Conto de Duas Galáxias

2 Capítulo 2 - A Política das Meias Verdades


Notas iniciais
Olá gente, esse capítulo é um pouco longo. Espero que vocês gostem e boa leitura.

— Lena —

O tipo de vida que a Luthor mais nova levava não era fácil, ela conseguiu herdar todas as tarefas impossíveis e sujas que alguém pode fazer, cada decisão difícil que era tomada em relação aos Impérios Galáticos passava por ela, algumas delas não eram agradáveis e nem mesmo podia-se dizer que eram dignas de uma boa pessoa. Mover-se entre aquele complexo penitenciário para ela já não era novidade, alguns prisioneiros estavam ali desde seus primeiros anos como líder do Império Terráqueo, ela não podia evitar sentir pena deles, mesmo que soubesse que todos mereciam suas sentenças.

— Lena, eu fiz uma nova amiga e quero que você a conheça. — Alex era a única amiga além de Winn com a qual eu mantinha contato.

— Eu não estou interessada nos seus casos passageiros, Alexandra. — Ela mexeu em seu cabelo e fez uma careta para parecer ofendida.

— Não é bem o que você está pensando, por mais que se... ela tomasse um banho penteasse o cabelo, talvez se tornasse bem atraente. — Não consegui evitar revirar os olhos, eu me perguntava quando Alex encontraria um relacionamento sólido, ela realmente precisava daquilo.

— Porque diabos você me trouxe aqui? — Perguntei impaciente. Alex não respondeu nada, apenas me abriu uma cela.

— Nós a encontramos em um planeta na galáxia de Durla, ela implorava por asilo. Aparentemente, era a única coisa que ela sabia dizer na nossa língua. Junto com o seu nome, é claro. — Alex completou. Olhei para a mulher que se encolhia contra a parede, ela estava machucada. Aquele era o tipo de sofrimento que só um prisioneiro de anos havia passado.

— Mas é impossível um humano sobreviver em Durla sem a proteção apropriada, mesmo com proteção... mais de dois dias lá mataria qualquer um. — Andei até ela e ajoelhei-me em sua frente. Seus cabelos eram longos e escuros, mas não escuros como os meus, eles eram de um castanho quase claro. Seus olhos eram verdes em um tom incomum... Eu podia dizer que só via aquele tom nas folhas, logo após a chuva. Pude notar que ela estava sangrando, haviam ferimentos por todo o seu corpo. — Por Deus, Alex. Vocês não pensaram em dar algo para ela comer ou fazer alguns curativos? — A situação em que ela se encontrava me deixou um tanto abalada.

— Ela não deixa ninguém toca-la, mas você pode tentar a sorte se quiser. — Alex chutou um kit de primeiros socorros em minha direção. Abri a maleta sem tirar os olhos da misteriosa mulher. Seus traços eram algo que podiam ser descrevidos como russos e franceses. Mergulhei um algodão em um pouco de álcool, vendo minha movimentação ela se afastou. Segurei sua mão devagar, seu primeiro instinto foi puxar, mas estranhamente eu vi confiança em seus olhos.

— Eu sou uma amiga, tudo bem? Eu estou aqui para te ajudar, desde que você não seja um perigo para ninguém. — Ela me entregou sua outra mão em um ato de confiança.

— Isso foi tocante... — Alex resmungou de pé.

— Cala a boca, Alex. — Usei a confiança que a mulher tinha depositado em mim para ajuda-la a levantar. — Vamos, você precisa de um banho e alguma comida. — Ela andava ao meu lado devagar, eu ainda teria que obter muitas respostas dela, principalmente como ela sabia meu nome ou como foi parar em Durla e ainda por cima conseguiu sobreviver lá. — Qual a situação psicológica dela? — Perguntei sem tirar os olhos da mulher, ela tinha um porte alto, estava magra e desidratada. A luz do local a incomodava a cada lâmpada pela qual passávamos eu a via se esforçar para manter os olhos abertos.

— Ela apresenta um estado de confusão mental, não loucura, mas apenas confusão. É como se a consciência dela tivesse sido arrancada de seu corpo e devolvida em um milésimo de segundos e ela ainda não conseguiu processar isso. — Aquilo não fazia o menor sentido. Ela poderia simplesmente dizer estresse pós-traumático ou um desses termos confusos de psiquiatras.

— O sangue que peguei dela... — Passei um algodão encharcado de sangue para Alex, um que eu tinha certeza que pertencia a mulher. — Faça testes genéticos, cruze com todas as linhas e arvores genealógicas possíveis. — Alex hesitou.

— Eu não posso deixar você sozinha com ela, ela pode machucar você. — A vi relutar a minha ordem.

— Ela não vai me machucar, eu tenho certeza. Agora vá e mantenha tudo fora de registro. — Eu não sabia porque, mas aquela mulher estava ali com um propósito, mesmo que nem ela mesma soubesse qual. Alex finalmente pegou o algodão e caminhou em direção ao seu laboratório particular.

Entramos no banheiro, em momento algum os punhos da misteriosa mulher relaxaram. Ela estava com eles cerrados a todo momento, como se esperasse um ataque. Fui até o box e liguei o chuveiro, algo me dizia que ela não entraria ali amigavelmente. Levei minha mão até a água para mostra-la que era seguro, ela finalmente entrou. Sai e a dei privacidade para que fizesse o resto. Demorou um pouco até que ela saísse do box completamente nua, sem pudor algum. Joguei uma tolha sobre seu corpo, ela parecia mais relaxada após o banho.

— Você está com fome? — Perguntei, ela não respondeu nada. Apenas me olhou curiosamente. — É claro que você não vai responder, uma mulher de poucas palavras, certo? — O silêncio imperou mais uma vez. — Ok. Vamos levar você até a cozinha. — A coloquei dentro do primeiro roupão que encontrei no banheiro. Ela realmente dificultou minha vida no momento de amarrar a peça. Eu continuava dando nós em sua cintura e ela a desfaze-los, até que decidi dar um giro completo ficaria mais difícil para ela remover. — Você tem que estar vestida, as pessoas acham estranho alguém andando despido por aí. — Movi seu cabelo para o lado, uma marca de nascença se apresentou para mim, era a mesma que minha filha tinha e a mesma que Kara tinha. A pequena mancha no topo da nuca, tudo aquilo só ficava mais e mais estranho.

Não me detive muito tempo ali, não queria deixa-la desconfortável. O próximo lugar que iríamos seria a cozinha. A fiz sentar em uma mesa enquanto pegava algo para nós comermos, fiz dois pratos e levei até ela.

— Aqui, você pode comer. — Vi a comida desaparecer diante dos meus olhos em poucos minutos, ela estava realmente faminta. Troquei seu prato vazio pelo meu, já que eu não tinha comido. Vi a mesma magica acontecer.

— Nós temos um problema. — Alex apareceu atrás de mim me assustando. Fui puxada e obrigada a ficar de pé. — Então, eu fiz alguns exames, todas as famílias, todas as combinações... — Ela respirou. — Você não vai acreditar nisso, depois de todos os DNA’S darem inconclusivos, eu tentei o DNA mitocondrial, não achei que teria uma combinação, mas bom... nós tivemos. A nossa bela refugiada é filha de Lori, sua neta... — Aquilo não era possível, só podia ser mais uma das piadas sem graça de Alex.

— Você tem razão, eu não acredito. — Me limitei a falar.

— E ficar pior, ela também tem meu DNA. O que quer dizer que é minha neta. — Eu não encontrei um único palavrão que expressasse o que eu sentia. Alex me passou seu os resultados obtidos.

— Tudo bem, nós temos que tirá-la daqui. — A puxei pelo braço e começamos a andar até a saída.

— Isso quer dizer que meu belo filho vai namorar a sua? Francamente, Jaime herdou o péssimo gosto para mulheres da mãe dele. — Alex tentou brincar.

— De qual delas? — Indaguei.

— Maggie é claro, que tipo de pessoa em sã consciência casaria comigo?! — Ela sempre brincava com aquilo, mas eu sabia que o divórcio a havia quebrado de tantas maneiras que era impossível numerar.

Paramos na saída atrás no prédio, eu não podia ir com elas. Haviam compromissos e uma agenda a ser cumprida por mim, quando olhei para a mulher suas feridas estavam cicatrizando milagrosamente.

— Eu odeio kryptonianos, um pouco de sol e eles estão curados dos piores espancamentos. — Alex retirou se casaco e cobriu a moça.

— Você tem que leva ela até Jonn, um telepata pode ajuda-la a recuperar sua mente. — Ela olhava de mim para Alex assustada. — Eu tenho aquele compromisso mensal hoje... — Conclui, minha velha amiga entendeu de imediato o que eu queria dizer.

— Eu sei o quanto você odeia fazer isso, eu posso ir em seu lugar e você cuida da pequena selvagem. — Olhei para a mulher que se admirava com algumas flores.

— Não, é meu dever, até os atos mais hediondos. — Ela me olhou com um pouco de compaixão, eu odiava que me olhassem daquele jeito, fazia com eu me sentisse fraca. Nos despedimos e cada uma seguiu seu caminho.

Flashback

Acordei aquela manhã totalmente descansada, olhei pela janela da nave e já havíamos pousado em Daxam. Procurei Kara ao meu lado, mas ela não estava lá. Tomei banho e me vesti, tentaria encontrá-la. Andando pelos corredores da nave vi uma tripulação totalmente diferente e eles me olhavam curiosos.

— Onde eu posso encontrar a tenente Zor-El? — Perguntei para um homem que me olhava com um pouco mais de admiração do que eu julgava merecer.

— Ela está no andar abaixo, senhorita. — Sorri para ele educadamente e voltei a andar. — Senhorita Luthor, eu gostaria de agradecer sua generosidade e de seu planeta, eu sei como deve ter sido difícil manejar esse carregamento. — Agora as coisas estavam ficando interessantes. Do que exatamente ele estava falando?

— Nós fazemos tudo para ajudarmos nossos aliados, senhor. — Entrei em seu jogo. Ele se mostrou mais agradecido ainda após eu falar isso.

Voltei a andar na direção que ele apontou, eu precisava saber o que nós trouxemos ali. A visita diplomática não era tão diplomática assim, com Lilian as coisas nunca eram o que pareciam, mas aquela era a primeira vez que ela me usava como peão e seria a última. Não encontrei Kara no recinto, mas vi caixas e mais caixas sendo arrastadas para fora da nave. Procurei uma que estivesse mais afastada e comecei a tentar abri-la.

— Fique longe disso, pode ser letal para você. — A tenente puxou-me pelo braço rapidamente.

— Eu não era sua missão, não é? Eram essas caixas. — Apontei para a caixa, ela não negou. — O que tem nessas caixas? — Recebi silêncio em troca. — O que tem na porra dessas caixas, Kara? — Bati na caixa em que estávamos próximas não percebi a madeira solta e acabei por me ferir.

— Você está bem? — A tenente de imediato pegou minha mão que estava sangrando.

— Responda minha pergunta. — Puxei a mão de volta.

— Granadas solares. — Ela fez sinal para que eu me afastasse, um recipiente foi tirado da caixa. Brilhava como o sol do meio-dia.

— Para quê elas serão usadas? — Indaguei confusa.

— Os daxamitas tem uma biologia semelhante à dos kryptonianos, você sabe o que está acontecendo aqui recentemente, uma guerra civil. Uma tentativa de derrubar a monarquia do planeta. — Ela relutou um pouco. — A terra concordou em ceder isso, um pouco do seu sol amarelo para fortalecer os soldados da monarquia e em troca Daxam se torna oficialmente um membro do Império. — Aquilo era mais sujo do que eu imaginava, nós estávamos ajudando a matar pessoas em outros planetas.

— Então, Daxam dobra o joelho e nós fornecemos a força para que milhares sejam massacrados. — Kara iria abrir a boca para argumentar. — Você pode me poupar das explicações, você é igualzinha a eles. — Sai do lugar, eu não conseguia entender aquele tipo de decisão a de tirar vida e dormir a noite, dizendo para si mesmo que é para um bem maior, bem nenhum é feito ao tirar uma vida.

Minha visita oficialmente começou com um café com o príncipe do lugar que atendia pelo nome de Lar Gand, a cada colher de comida que eu levava a boca me vinha uma vontade de vomitar, quando o refluxo estava próximo a minha garganta eu tinha que fazê-lo voltar. O príncipe não era uma criatura desagradável ou odiosa, pelo contrário um perfeito cavaleiro e anfitrião atencioso. Quando ficamos sozinhos em uma varanda do palácio finalmente pude pergunta-lo o que queria.

— Você acha que irá vencer a guerra, Alteza? — Perguntei despretensiosamente.

— Sim, graças a vocês terráqueos, mas porque eu sinto que você está me julgando, senhorita Luthor? — Ele era observador, eu gostava daquilo.

— Eu não acho que seja certo barganhar com vidas, troca-las por granadas por exemplo. — Ele mordeu o lábio desconfortável.

— Certo, eu costumava pensar assim também. — Ele respondeu.

— O que mudou? — Indaguei curiosa.

— Eu me tornei príncipe regente e acontece que decisões sujas fazem parte do trabalho. Um dia, senhorita. Eu pretendo fazer de Daxam uma democracia, mas este lugar ainda não está pronto para isso. — Ele foi sincero em sua resposta, me mantive em silêncio. — Você vai entender, eu garanto. Em um futuro você irá tomar o mesmo tipo de decisão que estou tomando aqui. — Ele deu um gole em sua bebida. — E acredite, você não consegue um sono tranquilo após toma-las, você segue marcado pelo resto de sua vida. — Eu podia ver o peso de uma coroa refletido no semblante do jovem.

— Quando esse dia chegar, eu espero ter o mesmo sangue frio que você para promover esse tipo de massacre. — Ele sorriu.

— Eu espero que esse dia nunca chegue para você. — Lar virou-se para o outro lado do salão. — Agora por favor, converse com sua tenente. Ela está seguindo você o dia todo como um cachorrinho arrependido. — Olhei para Kara que nos assistia do outro lado da sala. Me despedi do príncipe, ao menos por aquele momento, nós voltaríamos a nos ver durante a noite. Andei até onde a tenente estava, mas permaneci em silencio, eu esperaria ela falar. Não demorou muito.

— Senhorita, eu posso fazer um curativo apresentável em sua mão? Com todo respeito este está um desastre. — Olhei para a minha mão e era apenas um pano enrolado. Realmente não tão apresentável a realeza.

— Tudo bem. — A segui até seu quarto.

Sentei-me em uma mesa e ela frente a mim estendi minha mão, Kara limpava o corte que era mais profundo do que eu tinha notado antes. Ela não falava, apenas fazia o serviço.

— Você está brava comigo, senhorita? — Ela perguntou sem tirar os olhos do que fazia.

— Não exatamente brava, mas decepcionada... eu havia gostado de você. — Ela parou imediatamente o que estava fazendo e me olhou.

— Isso mudou? — Ela perguntou me olhando nos olhos, o que me assuntou dada a sua mania de abaixar o olhar sempre que eu buscava seus olhos.

— Não, mas você podia ter me contato sobre a carga. — Respondi calmamente.

— Isso não vai se repetir novamente, prometo. Nossas próximas missões serão baseadas em total confiança. — Ela me respondeu diretamente.

— Vão existir outras? — Kara finalizou o curativo.

— Bom, eu espero. Sua presença é... agradável. — Ela concluiu sorrindo discretamente.

— Você deve ser a única pessoa entre todas as galáxias que acha isso. — Respondi imediatamente.

— Você consegue ser encantadora, senhorita Luthor. Principalmente quando está brava. — Aquilo era um flerte? Fiquei desconcertada por um momento. — Você está corando? Pode-se dizer que estamos quites pela ocasião do sorvete então. — A tenente séria estava se mostrando ótima com flerte despretensioso.

— Eu não diria quites, afinal sua visão foi um tanto avantajada na ocasião. — Deixei a conversa fluir, eu estava gostando daquilo.

— Bom, nós ainda temos um bom caminho a percorrer até ficarmos quites, sendo assim. — Kara levantou-se. — Agora você deve descansar, senhorita. Daxamitas podem ser ótimos em festas, você terá que acompanhar seu ritmo. — Ela recolheu o material que usou para me fazer o curativo.

— Você me promete uma dança? — Ela assentiu.

— Podem haver algumas pisadas em seu pé, devo advertir. — Ela alcançou a maçaneta.

— Bem, tenho certeza que vai valer a pena. — A tenente se foi.

Aquele dia, não foi apenas sobre aprender que boas pessoas também fazem guerra, mas também sobre entender que muitas vezes politica é sobre o quanto você pode suportar. Política é sobre sorrir e fingir que está tudo bem, mesmo que tudo que você sinta seja vontade de colocar suas entranhas para fora e gritar.

— Fim do Flashback

Eu dirigia-me em direção ao meu trabalho mais desagradável naquele momento, eu podia passar aquele deve adiante, mas havia aprendido muito tempo atrás, se você quer respeito deve sujar as mãos.

— Senhora, nós temos doze acusados hoje. Todos pelos mesmos níveis de crimes, os imperdoáveis. — Eu odiava o modo como Hans falava imperdoáveis, ele fazia aquele palavra soar pior do que parecia. E em alguns momentos, eu sentia que ele gostava daquilo, da matança e do sangue.

— Moças e rapazes, vamos dar alguns tiros. — Coloquei minhas luvas e recebi um rifle. Estávamos diante doze condenados pelos mais variados crimes, desde tramar terrorismo contra outros planetas, até vir de outros planetas com intuito de vender informações sobre a terra em mercados negros espalhados pela galáxia. — Algum de vocês deseja pedir perdão por seus crimes? Nós ficaríamos aliviados em manda-los de volta aos seus planetas em um pedaço. — Aumentei minha voz.

— Chupa meu pau, sua vadia imperialista! — O homem gritou como se aquilo pudesse me ofender. Disparei a arma em um tiro certeiro em sua cabeça.

— O resto de vocês atirar à vontade. — Dei a ordem e me retirei do lugar, cada vez que fazia aquilo eu ouvia algo se quebrar dentro de mim.

Em seguida uma série de bajulações se sucederam, era o que acontecia nós havíamos acabado de tirar doze vidas, mas se arrepender daquilo passava longe da consciência daquelas pessoas. Seu primeiro instinto após disparar trinta balas contra a cabeça de alguém era parabenizar uns ao outros e em seguida vir até mim com suas mãos estendidas e sorrisos. Meu destino agora seria Alex e nossa convidada inesperada, chegando até lá a encontrei dormindo no sofá de Jonn. Ela definitivamente tinha a falta de graciosidade de Lori ao dormir.

— Então? — Perguntei enquanto jogava minha bolsa no sofá.

— Quando ela acordar podem haver gritos ou choros, muitas lembranças ruins voltando ao mesmo tempo. — Jonn me advertiu.

Me sentei frente a ela. Longas três horas se sucederam até que ela abriu os olhos, sem choro e sem gritos. Apenas um longo suspiro, como alguém que passa muito tempo embaixo da água ao voltar a superfície.

— Como você se sente? — Sua respiração estava ofegante, ela não conseguia focar em um único lugar.

— Eu preciso de uma bebida. — Ela apontou para a garrafa de whisky ao meu lado.

— Absolutamente minha neta. — Alex manifestou-se ao ver que suas primeiras palavras foram para pedir uma bebida. Comecei a encher o copo.

— Não, a garrafa inteira. — Ela estendeu a mão.

— Pare de me fazer sentir orgulho, garota. — Danvers continuou com suas piadas.

— Eu pensei que ia morrer. — Ela virou a garrafa na boca.

— Você é uma visita inesperada, você sabe disso, não é? — Perguntei para ela.

— Onde caralhos eu estou? — Ela resmungou com as mãos na cabeça.

— Onde você queria chegar? — Alex rebateu com uma pergunta.

— Terra, 20 de abril de 2016. — Ela respondeu.

— Bom, você está adiantada. — Apontei para o calendário.

— Ótimo, então eu ainda tenho tempo para salvar o traseiro incompetente de vocês. — Outro gole foi dado na bebida.

— Por favor explique. — Jonn interessou-se.

— 20 de abril de 2016... a terra será invadida por um conquistador de mundos chamado Darkseid, todos vocês vão morrer. Não todos de uma vez, claro. — Ela bebia o que continha na garrafa como se fosse água.

— O que acontece com nossa família? — Alex perguntou preocupada.

— Eu não diria uma família, eu nunca conheci minha mãe Lori, ela morreu quando eu tinha três anos. Vocês duas, eu ouvi muitas histórias, mas também nunca tive a chance de conhecer. — Eu me perguntava o quão desesperados eles estavam para usar viagem no tempo.

— Qual o interesse desse Darkseid na terra? — Alex fez minha próxima pergunta por mim.

— Não na terra exatamente, no seu sol amarelo. Ele não para aqui, segue para Daxam e Krypton trazendo-os para terra e os tornando soldados invencíveis e quem não se submetia a ele sempre acabava morto. — Ela respirou fundo. — Quando eu nasci a população de terráqueos resistindo na terra era de menos de 400 pessoas, no dia em que eu saí de lá, eu era a última da minha espécie. O restante todos soldados kryptonianos e daxamitas, servindo Darkseid e seus propósitos. — Aquele era o futuro que nos esperava? Aniquilação certa.

— Nós temos que nos preparar. — Jonn disparou. — Temos que fazer contato com Daxam e Krypton. — Minha neta permaneceu calada. Ela iria precisar ao menos de uma noite de descanso.

A levei até minha casa, Alex seguiu conosco. Eu não sabia o que pensar sobre o que vinha a seguir, apenas sabia que me assustava.

— Eu não perguntei, mas... qual seu nome? — Ela não me olhava, apenas tinha os olhos fixos em suas próprias mãos.

— Hope... Hope Luthor. — Sua responde veio em um quase sussurro.

— É um belo nome. — Achei incomum para uma Luthor, mas mesmo assim um bonito nome.

— Minha mãe adotiva costumava dizer que eu era a última esperança do nosso povo, por isso esse nome. Veja só, eu realmente acabei me tornando a última, não exatamente esperança, mas a última. — Segurei sua mão.

— Ei, você está aqui. Está tentando. — O carro estacionou frente a mansão. Ao chegarmos demos de cara com Lori adentrando em casa, Hope nunca havia conhecido a mãe lembrei-me dela falar.

— Ela não pode saber. — Ela sussurrou para mim. Lori andava em nossa direção.

— Querida, essa é Hope uma velha amiga. Ela irá ficar conosco por um tempo. — Lori estendeu a mão para aquela que nem imaginava ser sua filha.

— Prazer, eu sou Lori. — Hope apenas balançou a cabeça a sorriu.

Aquilo seria difícil para todos nós, mas quanto menos pessoas soubessem sua real identidade ou intenções melhor seria para nós.

— Hope —

Em um único dia eu consegui conhecer familiares e um jantar em família com minha mãe, avó e bisavó. Para uma pessoa que cresceu com comida racionada, uma mãe adotiva e histórias sobre um passado brilhante aquilo significava muito, mas acima de tudo... Era poder ver de perto, como meus ancestrais tinham tudo e mesmo assim, colocaram o mundo a perder. Após todos da casa irem dormir, eu pude finalmente ir ao jardim.

— Lar Gand, você pode me ouvir. — Tentei contato.

— Alto e claro, jovem. Me parece que a sua atuação se mostrou muito eficiente. Me conte, como foi conhecer seus ancestrais? — Ele indagou interessado.

— Honestamente, eu entendo o estado de calamidade que meu planeta entrou. Lena é uma líder fraca que governa com o coração e se recusa a ouvir o sinal de alerta em sua cabeça. Já Alexandra, bom... essa é uma comandante de alto escalão que esconde o fracasso pessoal atrás de sacadas irônicas. — Não era respeitoso falar daquelas forma, mas era apenas a verdade.

— Sua mãe? — Ele foi mais afundo na pergunta.

— Uma adolescente patética, como todos devem ser. Mudando o assunto da nossa conversa, elas sabem que algo está chegando, mas não sabem que Kara é praticamente um dos cavaleiros do apocalipse agora e elas não devem saber, não até eu tê-la morta, você entendeu? — Esse era o momento de virada da minha história, quando eu iria fazer o que ninguém mais conseguiu matar minha avó que respondia aos comandos de Darkseid.

— Você irá matar sua própria avó, isso não é crueldade demais? — Ele deu uma leve risada.

— Ela arrancou o coração da minha mãe e o exibiu diante milhares de pessoas, para fazê-la de exemplo. Ela matou minha avó em um piscar de olhos, a mulher que ela dizia amar e também levou o seu povo até Darkseid para ser escravizado, somente por terem os mesmos genes dos kryptonianos. Então, sim eu irei mata-la e acredite vai ser delicioso. — Eu esperava por esse momento desde que era uma criança.

— Você já pensou em demonstrar compaixão? — Certas vezes eu podia jurar que Lar era um péssimo aliado, ir a Daxam me pareceu o certo.

— Compaixão, clemência e piedade são o tipo de coisa que levaram minha mãe e meus ancestrais a serem mortos. Eu não carrego esse tipo de sentimento, senhor. — Respondi rapidamente.

— Pelos Deuses, você é a mais impiedosa entre todos os Luthor’s e Zor-El’s. — Eu realmente era e não tinha medo de demonstrar isso.

— Acredite, você ainda não viu nada. Alguém está vindo, até logo, alteza. — Desliguei o comunicador rapidamente.

— Não consegue dormir? — Era minha mãe, ao menos uma versão adolescente dela. Neguei com a cabeça. — Você quer fazer um lanche? — Fiz que sim, porque diabos eu não conseguia falar? Um nó formou-se em minha garganta.

Sentamos ao chão com a geladeira aberta, ela ficou ao meu lado em silêncio. Eu queria dizer algo, mas os malditos sentimentos tomaram conta de mim.

— Está tudo bem, você pode chorar se quiser. — A garota falou de modo tão doce que me fez realmente chorar. — Minha mãe não traria você aqui por acaso, algo muito ruim deve ter acontecido. — Limpei uma lágrima envergonhada.

— Você é bem perceptiva para a sua idade. — Ela sorriu.

— O que aconteceu? — A vi vira-se para mim. Eu não tinha muito de Lori, na verdade apenas os olhos. Todos os meus traços eram de Lena, ao menos era o que sempre me diziam.

— Tanta coisa, pessoas morreram, se machucaram e eu não consegui ajuda-las. — Respondi vagamente.

— Sua família? — Ela insistiu.

— Eu não tive uma, na verdade, mas eu ouvi histórias a respeito deles. — Conclui.

— Eu conheço a sensação. — Lori quase resmungou.

— Conhece? — Perguntei interessada.

— É, uma das minhas mães morreu quando eu ainda era pequena. Eu cresci com histórias sobre o quão maravilhosa ela era. Minha vontade sempre é dizer: não tão maravilhosa assim, já que ela me abandonou com vocês idiotas. — Aquele era exatamente o sentimento.

— Sua mãe morreu salvando um planeta. A minha morreu por puro sentimentalismo, por não conseguir matar a filha da puta mais cruel em toda a galáxia. — Me pergunto se ela soubesse que eu estava falando sobre ela.

— Bom, nesse caso façamos um brinde e uma promessa. — Ela ergueu seu iogurte enquanto eu ergui minha cerveja. Aquela cena estava totalmente as avessas. — Um brinde a sermos mães melhores que as nossas e a promessa de que seremos mais presentes. — Batemos nossas duas bebidas.

Pensei comigo mesma, não Lori você não será mais presente, você morrerá assim como uma de suas mães morreu, e me deixará a ouvir histórias sobre sua grandiosidade. Mas não havia utilidade em tentar contrastar ou comparar nossas dores, sempre haverá alguém por aí com um sofrimento semelhante ao seu e nesse momento eu estava feliz por esse alguém ser minha mãe e por poder compartilhar. Eu iria apenas trabalhar com o que deu certo, e dar certo no instante em que me encontrava, era poder sorrir um pouco.

Notas finais
Ficamos por aqui, me digam o que estão achando da história até aqui? Algo que gostariam de incluir? Beijinhos e até a próxima.