Consequências Fatais
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Naquele dia conversamos por quase o dia inteiro. Apesar dos tempos de guerra, a calmaria estava instalada, por ora nada havia acontecido. Antes da tempestade sempre tem um momento de paz. Era como o olho do furacão. Tudo andava muito instável. Mas nenhum de nós se preocupou com isso.
Descobri nessa mesma conversa que a família dele era como a minha e que nossos pais estavam formando uma aliança. Pouco me importava a guerra, pouco me importava os outros.
O tempo passou e eu só me descobria mais apaixonada por aquela mentira.
Foi tudo tão rápido que em semanas nós já estávamos namorando.
Minha mãe estava encantada por eu estar namorando-o, tão encantada que fazia comentários um tanto... Inapropriados e invasivos.
Em poucos meses já estávamos noivos. A correria na minha família era tão grande, que eu mal tinha tempo para respirar.
— querida, esse vestido ficou lindo em você — nos encontrávamos na prova de vestidos, minhas madrinhas que eram apenas garotas com prestígio para nossa família ficar com os lençóis cada vez mais lavados estavam lá apenas existindo e basicamente me ignorando.
Todos tinham uma grande expectativa com esse casamento. A grande expectativa dos meus pais era fortalecer as alianças, eles aprovavam tanto que ficavam sempre em nossos pés; das minhas damas de honra, era encontrar algum homem prestigiado ou simplesmente rico, de preferência mais velho. E bem, a minha era passar a vida toda feliz ao lado de Stephen.
— você disse isso sobre todos os outros cinco vestidos, mãe — retruquei num tom resignado. — e esse ficou horrível, pareço algum tipo de sobremesa esquisita. — continuei a encarando através do espelho com detalhes em dourado.
— bobagem — ela descartou minha afirmação com um abano de mãos extremamente exagerado.
Minhas damas de honra, sem exceções fizeram cara feia ao ver o vestido cheio de babados desde meu busto até meus pés e com laços da cor rosa em cada prega do vestido.
Com um suspiro teatral e levantando minhas mãos para cima em um sinal de indignação, voltei ao provador. Escutando as meninas resmungarem algo como "ela parecia uma árvore de natal".
Bufando fechei a porta do provador com raiva, para demonstrar que eu escutava tudo o que elas falavam.
Deu para ouvir uma coletânea de gritinhos histéricos e de protesto.
Depois de quase duas horas encontrei o vestido perfeito. Estava quase mandando a vendendora da loja ir para o inferno quando o vi.
Era um vestido frente única, seu busto cheio de pequenas lantejoulas da cor de gelo que quando a luz batia neles pareciam diamantes, ele era justo até o meio de minhas canelas, então ficava solto dando liberdade aos meus pés e sua cor não era exatamente branca, era gelo e ia escurecendo para um azul celeste, conforme chegava perto do chão. Fiquei embasbacada com o tal vestido.
Todas discutiam com as vendedoras da loja o carpete branco estava quase ficando encardido com minha mãe batendo constantemente o pé no chão, extremamente frustrada.
— gente — chamei, mas nenhuma delas me escutou. — gente — tentei de novo, mas dessa vez mais alto, quase gritando.
Todas, inclusive as vendedoras e a dona da loja, pararam em seco e me olharam com espanto, por eu ter berrado lá. Todas as outras clientes estavam encarando.
— e esse? — perguntei segurando o vestido com delicadeza.
Todas elas vieram correndo até mim, desesperadas, o olhar da minha mãe brilhava.
— acho que encontramos um que nos agrade — minha mãe deu pulinhos de alegria. Parecia que ela quem iria se casar. — vocês têm sorte — continuou ela, olhando para a dona da loja — pois eu faria de tudo para fechar essa maldita loja se minha filha não encontrasse o vestido perfeito — seu olhar era ameaçador, fez com que todas se encolhessem. Todo mundo sabia quem era minha família e o poder que tínhamos.
— mãe, não é pra tanto — repreendi notando o quanto seu cabelo escuro estava cada vez mais grisalho e seus olhos claros estavam escuros com bolsas por baixo dos olhos.
Sua postura continuava arrogante quando ela se virou para a gerente da loja e pediu para ver os vestidos para as madrinhas.
Assim que os vestidos das madrinhas foram escolhidos, todos com o modelo parecido com meu vestido, no entanto mais básico s e de um azul bem profundo. Decidimos ir ver o local para o casamento.
Nunca fora muito tradicional, mas minha mãe insitia em uma igreja histórica que havia na rua de sua casa. Não fui capaz de discutir, sabia que perderia aquela guerra. Minha mãe não havia tido o casamento dos sonhos, por esse motivo ela estava projentando-os em mim. Como era sortuda.
Entramos na igreja gótica, eu achei meio demais, ela era cheia de detalhes, algo extremamente pesado, mas não pude deixar de admirar as artes que tal local possuia. Me encontrei embasbacada com os vitrais cheios de gravuras de anjos, guerreando, rezando e caindo.
Após lidarmos com a papelada e marcar a data que seria dali a um mês, decidimos que cada uma iria para casa, minhas madrinhas provavelmente iriam sonhar em como seria se casar com Stephen. Na época não entendia do porquê a pressa de meu noivo para nos casarmos, mas agora... Agora eu entendo, enxergo tudo perfeitamente bem, como água cristalina.
O mês do casamento havia chegado, todos na mansão de minha mãe pareciam desesperados, apenas eu que não me sentia desse modo. De certa forma me sentia oca, vazia por dentro, mas por fora deveria demonstrar um semblante ansioso e alegre com o que supostamente iria acontecer dali algumas horas.
O dia inteiro, escutei gritos de exigência da parte de minha mãe e minha futura sogra — uma mulher com os mesmos cabelos escuros brilhantes de seu filhos e olhos castanhos gélidos, seu semblante era sempre de desgosto e desaprovação, sua ignorância e superioridade a todos me incomodova de certo modo — seus gritos eram de puro desdém, os gritos que mais ecoavam em minha cabeça e que mais me fazia sentir náuseas eram os berros de minhas madrinhas, nenhuma calava a boca, estava prestes a ter um ataque. Quando me puxaram da cadeira elegante que estava sentada até o interior da casa, o lugar havia sido arrumado exatamente para a preparação da noiva; meu estômago embrulhou ao ver o quarto de hóspedes nos fundos da casa, vulgo mansão de minha família. Ele estava todo desorganizado, com roupas e maquiagens espalhados pelo chão, bem, ao menos a cama de casal ao canto do quarto estava arrumada, com meu vestido intacto. Seria uma total tragédia se ele fosse amassado, ou, na pior das hipóteses, rasgado.
Elas me puxaram até um banquinho que se encontrava na frente de um espelho que ia do chão até o teto, e começaram a aprontar minhas unhas, minha maquiagem e meu cabelo, escutava sem preocupação e sem real interesse o diálogo que elas insitiam em me colocar no meio. Quando necessário eu balançava a cabeça em concordância, mas meus pensamentos se encontravam no meu possível arrependimento. Meu olhar perdeu o foco e as vozes das meninas ficaram distantes e se dissiparam quase tão rapido quanto a fumaça saindo do babyliss enquanto ele entrava em contato com meu cabelo, perto do couro cabeludo.
Quando fiquei pronta, com minha maquiagem leve, meu cabelo castanhos claros em cachos definidos, e com meu vestido colocado, todas me olharam emocionadas com sua nova obra de arte. Me senti um tanto quanto exposta e como a bonequinha barbie delas.
Minha mãe me olhou pelo espelho e veio até mim com uma caixinha de veludo nas mãos, franzi o cenho enquanto ela caminhava. Então ela simplesmente abriu a caixinha e eu vi um lindo par de brincos e um colar feito de ouro branco e algumas pedrinhas de safira azul em detalhe. Abri a boca para protestar e dizer que era exagero, pois eu ja usava uma coroa do mesmo material sob minha cabeça.
— querida, sei que você já tem seu "algo azul", mas este cojunto eu usei quando me casei com seu pai. Não encare como um presente, mas sim como empréstimo. Além disso, é uma tradição, minha avó usou em seu casamento, a minha mãe, então eu e agora você. E quando tiveres uma filha, ela também irá usar quando se casar — terminou minha mãe enquanto terminava de colocar as jóias em mim.
— Obrigada, mamãe isso é... — ela riu e deu batinhas leves em meu ombro enquanto eu tropeçava nas minhas palavras.
Todas as mulheres deixavam aquele quarto gigante, minúsculo e insuportável, no entanto, antes de eu manda-las embora, uma a uma sairiam do quarto silenciosamente — como se fossem civilizadas — fiquei em choque, mas não me importei muito.
Sentei no banquinho com cuidado para não amaçar o vestido, embora eu quisesse arranca-lo do meu corpo com uma fúria um tanto primitiva (mas eu ainda não conhecia os instintos mais primitivos dos seres humanos).
Ótimo! Minha cabeça começara a latejar. Coloquei dois dedos na minha têmpora, para amenizar a dor. Suspirei teatralmente me encarando no espelho.
Eu estava linda, era um fato. Mas meus olhos não estavam com o brilho esperado. Ou então esse brilho só era válido a mulheres grávidas, não tinha como saber.
Em pouco tempo, eu estaria entrando no altar daquela igreja, que na primeira vez que a vi, me deu calafrios na espinha. Em poucas horas eu não seria mais solteira, mas sim uma moça comprometida aos 19 anos. E aquilo me deu mais calafrios que a igreja histórica.
E se meu casamento não fosse como o esperado? Afinal eu conhecia o Steph tão pouco. Desde o dia que eu o conheci, sempre escutava uma voz me dizendo para me afastar dele, um sussurro tão ínfimo que me fazia pensar se não era apenas paranóia. Mas não era.
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