Conto De Falhas
15 A festa.
Notas iniciais
E tão intenso como começou, de repente terminou. Seus dedos ainda entre os meus, minha mão ainda em sua nuca, seus olhos ainda nos meus.
Parecia assustado, surpreso e um tremor ultrapassou minha espinha quando finalmente percebi o que eu fizera. Meus lábios ainda formigavam, minhas entranhas ainda estavam enroladas, mas eu não pensara em nenhum momento em como Bill se sentiria depois desse movimento impensado e involuntário da minha parte. Agora, no entanto, vendo seus olhos assustados correrem de um lado para o outro em meu rosto, eu percebia que me precipitara. E se ele me odiasse depois disso?
Minha cabeça girou incomodamente ao mesmo tempo em que Bill soltava minha mão e a levava aos lábios.
A única coisa em que eu conseguia pensar naquele momento era em como eu tivera a capacidade de pisar na bola mais uma vez.
- Bill, eu... – Comecei, tentando consertar o que eu fizera, estendendo a mão para ele. Mas ele deu um passo para trás e balançou a cabeça em negativa, a mão ainda cobrindo os lábios.
Desviei o olhar e saí correndo do quarto. Eu não sabia o que fazer, mas simplesmente tinha consciência de que estragara tudo desta vez.
Desci as escadas de dois em dois degraus e saí em disparada para qualquer lugar longe o bastante, mas nenhuma distância parecia suficiente. Passei por minha mãe na varanda, enrolada com os fios de luz, mas não parei quando ela me chamou. Passei por Gustav e Georg no jardim, mas também não parei. Continuei correndo, o vento castigando meu rosto de uma maneira quase dolorosa, mas só diminui a velocidade quando me embrenhei entre as árvores próximas às parreiras de uva. Andei a esmo e segui o som da água, me deparando com a cachoeira.
Larguei-me em uma das grandes pedras e fechei os olhos. Era isso. Eu definitivamente estragara tudo. Como eu olharia para ele de noite? Depois de dias fingindo que éramos um casal, eu acabara confundindo tudo e me deixado levar. E agora, eu temia que estivesse apaixonado. Eu nunca fui o tipo de cara que admite uma coisa dessas... na verdade, nunca fui o tipo que sentia essas coisas. Toda a minha vida havia sido um bolo de encontros sem fundamentos, de garotas diferentes e sem sentimentos e de repente eu estava parecendo uma menininha de treze anos cujo primeiro encontro fora frustrado pelos pais. Exceto que meu encontro não fora frustrado pelos meus pais, eu conseguira estragar tudo sozinho.
Por mais que eu ainda sentisse meu peito arfar com as lembranças do que acontecera naquele lugar e do que eu praticamente deixara acontecendo em casa, não tinha condições de voltar, pelo menos não tão cedo. Eu precisava pensar, eu precisava organizar meus sentimentos mais uma vez.
Eu precisava fingir que estava tudo bem de novo, mas aquela seria a última, para mim e para Bill, para Georg, Gustav, Viktoria... E novamente, percebia como eu tinha sido egoísta. Eu criara uma rede de mentiras e colocara tantas pessoas nela sem me importar com nada que agora que parava para pensar percebia como eu fui idiota. O problema era que agora não tinha mais como voltar atrás; tudo estaria bem se eu mesmo não tivesse me envolvido nisso da maneira errada.
De um modo ou de outro, agora não fazia mais diferença. Depois dessa noite, tudo acabaria. Literalmente.
__________
Eu passara o dia todo em companhia do som da queda d’água, rodeado de lembranças e pensamentos confusos, mas com a chegada iminente do por do sol, eu deveria voltar.
O exterior da casa toda fora enfeitado com luzes — ainda apagadas por enquanto — e agora havia pelo menos mais cinco carros diferentes estacionados na garagem junto à caminhonete velha que pertencera ao meu avô. Eu sabia que Bill passara a tarde toda fora porque tia Berta dissera que o levaria ao shopping para escolher o vestido. Meu estômago afundou, mas não me permiti voltar a pensar no que eu passara o dia todo tentando evitar.
Encontrei minha mãe na porta.
- Ah, Tom, finalmente você apareceu! – Disse ela, me segurando pelos ombros, os cabelos formavam uma auréola ruiva despenteada em volta da cabeça. – Estivemos te procurando o dia todo! Onde você estava? Ora, não interessa, vá se trocar antes que seu tio Danny chegue! Aliás, Isac chegou e esteve te procurando, Anne e Ryan também. E os pestinhas Charlie, Tyler e Kimmi infernizaram a vida de todo mundo hoje, então não dê doces pra eles, estão de castigo.
Arregalei os olhos com a enxurrada de informações. Dona Simone estava parecendo que precisava de um choque para estabilizar seu estado de histeria. Se bem que, a julgar pelo estado do cabelo, parecia que ela já tinha levado um choque.
- Sua roupa está no quarto dos G’s, Billa está se trocando no seu quarto e tia Berta não quer que ninguém entre lá se não se chamar Viktoria. Está esperando o que? – Acrescentou ela, gritando e me estapeando escada acima.
Tentei armazenar o que ela me dissera e subi as escadas em direção ao quarto em que Gustav e Georg estavam. Acabei entrando sem bater, mas isso não seria problema; pelo menos eu pensei que não. Isso até chegar lá e encontrar Georg arrumando a gola da camisa de Gustav. Quando me viram, os dois disfarçaram e se distanciaram. Estreitei os olhos.
- Vocês estão bem? – Perguntei, fechando a porta atrás de mim.
- Claro, por que não estaríamos? – Disse Georg, borrifando perfume no ar e deixando que a nuvem caísse sobre ele.
- Vocês dois estão muito estranhos. – Comentei, pegando o cabide que estava pendurado na maçaneta da porta, no qual havia uma troca de roupa que imaginei ser a minha. – Querem me contar alguma coisa?
- Acho que não. – Respondeu Gustav, amarrando o sapato. – Mas tenho certeza de que você tem algo pra nos contar. O que está acontecendo entre você e Bill?
- Eu, err... – Enrolei, olhando de um para outro, com cara de espanto. – Eu vou tomar banho!
Corri para dentro do banheiro para não haver espaço para perguntas e demorei o máximo que consegui no banho, o que parece não ter sido muito, já que no momento em que saí do banheiro, Gustav e Georg ainda estavam me esperando no quarto. A chapinha de Georg estava quase pronta – embora ainda houvesse uma mecha dos cabelos presa por um elástico no alto da cabeça que ainda apresentava a característica “lisa” e não “super, extra, hiper, mega, extrema e inconfundivelmente lisérrima”.
- Está pronto? – Perguntou Gustav, vendo-me retirar a toalha da cabeça. Respirei fundo.
- Sim. – Respondi, pendurando a toalha no banheiro e indo até a cama para colocar meus tênis.
- Então vai nos contar? – Perguntou Georg, achatando a última mecha com a chapinha quente. Quase pude ouvir os fios do cabelo dele fritando.
- Contar? Contar o que? – Perguntei me fingindo de desentendido. A verdade era que eu não queria ter que contar nada sobre mim e Bill porque eu acreditava que isso faria com que ficasse ainda mais insuportável ter que fingir que estava tudo bem esta noite.
- Ora, Tom, pare de graça e desembuche logo! – Disse Gustav, me dando um peteleco na testa.
- Não há nada para contar. – Falei, me desvencilhando de outro tapa, desta vez da marmota gorda do Georg. – Vocês vêm? – Acrescentei, indo até a porta.
Eles se entreolharam, mas me seguiram para a porta, provavelmente concordando que seria melhor não insistir. Aqueles dois me conheciam desde os sete anos de idade, sabiam que uma hora ou outra eu me abriria, mas não seria agora. Eu estava torcendo para que tivesse que ser nunca.
Descemos as escadas e finalmente caiu a ficha. Agora sim, a família inteira estava lá e não tinha como fugir. Mais uma vez, aquela sensação atravessou meu corpo: eu estava ferrado. De novo.
- Preciso de uma bebida. – Falei, colocando a mão na testa. Enchi um copo com cerveja e tomei um gole calmante. Ou quase.
- Tom! – Gritou minha mãe, vindo em minha direção. Eu não acreditava que fosse possível, mas enquanto eu tomei banho e vesti calça jeans e tênis, ela ajeitara os cabelos em um coque, se metera em um vestido deslumbrantemente impecável, saltos agulha e ainda tinha brincos ofuscantes pendurados nas orelhas. Isso sem mencionar a maquiagem. Senti uma onda de admiração crescente por ela de repente, mas logo murchou quando ela continuou falando. – Eu estava mesmo te procurando. Tia Kristina precisa que você cuide do bebê enquanto ela se arruma.
- O que? – Perguntei indignado, olhando para Gustav e Georg em busca de apoio, mas os filhos da puta saíram de fininho e me deixaram sozinho naquela situação. Bem, eles iam me pagar, simplesmente iam.
- Ah, ai está você! – Gritou tia Kristina, se aproximando com a criaturinha e a colocando nos meus braços enquanto minha mãe se afastava gritando com os trigêmeos. Arregalei os olhos – É rápido, Tom, não vou demorar nada, nada. Muito obrigado por cuidar dele, aqui está o paninho. Obrigada!
E, dito isso, ela se afastou escada acima correndo.
Lancei um olhar para o bebê, receoso, mas feliz por pelo menos ele estar de boca fechada. O que não durou muito tempo. Foi só eu esboçar um sorriso que ele começou a fungar e querer chorar.
- Oh mein Gott! – Murmurei, balançando o monstrinho para que ele não começasse a esgoelar. Não que tenha sido muito efetivo. – Isso não vai dar certo, não vai mesmo. Gottverdamnt!
Havia uma chupeta pendurada no paninho que tia Kristina colocara no meu ombro. Tentei colocar a coisa na boca da criatura, mas ele cuspiu, então só vi uma alternativa. Mergulhei a chupeta na cerveja e coloquei de volta na boca do bebê. Ele fez uma careta, mas calou a boca e ficou com a chupeta.
Tom 1 x 0 Bebê!
Sorri com minha própria genialidade e varri o olhar pela sala, vendo todos os meus parentes – inclusive aqueles com quem eu nem conversava –, mas minha observação foi interrompida quando percebi que Stu estava me encarando com uma expressão indignada. Ergui uma sobrancelha e ele se aproximou.
- Você é louco? – Perguntou, indicando o monstrinho com o queixo. – Dar cerveja para um bebê, só você mesmo, seu cabeça oca!
- Arre, o que mais eu devia fazer? O guri não calava a boca! – Respondi, colocando a criaturinha no colo do Stu, que o pegou de um jeito que acho que nem se eu treinasse eu conseguiria. Acho que Stu era o tipo de cara que gostava de criança, sempre fora. Já eu, queria distância dessas coisinhas molengas e cor-de-rosa. – Além disso, a culpa é da tia Kristina, ela que deixou essa coisinha comigo.
Stu revirou os olhos, mas ficou estático de repente, olhando para as escadas. Chacoalhei a mão na frente do rosto dele, mas ele parecia vidrado. Acompanhei seu olhar e então finalmente descobri por que ele estava daquele jeito.
Confesso que quase tive um ataque. Viktoria vinha descendo as escadas vestindo uma roupa vermelha com um decote avantajado, mas atrás dela estava Bill. Ou melhor, Billa. Nos pés, tênis preto, uma jaqueta da mesma cor e o vestido que provavelmente tia Berta escolhera, a franja caindo levemente sobre os olhos maquiados e alguns dreads presos atrás da cabeça. Se alguma vez alguém houvesse duvidado que Billa era uma garota, provavelmente agora estava se achando um idiota. Porque, se me perguntassem, eu diria que não havia garota mais bonita no mundo, mas isso só fez com que meu estômago se revirasse de uma maneira incômoda. Eu não queria Billa, eu não queria nem saber de vestido e de decote, eu queria que fosse o Bill ali, eu queria que aquele sorriso quando me viu fosse de verdade. Eu queria que ele estivesse vindo à minha direção vestindo calça jeans e camiseta, ou aquele roupão preto. Eu queria mandar toda aquela farsa para a China ou para a Lua, aquela que fosse mais longe; eu queria poder dizer pra todo mundo que eu estava fingindo que tinha uma namorada, mas que na verdade ele era um cara e eu não me importava. Eu gostaria de poder abraçá-lo e dizer que o amava, mas eu não podia.
A única coisa que eu podia fazer naquele instante era observar enquanto ele descia as escadas sorrindo timidamente e lamentar que meus sentimentos – mesmo que estranhamente tão certos para mim – não fossem correspondidos.
Viktoria passou por mim antes dele e, embora meus olhos ainda estivessem grudados em Bill, percebi quando ela piscou pra mim e se afastou, me empurrando na direção dele.
Por um instante, me perguntei o que eu deveria fazer a seguir. Ir até lá? Esperar que ele se aproximasse?
A real pergunta era: por que tudo tinha que ser tão difícil?
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