Conto De Falhas
10 O rio.
Notas iniciais
Enfim. Ta ai. Esse capítulo foi uma bruxaria pra ficar pronto, mudei umas cinco mil vezes, não tinha esse título e tinha ficado enooorme, mas depois que eu conversei com a coisa diva da Ksis, as minhas ideias clarearam e saiu isso ai.
Nem preciso dizer que estou realmente, realmente muito feliz que o pessoal que lia a fanfic continua lendo, mesmo depois dessa putisse minha KK Obrigada, pessoal, vocês não sabem como isso é importante pra mim *-*
De qualquer modo, eu... err, calei. Vão ler xD
A noite passou como se eu tivesse apenas piscado os olhos. A última coisa de que me lembro foi ter olhado para o lado para me certificar de que eu não estava ficando louco: eu realmente estava dormindo na mesma cama com um cara. Tudo bem, esse cara era o Bill, não era como se eu realmente o considerasse muito homem – que ele não me ouça –, mas ele ainda tinha um brinquedinho bem peculiar no meio das pernas.
A questão é que não fomos andar a cavalo naquele dia. Viktoria e Bill foram buscar tio Steve no aeroporto e mamãe mantivera o resto de nós ocupados o bastante para sequer conseguirmos conversar.
Gustav passou o dia ajudando no jardim, Georg na cozinha, Stu com a decoração do interior e eu correndo de um lado para o outro, atrás da dona Simone com uma prancheta, anotando coisas que faltavam e ligando para confirmar a presença dos primos que moravam na Inglaterra. No total, digamos que o dia tenha sido praticamente perdido. Quando me dei conta, estávamos saindo da mesa de jantar com minha mãe tagarelando sobre meu pai chegar no dia seguinte.
– Vai nos liberar amanhã, dona Simone? – Perguntei me espreguiçando enquanto subíamos silenciosamente as escadas (exceto pelo choro escandaloso do bebê e tia Kristina cantarolando algo para acalmá-lo; estava a ponto de tapar a boca dele eu mesmo se aquilo não funcionasse).
– Sim. – Respondeu ela, estendendo a mão e pousando-a em meu ombro. Esperou que Bill se aproximasse e nos colocou lado a lado. – Amanhã, vocês podem se divertir. – Completou.
Sorrimos e nos despedimos do resto da família, entrando mais uma vez no quarto.
– Que dia foi esse? – Comentei comigo mesmo, caindo na cama.
– Foi agradável. – Disse Bill, deitando-se em seu lado da cama.
– Agradável? – Perguntei me sentando e encarando-o. – O que quer dizer com isso?
– Bem, o pai da Viktoria é bem gentil e passar o dia com ela foi realmente legal. – Respondeu ele olhando para o teto.
– O que é que você está me dizendo?
– O que?
– Está gostando da Viktoria? – Perguntei arregalando os olhos. Bill se sentou também e me encarou.
– Jesus, não. – Respondeu rindo de leve. – Quero dizer, ela é legal e realmente bonita, mas, não.
– Por que não? Tem algo a ver com a Thalita? – Perguntei. Sério, eu quis me bater depois, mas eu realmente perguntei isso.
Bill voltou a se deitar.
– Isto é, você não precisa me dizer, se não quiser, eu...
– Tudo bem. – Cortou-me – Sim, tem a ver com a Thalita.
– Você... ainda a ama? – Perguntei cautelosamente, apoiando-me no cotovelo para poder ver suas expressões.
– Sim. – Respondeu. Respirei fundo e deitei a cabeça no travesseiro, olhando para o teto. – Como se ela fosse minha irmã.
Continuei olhando só para o teto. Descobri que não queria ver seu rosto.
– Mas ela gosta de você de outro jeito, não é?!
– Algo assim.
Ficamos em silêncio por um tempo, à luz do abajur ao lado da cama.
– Ela é importante pra mim. – Continuou. – Queria que não tivesse acabado do jeito que acabou.
– Você quer falar sobre o que aconteceu?
– Sim.
Fiquei em silêncio, esperando que ele continuasse quando se sentisse seguro. Um momento depois, Bill se virou de frente para mim e suspirou.
– Thalita é minha irmã de criação e eu sempre a vi assim, nunca me permiti amá-la de outra forma. Ela, por outro lado, via em mim a figura paterna que nunca tivemos, e era isso que eu tentava ser para ela. Mas à medida que fomos crescendo, imagino que ela tenha visto algo em mim que pareceu atraente a seus olhos. Eu também não podia negar que a achava muito bonita, a tentação era enorme, vivíamos na mesma casa, não éramos irmãos de verdade... Começamos a namorar, mas eu não conseguia apagar a imagem de irmãzinha que havia dela em meu coração, então nós terminamos. Thalita não aceitou isso exatamente bem, por isso fui obrigado a me mudar e as coisas ficaram realmente difíceis depois disso.
– Sinto muito. – Falei, me sentindo mal por tê-la julgado mal.
– Não sinta.
O silêncio se instalou entre nós outra vez.
– Sabe, – comecei inseguro. Havia evitado esse assunto ao extremo nos últimos três anos, mas achei que aquela era a hora certa, que eu poderia contar qualquer coisa para Bill naquele momento – sobre Stu...
– Vai me dizer o que houve? –Perguntou Bill, sua voz parecendo ainda mais aveludada que de costume. Mais uma vez, respirei fundo.
– Costumávamos ser melhores amigos... – Murmurei com uma risadinha.
– Mas algo mudou, não é?
– Sim. Nosso avô morreu. – Contei – Aquela caminhonete com a lataria enferrujada era dele. Era a semana da festa; nem eu, nem Stu tínhamos carteira de habilitação e pegamos a caminhonete sem permissão naquele dia. Vovô precisava dela porque ia levar uma égua até a fazenda vizinha, mas havíamos levado a caminhonete, então ele selou a égua e montou.
Percebi que estava começando a ficar emocionado, então me virei para o outro lado, para que Bill não percebesse.
– A égua voltou para a baia sozinha um tempo depois. Quando eu e Stu voltamos para casa naquele dia, o mundo pareceu cair sobre nossas cabeças. A casa estava silenciosa e tudo o que conseguíamos ouvir era Viktoria chorando baixinho.
– O que aconteceu? – Perguntou Bill.
– Vovô teve um enfarto, foi o que disseram. Tentei dizer a Stu que a culpa não fora dele nem de ninguém, que mesmo se não tivéssemos pegado a caminhonete, vovô teria morrido de qualquer jeito porque era sua hora, todos iam morrer um dia, mas eu só conseguia soluçar e então brigamos. – Funguei – Depois desse dia, nunca mais nos falamos direito e acho que nunca mais nos falaremos. Talvez seja por isso que eu odeio tanto essa festa idiota.
Senti Bill pousar a mão no meu ombro.
– Eu sinto muito. – Disse ele, se aproximando. – Você está chorando?
Limpei rapidamente uma lágrima teimosa. Nunca na minha vida eu imaginara que estaria nessa situação.
– Não chore. – Sussurrou Bill, me abraçando.
Senti seus braços se aproximarem, senti sua respiração lenta bater no meu pescoço. Alguns dias atrás eu simplesmente teria uma sincope só de imaginar algo assim. Agora, no entanto, eu só queria poder ficar ali e ser confortado. Jamais me imaginara repetindo essa história para quem quer que fosse, mas lá estava eu, chorando feito uma garotinha e sendo confortado por um marmanjo. Aquilo era tão absurdamente ridículo que eu mal conseguia acreditar.
Algo estava realmente diferente dessa vez.
Quando acordei, no dia seguinte, Bill ainda estava coberto até a cabeça, encolhido do seu lado da cama. Espreguicei-me e deixei o quarto o mais silenciosamente possível.
Enquanto descia as escadas, dei de cara com tio Steve, com uma xícara de café nas mãos e o jornal debaixo do braço.
– Bom dia. – Disse ele, dando um peteleco na minha testa e continuando a subir as escadas. Mostrei-lhe a língua quando ele se virou. – Eu vi!
Arregalei os olhos e terminei de descer as escadas correndo.
– Bom dia, querido. – Disse mamãe quando cheguei à cozinha. Viktoria e Stu estavam sentados à mesa; cumprimentei Viktoria. – Onde está Billa?
– Ainda não acordou. – Respondi – Pensei em preparar Kira e Alba para darmos uma volta.
– É uma ótima ideia. – Disse ela com um sorriso enorme. Pelo visto, dona Simone pensava que seus esforços para fazer de mim um cara romântico estavam funcionando. Ela não sabia nem da metade.
– Podemos levar uma cesta e fazer um piquenique. – Sugeriu Viktoria.
– Tudo bem. – Falei me sentando ao seu lado na mesa e enchendo uma caneca com leite.
– Você vai? – Perguntou ela, se referindo a Stu.
– Acho que sim. – Respondeu ele. Fiquei com vontade de dizer que eu não o chamara, mas resolvi ficar quieto, só para variar.
– Isso vai ser ótimo. – Comentou Viktoria, passando geleia em uma torrada e mordendo-a.
– O que vai ser ótimo? – Perguntou Gustav, aparecendo na cozinha com Georg nos calcanhares, se espreguiçando. Sério, às vezes aqueles dois pareciam um casal gay.
– Vamos fazer um piquenique. – Explicou Viktoria – Vocês vem?
– Querida, – começou Georg, sentando-se ao lado de Viktoria na mesa. Cortou um pedaço particularmente grande de bolo de laranja e colocou no prato a sua frente – se tiver comida, estamos nessa.
Gustav fez um hi-five com ele, bocejando. O resto da família que já estava pela casa pareceu escolher exatamente esse momento para aparecer na cozinha.
Como se tivessem ensaiado, lá vinham tio Henri, tia Kristina e o bebê, tio Steve, tio Dave, tia Megan, tia Berta, Charlie, Tyler e Kimmi. A mesa foi ocupada em poucos segundos e se tornou muito difícil manter o diálogo, por isso terminamos de comer e saímos pela porta dos fundos.
Viktoria encostou-se à pilastra da varanda, de frente para a piscina, de onde podíamos ver as baias.
– Precisamos preparar os cavalos. – Disse ela, colocando um chapéu que alguém deixara pendurado no gancho de rede preso à parede sobre os cabelos escuros.
– Vocês fazem isso. – Falei. – Vou acordar Billa e descolar a comida.
– Quer ajuda com a parte da comida? – Perguntou Georg.
– Não, obrigado. Pretendemos levar a comida e não comê-la no caminho. – Respondi e voltei para a cozinha.
Passei por lá sem nem ser notado – apesar de ter que desviar de um dos pirralhos (que eu não sabia se era Charlie ou Tyler) – e subi as escadas correndo.
Bill estava sentado na beirada da cama, amarrando os tênis.
– Bom dia. – Disse ele, com um sorriso brilhante.
Me segurei pra não ter um infarto, já que ele parecia ainda mais bonito do que eu conseguia me lembrar. O problema era que ele estava sem camisa, ainda não estava maquiado, e precisando fazer a barba.
É isso aí, eu estou enlouquecendo. Como se já não bastasse aquela cena lastimável na noite passada, agora eu estava achando o cara bonito, mesmo sem se parecer com uma garota. Sério, alguma coisa estava muito errada.
– B-bom dia. – Respondi, engolindo em seco e desviando o olhar dele. – Err, então, nós vamos andar a cavalo.
– Nós, quem? — Perguntou indo até a gaveta e pegando uma camisa xadrez vermelha. Minha, diga-se de passagem. Passou a camisa pelos braços e abotoou até em cima, colocando um colete por cima, para disfarçar, você sabe.
– Gustav, Georg, Viktoria, Stu, eu e... você? – Respondi tentando olhar para qualquer coisa que não fosse Bill.
– Tudo bem. – Disse ele, entrando no banheiro com um lápis preto nas mãos. Analisou seu reflexo no espelho. – Pode pegar meu barbeador na minha mala?
Quase dei risada. Quero dizer, era realmente cômico imaginar Bill fazendo a barba, era mesmo.
De qualquer modo, peguei o barbeador e lhe entreguei.
Fiquei durante algum tempo observando-o pelo espelho enquanto a barba ia sumindo, e depois de deslizar o lápis sobre a pálpebra, as feições femininas se acentuavam. Ficava irritantemente lindo, mas eu acabara de descobrir que não importava se usava ou não maquiagem, se se parecia ou não com uma garota, o filho da puta era bonito de qualquer jeito. Não que eu estivesse exatamente feliz em constatar que pensava assim.
– Vamos? – Perguntou, deixando o lápis entre os sabonetes cor-de-rosa.
Balancei a cabeça para afastar os pensamentos anteriores e concordei.
Resolvemos sair pela porta da frente, para evitar ter que passar pela cozinha barulhenta. Bill contornou a casa em direção à piscina e eu pedi para uma das empregadas trazer uma cesta de piquenique.
Enquanto esperava, fiquei olhando Bill descer para as baias, o cabelo esvoaçando enquanto ele corria em direção a Viktoria, que o esperava com as rédeas de um dos cavalos. Fui interrompido pela empregada com a cesta.
– Obrigado. – Falei e desci correndo atrás de Bill.
– Pra onde vamos? – Estava perguntando Georg quando consegui alcançá-los, montando um cavalo baio especialmente brilhante.
– Podíamos ir pro lado do rio. – Respondeu Gustav. Pois é, aqueles dois conheciam a fazenda mais do que eu.
– É uma boa ideia. – Disse Viktoria, puxando as rédeas de Alba enquanto eu selava Kira.
– Certo, então nós vamos indo. Encontramos vocês nas parreiras. – Respondeu Georg e saiu com Gustav. Acenei, tentando não pensar naquela minha teoria, você sabe, de que os dois pareciam um casal.
– Tudo bem, como vamos fazer isso? – Perguntou Viktoria, olhando de Bill para Alba. Bill deu de ombros.
– Ensine-a a montar. – Respondi, pulando para cima de Kira. – Depois a ensine a cavalgar. Não tem segredo.
Fiz uma saudação militar com dois dedos para Viktoria e Bill e saí devagar com Kira, fazendo questão de quase atropelar Stu, montando o cavalo do tio Steve.
– Certo. – Disse Viktoria. Não me virei para ver o que ela estava fazendo, mas esperei-os. – Primeiro você coloca o pé esquerdo aqui, desse jeito, depois passa a perna direita para o outro lado. É como andar de bicicleta.
Dei uma risadinha baixa. Eu não conseguia vê-los, mas podia imaginar. Viktoria era boa em muitas coisas, mas com certeza não em ensinar a montar.
– Ao invés de rir como um idiota, devia ajudá-las. – Disse Stu, me assustando.
Virei o rosto para ele, mas ele já tinha se afastado com o cavalo para o lado onde Bill e Viktoria tentavam se entender.
– É melhor você montar com alguém. – Disse ele, tentando ajudar Bill. – Depois, com mais calma, ensinamos você a montar sozinha.
Bill assentiu com a cabeça e desistiu de tentar subir em Alba. Stu agarrou as rédeas dela e Viktoria subiu em seu cavalo.
– Suba. – Disse ele, descendo do cavalo para ajudar Bill. – Vamos levar Alba; depois do almoço você tenta outra vez.
– Hm, eu acho que prefiro ir com... — Disse Bill, olhando para Viktoria.
Engoli em seco e virei para frente outra vez, pronto para voltar a cavalgar, quando Bill parou do meu lado.
– Posso ir com você? – Perguntou, sorrindo.
Quase cai do cavalo, mas desci para ajudá-lo a subir.
– Tá. – Disse ele, olhando para Kira. Ele era bem mais intimidador que Alba, se é que me entende. – Coloco o pé esquerdo aqui e depois é só subir como uma bicicleta.
Sorri com a comparação. Ele colocou o primeiro pé e deu um impulso. Não muito efetivo.
Tentou outra vez, enquanto Viktoria e Stu passavam por nós, cavalgando devagar; Stu de cara amarrada, puxando Alba, observando Bill tentar subir no cavalo.
Espalmei as mãos na cintura fina de Bill.
– Tente outra vez. – Falei. Bill assentiu.
Dei um impulso e ele finalmente conseguiu subir. Subi logo atrás, segurando as rédeas.
– Podemos ir agora? – Perguntou Viktoria com um sorrisinho suspeito.
– Sim. – Respondi.
Nem bem terminei de dizer e ela e Stu estavam correndo na direção em que Georg e Gustav tinham ido alguns instantes atrás.
– Segure-se. – Recomendei a Bill.
– Me segurar onde? – Perguntou ele, virando o rosto para trás com os olhos arregalados. – Não tem nada pra eu me segurar aqui, a não ser que você queira que eu arranque a crina dele.
– Então eu vou ter que te segurar. – Respondi pegando a rédea com uma mão e passando o outro braço pela cintura de Bill. Sem dar tempo para meu cérebro calcular exatamente o que eu estava fazendo, bati os pés dos lados de Kira e saímos em disparada atrás de Viktoria e Stu.
Enquanto o vento ia ficando cada vez mais gelado devido à velocidade, não pude deixar de notar como Bill era quente ou o fato de que o cabelo dele era mais macio do que parecia, mas tentei manter minha linha de pensamento longe de qualquer coisa relacionada a ele.
Como esperado, fomos os últimos a chegar. Viktoria estava sentada ao lado de Gustav, com um cacho de uvas nas mãos e Georg estava tirando as coisas de dentro da cesta, colocando-as em uma toalha que fora estendida ao lado de Stu.
– Finalmente! – Disse Gustav, ficando de pé.
– Uau... – Foi o que Bill se limitou a dizer, olhando para as parreiras de uva apinhadas de bolinhas roxas e verdes.
Desci do cavalo e o peguei pela cintura novamente, colocando-o no chão. Então aquilo que eu estava vendo era mesmo uma bochecha corada? Haha, sem dúvida.
Arregalei os olhos para o que eu tinha acabado de pensar e me sentei ao lado de Georg na toalha. Ele me deu uma cotovelada, mas fingi não notar.
– Então, Billa, gostou de andar a cavalo? – Perguntou Viktoria com um sorriso maior que a cara. Estreitei os olhos na direção dela, mas a reação de Bill me fez desviar o olhar.
– Sim. – Respondeu, jogando uma uva em mim. – A companhia foi agradável.
Quase engasguei, mas fingi que estava tudo bem e concordava totalmente com o que ele estava dizendo. De certo modo, eu realmente... ah, deixa pra lá.
– Não acham que está cedo para almoçarmos? – Perguntou Viktoria justamente quando Georg ia atacar um sanduíche.
– Tá falando sério? – Perguntou ele, com o sanduíche a meio caminho da boca.
– Tô, cara pálida. – Respondeu ela.
– Vamos nadar. – Sugeriu Stu.
Nesse ponto, eu tinha que concordar com ele: estava fazendo mais calor que o deserto do Saara.
– Certo. – Disse Georg, concordando em deixar o almoço pra hora certa.
Deixamos os cavalos pastando ali perto e descemos em direção ao rio. Nem bem tínhamos chegado direto e Stu já tinha arrancado a camiseta e pulado na água. Bill, Viktoria e eu nos sentamos nas pedras ao redor e ficamos observando enquanto os G’s se empurravam na água, rindo.
– Palhaços. – Comentou Viktoria, balançando a cabeça em negação. – Vou com eles. – Avisou, arrancando a camiseta e jogando para Bill segurar.
Ficamos alguns minutos vendo-os nadar, eu sentado em uma pedra e Bill na outra, até que Gustav saiu da água e se aproximou de nós.
– Hey, casal. – Disse ele, baixo o bastante para que somente eu e Bill pudéssemos escutar. – Stu está ficando desconfiado, dá pra parar de graça e pelo menos sentarem perto um do outro?
Eu e Bill nos entreolhamos. Realmente, não parecíamos o melhor exemplo de casal de namorados.
– Certo. – Respondi e me mudei para a pedra em que Bill estava. – Está bem assim?
– Mais perto. – Mandou Gustav. Revirei os olhos e cheguei mais perto de Bill. – Mais perto, imbecil.
Bufei.
– Mais perto que isso, só se ele sentar no meu colo. – Falei, colando meu ombro com Bill.
– Não seria má ideia. – Respondeu Gustav com um sorriso sacana, virando-se para voltar para o rio.
Foi bem nessa hora que Stu resolveu sair da água e subir numa pedra, exibindo os músculos molhados sob o sol de lascar. Revirei os olhos e fixei meu olhar em outra coisa. Isso até perceber que Bill estava olhando para Stu com a cabeça apoiada na mão. Segui seu olhar, para me certificar de que ele estava mesmo olhando para o idiota do Stu, e, ou eu estava ficando louco ou Bill realmente estava encarando a montanha de músculos ambulantes que era meu primo.
Olhei para ele, indignado, mas ele parecia nem me notar, embora eu estivesse praticamente grudado do lado dele.
Certo, então era isso. Não me restava outra alternativa.
Levantei e tirei a camiseta, assim como Viktoria fizera, jogando-a em Bill e pulando na água. Enquanto meus pensamentos esfriavam lá em baixo, fiquei pensando o porquê de eu estar fazendo aquilo. Quero dizer, agora era questão de honra. Stu podia ser bombado e popular com as mulheres às vezes, mas eu também era um Trümper, no fim das contas. Eu tinha um corpo bem legal, eu pegava todas as garotas do colégio, eu era bonito. Então por que Bill não olhava pra mim daquele jeito? Não que eu fizesse muita questão... Eu acho.
Emergi e olhei para Bill. Ele estava encarando o chão com um sorrisinho idiota no rosto. O problema com ele era que quase cinquenta por cento das vezes ele não demonstrava seus sentimentos e nas outras cinquenta, era eu quem não conseguia decifrá-los.
– Hey, Billa. – Disse Stu, desviando a atenção dele enquanto passava as mãos nos cabelos molhados. Idiota. – Não vai entrar?
Me peguei imaginando-o arrancando os sapatos e pulando na água também, mas me lembrei que ele estava fingindo ser mulher e, por um infeliz acaso, não tinha NEM SOMBRA de peitos!
– Que? Não. – Disse ele, abraçando-se como se Stu fosse apontar o dedo na cara dele e dizer “EU SEI O QUE VOCÊ É, PARA DE FINGIR, CARALHO!”.
– Ela não pode. – Emendou Viktoria.
– Claro que não. – Falei, saindo da água e correndo para o lado de Bill novamente.
– Ela tem a saúde muito frágil, pode pegar um resfriado. – Concordou Georg.
– Tudo bem. – Disse Stu dando de ombros; voltou a pular na água, com uma cara desconfiada.
– Finjam melhor! – Gritou Viktoria enquanto Stu ainda estava debaixo d’água.
Quando Stu emergiu, ela colocou um sorriso enorme na cara e voltou a nadar perto dele.
Gustav nos olhou com uma expressão que dizia claramente “Ouviram o que ela disse?”.
Sentei-me ao lado de Bill e passei um braço ao redor de seus ombros. Stu saiu da água novamente e se esticou em uma pedra particularmente cheia de sol. Algo me dizia que ele estava simplesmente nos observando.
Peguei a mão de Bill, que descansava em sua perna, e inclinei a cabeça para o lado, como se estivesse sussurrando em seu ouvido.
– Stu está nos observando. – Falei baixinho, com a respiração batendo no pescoço dele. Se não soubesse que era tudo mentira, quase podia jurar que tinha o visto ficar arrepiado. Quase.
– Não podemos contar pra ele? – Perguntou Bill, entrando na brincadeira e agarrando minha mão, que descansava no ombro dele.
– Tá louco? – Perguntei, fazendo questão de sussurrar, para me certificar de que tinha visto-o se arrepiar. – Ele contaria para Deus e o mundo. Nós fomos muito imprudentes. Temos que fingir muito bem quando ele estiver por perto.
– Então ta. – Disse ele, tirando meu braço dos ombros dele. Olhei-o sem entender. – Vamos seguir o conselho do Gustav.
E, dito isso, Bill se sentou no meu colo, abraçando meu pescoço. E então fui eu quem ficou arrepiado.
O que, diabos, estava acontecendo comigo?
Notas finais
É isso ai. Fui.
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