Contos da Campânula

5 Oportunidades e grupos de pesquisa


No caminho para a biblioteca, Miguel andava apressado carregando um calhamaço de documentos sobre os professores e suas respectivas linhas de pesquisa dos últimos 40 anos. Eram as informações que prometera repassar à princesa Felícia quando essa chegasse em Candeia Violeta. Na verdade, o plano inicial era encaminhar as cópias em uma carta, mas uma segunda mensagem da "velha amiga" lhe sugerira guardar as informações para quando se encontrassem pessoalmente. Ela estava à caminho da Universidade e com um novo sobrenome: "Menezes." Um sobrenome estranho para uma Índigo, soava mais Jamboense, mas se a jovem desejava disfarçar-se durante sua estadia na Universidade Hellianthus, Miguel tinha que concordar que era uma boa escolha.

Quando passou pelas grandes portas de madeira da entrada da biblioteca, Miguel parou chocada com a fila para utilizar a copiadora. Pelo menos uns dez estudantes esperavam com calhamaços tão pesados quanto os que o jovem duque carregava. Ele suspirou. Por que raios ninguém ainda tinha criado uma máquina copiadora mágica, ou alguma magia que fizesse o serviço rapidamente sem depender de tinta a álcool e manivelas? Os historiadores enchiam o peito para falar da atual Era da Glória, mas onde estava a Glória das máquinas revolucionárias? Com um muxoxo de desapontamento e irritação, ele entrou na fila.

Após alguns minutos parado no mesmo lugar, Miguel resolveu utilizar o tempo para ler. Equilibrando os documentos em um braço, abriu a bolsa que sempre usava a tiracolo e retirou um livreto sobre religião. De forma desajeitada conseguiu abrir e colocá-lo sobre a pilha de papéis. Era um livro sobre a origem dos ritos cerimoniais nas diferentes culturas e religiões do Continente Oeste e estava em um capítulo em que o autor dissertava sobre o rito de passagem das crianças à vida adulta na religião que seguia o Panteão Primordial. Cheio de erros por sinal, os pais de Miguel seguiam essa mesma tradição e o jovem sabia o quão secreto alguns ritos eram. O que o autor do livro havia escrito não passava de grandes suposições baseadas em fofocas. De academicismo e pesquisa séria não havia nada.

— Próximo! — Uma senhora de sobrancelhas grossas e grisalhas berrou no início da fila, provavelmente a supervisora da copiadora.

Miguel deu apenas dois passos quando a fila andou, e retornou a leitura. No entanto, sua atenção não durou muito tempo, não com aquele monte de desinformações. Logo sua atenção se voltou para um trio de jovens que entregavam panfletos coloridos aos que esperavam sua vez na fila. Uma das garotas percebeu seu olhar e sorriu para ele, se aproximando. Era nova, tinha cabelos castanhos curtos e olhos cor de mel. O jovem duque a reconheceu, era uma estudante de cabelos castanhos curtos que estava na sala da Pró-Reitoria quando ele foi solicitar os papéis sobre os professores. Aparentemente, ele interrompera uma reunião, mas teve sorte de a professora ser simpática e rapidamente ter lhe entregado os documentos sem mais perguntas.

— Oi. Você era o rapaz na sala da Reitoria de Pesquisa, não era?

— Sim. Perdoe-me ter interrompido sua reunião... — Miguel disse sem muita expressão.

— Sem problemas. — A jovem disse, suas bochechas eram altas e tinham um tom rosado natural. — Olha, faço parte de um projeto que planeja fazer uma expedição pelo Continente. Estamos formando uma equipe estudantil multidisciplinar.

Estendeu um folder para o loiro, que aceitou e leu as letras garrafais na primeira página. "Expedição Sol Nascente. Uma expedição universitária do grupo de pesquisas interdisciplinares da Universidade Hellianthus". Um título grande demais, pensou.

— Se me permite perguntar. O que estuda?

— Sou da antropologia. Religiões, padrões sociais... Essas coisas.

Os olhos dela brilharam de animação.

— Ah. Que legal. Não temos ninguém da antropologia... Se você tiver tempo sobrando, seria muito legal contarmos com alguém como você no nosso grupo.

Miguel deu mais um passo à frente quando um jovem desistira de esperar e saíra reclamando sobre estar perdendo um precioso tempo que não voltaria. De fato. E olhando para a garota ao seu lado, sorriu de volta, mas nada disse. Ela usava uma blusa bordô de mangas longas e detalhes com pregas e babados, saia de couro tingido de preto e botas da mesma cor. Parecia uma roupa Índigo moderna, e a julgar pela blusa colorida era de uma família um pouco mais abastada.

— Meu nome é Emília. Sou da geografia. — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo. — Seria muito interessante ter alguém com conhecimento sobre culturas na equipe.

E como o rapaz continuou em silêncio, embora forçasse um sorriso simpático, ela prosseguiu:

— Bom. Participar da expedição dá créditos e horas complementares para formar... E mesmo que não queira participar da expedição, as reuniões são bem interessantes para trocar informações e fazer contatos.

"Fazer contatos", ela fala igual meus pais.

— Está bem. Obrigada por convidar. Vou dar uma olhada no que tem aqui e avaliar. — Miguel disse em um tom amigável.

— Se resolver juntar-se a nós. Estamos nos reunindo todos os quintos dias ao meio-dia na sala da professora Caroline, nossa organizadora e orientadora.

— Certo. Obrigado novamente.

Emília cumprimentou com a cabeça e deu meia-volta para falar com os colegas de equipe. Miguel suspirou de alívio quando a fila andou mais um pouco, seus braços doíam de segurar peso. Ocupou seu tempo analisando o folder que informava sobre o projeto de pesquisa, cujo objetivo era catalogar as informações sobre a geografia, história, cultura e religião no Continente e compilá-las em uma Enciclopédia e uma série de livros de teor teórico. Parecia algo trabalhoso. No verso havia uma seção dedicada às conquistas dos alunos participantes nos últimos meses, as quais se resumiam à atos comunitários de divulgação científica e um prêmio de melhor grupo de pesquisa oferecido pelo Reitor. Será que valia a pena participar de algo assim? Tinha uma tese para terminar, e ainda se envolvera nessa missão misteriosa da princesa. Mas ele não poderia negar que ganhar horas complementares era algo tentador. Eram obrigatórias, embora chatas de se conseguir.

— Próximo! — A bibliotecária gritou à sua frente, tirando-lhe de seus devaneios. Sem perceber, a fila avançara e Miguel dera passos inconscientes para frente, já estando no segundo lugar. Aparentemente, vários alunos tinham desistido de tirar suas cópias.

No fim do dia, já com seus novos papéis cheirando à tinta e álcool e tendo devolvido os originais, Miguel conversava com Giovana sobre o projeto a que fora convidado. Estavam nos jardins, observando o pôr-do-sol.

— Parece interessante. Eu participaria se precisassem de alguém como eu.

Giovana estava deitada no gramado de olhos fechados. Seus cabelos estavam espalhados em torno da sua cabeça, formando uma coroa de ondas rubras. Pareceu bonita aos olhos do rapaz.

— Sim. E é. Parece que pretendem viajar por seis meses. Imagina ter carta branca para passar tanto tempo longe da Universidade sem ser desligado.

O rapaz deitou ao lado da amiga, utilizando a bolsa como travesseiro.

— Ué. Achava que tu queria isso pra ti. Essa vida de acadêmico.

— Queria. Mas algumas coisas me aborrecem. Gostaria que tivesse menos burocracias. Tem vezes que parece muito a política, e isso me irrita.

A ruiva soltou um riso baixo, apoiando-se nos cotovelos para olhar pro amigo.

— Tu tá desiludido com a realidade que sonhou então.

— Algo assim.

— Pois eu acho que isso é mais um motivo para entrar no projeto então. Se joga! Conhecer gente nova, ver coisas diferentes. Quem sabe te traz um pouco de animosidade de volta. Tu anda tão jururu.

Miguel franziu a testa com o comentário da amiga. Não se avaliava como triste, apenas cansado. Suas pesquisas estavam sendo chatas e cansativas. Eram livros e mais livros sobre o mesmo tema, cheios de informações pela metade. Seu sonho era ser acadêmico, sim, ajudar os outros a adquirir conhecimento. Mas seu objetivo principal era fugir o máximo possível das burocracias e politicagens. Parecia impossível. Talvez embarcar numa expedição como quem não quer nada fosse uma opção arriscada demais.

— Digo, é uma oportunidade, uma opção. E se aquela garota te disse que estão precisando de gente da tua área.... devia aproveitar, vai que depois roubem tua vaga.

— Uhum...

Giovana suspirou desapontada e voltou a deitar-se no gramado. A mente de Miguel estava cheia de "e se" e "quem sabe".

— E sobre a princesinha lá. Quê que deu?

— Ela chega daqui uma semana eu acho.... Na verdade, já deve estar caminho. Talvez chegue antes disso. — E se virando para encarar a amiga. — Por quê? Achei que não gostasse dela.

— E não gosto.

— Nem a conhece. — Miguel riu. — Felícia não é tão ruim quanto alguns parentes meus. Mas eu tenho só algumas memórias de infância também...

E lembrando-se do detalhe do disfarce, acrescentou:

— Mas ei, não conte a ninguém. Nada do que eu lhe disse. Só quem deve saber que ela é a princesa sou eu e talvez o reitor, não sei... Enfim, ela vem como pessoa normal. Gente como a gente.

Giovana riu, o vento soprando sua franja e bagunçando seus cabelos.

— Gente como eu, você diz. — Miguel revirou os olhos.

— É. Você entendeu.

Mas ela não estava errada. No fim, o único nobre Índigo em Candeia Violeta era Miguel. Haviam alguns filhos de famílias abastadas, mas ele era o único com título de nobreza. E entendia muito bem porque Felícia escolhera se camuflar. Se ele, como parte da baixa nobreza, passava estresse com piadas e cochichos nos corredores, não poderia imaginar o que a princesa passaria. Miguel encarava tudo bem, ignorava os comentários, respondia as perguntas e fugia dos interesseiros. Deixava bem claro que havia largado aquela vida para estudar, pelo menos por um tempo.

— Você sabe onde ela ficará? Nos apartamentos dormitórios?

— Acho que sim. Se ela quer se misturar, deve optar por morar com os outros estudantes.

— Hm.

E assim a conversa morreu. Giovana não disse mais nada e os pensamentos de Miguel o levaram de volta à proposta de Emília... Estava realmente cogitando participar? Talvez fosse a apenas uma reunião para ver como era. A ruiva estava certa, no entanto, era uma oportunidade para viver alguns desafios interessantes. Mesmo que ele não estivesse certo se queria sair da sua atual zona de conforto. Elencou as vantagens e desvantagens em sua mente. Esforço demais, viagens demais, gente demais, chance de encontrar nobres e pessoas conhecidas. O que diria aos seus pais caso eles lhe escrevessem e ele não respondesse? Mas seria uma experiência diferente de todas que vivera, poderia coletar informações e dados para sua tese, quem sabe escrever o seu próprio livro sobre ritos religiosos, corrigindo as besteiras escritas pelo ator presunçoso do livreto que lera. No fim, não era uma ideia tão ruim assim.

Notas finais
Criei um mapinha interativo do Continente Oeste para que vocês possam ter ideia de onde a história está se passando, distâncias etc (recomendo abrir pelo pc): https://www.worldanvil.com/w/contos-da-campanula-elfoala/map/6ad8473c-b50c-4ae2-8f0e-ff20a543b503 Não está completo e muito menos perfeito, mas gostei do resultado :)