Notas iniciais
Oe pessoas. Então, né, eu demorei um pouquinho, mas eu juro que é por que eu tava com bloqueio criativo u_u e, pra ajudar, o Word fdp da Ksis tava de putisse com a nossa cara. Mas faz parte, né, meu povo.
Aliás, deixe-me explicar de antemão: Sandy e Bonnie são duas garotas, muito obrigada.
Enfim,é isso ai. kk

No dia seguinte, acordei misteriosamente bem disposto. O mertiolate parecia ter feito efeito, já que eu nem sentia mais os arranhões do dia anterior. Bem, isso ou o beijinho de “vai sarar” do Bill, mas eu preferia acreditar que eu alucinara aquilo.

Uma alucinação estranhamente confortável.

De qualquer modo, quando me levantei, devagar para não acordar Bill, como de costume, e desci as escadas em direção à cozinha, encontrei a sala de jantar apinhada no meio do caminho. O café da manhã fora servido na mesa grande, devido à chegada de alguns primos.

- E ai,Tom, beleza? – Perguntou Bonnie, abraçada com a namorada, Sandy.

- Tudo ótimo. – Respondi sorrindo. – E vocês, como vão?

- Melhorr impossível.– Disse Sandy, com seu forte sotaque francês, depositando um beijo no rosto de Bonnie.

Me afastei sorrindo, indo despentear Ellen, Glenn e Katy, os trigêmeos filhos de Thalita e John.

- Como está Billa? – Perguntou dona Simone assim que conseguiu me apanhar.

- Ainda não acordou. – Respondi me sentando à mesa e enchendo uma caneca de leite. Em meio à bagunça, quase não consegui vê-la se aproximar.

- Por que não leva uma xícara de chá quente para ela? Vai fazê-la se sentir melhor. – Sugeriu tia Berta, que estivera ouvindo nossa conversa, sentada ao meu lado.

- É uma boa ideia. – Respondi, agarrando uma xícara e enchendo de chá borbulhante.

Quando cheguei ao quarto, Bill ainda estava debaixo das cobertas, o que era ligeiramente estranho, já que estava consideravelmente calor. Aproximei-me, para me certificar de que ele ainda estava dormindo e me sentei ao seu lado na cama, colocando a xícara no criado-mudo.

- Bill? – Chamei, tocando seu ombro de leve. Não queria, de fato, acordá-lo. Parecia tão adorável dormindo que hesitei em chamá-lo mais alto. – Acorde, Bill.

Ele resmungou alguma coisa antes de abrir os olhos minimamente.

- Não quero ir para a escola hoje, Tooom. – Falou com a voz enrolada, cobrindo o rosto com o cobertor.

Reprimi uma risada, descobrindo seu rosto.

- Ora, pare de enrolar. – Falei chacoalhando-o. – Ficar enfurnado desse jeito só vai piorar o resfriado. Está se sentindo melhor?

Bill resmungou alguma coisa tão baixinho que tive que me abaixar para escutar. Pedi para que repetisse.

- Não quero levantar. – Disse ele, de olhos fechados. – Minha cabeça dói e eu estou com frio.

- Eu trouxe chá. – Falei, reprimindo o impulso de afagar seus cabelos e sorrindo ao ver seu rosto corado, provavelmente por causa do resfriado. – Beba, vai te fazer sentir melhor.

Bill abriu os olhos e encarou a xícara por um momento, parecendo decididamente cansado. Não era uma grande surpresa que estivesse mal, já que passara a noite toda resmungando e virando de um lado para o outro na cama.

Enquanto ele levava a xícara à boca, me peguei tendo os pensamentos mais insanos que eu poderia. Por um momento, me permiti divagar sobre o que acontecera no dia anterior. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde nós teríamos que tocar no assunto e, assustadoramente, eu desejava que fosse mais cedo. Eu não queria pensar muito sobre como eu parecia errado em todo o contexto, imaginava que talvez fosse normal sentir alguma coisa a respeito de alguém que passava o dia todo fingindo ser sua namorada e, pra falar a verdade, eu não me importava muito que fosse um cara. De uma maneira ou de outra, imaginava que beijar os lábios dele talvez representasse muitas coisas... mas com certeza seria macio e, de algum modo, aquilo parecia suficiente pra mim naquele momento; era algo como uma curiosidade, provavelmente algo passageiro que sumiria quando Bill deixasse de parecer uma criancinha indefesa. A vontade de beijá-lo quero dizer. Porque, mesmo que eu relutasse em admitir e me sentisse extremamente ridículo por isso, é, eu queria beijá-lo.

Sem saber muito o quê fazer a respeito dessa nova descoberta, apenas esperei que ele terminasse de beber o chá e me retirei, dizendo que voltaria logo, talvez com os G’s, para animá-lo. Bill apenas sorriu e voltou a se cobrir até a cabeça com o edredom.

Desci as escadas ainda meio desestabilizado. Quero dizer, não é sempre que você percebe que – mesmo de maneira ínfima – está desejando um cara de alguma forma... Pelo menos não quando, durante toda a sua vida, você acreditou que era hétero. Aquilo, no geral, tinha o poder de te deixar um pouco confuso, pelo menos.

- Aí, cara, tá tudo certo? – Perguntou tio Henri, em quem eu esbarrei quando cheguei na sala de estar.

- Billa está doente. – Respondi meio no automático. Tio Henri sorriu e me deu um tapinha no ombro.

- Fica tranquilo, daqui a pouco vai ficar tudo bem.

Acenei positivamente e me dirigi à cozinha, onde um punhado de mulheres estavam reunidas, comentando os últimos preparativos para sexta à noite.

- Oi, querido. Como ela está? – Perguntou dona Simone, arrancando a xícara da minha mão e dando para uma empregada.

- Acho que vai ficar tudo bem. – Respondi, encostando-me no balcão.

- Ela quem? – Perguntou Sandy,interessada.

- Ah, eu já ia me esquecendo! – Disse minha mãe, antes que eu pudesse sequer formular frase alguma. – Tom trouxe a namorada, finalmente, para conhecer a família!

- Sério? – Perguntou Bonnie, surpresa. Revirei os olhos.

- E ela é bonita? – Perguntou Sandy. Bonnie deu um tapa nela – Que foi? Só to perguntando!

- Ela é linda! – Continuou dona Simone, mais uma vez me cortando. Nem sei por que eu tentava falar. – Tem um cabelo lindo, comprido, com dreads, tá sempre com a maquiagem perfeita, alta, magra, educada! E a voz, então? Os olhos! Muito linda mesmo, não é, tia Berta?

- Até me admirei que o Tom pudesse encontrar uma garota daquelas. – Concordou tia Berta. Abri a boca pra protestar, mas Viktoria foi mais rápida.

- Eu também. Nem acredito que meu Tomelo finalmente tomou juízo!

Ou quase, pensei comigo mesmo, dando de ombros. Viktoria sabia, é claro, que aquilo tudo era armação, imaginava que estivesse dizendo aquilo só para manter as aparências, mas não conseguia parar de pensar no modo como as coisas simplesmente fugiram do controle. Por um momento, eu pensara que estivesse tudo bem em fingir. Agora eu estava vendo que fora a pior burrada da minha vida.

De um modo ou de outro, mesmo que por um lado eu olhasse para toda essa experiência com bons olhos, só uma coisa fazia sentido: eu estava ferrado. Outra vez.

- E onde está a misteriosa? – Perguntou Bonnie, brincando com o bebê, que acabara de aparecer na cozinha com tia Kristina.

- Ela está resfriada. – Respondeu tia Berta. – Mais tarde eu vou levar uma aspirina para ela e vocês vão junto, para conhecê-la.

- Tudo bem. – Respondeu Sandy com um sorriso de orelha a orelha. Bonnie bateu nela outra vez.

- O que acham de tule preto? – Perguntou tia Megan.

Entendi essa como a deixa para que eu as deixasse falando sobre decoração e voltei para a sala. Tio Henri e os G’s estavam combinando uma disputa de videogame.

Me joguei no sofá para assistir, tentando tirar qualquer pensamento que tivesse alguma relação a Bill da minha linha de pensamento pelo menos por enquanto.

- Devíamos apostar. – Disse Georg. – E se o Tom participar, talvez pudéssemos...

- Ele não tá com cara de quem quer jogar vídeo game hoje. – Disse Gustav, antes que eu conseguisse raciocinar.

- Ele está preocupado com a namorada. – Completou tio Henri, agarrando um joystick e se sentando ao meu lado. – Além do mais, eu aposto que ganho de vocês dois sem ajuda.

Os G’s se entreolharam.

- Fechado!

Notei um tom de sarcasmo em algum lugar da conversa, mas não conseguia identificar o culpado, então deixei passar pra não dizer besteira. Fiquei observando os três brigarem, discutirem e se estapearem durante o jogo enquanto esperava um tempo até voltar para o quarto.

Durante esse meio tempo, pesei os prós e contras de ter uma conversa séria com Bill sobre aquele assunto. Decidira que devia ser tão logo quanto possível, mas não queria ser muito óbvio. Além de tudo, precisava pesar com cuidado o que ia dizer... Eu não fazia ideia do que ele pensava sobre tudo isso – nem se ele se dera o trabalho de pensar a respeito. De qualquer modo, eu tinha consciência de que era uma causa perdida. Não acreditava que Bill pudesse sentir nem um terço do que eu achava que começava a sentir por ele.

Levantei quando percebi que o jogo estava tomando medidas drásticas e subi as escadas novamente. Quando entrei no quarto, Bill estava deitado na cama sem camisa, olhando para o teto com uma expressão desolada. Tranquei a porta na mesma hora.

- Tá doido? – Perguntei, me encostando à porta e respirando com dificuldade. – E se alguém entra aqui e te vê assim?

- Não sei... – Respondeu ele, suspirando. – Eu estou com calor!

- Não faz nem quinze minutos que eu saí daqui e você disse que estava com frio! – Respondi, normalizando a respiração e me sentando ao seu lado na cama.

- Desculpa – Disse Bill, sentando-se com as costas na cabeceira da cama e abraçando os joelhos. – Odeio ficar doente porque nunca sei o que eu estou sentindo.

Peguei a blusa de pijama que ele tinha jogado do outro lado da cama e entreguei-o.

- Tudo bem, eu sei como é, mas preciso que você aguente isso um pouquinho. – falei indo até o closet e procurando um colete que “disfarçasse” a falha no nosso plano e que, ao mesmo tempo, não o deixasse morrendo de calor. – Tia Berta inventou de vir visitar Billa com umas primas que chegaram há pouco.

- Ah, certo. – Respondeu ele, colocando o colete e desviando o olhar.

Queria perguntar o que havia de errado, queria não ter que continuar com essa farsa, mas não tinha solução. E, se eu dissesse para ele tudo o que achava que estava sentindo, provavelmente estragaria tudo. Afinal, não era tudo sobre mim. Eu o metera em uma enrascada pior do que eu poderia prever e agora eu mesmo não estava aguentando a pressão. Porque, de um modo ou de outro, existia uma possibilidade realmente evidente de que ele me rejeitasse de todas as formas possíveis e então ficaria ainda mais difícil ministrar as coisas na frente de tanta gente.

Resolvi esperar.

- Tio Henri e os G’s estão travando uma disputa de videogame emocionante lá na sala. – Contei, desviando de tudo o que estivera pensando em dizer para ele. Eu nem acreditava na capacidade que eu tinha de inventar assuntos aleatórios; de alguma forma, me sentia ridículo por isso, mas pareceu animar Bill um pouquinho.

- Aposto no tio Henri. – Respondeu ele com uma risadinha que fazia com que as maçãs do seu rosto comprimissem seus olhos. Foi minha vez de desviar o olhar para qualquer lugar longe dele.

- Eu também. – Falei, afofando um travesseiro sem nenhum motivo aparente. – E acho que...

E, mais uma vez, fui brutalmente interrompido; eu não fazia ideia do que ia dizer, mas a questão é que aquilo já estava virando perseguição!

- Billa! – Disse dona Simone, batendo insistentemente na porta. Suspirei e lancei um sorriso de “eu não disse?” para Bill.

- Já vou! – Gritei para ela, jogando o travesseiro em Bill, dizendo apenas com os lábios um “se aprume” e fui abrir a porta. – Oi, mãe, nós...

- Billa! – Repetiu ela, me ignorando completamente e passando por mim com uma rempa de pessoas atrás, que cercaram a cama onde Bill estava, escondendo-o totalmente. – Viemos ver como você está! O Tom disse que...

Parei de prestar atenção no que ela estava dizendo quando o rosto dele apareceu por entre os corpos de Sandy e Bonnie. Piscou os olhos algumas vezes com cara de confuso e olhou pra mim.

Virei as costas e saí do quarto, com a cabeça girando. Parecia ter deixado minhas entranhas lá dentro.

Eu podia mentir e dizer que não sabia o que, diabos, estava acontecendo... Mas dessa vez eu sabia. E não estava me agradando nem um pouquinho.

Notas finais
Não sei o que colocar aqui, 1bj.