Conto De Falhas
5 A viagem.
Notas iniciais
Enfim, como presente por ter demorado tanto a postar no capítulo anterior, se receber algum review nesse, posto outro ainda hoje - já que eu mandei dois capítulos de uma vez pra Ksis e ela já betou os dois o/ É isso ai, divirtam-se!
É isso aí, galerinha do mal. Digamos que naquele dia as aulas foram um pouquinho mais suportáveis. Isso porque havia pouquíssimos alunos, já que era véspera de feriado, e os professores pareciam estar ligeiramente mais lerdos. E eu? Bem, eu estava nas nuvens; não literalmente. Mas estava tudo muito bem, se descontássemos, é claro, o fato de que eu provavelmente estaria arrancando os cabelos no dia seguinte.
Quando a aula acabou, corri para o estacionamento à procura do Bill. Precisávamos acertar tudo logo de uma vez, já que pegaríamos o avião para a Espanha naquela tarde. Encontrei-o encostado displicentemente no Mustang, rindo e conversando com Georg e Gustav. Era incrível o modo como ele sorria. Não que eu ficasse reparando muito, mas realmente era algo que chamava a atenção, como se brilhasse. Afastei meus pensamentos insanos e corri até eles.
– Finalmente! – Disse Georg à guisa de saudação. – Pensamos que havia se encrencado com o professor Hubberman outra vez.
– Ou que havia encontrado alguma puta no meio do caminho e parado pra se enganchar com ela. – Acrescentou Bill, rindo com Gustav. Revirei os olhos.
– Três palavras: Vão se foder.
– Credo, tá de mal humor? – Perguntou Gustav ainda rindo.
– O avião sai às quatro .– Avisei, ignorando-o. – Georg, por favor, não se atrase como da última vez.
– Avião? – Perguntou Bill, franzindo o nariz sem entender.
– Sim. Vamos para a fazenda do Tom, na Espanha. – Disse Georg, animado. Talvez fosse o mais animado. Ele e Gustav, pra dizer a verdade; os dois simplesmente adoravam aquela festa idiota... Algo me dizia que tinha alguma coisa a ver com as minhas primas gatas.
– Na Espanha?! Mas eu nem tenho passaporte! – Gritou Bill, se descabelando – Desculpe, Tom, mas acho que eu não...
– Tranquilo, vamos no jato particular. – Cortou-o Gustav, antes que eu sequer pudesse abrir a boca.
– Jato particular? – Repetiu Bill, arregalando os olhos. – O que seu pai é, chefe da máfia europeia?
– Algo parecido. – Riu Georg. Mandei-lhe o dedo do meio.
– Meu pai é Capitão da Marinha Espanhola. – Expliquei – Mas esse exagero todo vem mesmo é da minha mãe, que é herdeira de uma rede bancária.
– Caramba, isso explica muita coisa. – Disse Bill, ruborizando. Dei de ombros.
– O Tomzão aqui é um verdadeiro príncipe. – Continuou Georg. – Tem tudo o que quer na hora que quer, todo o dinheiro do mundo disponível...
– E todas as mulheres que quer. – Completou Gustav quando uma garota tipicamente loura de olhos claros chegou perto de nós com um sorriso enorme.
– Oi. – Disse ela, olhando pra mim e depois para o Bill.
– Oi. – Respondi já acostumado. Eu só esperava que ela não reagisse mal ao Bill também, porque ela era bem bonita.
– Oi amor. – Disse Bill abrindo os braços e acolhendo a garota, que praticamente pulou em cima dele. É o que? Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui?
– Então, quem são seus amigos? – Perguntou ela, agarrada à cintura do Bill como se pudesse perdê-lo. Eu me sentia claustrofóbico só de olhar. Por isso eu evitava contatos muito românticos com as garotas que eu pegava. Era sufocante.
– Esses são Georg, Gustav e Tom. – Respondeu Bill.
– Meu nome é Thalita, prazer em conhecê-los. – Disse a garota, sorrindo extremamente simpática, mas sem desgrudar do Bill. Espera, será que eles...?
– Vocês são o que? Namorados? – Perguntou Gustav antes que eu pudesse sequer concluir meu pensamento, praticamente arrancando as palavras de mim.
– Não. – Respondeu Bill, enquanto Thalita dizia que sim.
– Certo, agora estou confuso. – Disse Georg.
– Já namoramos. – Explicou Bill.
– Ah, ok. Porque isso me soou quase como se vocês fossem um casal lésbico.
Georg e sua boca enorme. Mas Bill riu.
– Poderíamos estar juntos ainda... – Comentou a garota com um bico. Sorri; sei lá, só sorri.
– Nem começa. – Cortou-a Bill – Você conhece os meus motivos pra ter terminado com você. E além do mais, não foi pra isso que eu te liguei, foi?
O bico da garota aumentou e eu e os G’s estávamos simplesmente sobrando na conversa. Me senti desconfortável e descobri que não queria saber sobre os relacionamentos do Bill, o que era algo bem estranho. Mas, quero dizer, eu praticamente nem conhecia o cara, realmente não queria os detalhes das garotas que ele comia por ai. Porque ele tinha cara de quem pegava mais que eu, se quer saber (quando não estava maquiado, é claro), já que ele era todo sensível e tal; não sei por que, mas as garotas parecem gostar de caras românticos. Blergh!
– Certo. – Concluiu a garota, desfazendo o bico ao ver que não surgiria efeito em Bill – Meu carro está parado no portão da escola.
– Obrigado – Disse Bill abraçando a garota e praticamente tirando-a do chão, depositando um beijo na cabeça dela e depois se virando para mim. – Eu vou com ela pra casa, já que o motor do Mustang tá todo ferrado. Depois mando um guincho pra cá ou sei lá. Como vamos fazer?
– Podemos ir te buscar. Três e meia tá legal?
– Acho que sim...
– Aonde vocês vão? – Perguntou a tal de Thalita. Não sei por que, mas simplesmente não fui com a cara dela. Algo ali não me cheirava bem, eu simplesmente não conseguia entender como eu, logo eu, não estava me sentindo atraído por ela, que era uma gata.
– Depois falamos sobre isso, Tata. – Respondeu Bill, fazendo um tipo de hi-five com Georg e dando um abraço curto e rápido no Gustav. – Nos vemos mais tarde, Tom.
E estendeu a mão. Puxei-o e o abracei. Ah, qual é, se o Gustav podia, por que eu, que era seu “namorado”, não podia?
Ele ficou meio estático durante uns três segundos e depois tocou minhas costas com as pontas dos dedos, mas se esquivou dos meus braços um momento depois, saindo com Thalita.
– Tom... – Disse Georg, meio que cantarolando. Ah, não, lá vem merda – Sua namorada tem uma namorada!
Não disse?!
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Três e meia em ponto. Eu, Georg e Gustav estávamos parados em frente a um prédio de quinze andares, dentro do Audi, esperando Bill. Dois minutos depois ele saiu com uma mala enorme de rodinhas, uma bolsa e mais uma malinha de mão, com um acessório bem peculiar pendurado na cintura: Thalita. — Desculpem a demora. – Disse ele, indo até o porta-malas do Audi e colocando suas centenas de malas junto com as nossas (que eram só três, sabe, uma para cada).
– Boa viagem! – Desejou Thalita, encostada na porta e mandando um alô para os G’s sentados no banco de trás.
– Obrigado. – Sorri, vendo Bill se aproximar. Ele estava muito bonito (não acredito que continuo dizendo isso de um cara), com uma calça jeans mais larga para os padrões dele e botas, uma blusa apertada na cintura e solta no peito e uma jaqueta de couro. Lindamente feminino. Minha mãe ia surtar, eu quase podia vê-la pulando em cima do Bill e perguntando onde ele fazia compras.
– Tchau, Tata. – disse Bill abraçando a garota, que escondeu o rosto no peito dele. Já disse que isso é extremamente sufocante?
– Tchau, Billie. – Respondeu ela, fungando enquanto Bill abria a porta e se jogava no banco do passageiro, ao meu lado. – Vou sentir saudades.
– É só uma semana. – Resmunguei revirando os olhos.
Bill sorriu pra ela e se despediu mais uma vez, enquanto eu arrancava com o carro.
– Tem certeza de que vocês não namoram mais? – Perguntou Gustav. Bill confirmou.
– Namoramos durante uns dois anos – disse ele – e as coisas ficaram realmente ruins nos últimos dois meses, mas não quero falar sobre isso.
– Ela parece que não superou o pé na bunda. – Falei ainda irritado com toda a melação desnecessária.
– Ela tem motivos pra isso. – Bill respondeu na sua voz mortalmente calma e aveludada, sem ser rude nem nada, mas eu senti minhas entranhas revirarem como se ele houvesse gritado e brandido uma faca contra a minha cara.
O resto do caminho até o aeroporto foi relativamente tenso fora algumas piadas infames do Georg, coisa normal. Sem dúvida, foram os trinta minutos mais silenciosos de toda a minha vida.
– Chegamos. – Falei estacionando o Audi. Dois caras do tamanho de armários vieram diretamente para o carro.
– Por aqui, senhores – disse um deles – e senhorita.
Sorri. Ótimo, todo mundo pensava que o Bill era mesmo uma garota; eu não havia pensado ainda no que eu diria se alguém descobrisse tudo, mas improvisaria alguma coisa na hora. Eu esperava.
Algum tempo depois, nós quatro estávamos adentrando o jatinho. Georg e Gustav foram logo se esparramando nas poltronas, enquanto Bill olhava tudo com os olhos enormes e brilhando como loucos. Parecia um gatinho recém-nascido que acabara de abrir os olhos.
– É tudo tão... – Começou Bill.
– CARO! – Completou Gustav lá do fundo, com a voz abafada por um travesseiro que Georg acabara de tacar nele.
– E vocês são tão idiotas. – Comentei, indo me sentar ao lado dos dois energúmenos.
– Eu ia dizer bonito... – Continuou Bill, sentando-se comportadamente ao meu lado – Mas acho que “caro” também serve.
Georg e Gustav nos analisaram por um momento. Arregalei os olhos. Que tipo de inspeção era aquela?
– Vocês parecem dois estranhos. – Disse Georg.
– Bem, nos conhecemos ontem. – Disse Bill como se fosse óbvio. E era, realmente; exceto, obviamente, para a mente subdesenvolvida daqueles dois.
– Mas vocês são namorados agora. – Continuou Gustav. E eu que achava que ele era racional às vezes... me engano. – Precisam sentar-se mais juntos. Dar as mãos...
– Se beijar... – Completou Georg com um sorriso enorme no rosto.
– O QUE? – Cuspimos eu e Bill ao mesmo tempo.
– Existe essa possibilidade. – Disse Gustav – Você sabe como a tia Berta é, Tom, se prepare.
– Esperem, eu não estou sendo pago pra isso! – Gritou Bill com um olhar chocado na direção dos G’s. Depois olhou para mim e fez uma careta.
Ah, qual é, eu não era tão desprezível assim! Quero dizer, era realmente estranho pensar em beijar um cara, mas não era de todo mal. Eu podia fazer isso uma vez na vida pra salvar o resto dela. Aparentemente, Bill discordava.
– Se acaso for mesmo necessário – falei -, embora eu esteja rezando para que não seja, depois discutimos o preço.
– Espera um minuto, acho que eu perdi alguma coisa... – Pediu Gustav. – Você está pagando o Bill como se fosse uma prostituta?
– Não exatamente. – Assegurei-lhe, arregalando os olhos. – Fizemos um acordo. Vamos dizer que Bill finge ser o que não é por uma semana, como se estivesse em uma peça na Broadway, e recebe por isso, como seria com um ator.
Bill concordou, mas Gustav franziu o nariz para isso, embora houvesse aceitado relativamente bem a situação. Eu pensava que aquilo estava bem certo pra mim; isto é, Bill teria que fingir ser uma garota, como se estivesse em uma festa à fantasia, na frente de um bando de rico esnobe e aposentado que ele nunca tinha ouvido falar, num país que ele não conhecia, e ainda por cima tinha que fingir estar apaixonado. Não ia ser fácil, eu tava sabendo. De modo que fazia todo sentido eu dar a ele algo em troca.
Eu ia chamar a atenção do Georg naquele momento, perguntar se alguém tinha cortado a língua dele ou algo do tipo, qualquer coisa para descontrair o momento, mas ele estava praticamente babando na poltrona.
– Acho melhor acompanharmos o cabeludo. – Comentou Gustav – Quando chegarmos na Espanha, amanhã cedo, sua mãe não vai nos dar sossego.
– Claro. – Respondi, assistindo Bill abrir e fechar uma portinha em um canto qualquer do avião, rindo e corando toda vez que ela fazia um barulhinho metálico; ri. – Hey, Billa, é melhor você dormir um pouco também.
Bill sorriu e voltou para a poltrona do meu lado.
– Claro, Tommy. – Respondeu ele piscando, esticando a mão longa e pegando a minha. Entrelaçou nossos dedos e me senti corar. Maldição.
– O que você está fazendo? – Perguntei sussurrando para não chamar a atenção de Gustav, que tinha se ajeitado na poltrona ao lado do babão do Georg e estava quase dormindo.
– Sendo sua namorada, meu bem.
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