Conto De Falhas

9 A cama de casal.


Notas iniciais
Belê. Vão ler, não vou ficar enchendo o saco.

Durante a tarde, tio Dave e tia Megan apareceram com os três filhos, mas tiveram uma discussão durante a viagem e por isso não iam jantar com o resto da família. De certo modo, era um alívio não ter que ficar explicando de novo sobre mim e Bill-a.

– O que vamos fazer enquanto esperamos a hora do jantar? – Perguntou Gustav se jogando ao meu lado num dos sofás da sala de visitas. Bill estava sentado no chão brincando com um enfeite da mesa de centro, Georg estava ocupando um sofá inteiro – com sua folguissite aguda – e Viktoria estava lendo uma revista na poltrona.

– Podíamos ir visitar a Alba. – Sugeriu ela, fechando a revista e pousando-a na mesa de centro.

– Quem é essa? – Perguntou Bill, erguendo os olhos do enfeite. Gustav riu.

– A égua. – Disse ele.

– Jessica Alba. – Expliquei, ficando de pé em um pulo e jogando uma almofada em Georg para acordá-lo. – Vamos!

Quinze minutos depois estávamos apoiados na baia da Alba, Viktoria a escovando.

– É sua? – Perguntou Bill.

– Apesar de a ideia genial do nome ter sido minha, não. Alba foi comprada para fazer companhia ao meu cavalo.– Respondi levando-o a outra baia onde um cavalo negro parecia dormir. – Este é o Kira.

Fazia algum tempo que eu não montava. Pensei que seria interessante se saíssemos para andar a cavalo no dia seguinte.

– Sabe montar? – Perguntei vendo-o apoiar a bota na madeira da baia.

– Não. – Respondeu Bill virando-se para me encarar.

– Gostaria de aprender?

– Talvez. – Disse ele, fazendo um bico pro lado do cavalo. Quase engasguei; sério, Bill deveria avisar quando ia de repente parecer tão adorável. Não que eu estivesse reparando nem nada, sabe como é, afinal apesar de se parecer muito com uma garota às vezes, Bill ainda era um homem.

– Eu posso te ensinar, se quiser. – Disse Viktoria, se aproximando com os polegares presos nos bolsos da calça jeans.

– Tudo bem. – Respondeu Bill.

Como é que é?

Quando perguntei se ele queria aprender a andar de cavalo, ele disse um “talvez” mixuruquinho e quando Viktoria pergunta, ele diz “tudo bem”? Qual é a do preconceito com a minha pessoa? Quero dizer, tudo bem, Viktoria é uma garota. Viktoria é uma gata. Eu deveria entender.

Enquanto eu tinha essa ridícula crise existencial, os dois se afastaram rindo e conversando. Eu me pergunto o que foi que eu perdi.

– Filho da puta. – Estava dizendo Georg quando voltei para a baia da Alba.

– Quem? – Perguntei.

– Bill, é claro. Vai ser sortudo assim lá na China, viu!?

– Que quer dizer com isso?

– Não é obvio? – Disse Gustav rolando os olhos para a minha cara de bolacha. – Os dois viraram “amigas”. Agora o sortudo filho de uma mãe promíscua do Bill vai ficar pra cima e pra baixo com a sua prima gostosa.

– Mas ele é uma “garota”. – Falei, tentando entender a situação. – Quero dizer, Viktoria não sabe que Bill é um cara. Ele não vai ter chance com ela, de qualquer modo.

– Não sei, não. – Disse Georg. – Bill tem alguma coisa que atrai as pessoas, quer aceitemos ou não.

Bufei. Não sabia muito bem por que, mas aquela situação também não me agradava nem um pouquinho. Conforme dissera Georg, Bill tinha essa coisa que fazia com que as pessoas gostassem dele logo de cara.


Nada estava saindo como eu planejara.

Mais tarde, durante o jantar, tia Berta nos deu uma canseira palestrando sobre como estávamos magros. Imagino que se fossemos seguir seus conselhos, viraríamos um amontoado de bolinhas. Os únicos que escapavam da falação eram Gustav e Stu, que, segundo ela, eram os dois garotos mais bonitos que ela já vira em toda a sua vida.

Bill, em compensação, acabara se tornando o principal alvo.

– Querida, você já foi ao médico procurar saber por que você é tão magra? É sério, meu bem, precisa ver isso!

– Tia Berta, já chega. – Disse mamãe quando tia Berta fez parecer que falaria sem parar até o dia do juízo final. – Deixe a garota em paz.

– Mas olhe só pra ela! – Insistiu tia Berta.

– É bonito. – Falei, pra acabar com a discussão de uma vez por todas.– Eu gosto... dela... assim.

Mamãe sorriu de orelha a orelha e tia Berta deu-se por vencida. Quando percebi o que tinha dito, abaixei os olhos para o prato e me recusei a olhar pra quem quer que fosse, mas podia sentir Georg fazendo esforço para não rir da situação ao meu lado. Dei-lhe um chute por debaixo da mesa enquanto sentia minhas bochechas esquentarem involuntariamente.

Bill se apressou em encher a boca de sobremesa pra não ter que dizer nada.

Eu só queria saber que droga eu estava pensando quando disse aquilo.

– O que vocês vão fazer amanhã? – Perguntou tio Henri limpando a boca do bebê, lambuzada de chocolate, com um guardanapo.

– Estávamos planejando andar a cavalo. – Respondeu Viktoria. – Vamos ensinar Billa.

Revirei os olhos. De novo aquela história.

– Isso é ótimo. – Disse tia Kristina – Uma vez, eu e seu tio Henri fomos a cavalo até a outra fazenda, tivemos que voltar correndo porque fomos perseguidos pelos cachorros do dono. De qualquer modo, enquanto voltávamos, nos perdemos e acabamos encontrando uma cachoeira pra lá das parreiras de uva.

– Por que nunca soubemos que havia uma cachoeira na fazenda? – Perguntou Viktoria.

Eu também gostaria de saber.

– Nunca mais a encontramos. – Respondeu tio Henri. – Começo a pensar que imaginamos aquele lugar.

Por um momento, ficamos em silêncio. De algum modo, devia ter sido especial para os dois.

– Todos terminaram? Posso mandar tirar a mesa? – Perguntou dona Simone, acabando com o silêncio pesado.

Algum tempo depois, Gustav, Georg e eu estávamos na sala de estar. Tio Henri, tia Berta, dona Simone e o idiota do Stu já haviam se retirado junto com tia Kristina e o bebê.

– Então, já pensaram o que vão fazer? – Perguntou Gustav, indicando Bill com a cabeça. Ele e Viktoria estavam sentados lá fora, na escada em frente a porta, longe o bastante para não nos ouvirem. Se eu não soubesse que Viktoria achava que Bill era uma garota, estaria seriamente preocupado.

– Com o que? – Perguntei, observando-os rir e conversar.

– Em relação à suíte de lua de mel de vocês. – Respondeu Georg colocando os pés na mesinha de centro. Sorte dele que dona Simone já havia se retirado.

– Ainda não. – Respondi coçando a cabeça.

Tá ai algo com que devíamos nos preocupar. Exceto que um de nós estava ocupado demais flertando com a prima alheia pra se preocupar com uma coisa tão trivial quanto ter que dormir no tapete ou algo assim.

– Um de vocês vai ter que dormir no chão. – Disse Georg.

– Não vou dormir no chão. – Comentei arregalando os olhos. Gustav riu.

– Então vocês vão ter que dividir a cama.

– Dividir? – Perguntei.

– Sim, seu imbecil.

– Por que minha mãe não podia ter nos colocado em quartos separados, só pra variar? – Comentei apoiando a cabeça no encosto do sofá.

– Se você não quer dividir a cama com ela, pode mandá-la para o meu quarto.

Já ia abrindo a boca pra responder quando percebi que era a voz do Stu.

– Deu pra ouvir a conversa dos outros agora? – Perguntei, calmo por fora, mas simplesmente desesperado por dentro. – Há quanto tempo está aí?

– Tempo o suficiente. – Respondeu ele sentando-se displicentemente no braço da poltrona em que Viktoria estivera sentada mais cedo. Gelei. – Então quer dizer que Tom Trümper, o senhor pegador, não quer dormir no mesmo quarto que uma garota?

Dei uma risadinha debochada. Ele não sabia nem da metade.

– É melhor tomar conta da sua mulher, – continuou ele, levantando e rumando para as escadas de volta para os quartos novamente – com uma bundinha daquelas, qualquer um pode se sentir tentado.

– Filho da puta. – Falei quando ele não podia mais ouvir.

– O que está acontecendo aqui? – Perguntou Viktoria, entrando lado a lado com Bill. Era impressão minha ou eles estavam mais próximos do que deveriam?

– Nada. – Respondi e abri um sorriso de má vontade. Alguma coisa em Viktoria não estava me agradando dessa vez.

Quero dizer, costumávamos ser bastante unidos – nem tanto quanto era com seu irmão, mas na medida do possível, sempre fomos realmente amigos. Eu não sabia dizer o que, mas esse ano alguma coisa estava diferente.

– Tem certeza? – Perguntou ela, virando a cabeça para o lado, me analisando.

– Sim, está tudo ótimo. – Respondi.

– Tudo bem, então. Eu vou me retirar. Boa noite, queridos.

– Boa noite. – Responderam Gustav e Georg ao mesmo tempo. Apenas sorri.

– Boa noite, Billa. – Disse Viktoria, piscando, e subiu as escadas na direção que Stu tinha ido.

Piscando? Que diabos...?

– Dia cheio hoje. – Comentou Gustav.

– Pode crer. – Continuou Georg com um sorriso sacana naquela cara quadrada dele. – Mas algo me diz que a noite vai ser ainda mais turbulenta.

– O que? – Perguntou Bill, sentando-se ao meu lado no sofá.

– Eu e Georg vamos nos retirar também. – Disse Gustav, ignorando a pergunta de Bill. Senti vontade de pular no pescoço dos dois e soca-los até a morte, mas não houve tempo o suficiente porque eles saíram correndo escada acima.

– Qual o problema deles?

Olhei para Bill, considerando sua pergunta.

– Não sei, realmente não faço ideia. – Respondi. Ficamos em silencio durante três segundos, mas eu tinha que perguntar. – O que você e Viktoria tanto conversavam lá fora?

Bill sorriu e corou. Não consegui reprimir o impulso de achar aquilo realmente adorável e quase caí do sofá quando percebi isso.

– Ela descobriu sobre o plano. – Respondeu ele. Todo o processo de acha-lo adorável de repente evaporou.

– Como é que é, colega?

– Desculpe, Tom, juro que não era minha intenção. – Respondeu Bill franzindo as sobrancelhas. – Em minha defesa, ela descobriu sozinha.

– E agora, o que vamos fazer? – Perguntei cobrindo o rosto com as mãos. – Minha mãe vai me esfolar, vai querer me comer vivo! Como eu vou viver sem dinheiro? Como eu vou manter meu carro? Ah, meu Deus, eu estou fodido!

– Calma, ela prometeu não contar nada. – Disse Bill, puxando minhas mãos do meu rosto. – Ela vai nos ajudar.

– Ajudar?

– Sim.

Respirei fundo e relaxei.

– Certo.

– Então podemos ir dormir agora ou você quer ficar aqui mais um pouco? – Perguntou ele, mas provavelmente já sabia a resposta.

– Tá louco? To morrendo de sono!

Bill riu e subimos as escadas em direção ao quarto. Quando chegamos, ficamos parados em frente à porta de duas folhas.

– O que vamos fazer? – Perguntou ele. Girei a maçaneta sem responder e entramos.

Lancei um olhar para o covil do amor que mamãe preparara. Sério, em que ela estava pensando quando mandou decorar isso? Não é como se ela não me conhecesse. O que quero dizer é, mesmo que eu tivesse uma namorada de verdade – uma que fosse realmente uma garota –, eu não costumava ser o cara mais romântico do mundo, se é que me entende. Estava acostumado com namoradas de no máximo uma semana e com certeza a prioridade nunca fora ser romântico. Pelo menos eu achava que não.

Aparentemente, dona Simone estava querendo mudar isso em mim.

– Sem poltronas, sofás ou colchões adicionais. – Comentou Bill, pulando para a cama e se espalhando nela. – Acho que você vai ter que dormir no tapete.

– Nem pensar. – Respondi puxando-o pelos pés para fora da cama e me jogando para cima da mesma. – O quarto é meu, eu durmo na cama.

– Eu sou visita, você deve ceder o melhor lugar. – Disse ele me empurrando para fora e voltando a se apossar da cama.

– Como é que é?

– Além do mais – continuou ele, jogando um travesseiro em mim – você deve ser um cavalheiro e deixar sua namorada dormir no macio.

– Não vem com essa, marmanjo. – Respondi jogando o travesseiro de volta para ele. – Não vou dormir no tapete, não vou mesmo.

– Ótimo, então não durma.

– Vou dormir. – Retruquei, dando a volta na cama — Vou dormir aqui. Chegue para lá.

– Está falando sério?

– Vamos lá, podemos dividir, a cama é enorme.

– Não tem medo que eu te ataque durante a noite? – Perguntou ele com um sorriso sacana. Engoli em seco.

– Não enche.

Apaguei as luzes e me ajeitei ao seu lado na cama. Um silêncio constrangedor se instalou por algum tempo.

– Boa noite. – Disse Bill, baixinho, algum tempo depois. Não soube calcular quanto.

– Boa noite. – Respondi, tentando não pensar em como aquilo era constrangedor.

Em que, diabos, eu fui me meter?

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Notas finais
*rindo pra sempre do "Bill e Viktoria viraram amigas"*