aproximando, vi que os outros três rapazes que me observavam ainda estavam lá. Dois deles eram gêmeos: cabelos castanhos cor de mel e olhos esverdeados. Idênticos até nos caninos pontudos dos sorrisos fáceis. Ambos vestiam camisas simples xadrez: um azul o outro, vermelho e calças marrons de brim resistente. O terceiro rapaz, era mais baixo que os gêmeos e mais forte, tinha os cabelos num tom de loiro cinzento e olhos castanhos claros quase da mesma cor da terra da lavoura quando chove. Usava um macacão sem camisa por baixo, exibindo peito largo e braços fortes e cruzados de quem trabalha pesado. Ele não sorria, mas olhava atentamente para cada detalhe da égua, das minhas coisas e de mim. O gêmeo da direita, vestindo o xadrez vermelho, se adiantou, fazendo uma reverência desnecessária e exagerada:
– Boa noite, moça! Eu sou o Hugo! E foi minha ideia mandá chamá ocê! – Imediatamente o outro gêmeo se adiantou:
– Sai prá lá, Hugo! A ideia foi minha! Prazer, moça! Eu sô o José. – Disse ele, beijando minha mão de forma desajeitada.
– José?! – Ironizou Hugo. – Nem a Mãe te chama assim! Ele é o Zéca, moça! – Não pude evitar de sorrir. Enquanto isso, o terceiro rapaz se aproximou e estendeu a mão grande e forte:
– Eu me chamo Luiz e ocê? – Ele disse, apertando firme a minha mão.
– Jessy. – Eu respondi ainda rindo das graças dos gêmeos.
– Descurpe a farta de educação e jeito dos meus irmãos mais novo. Eles são meio pancada das ideia.
– Num tem nada não. Eles são uns paiaço! – E pela primeira vez, ele sorriu, enquanto concordava com a cabeça.
– Vem comê, Jessy! – Chamou Beau, saindo da tenda com uma panela enorme de ensopado da tenda, seguido por um senhor de estatura pequena, magro e de faces marcadas pela idade. Ele trazia cumbucas e talheres para oito pessoas.
– Não, brigada. Já jantei. – A resposta foi automática.
– Ara! Ocê nem terminô de comê aquele bagaço de pão que ocê feiz! – Beau virou-se para trás enquanto depositava o panelão numa mesa de madeira. – Ôh Mãããããeee! A moça disse que não vai jantá com nóis! – Quase no mesmo instante saiu da tenda a maior mulher que eu já vira na vida. Maior até que o próprio Beua, mais larga que ele e com mais barba e pelos pulando do decote caído, ela trazia uma colher de pau na mão que a fazia muito mais ameaçadora do que se fosse uma arma.
– Noite, fia. – Ela rugiu com voz de trovão, e antes de esperar resposta, completou – Num vai comê cum nóis por que somo pobre?
– Não, sinhora, é que eu já jantei. – A Mãe a estudou com um dos olhos fechados. – Janto, é? E comeu o quê??
– Pão com quejo de cabra derretido... – Eu estava começando a me sentir envergonhada.
– Pão com quejo derretido?! E isso lá é janta?! Ôh Pai! Vem cá e fala com essa minina aqui! – Ela entrou na tenda novamente e eu vi aquele senhorzinho que ajudou o Beau a por a mesa, se aproximando.
– Oi fia. Pode me chama de Pai. Ocê num vai come cum nóis? – Ele perguntou com uma gentileza que faltava à sua mulher.
– Não, Pai. Eu já jantei. Brigada. – Estava começando a me cansar de repetir a mesma coisa.
– Quanto tempo faiz que ocê num come direito? Uns dois dia?
– Trêis... – Outra resposta automática. Ele sorriu satisfeito. – Intão senta aqui e come uma refeição da boa com mais boa companhia!
– Tá bom, Pai. Discurpa.
– Tudo bem, fia. – Ele disse enquanto me guiava até a mesa. – Sei do seu orguio e respeito isso. É muito bão numa moça.
A Mãe serviu todas as cumbucas de forma generosa e foi passando de um a um. Quando todos nós já estávamos comendo, um rapaz distinto e bem arrumado chegou apressado e foi se sentando:
– Desculpem o atraso. Estava a conversar com o boticário que acompanha a caravana de vocês sobre aquelas ervas que encontrei no caminho. – Enquanto ele falava, a Mãe já foi servindo a ele uma cumbuca igualmente cheia, mas ao invés da colher que todos usávamos, ele tirou de dentro da bolsa de couro que levava de lado, o próprio conjunto de garfo e faca. O olhar dele recaiu sobre mim, e ele instantaneamente se pôs em pé:
– Desculpe, eu não havia notado que temos uma convidada essa noite. – Ele se curvou levemente enquanto se apresentava – Eu me chamo Phillip. É uma honra.
– Que honra, o que! – Disse Zéca, puxando-o bruscamente pela casaca para se sentar. – Ela é a Jessy e vai viajá com nóis na caravana até a Cidade Central.
– Que bom! – Disse Phillip, sorrindo de forma bondosa. – Seja bem-vindo a nossa caravana, então!
– Brigada. – Eu respondi meio sem saber o que dizer. Afinal, as pessoas não costumavam a ser gentis dessa forma lá em Sete Fazenda.
Phillip era muito diferente dos outros meninos. Era muito magro, de aparência frágil. Vestido sempre de forma elegante e sempre com um livro na mão. Seus cabelos eram mais compridos do que eu estava acostumada em homens jovens e ele usava aqueles arames retorcidos com vidros: os óculos. Ele falava de forma muito correta, e era mais educado do que qualquer pessoa que eu já havia visto em minha vidinha limitada.
Durante as conversas no jantar, descobri que a caravana era, de fato, liderada pela família deles. A família plantava grãos numa região famosa pelo cultivo chamada de Moinhos. Phillip por outro lado, era nascido e criado na Cidade Central. Depois do jantar, o Pai recolheu as cumbucas e ele mesmo as lavou, junto com os talheres. Eu continuei a conversar com os meninos e responder um extenso interrogatório a respeito da minha vida:
– Quantos anos ocê tem? – Perguntou Beau.
– 16.
– De onde ocê veio? – Perguntou Luiz.
– De Sete Fazenda.
– O que a fazenda sua produzia? – Quis saber Phillip, que parecia realmente interessado.
– O Tio e eu criamos animais prá ter leite e ovo e plantamo fruta, verdura e legume na roça. – Ele pareceu surpreso com a minha resposta, mas não perguntou mais nada, mergulhando absorto em seus próprios pensamentos.
– Ocê sempre fala do seu Tio. E seu pai e sua mãe? – Quis saber Beau, intrigado.
– Num sei, nunca conheci eles.
– Ocê tem namorado? – Só podia vir dos gêmeos.
– Não.
– Tá interessada? – Eles completaram juntos.
– Não! – Respondi de forma meio ríspida.
– Você tem parentes na cidade? Seu rosto é meio familiar a mim. – Disse Phllip, depois de finalmente deixar os pensamentos prá lá.
– Num tenho, não. É a primera veiz que eu saio de Sete Fazenda.
– Joga poker? – Perguntou Luiz, trazendo um baralho velho e um saco de estopa contendo grãos de feijão velhos que eles usavam como fichas.
– Jogo sim! Aprendi com o Tio!
Nós jogamos até altas horas da madrugada, quando a mãe apareceu de camisola para mandar todo mundo ir dormir. Como os meninos também dormiam em sacos de dormir, enfileiramo-nos todos perto do fogo e lá dormimos.
E embora eu estivesse encarando um mundo totalmente novo, com eles ali, eu ainda me sentia em casa.
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