Contos da Campânula
4 As preocupações do Rei Henrique
Notas iniciais
Há três gerações o Reino de Valária está em paz. Após a grande guerra, a família Mondragon assumiu a Coroa e, para garantir o controle sobre todo seu território, distribuiu entre as demais famílias de confiança títulos de nobreza e territórios. Rei Henrique Mondragon III, no entanto, herdara do pai um reino bem diferente do que o avô criara. Embora não houvessem mais grandes conflitos externos, a política interna fervilhava. E ele bem quisera que essa fosse a única das suas preocupações atuais.
No momento, o Rei não tinha só que lidar com o jogo político dos nobres que, ele sabia, tramavam algo para tirar sua família do poder. Muito mais que isso. Ele procurava meios de encobrir que sua esposa, Rainha Olívia, havia assassinado um membro do governo da província de Quatheria. Olívia contara tudo sobre seu relacionamento de adolescência com Roger. Confessara que na juventude tivera um caso mal encerrado com o rapaz e como ele a procurava para cobrar-lhe promessas antigas. Mas não citara assassinato, apenas, e de forma impassível, que ele não era mais um problema e que o assunto havia se resolvido sozinho. Roger não a procuraria mais. O rei, intrigado, resolveu não comentar que havia presenciado o crime. O brilho de entretenimento e desafio nos olhos de Olívia era intimidador demais e um pouco assustador. Ele não conhecia o passado da esposa bem o suficiente para julgar se o que ela dizia era verdadeiro ou não. Bem poderia estar mentindo sobre tudo e ele sendo feito de trouxa ao encobrir seu crime. Mas algo no coração do Rei lhe dizia que era melhor juntar-se à ela no momento, manter o segredo e, quem sabe, aproveitar a situação para tentar conhecê-la melhor. Naquele momento, essa pareceu ser a escolha certa a se fazer.
Mas dentre tantas preocupações o monarca ainda conseguia alguns momentos para respirar e colocar a cabeça em ordem. E eram sempre na companhia de sua irmã, Felícia. Sonhadora, a princesa passava horas debatendo quais os melhores lugares para se estudar e conhecer no Continente Oeste. E Henrique escutava satisfeito.
— E como estão as preparações para sua viagem, Felícia?
Sentado em um banco do jardim, tomando sol, ele sentia-se em paz. Ao menos até que seus pensamentos ansiosos retornassem. O tom de voz suave, mas empolgado da irmã o acalmava. O assunto do dia: um monólogo sobre porque a jovem escolhera estudar na Universidade jamboense.
— Ah, tudo já foi providenciado. Devo sair de Canoa Divina daqui há duas semanas, assim, consigo chegar em Candeia Violeta antes do ano letivo começar. — Ela inclinou a cabeça para trás para sentir o sol no rosto.
— Não gosto da ideia de você viajar para tão longe sem ninguém mais da Mansão. Acho perigoso demais.
— Pouca gente me conhece, e se alguém se lembra de meu rosto... bom, arrisco dizer que não tenho mais as mesmas feições do meu retrato de bebê.
E, embora Henrique discordasse que ninguém a reconheceria, tinha que assumir que a despreocupação da princesa não era mal embasada. Seus pais eram muito restritos em relação à criação e exposição dos filhos, não à toa a jovem desenvolvera um interesse gigante por sair dos muros e descobrir o mundo. Crescidos na Mansão Mondragon, os irmãos quase nunca ganhavam permissão de ir para a capital, muito menos viajar para outras cidades. E quando saiam deveriam usar o rosto coberto e ser discretos. Henrique, por ser mais velho e o herdeiro da Coroa, ainda ganhara o privilégio de participar de jantares e reuniões com os nobres do Reino. A jovem princesa, por sua vez, crescera brincando com os filhos dos nobres da Capital e o irmão, apenas. Em algumas situações tios e primos distantes visitavam a capital, e assim Felícia tinha a oportunidade de conversar sobre o mundo lá fora com quem o conhecia mais do que ela lia em seus livros. Momentos raros, mas que incentivaram o sonho da princesa em conhecer o mundo.
— Ainda sim deve ter cuidado. Há muitas pessoas que desejam o mal para nossa família.
— Você está começando a falar igual o papai. — Felícia dissera em um tom sussurrado.
— Quem sabe ele não estava de todo errado. — Henrique suspirou.
Felícia endireitou-se, olhando o irmão com desconfiança. O monarca retribuiu com um olhar cansado. Ele não gostava de admitir, mas nos últimos tempos percebia o porque de seu pai ter se rendido a um lado não muito ético da política. Cada dia acordava mais exausto que o dia anterior. Ainda sim manteria firme sua promessa pessoal de não cometer os mesmos erros do rei anterior.
— Para todo caso, prometo que sempre manterei contato contigo, irmão. — A princesa se levantou arrumando o cabelo. — Será pouco mais de uma semana de viagem. Certifiquei-me de que tudo estará pronto quando eu chegar.
A voz de Felícia estava carregada de empolgação novamente. Os olhos verdes brilhavam em animosidade e expectativa. Planejava essa mudança de vida há muitos anos. E vendo a irmã tão feliz e decidida, Henrique lembrou-se de si mesmo mais jovem. Estava orgulhoso da princesa, mesmo que no fundo tivesse medo de perdê-la para um mundo que não era o conto de fadas que a jovem lia em livros. Entendia a jovem, pois também tivera sua oportunidade de viajar para longe para estudar. E, embora a ocasião da morte de seu pai tivesse lhe obrigado a interromper seu sonho de completar os estudos, vez ou outra ele ainda pensava se poderia largar tudo e retornar aos tempos de estudante. Besteira, claro.
— Solicitarei que sigam uma rota que evite as ruínas. Não quero que você seja saqueada no caminho.
— Claro, irmão.
O rei assentiu, também se levantando e prosseguindo o caminho pelo jardim. Após um silêncio confortável, enquanto caminhavam por um caminho entre canteiros de tulipa, a princesa perguntou em um tom de brincadeira:
— E você, irmão? Tem certeza de que ficará bem sem mim? — Henrique encarou sério a princesa que o observava com um sorriso de lado.
— Confesso que sentirei falta de seus monólogos incessantes... Mas ficarei bem, sim.
— E sua perna, está melhor?
— Ah, sim, sim. — O monarca limpou a garganta, desconfortável. — Foi só um mau jeito, creio eu. Nada com o que se preocupar.
— Ficou uma semana inteira mancando e não quer que eu me preocupe. Considerei até encomendar uma muleta para lhe presentear... — O tom sarcástico da princesa carregava um ar de preocupação mascarado. — Oras..
Henrique soltou um riso descontraído, mas não respondeu. No restante do caminho apenas abriu a boca para argumentar sobre o que a princesa precisaria levar consigo para a Universidade. Mas o comentário da irmã trouxera à tona mais uma de suas preocupações: sua condição de saúde. Estava boa, até o momento. Mas os fantasmas das jovens mortes em sua família, em especial a de seu pai, lhe assombravam toda vez que sentia dores.
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