Conto De Falhas
16 A última noite.
Notas iniciais
O que mais me deixava desestabilizado não era o modo como todo mundo de repente se calou e o observou enquanto deslizava em minha direção ou o modo como ele sorria pra mim – embora fosse só atuação –, era o fato de que eu ainda me sentia preenchido só de vê-lo, mesmo que ele houvesse deixado claro pra mim que não se sentia do mesmo jeito que eu. Eu ainda ansiava que ele se aproximasse e sussurrasse no meu ouvido que aquilo tudo era um pesadelo e que eu deveria acordar e então estaríamos de volta àquele primeiro dia, uma semana atrás, quando o avistei no pátio do colégio e o confundi com uma garota. Infelizmente, eu sabia que era física e matematicamente impossível.
Tentei ajeitar o sorriso falso no meu rosto quando ele terminou de cobrir a distância entre nós e parou ao meu lado, lançando um sorriso a Stu. Desviei o olhar por um segundo, mas seus olhos simplesmente chamavam os meus quando estavam tão próximos. Eu tinha necessidade de parar de prestar atenção em tudo e qualquer coisa quando ele estava perto daquele jeito.
– Billa, você está linda! – Disse tia Kristina, me arrancando do transe enquanto descia as escadas, totalmente arrumada. Ela se virou para Stu. – E como está meu bebê?
– Ah, ele estava ameaçando... – Começou Stu, mas não prestei atenção.
Bill tocou meu braço com as pontas dos dedos e me senti congelar.
– Você está muito bonito. – Sussurrou próximo ao meu ouvido enquanto andávamos vagarosamente em direção à piscina, onde seria algo como o “centro” da festa.
Desviei meu olhar de volta para o seu rosto tentando avaliar quanto daquilo era verdade. Eu me perguntava se ele tinha dito aquilo porque alguém estava ouvindo, mas estávamos a sós. Minhas entranhas reviraram pelo que imaginei ser a quinquagésima vez naqueles últimos dias, mas me amaldiçoei por estar me comportando como uma garotinha. De novo.
– Obrigado. – Respondi como um idiota, sentindo meu rosto corar violentamente. Eu queria responder ao elogio, mas a verdade era que eu o achava bonito sendo ele mesmo, não sendo “a minha namorada”. – E você é muito bonito. – Acrescentei baixo o suficiente para que somente eu ouvisse. Ele deslizou os dedos pelo meu braço e enlaçou minha mão. Eu não sabia se ele ouvira ou não, mas não fazia diferença.
Levei-o até uma das mesas que haviam sido dispostas ao redor da piscina e pousei meu copo de cerveja na mesma.
– Quer beber alguma coisa? – Perguntei antes de me sentar, vendo-o se atrapalhar inteiro com o vestido enquanto se apossava de uma cadeira. Ri quando ele percebeu que havia sentado de pernas abertas e as cruzou rapidamente.
– Sim, obrigado. – Respondeu ele, logo depois arregalando os olhos e olhando em volta para se certificar de que ninguém o ouvira agradecendo no gênero errado. Corou fortemente.
– Já volto. – Falei, dando meia volta e entrando na casa outra vez.
Esbarrei com Gustav e Georg no meio do caminho até a cozinha.
– Aonde vai? – Perguntou Georg, me seguindo.
– Pegar uma bebida para o Bill. – Respondi baixinho.
– Ah! – Disse Gustav, em uma expressão cheia de duplos sentidos.
– O que foi? – Perguntei, enchendo uma taça de champanhe e deixando-os para trás.
Corri de volta para fora antes que Gustav ou Georg voltassem naquela ideia de querer saber sobre mim e Bill.
– Obrigada. – Disse Bill, pegando a taça da minha mão, dessa vez percebendo que tia Berta se aproximava perigosamente.
– Você acha que... – Comecei, mas fui interrompido.
– Ah, aí estão vocês! – Disse tia Berta, puxando tio Danny pelo braço. – E então, Dan, o que acha? Não disse que é linda?
Bill ficou em pé para cumprimentar tio Danny enquanto eu revirava os olhos. Já ia me jogar na cadeira quando tia Berta soltou o que parecia achar a ideia mais genial que já tivera. Não que eu concordasse.
– Sabe o que eu percebi? Eu nunca vi vocês dois se beijando! – Comentou ela, estreitando os olhos na nossa direção.
Arregalei os olhos e quase pude ouvir Bill engolir em seco. Pensei que aquela seria a oportunidade perfeita para desfrutar de seus lábios pelo menos mais uma vez, mas não era justo. Se Bill se opunha, eu aceitaria.
– Nós somos discretos. – Respondi, pegando a mão de Bill como se pudesse dizer a ele que estava tudo bem, que não precisaríamos fazer aquilo, eu ia dar um jeito.
– Tom, discreto? – Riu Viktoria, se aproximando. Tia Berta a acompanhou na gargalhada, então ela aproveitou para sussurrar no meu ouvido. – Distraia-a. Agora!
– Tem razão, esse meu sobrinho-neto nunca foi discreto. – Concordou tia Berta, ainda segurando tio Danny pelo braço, que assistia a tudo com cara de tédio. Por um momento, desejei ser ele. – Vamos lá, vocês dois, queremos ver um beijo, não é mesmo, Dan?
– Claro, mãe. – Respondeu tio Danny, claramente sem nem saber do que ela estava falando.
Lancei um olhar de esguelha para Bill e olhei de volta para tia Berta, que nos encarava ansiosa. Viktoria me deu um tapinha no ombro e se afastou ligeiramente. Pelo visto, íamos ter que fingir mais um pouquinho.
– Certo. – Falei, pegando Bill levemente pela cintura e levando uma das mãos à sua nuca. – Coloque o cabelo na frente, então podemos fingir isso. – Sussurrei em seu ouvido antes de deslizar minha mão de volta para sua cintura. Quase pude ouvir tia Berta comemorar ao nosso lado.
E, mais uma vez, eu estava torturantemente perto, e não podia fazer nada além de fingir. Seus olhos próximos aos meus, sua respiração batendo no meu rosto. Em nenhum momento desviei meus olhos, não desta vez. Ele me abraçou pelo pescoço, ficando mais próximo do que nunca, e então nossos lábios se encontraram. Demorei um segundo para perceber que ele estava realmente fazendo aquilo. Não estávamos fingindo, estávamos nos beijando, seus lábios estavam nos meus, sua língua estava encostada na minha, dançando lentamente e extremamente quente contra a minha boca, minha sanidade indo para o espaço; a noção de espaço ao me redor se extinguira, as pessoas à minha volta se apagaram.
Um momento depois, o contato fora quebrado, de maneira natural e, antes que eu pudesse sequer abrir os olhos e acordar do que imaginava estar sendo o melhor sonho da minha vida, um grito cortou o ar.
– SAI DA FRENTE! – Gritou quem quer que fosse, correndo em direção à piscina e se jogando. Um segundo depois, meu pai e tio Steve apareceram correndo e fizeram a mesma coisa, algo estranhamente familiar adornando suas cabeças.
Demorei um momento para perceber que aquele era o resultado da operação calçola se fazendo presente no dia marcado. Não pude evitar um sorriso enorme quando tio Henri, tio Steve e meu pai emergiram com as calcinhas de tia Berta na cabeça, mas metade desse sorriso se devia ao fato de que Bill continuava ali, com os braços ao redor do meu pescoço e a cintura presa entre as minhas mãos.
– SEUS FILHOS DA PUTA, MINHAS ROUPAS! – Berrou tia Berta. Entendemos essa como a deixa para escaparmos de fininho.
Eu e Bill corremos, o máximo que conseguíamos, de mãos dadas, em direção ao grande carvalho ao lado da casa; ali, não havia ninguém, não havia por que atuar ou fingir, iluminados apenas pelo brilho das milhares de luzinhas penduradas ao nosso redor. Parecia tão bonito quanto um cartão postal.
Nos jogamos nos balanços e rimos. Rimos pela palhaçada que acabáramos de presenciar, rimos de nervosismo, rimos de nós mesmos; eu não fazia ideia do que, ao certo, estávamos rindo, mas parecia um alivio podermos rir juntos e eu quase não percebi quando parei de rir e fiquei apenas observando seu rosto enquanto gargalhava.
– Por que está me olhando assim? – Perguntou ele, balançando a franja para longe dos olhos, ainda com espasmos de riso.
– Por que você é lindo. – Respondi mentalmente. Em realidade, respondi algo como “desculpe”.
Ficamos em silencio por alguns segundos, balançando calmamente enquanto o clima leve ia se apagando como se levado pelo vento.
– Por que fez aquilo? – Perguntei de uma vez por todas, sem olhá-lo. De repente, tinha medo da resposta.
– Porque eu queria. – Respondeu ele e quase pude sentir seu olhar sobre mim, então levantei meus olhos e encontrei os seus. Mais uma vez, meu coração perdeu uma batida. Sua mão procurou a minha e meus dedos trêmulos tocaram os seus.
– Eu sinto muito que tenhamos nos desentendido mais cedo. – Continuou ele, olhando para nossas mãos entrelaçadas, ainda balançando levemente, como se o vento estivesse fazendo o balanço se movimentar e ele não pesasse mais que uma pluma. – Eu realmente gosto de você e não queria que pensasse que não, é só que... é difícil assumir uma coisa dessas assim de repente. Quero dizer, uma semana atrás eu achava que nunca fosse me apaixonar, achava que ninguém valia a pena, no fim das contas, mas acho que me enganei. Eu acho que gosto de você, Tommy.
Levantei-me ao ouvir meu nome sair de sua boca e me abaixei a sua frente, tocando seu rosto com a ponta dos dedos, fazendo o contorno de seus lábios, vendo-o fechar os olhos e respirar fundo.
– Posso beijar você? – Perguntei baixinho. Seus olhos se abriram novamente, mas logo se fecharam e ele assentiu.
Deixei que meus lábios fossem atraídos pelos dele mais uma vez, mas agora da maneira certa. Não seriamos interrompidos, não queríamos ser interrompidos.
Seu cabelo voando ao meu lado com a brisa noturna, seu cheiro impregnado em minhas narinas, seu gosto na minha boca. Nada poderia estragar aquele momento, eu sentia como se pudesse explodir de felicidade, nem o homem mais feliz do mundo era páreo para mim naquele momento. Eu pensava que era um cara feliz, na medida do possível, mas agora... eu simplesmente não cabia em mim.
– Você não faz ideia de como eu desejei isso nesses últimos dois dias. – Murmurei de olhos fechados, ainda sentindo meu coração comprimido como se quisesse fugir.
Bill sorriu e colocou a mão no meu rosto, dando-me um selinho um tanto quanto casto.
Puxei-o para mim e o abracei, apoiando meu queixo em seu ombro, sentindo o cheiro do seu cabelo, minhas mãos em sua cintura quase tremendo. Eu estava tão feliz!
Mas, como sempre tem um filho da puta...
– Tom! – Gritou Georg, aparecendo do além com Gustav no encalço, correndo em nossa direção.
– Inconvenientes! – Comentei com Bill, soltando-o antes que Gustav e Georg nos vissem e a coisa ficasse realmente constrangedora.
– E aí? – Perguntou Bill fazendo um hi-five com Gustav.
– Viemos procurar vocês dois. – Disse Georg, arfando por ter corrido até ali. – Sua mãe nos mandou.
– Parece que o seu primo Isac queria muito falar com você. – Completou Gustav.
Suspirei e lancei um olhar a Bill. Ele sorriu e começou a me empurrar de volta para a piscina.
Agora eu sabia, deveria ter percebido assim que tia Kristina me fizera cuidar do bebê: esperar o fim dessa festa seria insuportável!
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Algumas horas depois, Georg, Gustav, Bill, Viktoria, Stu e eu estávamos subindo as escadas em direção a nossos respectivos quartos. Bill e eu nos despedimos dos demais e entramos no “nosso quarto”.
A primeira coisa que Bill fez ao fechar a porta atrás de si foi desprender os dreads, arrancar a jaqueta e correr para o banheiro. Fui atrás dele e o encontrei metendo a cara embaixo da torneira, tirando a maquiagem. Segurei a risada quando ele se abaixou em direção a pia e o vestido subiu tanto que pude ver sua cueca boxer.
– Pare com isso! – Disse ele, estreitando os olhos. – A culpa disso tudo é sua, não se esqueça!
Ergui as mãos em sinal de rendição e me joguei na cama. Um momento depois, ele me acompanhou, apagando as luzes.
Como naquele primeiro dia, encarei o teto. E pensar que eu quase tivera um ataque por pensar que ia ter que dormir na mesma cama com um cara. Sorri.
– Do que está rindo? – Ele perguntou, levantando os olhos. Enlacei-o pela cintura e o puxei para o meu peito.
– De como eu gosto de você. – Respondi. Ele sorriu em resposta e beijou meu queixo.
Eu não sabia o que dizer ou como agir; ali, deitado ao lado daquele que eu aprendera a amar de um jeito que simplesmente não conseguia explicar, em quem eu pensara a todo segundo desde o momento em que colocara os olhos sobre – mesmo que não houvesse me dado conta disso ainda – quem eu tentara proteger, com quem eu me preocupara e por quem tantas vezes eu senti o ar se esvair sem nem mesmo perceber, eu me sentia completo. E mesmo que meus pensamentos voassem agora para as partes mais pervertidas da minha mente, naquele momento eu me sentia tão puro e inocente como nunca fora, como se aquele fosse o meu lugar desde sempre, mesmo que eu tivesse tentado evitar tantas vezes, e aparentemente nada poderia me fazer mais feliz.
No escuro quase completo, observando seu rosto despido de qualquer coisa que pudesse esconder a veracidade de seus traços, era impossível sequer tentar conter o sorriso que rasgava minha face.
– Você fica lindo sorrindo. – Disse ele, me surpreendendo, tão baixinho que duvidava que houvesse mesmo ouvido e ao mesmo tempo tão claro que eu não podia ter me enganado. Meus dedos foram de encontro à sua face antes mesmo que eu pudesse me controlar.
– Me desculpe por demorar tanto tempo para perceber que tudo o que eu precisava era, de fato, uma namorada. – Sussurrei depositando um beijo em sua testa e sentindo todo o meu corpo esquentar. – Billa...
Bill riu baixinho, escondendo o rosto na curva do meu pescoço, deixando o ombro – alvo e macio – ao alcance do meu toque; eu gostaria de poder dizer que me controlara, mas vê-lo em meus braços, pequeno e indefeso, sem ter que fingir ser o que não era ou representar o que quer que fosse, me fazia querer beijá-lo. Mais do que nunca, eu gostaria de poder senti-lo por todas as partes de mim, queria fazê-lo sentir tão bem quanto ele me fazia, simplesmente por estarmos tão próximos.
Sem conseguir reprimir o impulso, deixei que meus lábios vagassem sem rumo por sua pele, sentindo sua respiração aquecer o meu pescoço tão quente quanto todo o seu corpo ao meu redor, suave e inexplicável, quase cáustico, enlouquecedor.
– Bill? – Chamei, mesmo que estivéssemos tão próximos, meus lábios deixando sua pele por míseros segundos, minhas mãos trêmulas segurando sua cintura de leve.
Ele levantou a cabeça, me fitando com seus olhos intensamente brilhantes, tão próximos que eu seria capaz de contar seus cílios compridos, as bochechas coradas, os lábios ligeiramente entreabertos. Me permiti um suspiro antes de continuar.
– Por favor... – Murmurei. – Seja meu essa noite.
Por um momento, meu coração se esqueceu de bater enquanto ele me olhava sem dizer nada. A resposta veio quando, nem meio segundo depois, ele deixou nossos lábios tão próximos que eu quase não podia aguentar de vontade.
– Essa noite... – Sussurrou ele. – Eu sou seu.
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