Conto de Duas Galáxias

4 Capítulo 4 - Bala de Prata


Notas iniciais
Outro capítulo para vocês, boa leitura.

— Lori —

Como as coisas funcionavam quando problemas estavam prestes a aparecer não era um mistério para mim. Sempre começava com um estranho, nesse caso uma estranha aparecendo misteriosamente em nossas vidas. Foi assim com Samantha Arias, que veio a quase matar minha mãe Kara e eu tinha a impressão de que seria assim com Hope, algo nela me inspirava admiração, mas existia algo escondido, eu não confiava nela inteiramente. Esses novos visitantes eram quase como um prologo, um palco se formando para um ato gigantesco.

— Vamos, Barbara. — Eu arrastava minha amiga pelo braço.

— Você vai nos meter em problemas, Lori. Sua mãe vai nos mandar de volta assim que nos notar aqui. — Barbara podia ser uma bela covarde, quando lhe convinha.

— Então vamos tomar as precauções para que ela não nos note. — Empurrei ela pelos corredores da nave.

Seria difícil ficarmos invisíveis até chegarmos ao destino final, mas se queríamos mesmo fazer aquilo o melhor lugar seria o hangar. Ninguém iria lá e tinha bastante comida.

— Tem alguém vindo! — Barbara me empurrou para trás de algumas caixas. Dei uma mordida na barra de chocolate que tinha pegado, sabia que devia ser exagero dela e não seria ninguém importante. — É sério que você está comendo? — Ela tomou a barra de mim.

— O quê? Dois minutos atrás você estava usando o Tinder, porque comer é maior gravidade? — Peguei a barra de volta.

— Nós estaremos pousando em 20 minutos, Alteza. Espero que minha arma esteja pronta, nós só teremos um tiro. — A voz ecoou pelo hangar, era Hope. Porque ela tinha que ir até ali para falar com alguém, eu sabia que tinha algo de errado com ela. A conversa seguiu em um tom baixo.

— Me deixa adivinhar... Nós temos um problema? — Barbara falou olhando para mim em tom irônico. Sua franja moveu-se quase como se anunciasse sua raiva. Os seus fios ruivos pareciam brilhar mais quando ela se irritava.

— Vamos, nós temos que achar tia Alex. — Barbara me seguiu, seria difícil evitar os cadetes andando pela nave, nós éramos conhecidas por causar problemas e roubarmos peças para experiências. Nossa única opção foi nos esgueiramos pela ventilação.

Depois de muitos quartos conseguimos acertar o de minha tia. Eu esperava que ela acreditasse em mim. Ao descermos encontramos ela deitada em sua cama.

— Surpresa! — Gritei ao colocar meus pés no chão.

— Você só pode estar de sacanagem, Lori. Vocês duas só podem estar de sacanagem. — Ela olhou para Barbara que seu escondeu atrás de mim. — A loira supostamente era para ser a estupida e você a inteligente, Gordon. — Fiz uma careta ofendida.

— Tia, você tem que me ouvir. — Ela encostou-se em uma cômoda e fez sinal para que eu falasse. — Eu ouvi sua amiga, nova amiga... falando com o Rei Lar Gand sobre alguma espécie de arma. — Ela interessou-se.

— A quanto tempo atrás? — Seu tom de pergunta não pareceu surpreso.

— Você sabia? — Indaguei curiosa.

— Eu tinha minhas desconfianças, por sorte vocês não são as únicas clandestinas nessa nave. — Ela pressionou um botão na cômoda que deu abertura para uma porta escondida na parede. Eu adorava o fato de tia Alex ser cheia de surpresas.

— Samantha? — Barbara estava mais surpresa que eu.

— O que ela... — Apontei para Samantha, ela era uma grande amiga da família, mesmo após o acontecido com minha mãe, mas sua atuação não era militar e sim corporativa, ela gostava de ficar fora do radar.

— Qual o melhor modo de derrubar um kryptoniano, Lori? — Samantha perguntou para mim, ela me ensinou aquela lição a primeira vez que perdi o controle de meus poderes.

— Outro kryptoniano. — Respondi rapidamente.

— Minha garota! — Ela ergueu a mão e trocamos um toque rápido. Sam era a pessoa mais próxima depois de sua filha Ruby que entendia meu drama com poderes, apesar do fato de ela preferir estar indetectável entre os humanos.

— Vamos, Sam. É hora de usar nossa bala de prata. — Samantha estava ali para deter a mulher, mas se só ela podia, isso queria dizer que ela era uma kryptoniana. Ela poderia ser classifica como filha de Krypton mais forte, dado ao fato que passou 24 anos na Terra exposta ao sol amarelo, até finalmente ter seus poderes expostos.

— Vocês não saiam daqui por nada. — Elas falaram em coro. Barbara e eu nos olhamos decepcionadas. Depois que a porta se fechou.

— Nem fodendo que eu vou perder uma luta entre duas kryptonianas. — Minha amiga ruiva começou a mexer no computador mais próximo a procura de acesso as câmeras de segurança.

— Essa é minha hacker favorita. — Fiquei ao seu lado e esperei que ela terminasse o serviço, aquilo seria no mínimo educativo.

— Lena —

Quanto mais nos aproximávamos de Daxam mais meu coração apertava, algo terrível nos esperava, eu sabia disso. Enquanto a hora não chegava, eu tentava me aproximar de Hope, mas ela era vaga e distante. Focada apenas em seu objetivo, aquilo era bom, porém eu gostava de conhecer a pessoa que iria executar um serviço tão delicado comigo.

— Ei viajante do futuro, pega! — Alex nos pegou de surpresa jogando um cristal de kryptonita em direção a Hope que estava ao meu lado. Ela segurou o cristal como se fosse nada.

— Sabe qual a melhor parte de ser filha de uma mestiça? Meus genes não têm intolerância nenhuma a kryptonita. — Ela amassou a pedra como se fosse nada.

— Então, nós vamos fazer do jeito antigo e deixar a marca da bota de alguém no seu traseiro. — Naquele momento eu já nem mesmo me perguntava o que diabos estava acontecendo, quando Alex estalou os dedos vi Sam entrar pela sala e acertar Hope com soco tão forte que o impacto nos atirou longe.

— Vocês idiotas tem noção de que isso daqui é o espaço aberto, caso essa nave se desintegre nós morremos! — Gritei antes que Hope se levantasse, Sam já se preparava para outro golpe.

— Sam, pegue-a. — Alex gritou desacatando minha autoridade na frente de todos.

— Samantha, nem mais um movimento. — Gritei em seguida. Ela olhou de mim para Alex indecisa, mas antes que tomasse uma decisão Hope a atacou. As duas atravessaram uma parede em direção ao corredor principal.

— Aparentemente Darkseid não vai precisar fazer nada contra nós ao chegar na terra, nós já teremos feito todo o serviço por ele. — Assisti Hope e Sam trocarem socos e de certa forma, isso me lembrou Kara e Sam quase se matando anos atrás.

— Desista ou eu vou quebrar seu pescoço, você sabe que eu sou mais forte que você. — Sam dava uma gravata em Hope. Ela ergueu os dois braços em sinal de rendição.

— Levem-na para uma cela. — Alex se dirigiu aos cadetes.

— O que diabos está acontecendo aqui? — Andei em direção a Alex e Sam.

— Nós temos que interrogar nossa neta para saber, mas acredite ela é um risco. — Alex tinha o hábito de ter palpites afiados, mas eu não acreditava que aquela seria uma dessas ocasiões.

Tínhamos uma única sala de interrogatório e foi para lá que ela foi levada. As coisas haviam saído de controle mais rápido que eu pensava.

— Vamos começar com uma pergunta fácil. — Alex sentou-se frente a ela. — Qual o seu nome? — Sam e eu estávamos do outro lado do vidro.

— Hope Luthor. — Ela respondeu sem pestanejar.

— Isso acabou de se tornar uma verdade discutível, veja bem... você está produzindo um tipo de arma com os daxamitas. — Ela se debruçou sobre a mesa de interrogatório para aproximar-se de Alex.

— Isso é verdade, eu quero matar alguém. — Sua voz tinha um tom tão certo a respeito de um assassinato que me assustou. A vi levantar e ir em direção ao vidro. Ela olhou diretamente para Sam. — Seu pedaço de excremento kryptoniano, você podia ter salvado a todos nós. — Seu ódio por Sam era genuíno. Sua mão foi de encontro ao vidro o quebrando e a segurando pela gola de sua blusa.

— Você já não apanhou o suficiente, garota? Eu posso te bater mais, se quiser. — Sam nem mesmo piscou ao falar.

— Como assim ela podia ter salvado vocês? — Alex perguntou.

— Darkseid tem uma aliada, podemos dizer que a mais forte que alguém pode ter. — Hope limpou o vidro de suas mãos. — Samantha tinha força o suficiente para detê-la, mas fez justamente ao contrário... ela se juntou ao grupinho genocida. — Sam não acreditava no que ouvia.

— Quem é essa aliada? — Foi minha vez de perguntar.

— Kara Zor-El. — Eu vi o mundo inteiro parar diante dos meus olhos.

— Não, ela está morta. — Rebati.

— Acredite, ela não está. — Ela empurrou um dispositivo de vídeo para mim, eu vi Kara a frente de uma legião de soldados.

— Como? — Ouvi Alex perguntar, eu ainda estava em choque.

— Nós não sabemos, mas nosso palpite sempre foi que depois que ela voou por aquele portal rumo ao espaço não mapeado com aquela bomba, talvez Darkseid a tenha resgatado e a dado um proposito diferente, digamos. — Eu fui a responsável pela criação do portal que a direcionou ao espaço não mapeado, eu me sentia responsável pela morte dela, tanto quanto o desgraçado que criou aquele dispositivo.

— Nós estamos ferrados. — Alex sentou cadeira desolada.

— Não necessariamente. — Sam soou mais do que otimista para mim. Esperamos ela concluir. — Nós temos duas kryptonianas adultas e... — Ela segurou meus ombros. — Eu sei que você não vai concordar com isso, nós temos Lori. Com isso, nós temos não uma bala de prata, mas três. — Alex a olhou interessada.

— Isso pode funcionar. — Hope manifestou-se.

— De jeito nenhum minha filha vai se envolver com isso. — De imediato fui contra.

— Nós não precisamos vencê-la ou machuca-la, só desabilita-la. — Alex continuou falando. — Que tipo de arma Daxam está fazendo para você? — Ela virou-se para Hope.

— Uma bazuca de kryptonita. — Ela respondeu diretamente.

— Onde você conseguiu o material? — Foi minha vez de perguntar.

— Vocês acham que todo aquele meu teatro foi em vão? Eu precisava de vocês distraídas para alguém roubar o material do cofre da família. — Aquela garota era um pesadelo.

— Vocês estão falando de matá-la? — Sam se mostrou contra a opção assim como eu.

— Sim. — Hope respondeu.

— Não, reduzir a kryptonita a algo liquido e injetar nela o suficiente para fazê-la cair bem em nossos braços. — Eu gostava daquele jeito de pensar.

— Isso soou bonito em plano, mas porque você acha que eu estava construindo uma bazuca? É impossível se aproximar dela com os parademônios lá, ela fica inacessível. — O plano de Alex foi por água abaixo.

— Se Lori e Sam cuidarem dos parademônios, você acha que consegue chegar perto dela? — Alex direcionou sua pergunta para Hope ela confirmou com a cabeça.

Eu não tinha outra saída a não ser concordar com aquilo, eu teria que deixar Lori lutar. Por outro lado, eu estava perdida, como Kara havia sobrevivido? Era algo impossível. E se sobreviveu, porque ela não voltou? Tudo que eu tinha eram perguntas e algo me dizia que eu não ia gostar das respostas.

— Coronel Danvers, mensagem urgente chegando de Daxam. — Fomos interrompidas.

— Transfira. — Alex falou imediatamente.

— Nós estamos sob ataque, são eles! — Era Mon-El o filho de Lar Gand no comunicador. — Por favor, deem meia volta até a terra é para a segurança de vocês. — Ele falava rapidamente.

— Nem pensar nós estamos a dois minutos de Daxam. — Falei por Alex, mas eu sabia que essa seria a resposta dela.

Quando paramos sob o planeta eles estavam cercados por naves. Acima delas lá estava ela, Kara flutuando no ar. Era seu uniforme, mas ao mesmo tempo não era, ele havia perdido as cores brilhantes. Havia perdido a saia e ganhado uma camada de tecido cobrindo suas pernas e braços. O que permanecia com a cor original era o vermelho de sua capa. Minha respiração falhou, ela estava tão próxima, frente aos meus olhos, mas eu não podia toca-la.

Flashback

Faziam dois meses desde que Kara havia partido, eu só queria vê-la novamente. Estávamos em uma conferência em que seus pais estavam, na verdade era mais um local para fazer política.

— Como ela é? Ela é azul? Tem cabelos flamejantes? — Alex me seguia pelo salão e pegava todos os doce exóticos de cada garçom que passava por nós.

— Não, ela é normal como nós, tem nossa aparência humanoide. — Respondi.

— Deixa eu entender, entre toda a gama alienígena da galáxia, você escolheu uma pessoa igualzinha a nós. Jesus, você é entediante. — Ela levou dois doces ao mesmo tempo a boca.

— Eu não escolhi, Alexandra. Aconteceu. — Roubei um de seus docinhos. — Quem você escolheria, caso pudesse escolher? — Perguntei.

— Tamareaneana, com certeza. — Alex foi direta em sua resposta.

— Tamareanos são laranja. — Retruquei.

— Racista! — Ela brincou.

— Mas, eu ouvi dizer que eles são os melhores de sexo em todo quadrante. — Alex piscou para mim sorrindo.

— Bingo! — Eu não acreditava naquilo, ela não conseguia pensar em nada além de sexo.

— Eu ouvi dizer que a princesa de Tamaran estará aqui hoje. — A informei.

— Quer apostar? — Ela me estendeu a mão.

— O quê? — Perguntei confusa.

— Que eu consigo o número do quarto de sua alteza. — Peguei sua mão.

— Você vai levar um toco épico, eu vou adorar assistir. — Não era certo duvidar de Alex naqueles assuntos, pois ela realmente tinha um charme fora do comum.

— Elena... — Ouvi uma voz vindo de trás de mim. Virei para encontrar Kara e ao seu lado um garoto que tinha nossa idade. Eu não sabia o que fazer, abraça-la ou não?

— Finalmente, eu achei que você não viria. — Eu não conseguia parar de olhar para ela.

— Vamos, lésbica. Você pode fazer melhor que isso. — Alex sussurrou em meu ouvido.

— Kara, essa é minha amiga Alexandra. — Elas trocaram um aperto de mão.

— Esse é Mon-El, filho do rei Lar Gand. — Kara nos introduziu o rapaz.

— El? — Perguntei curiosa.

— Sim, ele é meu primo. — Cumprimentei o rapaz e Alex fez o mesmo.

— Bonitão, como você se sente a respeito de tentar conquistar alguém que pode mandar nos decapitar? — Alex olhou para Mon-El.

— Particularmente interessado. — O jovem príncipe respondeu sorrindo.

— Nós temos uma missão. — Alex o agarrou pelo braço. — Tchau pessoas apaixonadas entediantes. — Ela deu tchau para nós e Mon-El imitou o gesto.

— Eles definitivamente são uma combinação. — Kara falou assim que os viu lado a lado e de fato foram, Mon-El e Alex se tornaram grandes amigos, quase que inseparáveis por um tempo. O que me causou certo ciúmes. — Você quer conhecer meus pais? — Kara perguntou naturalmente, mas a minha expressão talvez tivesse entregado a onda de pânico que entrei ao ouvir “meus pais”. — Calma, não desse jeito. — Ela me tranquilizou. Respirei aliviada. Fomos até seus pais que estavam diante minha mãe em um conversa amistosa.

— Parece que elas se encontraram. — Minha mãe falou ao nos ver. Paramos diante deles.

— Lena, é um prazer conhece-la. — A mãe de Kara não esperou apresentações. — Eu sou Alura. — Apertei sua mão.

— E eu Zor-El. — Seu pai seguiu a deixa da esposa. Não tivemos, muito tempo, pois logo os eventos da noite estariam começando. Kara e eu ficamos a sós novamente, enquanto nossos país brincavam de governar galáxias.

— Você que escapar? — Ela perguntou-me com um sussurro.

— Pode apostar que sim. — Não precisei dizer mais nada e estávamos andando em direção a saída.

Não tínhamos um lugar certo, apenas queríamos estar longe da agitação e nos vimos em um jardim, cuja principal decoração era um labirinto formando por flores e arvores das mais variadas cores. Os nativos daquele planeta eram o que podíamos chamar de jardineiros naturais, o cheiro que o lugar exalava era indescritível, misturava o aroma de todas a flores ali com as frutas das arvores.

— Isso é lindo. — Falei olhando para tudo aquilo encantada.

— Inquestionavelmente lindo. — Olhei para Kara, mas ela não olhava para as flores e sim para mim. — Para você. — Ela me ofereceu uma das flores do local. Ao receber a flor peguei sua mão e a puxei para junto de mim.

— Esses últimos dois meses foram longos para mim. — Toquei seu rosto, ela tinha um leve sorriso formado.

— Krypton tem três horas a mais que a terra, eu posso dizer que foram mais longos para mim. — Suas mãos desceram para mim cintura e me puxaram colando nossos corpos.

— Cala a boca... — Sussurrei. Em segundos estávamos nos beijando. Kara tinha aquele tipo de beijo que começa leve e gentil, mas que aos poucos ganha um ritmo fervente e domina todos seu corpo.

Ela me conduziu até a parede mais próxima sem descolar seus lábios dos meus, senti minhas costas colarem a superfície fria do mármore da construção. Minhas mãos estavam agarradas a sua nuca, junto aquele mar de fios dourados. Inverti nossas posições, vi um sorriso quase cínico surgir em rosto. Beijei sua boca rapidamente, mas logo escorreguei para seu pescoço. O cheiro guardado ali realmente despertou algo em mim, as mãos de Kara desceram por meu vestido até meu bumbum, ela o apertou levemente juntando mais ainda nossos corpos. Voltei para sua boca, minhas mãos agora subiam em direção aos seus seios. Dado o seu decote eles estavam mais ao meu alcance do que pensei, voltei ao seu pescoço, mas dessa vez desci um pouco mais. As mãos dela agarravam meu cabelo firmemente, subi devagar e parei diante de seu rosto. Ambas tínhamos a respiração descompassada.

— Eu preciso de uma bebida gelada, bem gelada. — Beijei seu rosto.

— Por favor, só uma não vai resolver. — Kara juntou nossos lábios em um beijo breve. Ela movia a boca para falar algo a interrompi.

— Não diga que nós temos que voltar para a festa. — Resmunguei.

— Nós temos. — Kara respondeu.

Voltamos para a festa e tudo seguiu normal, exceto que nós falhávamos miseravelmente em esconder o interesse uma na outra. Era difícil alguém não notar e com o passar das horas ficou mais difícil para nós lembrar que tínhamos algo a esconder, ao menos naquele momento. Quando a festa chegou ao fim, tive que me despedir de Kara diante de todos, não era exatamente o tipo de despedida que eu queria.

— Adivinha quem vai ter um orgasmo tamareano hoje a noite. — Alex me exibiu a chave.

— Você é o diabo. — Alex piscou para mim rapidamente e saiu disfarçadamente com a princesa, eu só esperava que ela não acabasse em uma forca, ao fugir pela manhã sem dar satisfações.

Dessa vez Kara havia me deixado com os gosto de seus beijos e a lembrança de seus toques, já era algo. Eu não esperava que nos víssemos tão logo, mas eu sabia que ela não iria esquecer aquele momento.

— Fim do Flashback

Parademônios apareciam de todas as partes na orbita de Daxam, o céu estava infestado deles, procurando por algo para matar. Eu os via atravessando caças sônicos como se fossem de papelão, aquilo me assustou tanto quanto ver Kara os liderando.

— Lori, me escute. Não arrisque mais do que você tem, entendeu? Seu trabalho é abrir caminho para Hope, mas de modo algum enfrentar Kara. — Ela confirmou com a cabeça.

Agora nós estávamos protegidos por escudos, mas não minha filha. Ela estava lá fora, voando e batalhando contra demônios. Alex assistia tudo atenta. Vi Kara começar a se mover quando viu que perdia vantagem, ela voava em direção a Lori e Sam, mas como o esperado Hope a interceptou. Elas passaram a trocar socos e bater entre naves, eu mal conseguia ver seus movimentos.

— Agora! Nos puxem para dentro. — Hope gritou, ela havia conseguido injetar a kryptonita em Kara. Alex correu até elas com algemas feita sob medida para Kara, forjadas da mais pura kryptonita. Ela ainda se debatia tentando escapar.

— Você perdeu para de se envergonhar. — Hope a provocou.

— Eu posso estar em algemas, mas eu ainda sou o ser mais poderoso que o universo já viu. Uma deusa para sua espécie. — Kara bateu as mãos no chão enfurecida. Ela não notou sua vulnerabilidade e acabou por se machucar.

— Bem, do meu ponto de vista você é só uma perdedora. — Hope fez sinal para que os cadetes a levassem.

— É ela, mas... isso não é a Kara. — Falei para Alex que me olhou tão confusa quanto eu estava.

— Vocês notaram os dois pequenos objetos circulares pertos das têmporas dela? — A jovem amiga de Lori nos perguntou. Nós não tivemos resposta. — Inibidores de memória ou algo do tipo. — Alex olhou para a garota impressionada.

Esperei horas até que as tais coisas fossem removidas com cuidado o suficiente para não danificar a consciência de Kara. Eu não sabia o quanto dela teríamos de volta, mas eu aceitaria. Fiquei frente a sua cela até que ela acordasse, mas quando ela o fez tudo que encontrei foi indiferença. Contra as recomendações de Alex entrei no recinto, ela não parecia hostil ou pronta para atacar.

— Você se lembra de mim? — Fiquei de pé diante dela.

— Eu deveria? — Existia uma arrogância naquela pessoa que não fazia parte de Kara e aquilo me machucava. Me aproximei dela e segurei seu rosto, ela não teve uma única reação física. — Olhe para mim, eu sei que você está aí. — Aquele olhar ameaçador mudou repentinamente para o que eu conhecia.

— Elena? — Ela pareceu confusa, como se estivesse acordada pela primeira vez em anos. Ela moveu as mãos e alcançou meu rosto. — Era tão escuro, eu estava... perdida. — Kara afundou o rosto em meu peito, como se lembranças terríveis voltassem para ela.

— Está tudo bem. — A segurei o mais firme que pude. Ela voltou a me olhar, mas sua expressão mudou, ela começou a gargalhar.

— Você acha que me conhece? Isso é triste, você sabe o que eu quero fazer agora? Arrancar seu coração com um belo sorriso no rosto. — Ela se desvencilhou de mim.

— Eu sei que a Kara que conheço ainda está aí. — Ela deu de ombros.

— Ela pode estar, mas acredite não vai voltar. Não importa os truques sentimentais que você use. — Ela me empurrou contra a parede com força. — Mas eu não preciso ser ela para achar você atraente. — Ela estava me assustando, aquele olhar não era de Kara, aquela atitude e violência. Senti suas mãos envolverem meu pescoço.

— Você está me machucando. — Tentei empurra-la, mas mesmo com as algemas de kryptonita ela ainda era mais forte que eu.

— É exatamente o que vou fazer, caso você continue vindo aqui. Eu vou machucar você. — As mãos dela continuaram em volta do meu pescoço. Eu senti nos meus ossos que aquilo não era verdade.

— Me machuque, vamos! — Ela não conseguiu, suas mãos se recusaram a atender seu comando. Ao invés disso sua mão esquerda alcançou meu rosto. Enquanto a direita permanecia em meus pescoço.

— Porque eu não consigo? — Ela estava perguntando para si mesma e não para mim. Segurei seu rosto com minhas duas mãos, eu sabia que aquilo não era exatamente o que eu devia fazer, mas eu não conseguiria ser sensata se tratando de Kara. A beijei e o beijo foi correspondido. Ela permaneceu com uma mão em meu pescoço e a outra em meu rosto. Aquilo dizia muito sobre a situação, era Kara, mas apenas parcialmente. Existia um pé na realidade e outro na violência. Ela interrompeu o beijo e me olhou novamente como se me conhecesse. Sua mão deslizou vagarosamente em direção a porta da cela. — Vá, por favor. — Ela abriu a porta e me empurrou em direção a saída.

Minha esposa estava lá em algum, lugar eu iria recupera-la. Eu não sabia o quanto de si ela tinha perdido, mas eu a ajudaria a recuperar e o que não fosse possível recuperar, nós aprenderíamos a viver sem ou reconstruiríamos.

Notas finais
Terminamos mais um capítulo, espero que tenham gostado. Beijos e até o próximo.