Conto De Falhas
11 A cachoeira.
Notas iniciais
Seguinte, quando eu escrevi o capítulo, tinha achado ele bastante satisfatório, mas depois que ele voltou da betagem e eu reli antes de postar, bem, eu odiei.
De qualquer modo, espero que vocês gostem.
P.s: só pra deixar claro, mais uns três ou, no máximo, quatro capítulos e Conto de Falhas chega, oficialmente, ao fim ;D
Por um momento, desejei que Bill não estivesse tão próximo. Não porque, como eu pensaria, não gostasse que ele estivesse junto comigo, simplesmente porque tinha medo que ele escutasse meu coração bater como se quisesse pular no rio com os outros.
Eu nunca sequer imaginara, em hipótese alguma, sentir o coração acelerando por causa de uma coisa besta como essa. Quero dizer, Bill era um cara. Eu não sentia arrepios nem quando estava com uma garota extremamente linda que levara semanas tentando chamar pra sair. Eu nunca sentira nada parecido e isso estava ficando realmente estranho.
Gustav fez um joinha para nós de cima de uma pedra antes de pular na água e espirrá-la para todos os lados.
Sem saber muito bem se podia, enlacei a cintura de Bill e o trouxe mais para perto. De algum modo, aquela proximidade toda me fazia sentir bem, o que totalmente estava me deixando confuso. Eu me perguntava se era pela aparência andrógina de Bill.
A questão é que, algum tempo depois, Stu se deu por vencido e parou de fingir que tomava sol só para nos observar, lançou-nos um olhar que eu não consegui interpretar e voltou a vestir a camiseta.
– Estou com fome. – Disse à Viktoria.
– Nós também! – Disseram os G’s em tom de lamento.
– Vamos almoçar, então. – Respondeu ela, saindo da água e vestindo a camiseta que Bill deixara na pedra ao lado por cima do biquíni.
Bill deu um sorriso do tamanho do mundo quando ela se aproximou e piscou um olho – o que quase me fez cair de costas, diga-se de passagem. Eu ainda estava ligeiramente desconfiado desses dois.
Deixamos que os quatro se adiantassem de volta para as parreiras e nos entreolhamos por alguns segundos. Bill continuava com os braços ao redor do meu pescoço, o que inevitavelmente fazia com que estivesse inegavelmente perto. Eu não sabia dizer se era uma coisa boa, ruim ou se não fazia diferença.
– Devia ver sua cara quando eu sentei no seu colo. – Disse, levantando-se. – Parecia que ia vomitar.
– O que? Quero dizer, eu...
Mas fiquei falando sozinho, porque ele seguiu o caminho que os outros haviam feito. Encarei a pedra em que estivéramos sentados e me peguei ficando arrepiado de novo.
Sai correndo atrás deles.
– Depois que acabarmos aqui – estava dizendo Stu a Bill quando os alcancei, sentados ao redor da cesta de comida –, vou te ensinar a montar.
Sentei ao lado de Bill, para manter as aparências, mas o clima entre nós de repente ficara tenso e eu nem sabia por quê. Quero dizer, o que diabos estava se passando aqui dentro?
E, ao pensar isso, me assustei. Lutei para não pensar em absolutamente nada.
– Sanduíche? – Ofereceu Georg, me tirando do transe.
– Valeu. – Falei, pegando o sanduíche e chacoalhando a cabeça minimamente, para afastar o que quer que fosse.
Depois daquele, acabei com mais três sanduíches, sem muita vontade de participar da conversa, que estava girando em torno de qualquer coisa que não fazia diferença pra mim. Deitei na grama e fiquei apenas observando as nuvens mudarem de posição enquanto o sol ia fazendo sua trilha conforme o tempo passava. Lembro-me vagamente de ter ouvido Bill e Stu se levantarem e se encaminharem aos cavalos, mas minha mente havia vagado demais.
Um momento depois, eu estava sonhando com um quarto vazia e todo branco. Pisquei os olhos para me acostumar com a claridade e de repente, Bill e Viktoria apareceram em uma cama.
– Bill, vão nos descobrir! – Dizia ela, rindo, enquanto tirava a camisa de Bill. – Não podemos!
Se aquilo era ser relutante, eu não queria saber como era não se importar. Pisquei os olhos e eles sumiram.
Me vendo sozinho novamente na vastidão branca, chamei por Bill. Pisquei os olhos e ele e Viktoria apareceram de novo.
– Não me importa que descubram sobre nós. – Respondia Bill, com um olhar extremamente sexy.
Quando percebi o que os dois ameaçavam fazer, gritei o máximo que pude, tentando chamar a atenção deles. Mas aquela não parecia ser minha voz. Não sabia o que fazer, tentava me aproximar deles, fazê-los parar, desesperado, mas meus pés não se moviam, o cheiro de grama invadindo minhas narinas...
De repente, recobrei os sentidos, e percebi que os gritos haviam me acordado.
– TOM!
Era a voz do Bill. Fiquei de pé num pulo. Viktoria, Stu e os G’s estavam em volta de Alba, tentando fazê-la se acalmar, enquanto Bill, montado nela, tentava se segurar da melhor maneira que podia, tendo perdido as rédeas.
Corri para perto da égua, mas tantas pessoas próximas a assustou, fazendo-a sair em disparada.
– Vou atrás dela! – Gritou Stu, correndo para o cavalo.
– SAIA DA FRENTE! – Berrei, empurrando-o. – EU MONTO MELHOR!
Pulei pra cima de Kira e corri para o lado que Alba levara Bill. Com medo e sem conseguir pensar em mais nada, sentia galhos arranharem minhas costas e braços. Se algo acontecesse com Bill, eu nunca me perdoaria.
– Bill!– Gritei quando já estávamos afastados o suficiente de Stu. Por alguma razão, Alba diminuíra a velocidade, então pude alcançá-los. Peguei as rédeas o mais rápido que pude e a fiz parar. – Tudo bem... – Disse, tentando fazê-la se acalmar.
Pulei rapidamente de cima de Kira e peguei Bill pela cintura, colocando-o no chão. Imediatamente, ele me abraçou, como se não pudesse se manter em pé.
– Você está bem? – Perguntei baixinho, afagando seus cabelos e segurando-o com o outro braço para que não desabasse.
Bill não respondeu, apenas me apertou um pouco mais. Eu não percebera, mas meu coração pulava tanto que parecia querer estourar. Ante a perspectiva de perder Bill, de alguma maneira, meu peito parecia ter comprimido de tal forma que era quase impossível sequer respirar. Agora, no entanto, minha respiração começara a normalizar, ao mesmo tempo em que Bill lentamente desfazia o abraço.
– Você me assustou. – Falei, segurando seu pulso, preocupado, com as sobrancelhas franzidas.
– Desculpe. – Disse ele. Fiquei com vontade de abraçá-lo outra vez, mas não o faria. – Eu não sei o que aconteceu, ela simplesmente disparou. Fiquei com tanto medo que não consegui fazer mais nada além de gritar. Eu sei, foi patético.
– Não foi, não. – Respondi com um sorriso, subindo a mão pelo menos cinco centímetros por seu braço sem perceber o que estava fazendo. – É uma sorte que não tenha acontecido nada a você. Nem sei o que eu faria se...
– Está ouvindo isso? – Perguntou Bill, me interrompendo. Parei de falar e prestei atenção. – Parece barulho de água.
– Impossível. – Respondi, soltando-o. – O rio fica para o outro lado.
– Eu sei. Mas isso com certeza é barulho de água. Vamos ver o que é.
Seguimos o som, mas eu ainda estava pensando no que acontecera. Bill parecia estar evitando falar sobre isso, mas eu não conseguia entender por que. De qualquer modo, eu poderia esquecer isso durante algum tempo, mas com certeza iríamos falar sobre aquilo mais tarde.
– Não acredito! – Gritou Bill, para ser ouvido por sobre o barulho. Isso porque era mesmo barulho de água e agora estávamos parados em uma clareira que escondia uma cachoeira. – É a cachoeira que o tio Henri falou...
Cercada de árvores, imponente e cristalina, a água caia livremente sobre as pedras em uma cascata que refulgia ao sol. Era tão bonito que quase feria os olhos.
Bill, encantado, se agachou na margem e colocou as mãos na água. Durante algum tempo fiquei observando-o brincar com as gotículas que voavam pela força da queda d’água, com as mãos nos bolsos da bermuda molhada. Minha camiseta, que eu jogara em Bill antes de entrar na água do rio mais adiante, continuava pendurada em seu ombro.
Alguns minutos depois, Alba e Kira se aproximaram da clareira, pastando calmamente ao nosso redor.
– Você trouxe seu celular? – Perguntei subitamente, me lembrando do modo como Stu parecera desesperado para vir atrás de Bill-a.
– Sim. – Respondeu Bill, ficando de pé e me estendendo o aparelho com uma sobrancelha arqueada.
Disquei rapidamente os números conhecidos e expliquei a Gustav que estava tudo bem e que não se preocupassem conosco, pois voltaríamos logo.
Bill desfez a expressão de desentendimento e guardou o celular novamente no bolso, voltando sua atenção para a cachoeira. Começou a andar calmamente na margem, se equilibrando precariamente nas grandes pedras.
– Stu parecia realmente preocupado. – Comentei, observando-o dar passinhos pelas pedras com os braços estendidos.
Bill soltou uma exclamação incompreensível, mas notavelmente descontente.
– Nem me fale. – Disse, dando mais alguns passos. Fiquei alerta. – Depois de ter...
Mas Bill não conseguiu terminar a frase, se desequilibrando. Corri para ele e o puxei para impedir que caísse. A força que usei, no entanto, fez com ele se voltasse muito bruscamente e colidisse contra mim, fazendo com que nossos lábios se encontrassem. Não pude deixar de notar quão macios eram, como se tivessem roubado a suavidade de uma nuvem, tão leve quanto.
É isso ai.
O mais engraçado foi que meus olhos se fecharam automaticamente e demorei pelo menos cinco segundos para perceber o que estava fazendo, sentindo seus lábios suavemente pousados sobre os meus.
A questão é que, quando realmente me dei conta disso, me assustei de tal forma que acabei me desequilibrando e caindo na água, da forma que quisera evitar que acontecesse, levando Bill comigo. Ele se debateu contra mim embaixo d’água e só então percebi que ainda estava segurando-o.
Dei um impulso para cima e conseguimos voltar para a margem, nos agarrando nas pedras e cuspindo água desesperadamente em busca de ar.
– Estamos vivos. – Constatou Bill, meio em tom de dúvida. Quase ri (de nervoso), mas me faltava ar para qualquer coisa que fosse.
Icei-me para fora da água um segundo depois de Bill. Durante alguns minutos permanecemos sentados na margem, sem dizer nada e evitando nos entreolhar.
– Certo. – Dissemos juntos.
– Pode falar.
– Certo. – Repetiu ele, rindo um pouco embaraçado. – O que foi...?
– É melhor voltarmos. – Falei interrompendo-o. Temia que ele fosse tocar naquela palavra que começava com B que quase tivéramos e com certeza não estava pronto para falar sobre isso. Não queria nem lembrar, se quer saber. – Devem estar preocupados, já está ficando tarde.
Bill assentiu quieto e se levantou. Ajudei-o a subir em Kira e montei em Alba, puxando Bill lentamente por onde tínhamos vindo.
O caminho de volta até a casa da fazenda foi insuportavelmente silencioso, eu trotava calmamente à frente, enquanto Bill se abraçava para afastar a friagem que se aproximava conforme as horas avançavam. Quando paramos no estábulo, o céu já estava ficando escuro.
– Pode ir na frente, vou guardar os cavalos. – Falei, ajudando Bill a descer. Com um espirro ele assentiu e subiu apressado em direção a casa.
Demorei mais do que o necessário no estábulo e quando finalmente cheguei pelos fundos, pude ouvir a voz de Stu. Me escondi atrás de um enorme vaso ao redor da piscina; não queria ter de dar de cara com ele, não agora.
–... você deveria pensar melhor nisso. – Estava dizendo Stu. Sei que é errado escutar a conversa das pessoas escondido, mas eu não tinha muita escolha. Reprimi o impulso de tapar as orelhas e cantarolar assim que ouvi um espirro familiar. – Sinceramente, existem muitas outras opções mais vantajosas...
– E por “opção vantajosa” você quer dizer, você? – Perguntou a voz de Bill, parecendo um pouco pastosa, mas decididamente nervosa. Não dei muita atenção a isso, queria saber do que eles estavam falando. – Me poupe.
– Ora, vamos lá, admita!
– Me deixa em paz, cara. – Respondeu Bill, espirrando novamente.
– E ainda por cima, pegou um resfriado! – Insistiu Stu.
Resfriado?
– Como Gustav disse, sou meio vulnerável nesse sentido. – Respondeu Bill, como se isso encerrasse o assunto.
– Então por que se deixou molhar desse jeito?
– Caí na água, está bem? Agora se me dá licença, eu realmente gostaria de poder trocar de roupa antes que eu realmente fique doente. Boa noite.
Escutei a porta bater e Bill se afastar e esperei mais alguns minutos até que Stu, com um suspiro irritado desceu as escadas em direção à piscina.
Aproveitei que ele estava de costas para o vaso em que estivera escondido e subi correndo, fazendo o mínimo que podia de barulho e passando pela porta com o máximo de cuidado para não ser pego. Imagino que seria bem divertido ter que explicar o que estava fazendo escondido ouvindo a conversa alheia.
Passei pela cozinha me sentindo uma criancinha peralta e, quando cheguei à sala de jantar e me deparei com a confusão de pessoas ao redor da mesa, esse sentimento só se intensificou, mas de maneira totalmente negativa. Tentei passar despercebido, tendo conseguido com a maioria do pessoal, mas dona Simoneme detectou andando apressado para dentro e me seguiu. Alcançou-me no pé da escada.
– Tom! – Disse ela, me fazendo parar.
– Sim?
– O que aconteceu com você e Billa? – Perguntou desconfiada.
– Caímos na água. – Respondi, percebendo com desconforto que ainda estava sem camisa. Agora que a adrenalina passara, começava também a sentir os arranhões, que ganhara galopando atrás de Alba, latejarem incomodamente.
– Certo. – Disse ela, sustentando o olhar desconfiado, tentando detectar qualquer sinal de mentira. Como eu estava falando a verdade, de qualquer modo, ela só suspirou e me entregou uma caixinha branca. – Tem gaze e mertiolate aí dentro, cuide desses arranhões.
Assenti, pegando a caixinha; antes que pudesse me virar para subir as escadas, no entanto, ela me interrompeu mais uma vez.
– Billa parece ter pegado um resfriado e provavelmente esteja com dor de cabeça. Dê-lhe uma aspirina e faça com que fique deitada. Vou mandar alguém servir uma sopa no quarto para ela.
Subi as escadas de dois em dois degraus e parei em frente à porta, a conversa sem nexo de Bill e Stu ecoando na minha cabeça. Não fazia sentido algum pra mim e o único modo de descobrir do que se tratava era perguntando para um dos dois. Eu com certeza não perguntaria ao Bill... Muito menos ao Stu, então acho que nunca saberia.
Dei de ombros e entrei.
– Bill? – Chamei, percebendo o quarto aparentemente vazio.
– Estou aqui. – Respondeu com a voz baixa o suficiente para somente ser ouvido. Segui sua voz e me deparei com seus cabelos negros dançando na espuma da banheira.
– Trouxe uma aspirina, está com dor? – Perguntei, tentando parecer espontâneo e não imaginar o que estava debaixo da espuma.
Bill se sentou mais aprumado na banheira, espirrando, deixando aparecer metade de seu tórax. Por um momento, tive que desviar o olhar, por isso fingi me concentrar no meu reflexo no espelho.
– Um pouco. – Respondeu, se movimentando na água. Quase tive um treco quando senti as pontas de seus dedos tocarem meu ombro. – Calma!
Olhei para o lado assustado, mas Bill estava vestido. Ou quase isso. Pelo menos não estava de todo nu. Respirei mais aliviado.
– Você está gelado. – Constatou, espalmando a mão quente nas minhas costas. Me encolhi por impulso, sentindo os arranhões arderem ao toque ínfimo. Ele recolheu a mão rapidamente, me fazendo lamentar inconscientemente e, em consequência, me xingar por isso. – É melhor tomar um banho, ou também vai se resfriar.
Por um momento, me peguei imaginando o que ele queria dizer com aquilo. Certamente não poderia estar sugerindo o que eu supunha que estava.
– Vou me deitar. – Avisou, cobrindo-se com um roupão e fechando a porta, me deixando sozinho para o lado de dentro, ainda encarando debilmente meu reflexo.
Mas que diabos fora aquilo?
Tentei não pensar no fato de que eu quase me imaginara entrando na banheira com Bill e deixei que a água se esvaísse pelo ralo, tentando fazer com que todo e qualquer tipo de pensamento assustador que me acometera naquele dia fosse junto. Tomei um banho quente e demorado, cuidando para não fazer arder ainda mais os arranhões, mas inevitavelmente tendo os lavado com água e sabão.
Quando voltei para o quarto, Bill me esperava do seu lado da cama com a caixinha branca que eu deixara por lá, a tigelinha vazia de sopa descansando numa bandeja em cima do criado mudo.
Espirrou.
– Deite aqui, vou te ajudar com os ferimentos. – Falou com a mesma voz pastosa que eu ouvira enquanto conversava com Stu mais cedo. Imaginava agora que seria por causa do resfriado.
De qualquer modo, me deitei ao seu lado e permiti que ele aplicasse aquela coisa doída dos infernos nos arranhões dos meus ombros e costas.
Quando terminou, porém, fez algo que eu nunca esperaria que fizesse: deu um beijinho inocente no meio das minhas costas.
– Já vai sarar. – Disse com um sorriso infantil.
Quase tive uma taquicardia, mas me controlei a tempo de vê-lo virar para o lado e se deitar para dormir.
Algo me dizia que aquela encenação estava começando a sair do meu controle.
Notas finais
De qualquer modo, é isso ai.
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