Consequências
42 Capítulo Especial - Parte 1
Era fim de ano, as luzes de natal estavam iluminando por toda a cidade. A neve estava caindo timidamente, mas o suficiente para abaixar tanto a temperatura que era impossível sair na rua sem estar totalmente agasalhado. Choi Young Do e Taila estavam caminhando de mãos dadas pela rua, observando a vitrine de algumas lojas.
— Ah, como você é inacreditável! — resmungou ele, olhando para cima observando o céu escuro da noite com as nuvens carregadas de neve. — Sabe quantos graus está fazendo?
Ela continuava olhando fixamente para a vitrine de uma loja, observando se havia algum item que valeria a pena comprar. Ele mordeu os lábios ao perceber que ela não estava dando o mínimo de atenção para ele.
— Ah, como eu estou com frio! Você sabia que hoje vai bater o record de baixa temperatura?
— Fica quieto, Choi Young Do. Você não para de reclamar desde que a gente saiu de casa.
— Talvez porque eu estou congelando nesse exato momento! — Revirou os olhos porque seu drama não estava recebendo a devida atenção, mas quando viu o item que Taila estava olhando, sentiu uma nostalgia tomar seu coração e sorriu como um bobo.
— Olha, Young Do, tem uns itens muito bonitos aqui nessa loja, vamos entrar!
— Você já disse isso tantas vezes... ah, esquece — reclamou novamente, balançando o corpo para ver se o frio passava, mas era inútil.
Ela entrou em sua frente, caminhando diretamente até a vendedora. As roupas ali eram luxo. Young Do ficou indignado quando percebeu que até mesmo os bebês gostavam de marcas de grife.
Ficou olhando para um vestidinho de saia rodada, para bebê de dois anos e ficou imaginando como seria se fosse pai de uma menina. Os pensamentos felizes duraram pouco, pois um ciúme o invadiu quando imaginou conhecer o genro um dia. Aproximou-se de Taila, que estava escolhendo uma roupinha de saída maternidade rosa bebê. O preço era um valor que ambos não precisavam se preocupar.
— Young Do! — Ela apontou para a roupinha, procurando o olhar dele como orientação. — Acha que esse vai combinar com o bebê?
Ele deu de ombros com a cabeça tombada de lado na direção dela, observando a roupinha de rabo de olho. Não queria se envolver muito.
— Não tem como saber, o bebê sequer nasceu. O Kim Tan e a Eun Sang tiveram a brilhante ideia de só querer saber o sexo no parto, fica difícil escolher um presente. Por isso você me fazer sair nesse frio. Ah! Isso não tem o menor cabimento.
— Eu vou fingir que você não existe. — Virou-se para a vendedora. — Vai ser esse vestido.
Ele acabou dando uma risada de indignação porque sabia que estava certo em todas as suas reclamações, mas sabia que se travasse uma briga com ela, provavelmente perderia.
— Você vai levar uma roupinha rosa mesmo sabendo que pode ser um menino?
— Não é um problema. Vocês homens daqui usam roupas rosa o tempo todo. Qual problema se o bebê usar também?
Ele deu de ombros, pois sabia que não tinha como ir contra aquele argumento. Ele observou um macacão azul marinho e seu coração se acelerou
— O que acha desse, Taila?
— Ele é idêntico ao que você me deu quando eu estava grávida do Seung Ho — falou ela, observando-o pedir a vendedora para colocar a roupinha na sacola.
— Eu sei! — Riu colocando novamente as mãos nos bolsos enquanto ela pegava a sacola.
Quando os dois saíram da loja, ele sentiu um rápido tremor de frio tomando o seu corpo. Soltou o ar pela boca que ficou branco. Depois virou-se para ela, pegou a sacola de sua mão e depois entrelaçou seus dedos nos dela, enfiando a mão dela no bolso de seu casaco.
— Será que agora nós podemos ir para casa ou você vai ficar me torturando me fazendo andar no frio por aí?
— Agora que nós temos os presentes, podemos ir. Eu também estou com muito frio.
Eles acabaram rindo juntos no momento em que ela confessou aquilo, pois ela estava se fazendo de durona até então. Assim que entraram no carro e Choi Young Do ligou-o imediatamente, mas mantendo-o no neutro, para o motor esquentar, e ligou o aquecedor logo depois. Deitou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos, relaxando por alguns segundos.
— Young Do, você está bravo comigo?
— Por que eu estaria? — Ele espiou-a abrindo apenas um dos olhos sem mover o corpo. — Eu deveria estar?
— Não sei se você já se esqueceu, mas eu queria que você não ficasse.
— Mas que papo é esse, Taila Monteiro? — Ele ergueu a cabeça e virou-se na direção dela, sabia que em algum momento realmente terminaria bravo.
— Você se esqueceu que nós estamos no final do ano e...
— Taila, não! Você está falando sério?
— Sim...
Choi Young Do revirou os olhos e bateu as mãos no volante do carro. Respirou fundo e ficou tão irritado que puxou o cinto de segurança com tanta força que ele travou. Fez isso algumas vezes e acabou se irritando ainda mais. Taila o observou balançando a cabeça negativamente e cruzou os braços, fez “tsc tsc” com a boca no momento em que ele puxou o cinto com calma e funcionou perfeitamente.
— Viu? Qual a necessidade disso? Quanto mais você usa a violência, menos as coisas funcionam.
— Isso é bem diferente. Por que você não cortou a amizade até hoje com o Park Soo Yong? Por que na melhor época do ano eu tenho que ficar dando de cara ele na minha casa?
— Você sabe que não existe nada entre ele e eu. Nunca vai existir.
— Não é esse o ponto aqui, Taila. Eu só estou te dizendo que se ele me irritar, eu o coloco para fora!
— Eu não duvido nada disso.
Ele deu partida no carro assim que o motor esquentou. Taila o observava em silêncio pensativa enquanto ele estava mordendo o dedo indicador dobrado, ela sabia que ele fazia aquilo quando estava incomodado.
***
Choi Seung Ho estava sentado no sofá da sala jogando em seu celular enquanto esperava seus pais chegarem para jantar. Sua babá havia acabado de sair, mas ele não estava sozinho, pois a governanta da casa estava organizando o jantar.
A casa de Choi Young Do agora tinha uma equipe organizada para manter tudo limpo e no lugar. Depois que ele se casou com Taila, sua vida ficou cheia de pessoas para ele cuidar e para cuidarem dele.
Quando a porta da sala abriu, pensou ser seus pais, mas Park Soo Yong veio caminhando até ele. Colocou uma sacola no chão e abriu os braços para o menino, que se levantou para abraçá-lo sem a metade da empolgação.
— Como eu estava com saudades você? — Sorriu animado. — Faz tanto tempo que eu não te vejo.
Após o abraço se encerrar Seung Ho sentou-se novamente no sofá, com o celular ainda em mãos, jogando.
— O que é isso que você está jogando?
— Brawl Stars. Quer jogar comigo? — Ele mostrou o joguinho com vários personagens coloridos atirando uns nos outros.
— Isso é jogo de criança. O tio só gosta de jogo de adultos. — Ele deu de ombros, não pareceu gostar muito da fala de Soo Yong. Ele ficou observando-o jogar com tanta facilidade que parecia um profissional. — Você está com quantos anos, rapaz?
— Oito. — Continuava olhando para a tela.
— Como o tempo passou rápido... Parece que ontem foi 2014, o ano que eu conheci a sua mãe. Se você soubesse que eu quase fui o seu pai... Ah, a Taila tem um péssimo gosto para homens. — O menino apenas riu enquanto jogava. Discordava de tudo, mas estava tão concentrado que não conseguiu dizer nada. — Você nasceu em 2018, não foi? — Ele acabou rindo enquanto lembrava-se de tanta coisa que passou nesse tempo.
— Foi.
— E você já tem oito anos? Como o tempo passa rápido. Sabe uma coisa que eu não entendo, já tem cinco anos que eu moro no Japão.
— Minha professora disse que o tempo não existe e que esse papo é coisa de gente velha triste.
— Mas que língua afiada... igual a do seu pai! — Seung Ho acabou mostrando a língua e Park Soo Yong aproveitou para fazer cócegas nele, que gargalhou. Aproveitou para roubar o celular do menino e colocar dentro de seu bolso.
— Poxa, tio Soo Yong, eu estava no meio da partida ranqueada. Eu vou tomar punição. — Ele estendeu as mãozinhas para ter seu celular devolvido, mas isso não aconteceu. Soo Yong cruzou as pernas para que o menino não conseguisse pegar nem se avançasse em sua mão.
— Isso é sua punição por não estar dando atenção para o seu tio. Como pode um menino tão pequeno ficar com a cara numa tela enquanto conversa com um adulto?
— Você é chato igual ao meu pai! — Ele cruzou os braços, sentando-se emburrado. — Minha mãe me deixou dois meses sem celular e agora que eu finalmente posso usar, você me tomou.
— Mas por que você ficou sem?
— Porque eu fiquei em 98º nas primeiras provas desse ano e ela me disse que se eu ficasse em uma posição tão baixa de novo, eu ia ficar dois anos sem celular.
— Você é mesmo filho do seu pai, hein! — Ele acabou gargalhando, tirando o celular do bolso e entregando a ele. — Não desperdice o seu cérebro com coisas inúteis. É melhor se privar de algumas coisas que deixar a sua mãe brava.
— Eu sei disso. Até o meu pai fica pianinho com ela, imagina eu.
— Pianinho? Ele toca alguma música?
Seung Ho acabou rindo, pois estava começando a reproduzir as expressões brasileiras que sua mãe soltava em coreano.
— O senhor mora na China?
— Não, eu moro no Japão. Eu já te disse um milhão de vezes em cinco anos e você ainda me pergunta — Ele cruzou os braços, fingindo-se de bravo, observando a expressão de decepção que surgiu no rosto do menino em seguida. — Que cara é essa? Quer vir morar comigo?
— Iria se você morasse na China.
— Seu pai teria um ataque cardíaco no momento em que ouvisse isso. Você não sabia que nós somos arqui-inimigos?
— Eu sei, porque você é apaixonado na minha mãe. — Ele acabou rindo no momento em que Soo Yong fingiu estar bravo. — Você é um bom tio.
— Eu sei.
— Eu posso saber ao que você está fazendo com o meu filho, Park Soo Yong? — A voz de Choi Young Do veio de longe ao ouvir a porta se abrindo.
— A gente só está conversando, pai. Para de ser ciumento!
— Ah, eu sou ciumento? Eu quero o senhor no seu quarto agora fazendo suas lições e eu vou corrigir cada uma delas.
Seung Ho revirou respirou fundo com aquela ordem, pois ela não fazia o menor sentido pois já estava na hora do jantar. Ele percebeu que seu pai apenas queria tirá-lo de perto de Soo Yong. Resolveu subir após dar um abraço em sua mãe e despedir-se de Soo Yong.
Park Soo Yong aproximou-se dos dois, com sua postura firme de sempre e os braços cruzados, mas um sorriso leve no rosto. Estendeu a mão para Choi Young Do, que colocou as mãos nos bolsos e olhou para o lado, fingindo-se de distraído para não o cumprimentar.
— Não vai mesmo pegar na minha mão?
— Você é algum parceiro de negócios? Me cumprimente de longe... ou melhor, não me cumprimente.
— Se é o que você quer.
— Parem de brigar! — Taila fechou a cara rapidamente aproximando-se dos dois, mas logo sorriu para Soo Yong, indo para direção dele para abraçá-lo, mas Choi Young Do a segurou e fez um aceno de longe para ela repetir. Ela acabou rindo e imitou-o.
— É assim que se cumprimenta um coreano.
— Eu entendi, Young Do. — Ela cruzou os braços olhando para Soo Yong. — Como foi a sua viagem?
— Entediante. — Deu de ombros, sorrindo. — Mesmo que a Coreia e o Japão sejam perto, eu tenho preguiça de ficar duas horas em um avião. Fora que aqui está mais frio que lá.
— Eu estava dizendo isso para ela — falou Young Do, esquecendo-se brevemente da rivalidade deles. — Hoje está batendo um record de baixa temperatura.
— Eu estava ouvindo algumas pessoas falarem disso enquanto estava vindo para cá. E esse ano, sentiram saudades?
— Ninguém aqui sentiu a sua falta! — Provocou Choi Young Do, sentando-se no sofá e observando os dois sentarem-se em seguida. — Para falar a verdade, o sentimento presente era de alivio. Por que você não mora de vez no Japão?
— Porque eu venho visitar o meu pai e a Taila, é claro.
Young Do acabou sentando-se no sofá, pois estava começando a se irritar e não queria levar uma bronca por expressar seu sarcasmo.
— Hoje eu vim apenas fazer uma visita rápida para a sua felicidade. — Ele sorriu, olhando para Taila. — Depois eu volto para a gente conversar.
— Tudo bem, Soo Yong, mas tem certeza que você não pode ficar mais uma pouco?
— Eu não posso.
— Para de tentar o segurar aqui, Taila... — resmungou Choi Young Do, olhando para a esposa. — Ele realmente precisa ir embora, não é?! — falou com um olhar impositor, parecia que se a resposta fosse negativa, haveria uma briga ali.
Park Soo Yong acabou rindo daquela provocação e tombou a cabeça na direção de Choi Young Do, que era o único que ainda estava sentado.
— Eu só vou porque tenho um compromisso, mas depois eu volto para passar mais tempo à sós com você, Taila.
— Para de provocar, Park Soo Yong! — Taila o encarou da mesma forma que ela fazia com Young Do quando ele provocava alguém ou era sarcástico.
Ao ser repreendido por ela, ele apenas ergueu suas mãos se rendendo enquanto sorria e assentiu.
— Pode deixar, eu vou fazer isso... por enquanto. — A risada sapeca dele, mostrava que aquelas provocações dos dois continuaria até o fim de suas vidas. — Até outra hora.
Assim que ele saiu, Taila voltou após fechar a porta, caminhou até Choi Young Do que pegou o celular e ficou olhando fixamente para a tela, evitando encará-la.
— Você não precisa tratar a nossa visita desse jeito, sabia? Ele nunca vai me roubar de você e você sabe disso.
— Ele não é uma visita, é meu rival. Não importa se ele não vai conseguir ou não, o fato de ele tentar já me tira do sério. Eu sempre vou tratar desse jeito, você gostando ou não! — Ele levantou-se, ajeitando sua roupa. — Agora eu vou tomar um banho relaxante, porque eu estou com os pés doendo de tanto você me torturar, me fazendo andar nesse gelo.
— Para de ser exagerado!
— Quer vir para o banho comigo?
Eles acabaram rindo um para o outro e, de mãos dadas, eles subiram rumo ao seu quarto que dormiam juntos desde que tinham vinte anos. Eles sequer conseguiam se lembrar como a vida era quando ainda não se conheciam. Era como se, desde sempre, eles morassem juntos.
***
Choi Seung Ho estava deitado em sua cama para dormir após receber um beijo de sua mãe e ela sair. Ouviu um barulho de batidas na porta e olhou para o pai, que o observava pela fresta. Ele abriu a porta, entrou e fechou em seguida. Sentou-se à beira da cama e tocou o cabelo dos filhos.
— Está na hora de a gente conversar.
— Não quero conversar, pai. — Ele cruzou os braços e ficou olhando para o lado. — Você não faz questão de me entender mesmo.
— Não é questão de entender. — Ele ajeitou o corpo para trás, conseguindo se recostar na parede do outro lado da cama. — Você é uma criança, não tem motivos para estar emburrado.
— Mas qual o problema de eu estudar na China?
— O problema é que nem sua mãe, e nem eu, vamos para a China. Você é uma criança, então não vai morar sozinho.
— Eu vou perder o meu primeiro amor por culpa de vocês.
Choi Young Do acabou rindo quando ouviu aquelas palavras tão maduras vindo de uma criança que sequer sabia o que significavam.
— Você vai superar e outra, por que ela não fica aqui? — Ele bagunçou o cabelo do filho, sorrindo. — Você não precisa da amizade dela se ela não puder fazer o mesmo por você. Amanhã vamos visitar o seu tio Kim Tan...
— A minha mãe me falou. — Ele respirou fundo, enfiando-se debaixo das cobertas emburrado.
— Não se preocupa, logo você vai superar.
Ele saiu do quarto em seguida, deixando seu filho pensar um pouco. Sabia que não passava de uma amizade e pequena atração infantil. Aquilo logo desapareceria quando ele se distraísse brincando ou encontrando novos amigos.
***
Quando chegou ao seu quarto, Choi Young Do entrou debaixo das cobertas e observou Taila ao seu lado, lendo um livro. Ele balançou a cabeça um pouco refletindo sua conversa com o filho.
— Onde o Seung Ho aprendeu essas frases românticas de primeiro amor?
— Ele deve ter visto em algum vídeo na internet ou algum filme. — Ela colocou o livro para o lado, voltando-se para ele. — Ele não tem noção nenhuma ainda. Ir para a China assim do nada.
— Se fosse eu nessa idade, teria apanhado do meu pai. — Ele riu enquanto falava, tanto por ser verdade, quanto por preferir falar de coisas que o machucava com humor.
— Se fosse o meu... — Taila hesitou, pois mesmo com as desavenças de sua adolescência, ela sentia falta dele. — Ele provavelmente faria um teste com o Seung Ho.
— Seu pai era estranho. — Ele riu, encostando a cabeça na cabeceira da cama. — Você acha que ele colocaria o Seung Ho em perigo?
— Ele provavelmente levaria o Seung Ho para a China para ter o coração partido. — Abaixou o livro pensando brevemente em tudo o que havia vivido e suspirou. — Mais ou menos o que ele esperava que acontecesse quando me trouxe para a Coreia, mas eu acabei te encontrando e meu coração se reconstruiu.
Ele acabou dando um sorriso orgulhoso brevemente, mas uma lembrança o fez parar de sorrir lentamente.
— Só de lembrar que você perdeu a memória por causa disso e ficou agarrando o Kim Tan na minha frente, eu já tenho calafrios.
Ela acabou dando uma gargalhada, virou-se, passando os braços ao redor do pescoço dele encarando-o de perto.
— A gente sofreu muito, não foi?
— Eu nunca imaginei que passaria por tanta coisa, mas hoje em dia eu vejo como valeu a pena. Cada segundo do que eu passei... até o meu drama do primeiro amor.
Ela deixou um selinho nos lábios dele antes de deitar sua cabeça no travesseiro e ficar observando cada detalhe do rosto de seu marido.
— Valeu a pena. Até mesmo termos um bebê no meio da faculdade.
Choi Young Do acabou dando uma gargalhada, porém um pouco envergonhada ao se lembrar em como havia sido na época.
— O importante é que a gente superou.
Ela assentiu sorrindo. Abraçou o marido com carinho e enquanto ela adormecia, ele deixou que as lembranças invadissem sua mente.
***
O cheiro dos livros da faculdade enquanto observava o sol radiante de tarde entrando por algumas frestas da janela de vidro, coberta pela cortina. Uma delas estava diretamente sobre seu caderno enquanto ele balançava a caneta nos dedos.
Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Taila dizendo que estava o esperando no corredor. Estava preocupado com ela. Sua reação foi imediata, recolheu materiais e saiu da sala correndo.
Encontrou-a sentada em um banco no corredor enquanto observava o jardim em frente à sala de aula. Ela estava com uma expressão perdida.
— Taila... — Ele tocou o rosto dela com as duas mãos e depois os ombros, abaixou o olhar para conferir todo o seu corpo. — Você foi ao hospital, não foi? Você está muito doente?
— Young Do...
Ela fez uma expressão de choro e o abraçou sem dizer nada. Ele arregalou os olhos ao ouvi-la chorar com a cabeça escondida em seu peito.
— Fala comigo. O que houve?
— Eu... Eu... — O rosto dela estava vermelho quando ela o afastou de seu peito e as lágrimas caíam de seus olhos como duas cachoeiras. — Eu não sei como dizer...
— Dizer o quê?
— Eu...
— Está acontecendo alguma coisa aqui? — perguntou Kim Tan, que se aproximando dos dois. — Por que você está chorando, Taila?
Quando ela percebeu que Kim Tan estava ali, as lágrimas que já eram muitas tornaram-se um turbilhão. Ela afundou novamente o seu rosto no peito de Choi Young Do e ele a abraçou para que ficasse confortável em seus braços, mesmo que ele não entendesse o motivo do choro.
Choi Young Do fechou a cara, para Kim Tan, porque quando estava conseguindo fazê-la falar, ele atrapalhou tudo. Chan Eun Sang aproximou-se ao lado do namorado e acabou se assustando com a cena de Taila chorando nos braços de Young Do.
— O que está acontecendo com ela? — sussurrou Chan Eun Sang para Kim Tan.
— Eu não sei... estou preocupado.
Taila afastou o seu rosto e Young Do foi quem passou os polegares por baixo dos olhos dela e finalmente, puderam se olhar nos olhos.
— O que foi que te deixou tão triste?
— Eu não estou triste. — Ela olhou na direção de Kim Tan e Eun Sang, percebendo que eles também mereciam uma resposta, afinal, ambos se importavam com ela. — Eu estou com medo.
— De quê?
— Eu estou grávida, Young Do. Eu vou ter um filho seu.
O queixo dele praticamente caiu no momento que ouviu aquilo. Ele não teve reação a não ser paralisar por completo. Parecia que estava em um sonho e que iria acordar a qualquer momento. Não foi somente o queixo dele que caiu, mas de Kim Tan e Eun Sang também.
Chan Eun Sang sorriu para Taila, ela não estava com uma expressão de arrependimento, mas de medo do futuro e Eun Sang percebeu que ela precisava de afeto.
— Pode contar comigo, Taila! Para o que você precisar.
Ela nem teve tempo de aceitar o carinho que estava recebendo, pois Kim Tan estava com uma das mãos na cintura, irritado.
— Você está o quê?! — Kim Tan aproximou-se de Choi Young Do, segurando-o pelo colarinho da camisa, encarando-o. — Eu vou te matar, Choi Young Do!
Kim Tan tentou intimidá-lo, mas acabou servindo de apoio para Choi Young Do que acabou desmaiando nos braços dele. Segurou-o com força e as meninas vieram ajudar desesperadas.
— Choi Young Do! — Kim Tan o colocou no chão e deu tapas no rosto dele. — Acorda seu cretino, eu ainda tenho que te matar!
— Young Do! — Taila acariciou os cabelos dele. — Não é hora de você me deixar mais assustada que eu já estou!
— Você vai ficar mais assustada ainda quando eu bater nele! — Ameaçou Kim Tan, para Taila, que não estava o levando a sério.
— Tan! — Ela cruzou os braços indignada. — Você acha mesmo que eu vou te deixar bater nele por isso?
— Claro que vai! Você não tem que me dar permissão para espancar o Choi Young Do. Eu já fazia isso muito antes de você vir para a Coreia.
— Você sabe que ele é tão forte quanto você.
— Não importa, ele te desonrou.
— Ele não me desonrou. E outra, você vai matar o pai do meu filho?!
— Tem razão... matar o pai do seu filho pode não ser a saída, então eu vou só dar alguns socos nele mesmo.
Choi Young Do aproveitou o momento de distração dos dois, para espiar abrindo um dos olhos disfarçadamente, mas ele não contava com um olho astuto.
— O Young Do está acordado! — Chan Eun Sang praticamente gritou enquanto ria. — Ele estava fingindo desmaio.
— Eu não estava fingindo desmaio! — Ele se sentou de uma vez, olhando para Eun Sang, que era a única pessoa do grupo que estava soltando fogos de artifício. — Por que você me dedurou? Você não é minha amiga?
— Não! Você disse que não queria a minha amizade.
— Ah, é! — Ele parou a mão de Kim Tan, que veio sem velocidade para bater nele, balançando a cabeça negativamente. — Você não ouviu? Você não deve me matar! Você não pode me bater por algo que eu não fiz sozinho. E foi tão bom... — A expressão alegre com o sorriso malicioso que surgiu no rosto dele foi uma provocação para todos ali.
— Ei, Choi Young Do! — gritou envergonhada, pois sendo brasileira ou não, ela não expunha sua intimidade sexual ou afetiva e isso era o que a tornava tão próxima da cultura coreana. — Você quer apanhar?!
— Posso dar um soco nele agora, Taila? — Kim Tan esfregou o punho com a palma da outra mão.
— Pode!
— Para que tanta violência? — Ele raspou a garganta, tombando um pouco a cabeça de lado. — Eu sou um homem inocente que fui seduzido por uma brasileira.
Kim Tan apertou os lábios e desfez o punho no momento que Chan Eun Sang segurou seu braço, acalmando-o.
— Ele está certo, você não pode bater nele. A Taila precisa dele agora.
— Mas eu queria... — Kim Tan fez uma expressão de menino que quer aprontar, mas é repreendido. — Eu ia aliviar o estresse das minhas provas.
— Ah, que decepção. — Choi Young Do balançou a cabeça negativamente fazendo “tsc tsc”, em seguida raspando a garganta antes de falar. — Você parece comigo. Dominado por essas duas mulheres. Você está precisando ser mais forte que isso, Kim Tan. Aqui! — Ele apontou para a bochecha, virando o rosto. — Dá o seu soco mais forte, não me decepcione.
Todos os três o conheciam tão bem a ponto de aquela reação os desarmar por completo. Enquanto a reação de Taila foi chorar, mesmo que não estivesse rejeitando seu filho, mas apenas uma forma de lidar com o medo da maternidade, a de Choi Young Do era vestir sua máscara do sarcasmo.
Ele se levantou de uma vez e puxou Taila pela cintura, deitando-a em seu braço e dando um beijo de cinema nela. Um beijo que nem ela mesma esperava e isso acabou tirando toda a sua melancolia do choro, depois ele a soltou e sorriu.
— Vá para casa sozinha hoje, a gente se encontra lá mais tarde para conversar!
— Aonde você vai?
— Tomar um porre!
Ele saiu correndo pelo corredor. Depois parou no meio do caminho, virou-se para eles e gritou: “Eu te amo, Taila”, de forma exagerada, fazendo um coração com os braços, apoiando as mãos na cabeça. Após isso, ele desapareceu pela porta de entrada.
— Ele está surtando, não é? — perguntou Kim Tan, mesmo sabendo a resposta.
— Completamente.
— Ele não é o único! — Taila colocou as mãos na cintura. — Mas eu estou feliz ao mesmo tempo.
— Você quer conversar? — perguntou Eun Sang, acariciando as costas dela com uma expressão acolhedora.
— Quero. Tan...
— Não precisa continuar... — Ele ergueu a palma da mão na frente dela e assentiu, mesmo sem saber a pergunta. — Claro que eu vou cuidar dele. Eun Sang, você pode cuidar dessa mocinha irresponsável?
— Claro que sim.
Ele sorriu para elas e depois correu na direção que Choi Young Do, torcendo para não o ter perdido de vista. Chan Eun Sang acariciou os cabelos de Taila, sorrindo:
— Você quer comer alguma coisa?
— Não, eu passei a noite toda vomitando.
— Então vamos nos sentar em algum lugar e conversar?
— Claro.
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