Conto de Duas Galáxias

3 Capítulo 3 - Entre um Passado Feliz e Um Futuro Angustiante


Notas iniciais
Vamos a mais um capítulo, boa leitura.

— Lena —

Estar em um nível de intimidade com alguém, aquele nível de intimidade em que você simplesmente tira a roupa se enfia na banheira e a pessoa te segue, esse nível é difícil de encontrar. Alex e eu estávamos nesse level, nós éramos inseparáveis desde a adolescia, mas foi na depressão dos 30 anos que percebemos que tudo poderia ir embora, mas algo permaneceria intacto, nossa amizade.

— Você quer sorvete? — Ela me apareceu no banheiro com um pote de sorvete e uma colher extra. Abaixou-se a tampa no vaso e sentou-se nele, francamente eu já tinha visto aquela cena um milhão de vezes.

— Você sabia que isso é extremamente nojento, não é? — Apontei dela para mim, ela sentada no vaso e eu na banheira.

— O quê? Nós não podemos ter um momento antes de enfrentarmos uma morte certa? — Ela estava lidando com aquilo melhor que eu. — A propósito, você realmente deveria transar antes de morrer. Fazem o quê? Oito anos, isso é deprimente. — Sim, faziam oito anos que eu não ia para cama com ninguém. E eu me sentia uma completa estranha por depois de tanto tempo ainda sentir que estaria traindo Kara de alguma forma.

— Você sabe que eu não consigo. — Resmunguei a resposta.

— Você não pode viver de masturbação na banheira para sempre. — Alex sabia como ser desagradável e ao mesmo tempo engraçada.

— Isso é indelicado. — Joguei o sabonete que estava ao meu alcance em sua direção. Não consegui acerta-la, mas no fim não era realmente minha intenção. Peguei o shampoo e estendi em sua direção.

— Eu não sou sua escrava, você pode lavar seu cabelo sozinha. — Continuei estendendo o frasco, ela iria se render. Não demoraram mais dez segundos e ela o estava pegando. — É tão deprimente quanto eu penso que é... Duas mulheres em seus 36 anos repetindo um habito de adolescência? — Ela referiu-se ao nosso ritual.

— Se existe um fundo do poço, eu diria que nós estamos nele. — Levei uma colher de sorvete a boca. — Ei, porque você nunca tentou reatar com Maggie? — Perguntei enquanto Alex se posicionava atrás de mim e pegava o shampoo.

— Não sei, eu sempre senti que mereci aquilo. Alguém que trabalha seis dias por semana e no único dia de folga escolhe dormir o dia inteiro, esse tipo de pessoa merece perder a família. — Ela suspirou e levou um pouco do liquido ao meu cabelo. — Além do mais, durante nossa última briga, eu falei demais... Jaime ouviu algo que nunca deveria, eu disse alto e claro que nunca quis ter filhos que ela me fez ter, pelo desejo dela. — Senti suas mãos tocarem meu cabelo e esfregarem levemente. Eu conhecia o drama Maggie e Alex sobre crianças, poderia até escrever um livro a respeito.

— Ei, nós duas sabemos que você ama o Jaime mais do que tudo. — Era verdade, Alex podia não ser exatamente a mãe mais presente, mas ela sempre tomava todas as decisões baseadas no bem-estar de Jaime.

— Sim, eu amo. — Seu sussurro saiu culpado e arrependido.

— Eu acho que te devo um pedido de desculpas, suas horas de trabalho a mais, as noites viradas em reuniões e estresse que você levou para casa. — Eu realmente me sentia culpada por aquilo, as vezes parecia que eu arrastava todos ao meu redor para o mesmo buraco em que eu me encontrava, vivendo no passado e incapaz de se recuperar de antigas dores.

— Você não tem culpa por eu ter sido uma péssima esposa e mãe. — Alex respondeu de imediato. — Você sabe o que eu lembrei essa semana vendo nossas fotos antigas? — Alex fez com que eu virasse para ela. — O dia em que você me apresentou Kara, eu sei que você não gosta de falar a respeito, mas... nós éramos tão felizes. — A espuma do shampoo quase cobria meus olhos aquele ponto, ela a limpou cuidadosamente.

— Você era tão babaca naquela época. — Alex gargalhou.

— Eu ainda sou uma babaca, porém agora eu tenho uma estrela dourada do exército no peito. — Ela bateu na água. Levei minha mão molhada ao seu rosto.

— Obrigada, por estar comigo todos esses anos, Danvers. Eu amo você. — Alex segurou minha mão carinhosamente.

— Eu também amo você. Agora você deveria terminar esse banho e ter uma boa noite de sono, nós teremos dias pesados pela frente. — Assenti.

Flashback

Meu tempo em Daxam chegou ao fim, tudo correu como o planejado, exceto que minha aguardada dança com Kara não tinha chegado a acontecer. Os daxamitas eram verdadeiramente bons em festejar.

— Como você se sente? — Kara indagou enquanto sentava-se a meu lado.

— Como se alguém tivesse me obrigado a dançar até meus pés sangrarem. — Respondi já bocejando.

— Descanse, senhorita. Nós chegaremos a terra em doze horas. — Ela me olhava com cuidado, quase como se tivesse me examinando, vendo se eu estava inteira.

— Posso dormir na sua cama hoje novamente? — Ela confirmou e eu apenas fechei meus olhos.

A segurança que me passava apenas ter Kara ao meu lado era inexplicável, eu sentia como se nada fosse me alcançar, ela não deixaria. Com os anos aprendi que realmente era daquele jeito, ela seguraria um prédio, uma bala ou até mesmo o mundo com as próprias mãos para que eu não me machucasse, mesmo que isso pudesse fazê-la morrer.

— Senhora, a nave está caindo por favor nós precisamos tira-la daqui. — A voz estranha me acordou.

— O quê? Eu não quero morrer! — Abri meus olhos e estava diante de Alex em meu quarto. Me perguntei como fui parar ali, mas logo conclui que pelo braços de Kara, o que foi um estranho pensamento de ser ter.

— Eu não quero morrer! — Alex imitou minha voz.

— Que idiota... — Resmunguei enquanto sentava na cama. Pude mira-la um pouco melhor após sentar. Maquiagem borrada, roupas amassadas, cabelo completamente bagunçado. Alguém tinha se divertido bastante a noite. — Você está um lixo. — Deitei novamente.

— Obrigada. — Ela respondeu simplesmente, sem provocações de volta e sem insultos. Ela estava apenas encostada na parede frente a mim, mas aquilo foi suficiente para saber que algo estava errado.

— Onde você esteve esse fim de semana? — Alex apenas sacudiu os ombros para minha pergunta. — Conchinha? — Vi sua cabeça balançar em afirmativo, bati na cama para que ela deitasse. Deixei que ela ficasse à vontade e relaxasse. Ela puxou meu braço e fez com que eu a envolvesse, era mais grave do que eu pensava. — O que aconteceu? — Tomei a iniciativa.

— Eu esperava que você pudesse ler meus pensamentos. — Sua voz soou baixa e cansada.

— Isso nos pouparia de muitas das suas besteiras passivo-agressivas, não acha? — Alex balançou a cabeça em afirmativo.

— Eu fiz algo muito estupido esse fim de semana. — Eu não precisava ver seu rosto para saber que a essa altura seus olhos estavam fechados.

— Obviamente, você é a rainha quando se trata de fazer estupidez. — Eu não iria pressiona-la por uma resposta ou para saber o que estava acontecendo, ela dividiria comigo no momento certo. — No que você está pensando? — Levantei um pouco a cabeça para olha-la, Alex estava com seus olhos fechados ela cairia no sono a qualquer momento.

— Jogar tudo para o alto. Ir de trem para Central City e salvar o mundo. — A sonolência se instalou em sua voz.

— Quando você se tornou uma futura vigilante? — Ela bocejou.

— Alguns segundos atrás. — Aos poucos senti seu corpo relaxar. — Uma oficial da Armada do Jardim de Infância de Krypton está lá embaixo esperando por você, creio que ela quer se despedir. — Alex avisou-me, meu corpo entrou em completo alerta.

— Você se importa se eu te deixar sozinha? — Ela negou com a cabeça. — Durma, tudo bem? Quando você acordar estarei aqui. — Sai juntando minhas roupas rapidamente, eu não sabia porque aquela urgência em ver Kara, mas eu sabia que ficaria extremamente frustrada, caso ela fosse embora e eu não conseguisse me despedir.

Desci as escadas correndo e lá estava Kara no sofá acompanhada de minha mãe, esqueci completamente minha empolgação ao ver Lilian. Ela não podia vê-la e nem mesmo senti-la, porque eu estava reprimindo aquilo? Bom, eu não sabia. Eu apenas concluí que seria estranho ou inapropriado.

— Quem me levou até meu quarto? — Direcionei a pergunta até Lilian.

— Seu irmão, ele não quis acordar você. — Por um segundo fiquei decepcionada por não ter sido Kara. — Agora, eu vou deixar vocês garotas conversarem, tenho muito o que fazer. — Minha mãe trocou um aperto de mão rápido com Kara e se foi.

— Eu só queria me despedir, sua companhia foi realmente agradável, senhorita. — Kara se ateve a formalidade.

— Eu posso dizer o mesmo. — Respondi. — Você que pode ficar ao menos uma semana na terra? — Não sei de onde veio aquilo, eu só queria mais tempo com ela.

— Uma semana seria um pouco demais, mas eu posso conseguir dois dias. — Era pouco, mas seria o suficiente tê-la comigo, ao menos mais um pouco.

— Eu aceito. — Ela sorriu para mim.

— O que nós vamos fazer? — Ela perguntou curiosa.

— Primeiro eu preciso de um banho e você se livrar desse uniforme, você tem algo normal? — Kara me olhou rapidamente de maneira cômica, como se não entendesse o que tinha de errado com o uniforme. — Sua missão acabou, no momento eu gostaria de conhecer Kara Zor-El e não mais a tenente. — Fez melhor sentido naquele momento.

— Como você quiser, Lena. — Era a primeira vez que ela me chamava pelo meu nome.

— Viu? É disso que estou falando, eu fico pronta em 30 minutos. Me encontre na garagem. — Concordamos com aquilo e cada uma tomou uma direção.

A rapidez com que me arrumei e voltei a garagem foi notável, Kara já estava lá quando cheguei. Ela ficava simplesmente adorável fora daquele uniforme.

— Boa escolha de roupas. — Apontei para seu vestido, ele era simples. Mas de alguma forma realçava ainda mais a beleza dela.

— Obrigada. Onde você vai me levar? — Começamos a andar em direção a um dos carros.

— Um cinema antigo local está exibindo a trilogia clássica de Star Wars, você tem um certo porte de nerd, tenho certeza que vai adorar. — Ela franziu o cenho.

— Eu não sou uma nerd. — Ela resmungou.

— Sério? Qual o barulho que as naves fazem no espaço? — Indaguei entrando no carro.

— Naves não fazem barulho no espaço, nós estamos no vácuo, sons não se propagam lá... — Ela parou de me olhar e gargalhou.

— Tudo bem, você venceu essa. — Dei partida.

Era uma segunda-feira a tarde, chegar ao cinema foi fácil e lugar estava vazio, apenas alguns adolescentes. Ver Kara se surpreendendo com cada comportamento rude ou sem educação dos humanos nunca ficava sem graça.

— Você são tão... — Ela procurou adjetivos.

— Passionais?

— Apaixonados. — A conclusão veio enquanto ela olhava bem para meus olhos.

— Nós também conseguimos ser um bando de tapados com a facilidade que somos apaixonados, dedicados e leais. — Ela ergueu a sobrancelha.

— Eu prefiro ver o melhor. — Kara respondeu sorrindo.

— Espero que você faça isso por mim, quando o meu lado tapado falar mais. — Eu estava arrancando uma série de sorrisos dela aquela tarde.

Quando o filme finalmente começou não recebi uma palavra dela, George Lucas e os Jedi realmente a fisgaram. Eu mal conseguia esperar para ver sua reação com o plot twist de O Império Contra-Ataca. E eu a recebi, junto com uma grande cara de desgosto ao lembrar do beijo entre Luke e Leia que acabaram por ser irmãos.

— Eu mal consigo esperar pelo próximo. E eu devo dizer, seria interessante emitirmos aqueles sons espaciais. — Ela admitiu.

— Bom, nós teremos que deixar o terceiro filme para amanhã, sem mais sessões hoje. — Apontei para o pequeno aviso na bilheteria.

— Qual é! Eu quero ver o resto, o que nós fazemos agora? — Ela perguntou como uma criança.

— Nós comemos. — A puxei pelo braço.

Entramos no primeiro restaurante que encontramos, um que eu nunca tinha entrado antes. Estávamos naquele momento da tarde em que não era tarde e nem noite ainda... e a luz que aquele momento causava em contato com Kara, fazia com que ela quase brilhasse. Comemos e conversamos um pouco, até eu perceber que não estava com dinheiro suficiente para pagar o jantar. Que piada, uma ricaça sem dinheiro para pagar por uma refeição.

— Você ainda ficaria dois dias aqui se eu não pudesse pagar pelo jantar? — Me debrucei sobre a mesa e sussurrei para ela. Os olhos de Kara arregalaram-se.

— Possivelmente. — Ela logo recuperou sua postura.

— O nós fazemos? — Perguntei quase gargalhando.

— Estou pensando. — Ela fechou os olhos. Logo a vi começar a tirar os sapatos. — Eu vou sair primeiro e quando for o momento certo, você me segue e me encontra na esquina. — Balancei a cabeça em afirmativo. O que eu estava pensando realmente era: Eu vou casar com essa mulher.

Esperei alguns minutos até achar o momento perfeito e poder sair, todos os garçons estavam ocupados com clientes, ninguém estava me olhando, ao menos eu achava isso. Quando um deles veio em direção a mim, meu primeiro impulso foi correr.

— Corre! — Gritei para Kara que andava logo a frente calmamente, nós nunca chegamos a uma conclusão se alguém nos seguia ou não aquele dia, mas o fato é, só paramos de correr quando chegamos ao jardim da minha casa.

— Nós somos fora da lei agora. — Kara deitou-se na grama.

— Eu acho que estou morrendo. — Deitei logo ao lado dela, eu mal conseguia respirar.

— Eu nunca tinha feito na parecido com isso em toda minha vida. — Kara apoiou-se em seus cotovelos e ficou me olhando.

— Podemos dizer que Lena Luthor é uma má influência. — Ela confirmou com a cabeça. — Ei, esse é o momento em que você me convence do contrário. — Kara me respondeu com uma careta.

— Me diga algo sobre você que ninguém sabe, como a reviravolta do filme. — Ela me interrogou, a primeira coisa que veio a minha cabeça foi o fato de que eu estava me apaixonando por ela. No entanto, ignorei isso.

— Meu nome de batismo é Elena. — Ninguém me chamava de Elena, eu realmente não gostava daquele nome, por alguma razão. — Sua vez. — Passei a bola antes que ela pudesse comentar sobre meu nome.

— Eu não sei... — Ela tirou o olhar de mim e em seguida deitou-se e passou a encarar as estrelas. — Às vezes, eu só queria ser normal. Sem exército, sem um grande nome de família para manter... — Viramos uma para outra quase ao mesmo tempo.

— Você pode ser normal sempre que quiser comigo. Garanto que existem muitos restaurantes dos quais nós podemos fugir juntas. — Ficamos ali por horas eu podia jurar, apenas nos olhando.

A hora de irmos para a cama chegou, quando fomos uma para cada lado vi minha mãe na varanda, ela não conseguia nos ver dali, eu esperava que não. Me aproximei.

— Você está apaixonada pela kryptoniana? — Lilian mais afirmou do que perguntou.

— Não... — Minha resposta foi quase um reflexo.

— Você está, não é? — Ela insistiu.

— E se eu estiver? — Fui um tanto agressiva.

— Eu diria que é melhor você fazer algo a respeito, ouvi dizer que em Krypton não existe limitação de gênero ou orientação sexual. Ela deve ter muitos pretendentes. — Lilian não deu a mínima para o fato de Kara ser uma mulher, aquilo me deu um alivio que eu não conseguia nem mesmo expressar.

— Isso não é engraçado, mãe. — Ela retirou uma folha seca de meu cabelo.

— Você quer um conselho de verdade? Não se segure e deixe o que você sente fluir. Amor é simples, você sente hoje? Apenas viva, amanhã ele pode não estar mais aqui. — Ela tocou meu rosto e me olhou de uma maneira como se aquilo fosse um aviso.

— Você acha que ela gosta de mim? — Perguntei de maneira infantil.

— Por favor, ela quase brilha quando você aparece. — Não pude evitar ficar extremamente feliz ao ouvir aquilo.

No dia seguinte encontrei Kara se preparando para ir embora, aquilo realmente foi frustrante. A acompanhei até a entrada da nave.

— Me desculpe, eu sei que prometi dois dias, mas... — A interrompi.

— Tudo bem, só me prometa voltar. — Ela fez que sim com a cabeça.

Naquele momento as palavras de minha mãe ecoaram em minha cabeça. Conferi e nós estávamos sozinhas, torci para que ela me odiasse por aquilo. Foi um instante de coragem e eu apenas a beijei, foi algo simples e rápido. Kara segurou meu rosto com as duas mãos e me olhou confusa, ela não sabia o que dizer. Então apenas me puxou para um beijo de verdade. Quando nos separamos ambas não sabíamos o que dizer.

— Bem, agora eu realmente não quero ir embora. — Ela sussurrou.

— Só não vá. — Sussurrei de volta.

— Tentarei voltar o mais breve possível. — Surpreendentemente ela beijou-me novamente.

Aquela foi a primeira vez que nos despedirmos, eu não podia dizer que foi a mais fácil, mas podia dizer que foi a mais alegre das despedidas, porque eu sabia que ela voltaria.

— Fim Flashback

Alex e eu resolvemos preparar uma operação disfarçada para irmos até Daxam, não podíamos alertar as forças militares do que estava prestes a acontecer e precisávamos da ajuda do agora rei de Daxam Lar Gand, era uma jogada arriscada, mas era a única que tínhamos e iríamos jogar com aquilo. Nós tínhamos uma viajante do futuro ao nosso lado, ela conhecia os acontecimentos, nada podia nos pegar desprevenidos.

Notas finais
Gente, a fic tem mais flashback que Arrow, mas foi o único jeito que encontrei de contar a história de Kara e Lena, se tive desagradável avisem.