Notas iniciais
Capítulo betado e atualizado o/

Deu-se que as aulas foram a mesma merda de sempre; você sabe, professora mais velha que a arca de Noé, feia que é o cão, falando algo sobre alguma coisa que eu nunca vou usar na minha vida e sobre um punhado de gente que já morreu. Quero dizer, eu lá quero saber sobre Newton e seja lá qual lei ele tenha criado? Eu queria mais era que ele tivesse sentado em baixo de um pé de jaca e morrido antes de descobrir a física, sério.

Mas não vem ao caso. A questão era que lá estava eu, indo para o estacionamento. Eu não encontrara a garota dos dreads na hora do almoço e nenhuma vez durante os intervalos e fiquei me xingando mentalmente por ter sido tão burro a ponto de não perguntar o nome dela. Mas naquele momento eu só conseguia pensar em como minha mãe ia me esfolar vivo, depois contar pro meu pai, que ia me mandar pra Inglaterra de castigo até os trinta anos. Bufei.

- Droga! – Disse alguém escondido atrás do capô aberto de um Mustang preto. Esse carro estava sempre parado ao lado do meu Audi, mas eu simplesmente ignorava, não fazia ideia de quem fosse o dono; talvez porque eu tivesse inveja, já que o carro era simplesmente sensacional, embora eu tivesse um Audi R8 à minha disposição.

Dei a volta no carro e destravei o alarme do meu, que fez aquele barulho irritante do caralho.

- Puta que pariu! – Gritou a pessoa saindo de trás do capô do Mustang – Quem foi o infeliz que... Ah, oi, é você.

Eu não acreditava na sorte que eu tinha. Era a garota. A garota que eu estava procurando e que possivelmente ia ser apresentada para minha mãe como minha namorada era dona do Mustang preto sobre o qual eu ficava babando vergonhosamente.

- Oi – Respondi, abrindo a porta do Audi e jogando a mochila lá dentro. – Qual é o problema ai?

- Alguma coisa no carburador – respondeu ela, limpando a testa com a manga do cardigã e enfiando a cara no motor do carro outra vez.

- Quer ajuda? – Perguntei indo olhar o estrago. Porque mesmo que ela fosse dona do Mustang, ela ainda assim era uma garota.

- Eu realmente posso me virar – Respondeu revirando os olhos.

— Okay – disse levantando as mãos em sinal de rendimento, enquanto ela se ocupava em se livrar do casaco. E, por baixo deste, ela estava com uma blusa preta de manga comprida e uma gola exagerada, sem decote. Droga! Agora que eu ia formular a nota da comissão de frente! Levantou as mangas e pude ver uma tatuagem no antebraço esquerdo. Ela era alta e tinha unhas compridas e pintadas de azul escuro. Hm...

- O que, exatamente, você quer? – Perguntou a garota, se debruçando sobre o motor.

- Te fazer uma proposta.

- Pagando bem, que mal tem?! – Comentou ela, prendendo o cabelo com um elástico preso ao pulso fino.

Claro, tudo tinha um preço. Maldito capitalismo!

- Eu posso pagar – Respondi, vendo-a se abanar sob o sol quente sem olhar para mim, ainda abaixada sobre o motor do Mustang.

- E do que se trata?

- Eu preciso que você finja ser minha namorada por uma semana – Falei, cruzando os dedos mentalmente para que ela aceitasse.

- O que? – Perguntou ela endireitando as costas de repente e batendo a cabeça no capô.

- Olha, meu nome é Tom. Qual o seu? – perguntei, antes que me esquecesse outra vez.

- Bill – Respondeu com aquele sorriso absurdamente grande.

- Como? – Falei. Jurava que tinha a ouvido dizer “Bill”.

- Bill – Repetiu, rindo de se acabar. Eu me perguntava onde estaria a graça.

- Você não é louca, é?! – Perguntei só pra ter certeza. Ela riu mais ainda.

- Então você realmente acha que eu sou uma garota?! – Disse ela, fechando o capô do carro e voltando a se abanar. – Eu sinceramente pensei que você só estivesse zoando comigo, mas, sério?! Você deve ser muito idiota. Ou muito ingênuo. Mas eu pessoalmente acho que você seja idiota.

Olhei-a assustado. Que raios de conversa era aquela?

- Quer ser mais clara? – Pedi. Ela riu ainda mais e levou as mãos até a barra da blusa, puxando-a para cima. Fiquei um segundo vidrado em outra tatuagem, de estrela, parcialmente escondida pela calça, depois subi meu olhar para uma outra enorme, na lateral do corpo, e, por fim, ela tinha tirado a camiseta e tudo ficou claro.

“Ela” não era “ela”. “Ela”, na verdade, era “ele”: Bill. Agora tudo fazia sentido. Porque ele rira quando eu perguntei se ele era “nova” e gargalhara quando eu o chamara de “louca”. E, bem, ele tinha razão, no fim das contas: eu era um idiota.

Ainda estava olhando para ele vidrado quando ele deu a volta no carro e se enfiou lá dentro, tentando fazê-lo pegar. Não estava dando muito resultado, se quer saber.

- Droga – Murmurou outra vez. Digamos que eu estivesse em choque, vendo-o passar de um lado para o outro sem camisa: não tinha outra explicação, ele era uma garota no corpo de um homem. Porque ele andava como uma garota, se portava como uma garota, se parecia com uma garota!

Foi quando a ideia ridícula passou pela minha cabeça. Bem, talvez não fosse tão ridícula assim.

- A proposta ainda está de pé – Falei por fim. Ele me olhou assustado, como se tivesse se esquecido de que eu ainda estava ali, encostado no meu Audi, observando cada passo dele.

- Você não é mesmo gay, é?! – Perguntou Bill, com uma sobrancelha perfeitamente arqueada. Revirei os olhos.

- Tenho cara de quem curte queimar rosca? – Respondi. Bill riu.

- Ótimo, então não preciso mesmo me preocupar em ser estuprado, certo?!

Revirei os olhos novamente e ele novamente riu.

- E eu vou receber por isso, não é mesmo?! – Continuou ele.

- Já disse que posso pagar quanto você quiser. – Respondi. O importante era contentar minha mãe pra não ir pra Inglaterra e digamos que dinheiro não era exatamente um grande problema pra mim.

- Tá certo. O que eu tenho que fazer?

- Está aceitando a proposta? – Perguntei sinceramente esperançoso.

- Acho que sim. – Respondeu ele, se encostando no Mustang e desistindo de tentar fazê-lo pegar. Era estranho, porque ele era um cara, mas ao mesmo tempo eu o achava bem legal. E eu ainda não acreditava que tinha dito que a bunda dele era linda.

- Ótimo, então podemos falar sobre isso em qualquer lugar que não seja aqui – Falei indo até o Audi. – Aceita uma carona?

- Claro – disse ele, colocando a camiseta de volta. Pegou o casaco do banco de trás do Mustang e se aproximou do lado do carona no Audi. Corri até lá para abrir a porta pra ele, mas quis me enforcar quando ele me olhou de olhos arregalados e se jogou no banco do carro. Ah, meu Deus, eu ainda o estava tratando como se ele fosse uma garota.

- Tem certeza de que você não é mesmo gay? – perguntou ele enquanto eu voltava para o meu lugar e me sentava agarrando o volante como se ele pudesse fugir de mim. Ótimo, eu tinha sérios problemas.

- Disso você pode ter certeza. Comigo você não corre esse perigo – Respondi dando a partida. Um segundo depois nós já estávamos correndo pelas ruas em alta velocidade.

- Então você gosta de hip hop – Comentou Bill, mexendo nos meus CDs e colocando um do Samy Deluxe no CD player.

- Sim, e você?

- Não sou exatamente o maior fã. – Respondeu ele dando de ombros – Mas acho legal.

Sorri. De algum modo totalmente insano era legal saber que ele gostava de algo que eu gostava.

- Foi bem na prova hoje cedo? – Perguntei me lembrando de repente.

- Ah, bem, eu não tinha prova – Disse Bill com um sorriso amarelo. – Disse aquilo pra me livrar de você.

- Bem, não deu certo – Respondi – Mas porque você queria se livrar de mim se nem nos conhecemos?

- Você chegou me chamando de menina – Comentou ele. Isso era bem uma verdade – E a maioria dos caras daquela maldita escola gostam de implicar comigo. Dizem que eu sou andrógino e tudo o mais (não que eu não seja algo do tipo, exatamente). Acham que só porque eu sou um pouquinho feminino eu saio por aí dando pra todo mundo como se fosse a maior bicha enrustida.

- Caramba. Isso é bullying, cara.

- E eu não sei?! Tenho vontade de dar um soco na cara de qualquer um que insinue que eu me pareça com uma garota – explicou – Por isso eu quis ficar o mais longe possível de você. Mas no fim, você era só um idiota que enxerga de menos.

E, dito isso, ele apontou para o “instrumento” dele, que na verdade parecia bem saliente naquela calça indecentemente apertada, agora que eu parara pra observar. Credo em cruz!

Arregalei os olhos e Bill riu. Era uma risada boa, daquelas que faz a gente querer rir junto, mas eu estava assustado demais pra rir.

- Aqui estamos nós. – Anunciei, parando o carro no estacionamento do prédio.

- E onde exatamente seria “aqui”? – Perguntou Bill, pulando pra fora do carro como se fosse um gato.

- Meu apartamento. – Respondi indo até o elevador e apertando o número doze.

- Caramba! – Disse Bill se olhando no espelho do elevador e limpando os olhos com a manga da blusa – Eu tô parecendo um guaxinim!

Ri baixinho. O elevador parou e as portas se abriram, você sabe, bem no meio do meu apartamento.

- Caralho... – Sussurrou Bill, já fora do elevador, dando voltas em torno dele mesmo, olhando para o teto alto, para os móveis, para os tapetes, absolutamente tudo. Ele parecia um bichinho curioso – Esse é o seu apartamento? É sério, ele dá uns cinco do meu! E eu que estava querendo mudar pra um apê menor porque achava aquele muito grande.

Joguei a mochila no sofá e fui até a cozinha, ouvindo Bill conversar com o nada sobre como tudo parecia bonito.

- Você mora aqui sozinho? – Gritou ele de lá da sala.

- Sim. – Respondi no mesmo tom de voz.

- Credo, não precisa gritar desse jeito. – Disse Bill, praticamente do meu lado.

- Como chegou aqui tão rápido? – Perguntei só por perguntar. Malditos ninjas, mal posso ver seus movimentos!

Bill deu de ombros e se sentou no balcão. Sim, não foi no banco, nem nas cadeiras, foi em cima do balcão. E ainda cruzou as pernas, de um modo tão feminino que eu quase tive uma taquicardia, mas me controlei a tempo.

- Por que um apartamento tão grande se você mora sozinho? – Perguntou ele, pegando um copo e enchendo de água no filtro que ficava em cima do balcão.

- Eu estou esperando. Quando eu encontrar alguém especial, vamos morar aqui. – Respondi inocentemente. Deus me perdoe.

- Certo. E eu sou o Barack Obama, prazer em conhecê-lo! – Respondeu Bill, quase engasgando com a água depois do que eu disse. Olhei-o entre confuso e divertido – Sua fama de galinha é o que mais se comenta naquele colégio. E olha que eu não converso com ninguém lá!

Dei de ombros, rindo.

- Okay. Vamos falar sobre negócios. – falei finalmente me lembrando do por que de Bill estar ali, afinal. – É fácil. Tudo o que você tem que fazer é parecer com uma menina.

- Se você quer que eu me pareça com uma menina, porque não pede uma menina em namoro, logo de uma vez?!

- Porque elas são muito, hm, dadas. Eu preciso de alguém que finja ser minha namorada porque minha mãe quer conhecer a nora.

- Então, resumindo, você mentiu pra sua mãe que tinha uma namorada e agora ela quer conhecer a vadia, certo?!

- Mais ou menos isso – Respondi. – Mas digamos que a minha mãe seja um pouquinho feminista demais. Ela não quer nem saber das meninas com quem eu costumo sair. Ela quer alguém que seja... bem, uma princesa.

- E porque, diabos, você quer que um homem faça isso? – Perguntou Bill, claramente estranhando a parte em que eu dissera “ser uma princesa”. Porque, de algum modo, isso queria dizer que eu achava que ele parecia uma princesa. Não que estivesse muito longe da realidade.

- Porque é mais fácil. – Respondi – É mais fácil um homem fingir ser uma mulher do que aquelas garotas aprenderem em dois dias todas as regras de etiqueta. E digamos que pra você seja um pouquinho mais fácil fingir ser uma garota, certo?!

- Certo. Mas o que exatamente, te faz pensar que eu tenha alguma noção de etiqueta? — Nem falei nada. Apenas arqueei a sobrancelha e Bill olhou para si mesmo, sentado de pernas cruzadas, segurando o copo de água com o dedo mindinho levantado.

- Okay, talvez eu seja a nora que a sua mãe pediu. – Disse ele, rindo.

- Talvez sim. – Respondi rindo também.

- Tá legal. Isso vai te custar, hm, deixe-me fazer as contas... Uma semana, contando a partir de sexta-feira? Duzentos dólares por dia, já que eu vou ser humilhado e mais mil dólares pelos danos morais... Resumo dois mil e quinhentos dólares. De acordo?

- De acordo. – Respondi apertando a mão dele. E, cara, era macia, muito macia. E quente, quente mesmo.

Se eu achava caro? É, talvez eu achasse, mas eu realmente esperava que valesse a pena.

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Notas finais
É, eu sei, as coisas geralmente acontecem meio rapido demais nas minhas fanfics, mas fiquem tranquilos que eu prometo que a fanfic vai ter mais do que cinco capítulos HSUAHSUAHS' Eu comumente costumo ler fanfics grandes, porque o desenrolar da história é mais claro e dá mais tempo pra você se envolver com os personagens e sentir a emoção dos momentos junto com eles, então eu faço de tudo pra conseguir isso nas minhas fanfics. Espero realmente que vocês estejam gostando - apesar de que até agora só temos dois capítulozinhos mixuruquinhos, mas belê.