Notas iniciais
Ahá, voltei!
Antes tarde que mais tarde ainda, né?! ;D
Divirtam-se (ou não).

Imagine você qual não foi a minha surpresa ao descer as escadas e me deparar com o meu pai, sentando ao lado do tio Henri, jogando videogame com Gustav e Georg.
— Tom! – Disse ele quando me viu, jogando o joystick para o tio Henri e vindo me abraçar. – Onde está sua mãe? Há meia hora que eu cheguei e ainda não a vi.
— Todas as mulheres da casa parecem estar reunidas no meu quarto. – Respondi me jogando no sofá.
— No seu quarto? Por quê? – Perguntou ele, retomando o joystick das mãos do tio Henri.
— A namorada dele está doente. – Explicou Georg com os olhos grudados na TV – Ahá! Toma essa, seu trouxa!
Revirei os olhos.
— Namorada? Você trouxe sua namorada? – Perguntou meu pai, enfiando o joystick nas mãos do tio Henri outra vez. – Onde ela está? Como se chama? Como ela é?
— Ela está resfriada. – Respondi. Já estava cansando de chamar o cara de “ela”, mas tudo bem. – O nome dela é... Billa. Morena, alta, olhos castanhos...
— Lindona! – Emendou Gustav dando um tapa em Georg, que deixara um alienígena escapar no jogo.
— Me leve até ela, então. Quero conhecer a minha nora! Finalmente, hein, Tom, estava começando a achar que ela não existia! Vamos, deixe-me vê-la!
— Sério, pai, melhor não. Tem tanta gente lá dentro que fica difícil até mesmo chegar até ela. – Falei.
A verdade era que eu não queria voltar no quarto agora, simplesmente não queria ver Bill. Tinha medo de abrir a boca e acabar falando alguma besteira num momento inoportuno.
— GANHAMOS! NEM ACREDITO, GANHAMOS, GEORG!
Olhei assustado para o lado. Gustav e Georg pulavam em volta do tio Henri gritando feito loucos. Pisquei algumas vezes para me certificar de que estava mesmo vendo isso: Georg e Gustav NUNCA ganhavam do tio Henri.
— Bem, vamos discutir os termos da aposta ganha. – Disse Gustav, assumindo aquela expressão que fazia com ele parecesse inteligente, arrumando os óculos na ponte do nariz.
— Aposta ganha? – Disse tio Henri, arregalando os olhos.
— Sim, senhor. Você disse claramente “aposto que ganho de vocês dois”, Tom está ai para não nos deixar mentir, não é, Tom?
Dei de ombros.
— Desculpe, tio Henri, eles estão certos desta vez. – Falei, achando graça na situação. Meu pai se jogou no sofá ao meu lado e me cutucou.
— Isso vai ser engraçado. – Comentou cruzando os braços atrás da cabeça.
— Com licença, vamos confabular. – Pediu Georg, se afastando com Gustav.
— Ai meu Deus, estou tão ferrado! – Disse tio Henri, colocando as mãos nas têmporas.
— Relaxa. – Falei, tentando acalmá-lo. Por dentro, eu estava como uma bombinha, esperando para explodir em risadas. Aquilo realmente ia ser engraçado! – Eles não iriam pegar pesado...
— Certo, decidimos. – Disse Georg, voltando para perto de nós com Gustav, que definitivamente estava se segurando para não cair na gargalhada.
— E o que vai ser? – Perguntou meu pai, descansando os pés na mesinha de centro. Se dona Simone o visse fazendo isso, nem quero imaginar o que poderia acontecer!
— Coisa simples. – Continuou Georg com uma risadinha diabólica. Tio Henri engoliu em seco. – É tão ridiculamente fácil que...
— Ora, pare de enrolar e diga logo! – Cortou-o tio Henri, ficando de pé. – Não pode ser tão ruim assim...
— Certo. – Disse Gustav. – Tio Henri, sua penitência é... roubar uma das calcinhas da tia Berta e desfilar pela casa com ela na cabeça.
— O QUE? – Gritamos tio Henri, eu e meu pai em coro. A diferença era que eu e meu pai estávamos achando a maior graça enquanto tio Henri parecia desesperado.
— Pois é, cara pálida. Coisinha simples, não disse?
— Ah, sim, Georg, não se esqueça daquela última coisinha. – Disse Gustav, cutucando-o.
— Claro, já ia me esquecendo! – Gritou Georg, rindo. – A aposta terá que ser paga na sexta à noite. E um conselho: não deixe a tia Berta te apanhar!
— Como diabos esperam que eu faça isso? – Disse tio Henri, praticamente arrancando os cabelos. – A velhota fecha o quarto dela a sete chaves! Além disso, na sexta à noite vai estar todo mundo aqui, eu não....
— Mas essa é, justamente, a graça! – Comentou meu pai, rindo.
— Ah é? – Disse tio Henri, virando-se para ele com um sorriso cínico. – Pois então, você vai me ajudar, vai sim!
— O que? Eu? Por que eu deveria?
— Já se esqueceu quem chegou aqui no fim da partida querendo “jogar um pouquinho enquanto espera Simone”? Você me ajudou a perder, capitão! – Completou tio Henri, fazendo uma saudação ao meu pai, como se isso encerrasse o assunto.
— Ele está certo. – Comentei. Meu pai me fuzilou. – Que é? Aposta é aposta, a penitência é justa!
— É isso ai, Tomzão, bate aqui! – Disse Georg, levantando a mão pra mim. Bati. Aquilo ia ser muito, muito engraçado!


________________________


Durante a tarde, fiz de tudo para não precisar voltar ao quarto, embora ficasse rondando a porta e correndo atrás dos empregados, mandando-os levarem coisas para Bill. Antes de qualquer coisa, eu queria ter certeza do que estava sentindo, afinal, minha mente estava uma bagunça naquele momento. Mas foi na hora do jantar que eu percebi como as coisas iam ficar ainda piores do que já estavam.
Estávamos sentados à mesa, que nessa noite estava quase completa. Meu pai e tio Henri haviam pedido a ajuda de tio Steve e tio Hans para a operação calçola, mas até agora não tinham obtido resultado algum. Enquanto isso, eu apenas me concentrei no meu prato, observando o modo como os grãos de milho dançavam calmamente no meio do creme, sem muito apetite. Na verdade, eu não estava prestando atenção em nada até ouvir o nome de Bill na conversa do pessoal da esquerda.
-... e ela vai ficar linda! – Estava dizendo tia Berta enquanto enchia o prato de todo mundo com batatas ao molho. – Eu mandei comprarem um Channel absolutamente lindo e sexta-feira vamos levá-la ao shopping para escolher o vestido.
— Realmente. – Disse dona Simone, pontuando a palavra com um gole na taça de cristal que jazia em sua frente. – Billa tem os olhos mais brilhantes que eu já vi na vida, combinam muito com os do Tom e vai ficar inegavelmente perfeita com aquele par de brincos de diamante que eram da vó Rosa.
— Lembre-se de escolher um vestido que realce bem o rosto dela, tia Berta. – Recomendou tia Megan.
Visualizei o rosto dele involuntariamente, realçado por um vestido. Eu estava achando muito bom que ele não tivesse descido para o jantar pra não ter que ouvir essa história ridícula de vestido. Vestido...

- O que? – Falei, entrando na conversa sem ser convidado, finalmente entendendo o que elas estavam dizendo. – Tia Berta vai levar Billa ao shopping para escolher um vestido? Um vestido?
— Sim. – Respondeu tia Kristina, limpando a boca do bebê com um guardanapo cheio de carrinhos azuis e babadinhos bordados. – Algum problema?
— P-problema? Não, não, nenhum problema. – Respondi, voltando o olhar para o meu prato.
Ao fim do jantar, puxei Viktoria em um canto e a encarei. Certo, pra quem mais eu iria pedir ajuda? Gustav? Georg? Acho que não. Pelo menos não com uma coisa tão... feminina! VESTIDO? Arre!
— Certo, o que vamos fazer? – Perguntei, passando as mãos pelas rastas, frustrado.
— O que vamos fazer com o que? – Perguntou ela, achando graça do meu nervosismo.
— Você não ouviu tia Berta dizendo que quer meter Bill em um vestido? – Sussurrei, chacoalhando-a pelos ombros.
— Ah, isso! – Riu Viktoria, ajeitando o cabelo. – Fique tranquilo, Tomelo, tenho tudo sob controle. Nada que uma meia calça fio 40 e um bom sutiã com bojo não arrume, amigo.
— E eu que achava que não podia ficar pior do que estava. Jesus, isso vai ser um desastre! – Conclui. Oh, céus, Bill ia me matar!

Não dormi no “nosso quarto” naquela noite. Esperei até meia-noite na escada em frente à porta de entrada, pensando em tudo o que havia acontecido nesses últimos dias, o modo como minha vida dera uma guinada irreversível só por causa de uma mentirinha que acabou se tornando uma bola de neve. Primeiro que eu nunca imaginei que algum dia tivesse mesmo que apresentar minha namorada imaginária à família, mas daí a pagar um cara pra fingir que era a tal havia um grande abismo, sobre o qual eu pulara sem nem me dar conta e agora que já estava do outro lado começava a sentir as vertigens. O problema era que não tinha mais como voltar para o outro lado, construir uma ponte demoraria muito. Eu tinha que resolver tudo isso sozinho dessa vez. De um lado, a pressão de toda a minha família, do outro, a minha própria consciência me pregando peças. Eu estava tão ferrado!
Quando as estrelas começaram a sair de foco em meus olhos, decidi que era hora de voltar para dentro. Subi as escadas e cheguei a abrir a porta, mas não conseguia ver Bill, enrolado no cobertor sob a cama de dossel, ressonando calmamente. Parecia tão sereno que provavelmente acordaria se eu tentasse me aproximar, por isso apenas tornei a fechar a porta e me enfiei em um dos quartos desocupados, onde passei a noite.
No outro dia, de manhã, tentei levar o café para ele, mas acabei perdendo a hora e tia Berta já havia providenciado isso. Decidira ignorar, pelo menos por enquanto, essa coisa de achar que estava gostando do cara; não podia fugir dele pra sempre, especialmente agora, que o ponto alto da semana se aproximava tão irremediavelmente. Mais dois dias e então aquilo tudo ia acabar, só mais dois dias...

Notas finais
OH, GOD, EU ESTOU GOING CRAZY, BILL EM UM DRESS? I guess isso vai ser funny >.