Consequências
40 Vou sentir sua falta
Notas iniciais
Taila estava no taxi, sem celular ou nenhuma forma de ser contatada. A única coisa que conseguia fazer naquele momento, era desesperadamente, pedir ao motorista que a levasse ao hospital que seu pai estava internado. Saltou do taxi jogando, sobre o motorista, todo o dinheiro que tinha em sua bolsa.
Correu em direção a entrada do hospital e rodou por ele, até encontrar Marcela e sua mãe, que estavam na porta do quarto de Roberto chorando. Taila nem sequer olhou para elas, foi diretamente entrando no quarto, onde eles estavam organizando o corpo para ser levado. Parou em frente a cama do hospital e abraçou o corpo do seu pai. Seus olhos derrubavam tantas lágrimas não conseguia controlar.
A dor em seu peito estava machucando de uma forma que parecia que ia rasgá-lo em dois. Deitou sua cabeça no peito do corpo do pai, já sem vida e implorou.
— Pai, por favor, volta! Por favor não vá embora — seus soluços e seus gritos ao implorar por seu pai, partiram o coração de sua mãe e de Marcela que precisavam de alguma forma confortá-la. — Por favor, não chegou sua hora — Taila estava desesperada, as lágrimas desciam pelo seu rosto intensamente, estava vermelha e seus soluços demonstravam que ela não conseguia controlar seus sentimentos avassaladores. A única coisa que conseguia sentir, era uma dor terrível. A cada lágrima que escorria, mais doía em seu peito.
— Pai! — Marcela se agachou de frente a ela, olhou em seus olhos, passou seus braços em volta do corpo da irmã de forma que pudesse de alguma forma confortá-la. Taila olhou para Marcela. — Ele não morreu! Isso é mentira.
— Taila, ele não ia aguentar mais, você sabe disso — ela apertou ainda mais o corpo da irmã, que logo voltou a derramar lágrimas em seu ombro.
— Marcela, eu não quero que meu papai morra.
— Eu sei — Marcela também não conseguia mais controlar as lágrimas. Estava doendo nele também. Era uma dor que ela não conseguia explicar. Queria apenas que Roberto voltasse a vida, assim como Taila quando sofreu aquela parada cardíaca, mas não, seu corpo já estava ficando pálido e perdendo a vida.
Taila soltou a irmã e foi em direção ao corpo do pai, o abraçando e acariciando seu rosto. A pele estava fria e pálida, sentia ainda mais aquela dor forte no peito ao ver seu pai daquela forma.
— Como eu pude ser uma filha tão ruim? Uma filha que não teve a capacidade de cuidar o próprio pai? — Ela escondeu o rosto no peito do pai e deixou que as lágrimas caíssem sem medo, deixando a roupa de hospital que ele usava, completamente encharcada. — Eu te amo tanto pai — ela não conseguia dizer mais nada, as lágrimas que estavam difíceis de sair se prenderam em sua garganta.
Taila sentia uma dor no peito tão forte que era impossível explicar o que estava sentindo, apenas uma vontade de pegar qualquer aparelho ali e tentar ressuscitá-lo. Até que finalmente o seu cérebro conseguiu compreender que aquilo era realmente verdade, ela se deixou cair no chão, apenas pensando em como seria uma filha órfã de pai. O pai que amou tanto em toda a sua vida e sempre que o via era como encontrar uma joia preciosa, agora nem mesmo terá a oportunidade de ter esses encontros que faziam seu coração saltitar de alegria.
— Pai... — retirou suas últimas forças do coração. — Por favor... não me deixe aqui sozinha.
Taila foi retirada do quarto por Choi Young Do, que chegou alguns minutos depois. Ele sabia que estava na hora de se manter firme para cuidar da amada, que estava ali desesperada assistindo a morte de seu pai. Ele a levou para o jardim do hospital. Marcela e sua mãe permaneceram no mesmo local onde estavam.
Taila estava desesperada, não queria ir com o namorado, que insistia em puxá-la, contra sua vontade em direção ao jardim.
— Young Do me solta, por favor! — Ela implorava com a voz engasgada. Choi Young Do a soltou ao chegar no jardim e rapidamente passou seus braços ao redor de seu corpo e a abraçou, colocando seu queixo em sua cabeça.
— Eu estou aqui agora, por favor, fique calma.
— Meu pa... meu papai está morto — as lágrimas escorriam sem medo de seus olhos. Rapidamente, Taila afundou seu rosto na camiseta de Choi Young Do e deixou que ela se molhasse com suas lágrimas.
Ele não soube o que dizer, realmente era verdade e não havia o que se fazer. Não era novidade que aquele triste fim chegaria para Roberto. Taila não conseguia parar de chorar. Seu pai havia ido embora e agora tudo o que lhe restaria era a dor de não o ter mais ali para correr dele ou para abraçá-lo.
***
No dia seguinte o velório de Roberto foi realizado e toda a família compareceu para prestar os pêsames ao falecido. Taila não conseguiu permanecer por nem sequer cinco minutos ali e saiu de lá, deixando cair diversas lágrimas de seu rosto vermelho. Caminhou em direção à praia, que não estava cheia, por estar um tempo nublado e os chuviscos teimavam em cair e deixar sua roupa completamente molhada.
Ajoelhou-se na areia e tocou o peito, sentiu aquele vazio novamente, olhando para o mar que trazia a argua espumada até a borda e voltava. Deixou-se chorar sem medo, as lágrimas se camuflavam com os pingos de chuva em seu rosto. Tudo o que ela sentia agora era uma dor que não conseguia explicar e tudo o que queria fazer era correr para os braços de seu pai, como uma garotinha ao chegar da escola, louca para mostrar ao seu pai, o desenho que havia feito no dia dos pais.
Tudo o que Taila sabia agora era que não ia mais ter que fugir de seu pai, pois ele não estava mais ali. Tudo o que ela mais queria agora, era correr na direção dele e abraçá-lo forte.
Um vulto se aproximou dela e tocou suavemente seu ombro. Aquele braço ela reconheceria em qualquer lugar. A pessoa logo se sentou ao seu lado.
— Quer companhia baixinha?
Ela respirou fundo olhando para baixo. Passou a mão no local da cirurgia e deixou novamente que outra lágrima escorresse.
— Como você me achou aqui? — Ela olhou para ele, que estava mais calmo que o comum. Jay nunca havia sido tão calmo na vida, sempre tão elétrico e animado.
— Achei que seria uma boa ideia procurar por você.
Ela deitou sua cabeça no ombro dele e deixou novamente que as lagrimas caíssem. Jay apenas acariciou suavemente os seus cabelos.
— Fica calma baixinha, eu sei que está doendo muito, mas tenta pensar no que ele estaria sentindo se ainda estivesse vivo. A doença dele apenas o faria sofrer ainda mais.
Passou a mão pelo seu rosto e olhou para ele.
— Eu queria tanto que ele pudesse parar de sofrer, mas dói tanto ficar sem ele aqui.
— Talvez por isso ele te fez passar por tantos testes — ele acariciou os cabelos de Taila. Seus olhos estavam fixos nas aguas dançantes do mar. — Para que você pudesse passar por isso e ser forte o suficiente para continuar caminhando mesmo sabendo que ele não estará mais aqui.
— Eu realmente estou tentando, mas eu não consigo controlar essa dor.
— Está na hora — ele passou a mão em volta do corpo dela e a abraçou forte, de um jeito que pudesse esquentá-la. — Está na hora de você dizer adeus para o seu pai.
Ela fechou os olhos deixando que uma lágrima escorresse por seu rosto, embora a chuva teimasse em escondê-las.
— Diga ao seu pai tudo aquilo que você sente e apenas — ele fez um movimento como se estivesse limpando o céu nublado e neblinado — se despeça dele de uma forma que ele não se esqueça.
Levantou sua cabeça no ombro dele, a dor a tomou novamente, tocou seu peito novamente. Olhou para o mar, que estava cheio de neblina e pode avistar a imagem de seu pai logo a frente.
— Pai... papai... lembra quando eu te chamava assim? Eu tinha apenas três anos de idade. Hoje eu estou aqui, com meus dezenove anos. Eu me lembro de suas viagens para o exterior que duravam tanto tempo e eu ficava te esperando deitada no sofá da sala descoberta, apenas te esperando. Eu queria tanto te ver uma última vez, pode me des... — parou para soluçar — pedir de você. Dizer que eu te amo e que não importa o que aconteça. Não importa se eu vou passar ou não por um teste. Se eu vou ou não me machucar, tudo o que eu mais quero é correr para o seu colo e chorar minhas frustrações. Muitas pessoas já me disseram para te odiar e muitas até mesmo te odeiam. Mas me digam se é possível odiar uma pessoa como Roberto Monteiro? O homem que se não fosse por ele, eu não teria nada do que eu tenho hoje. Eu não me importo com os erros que você cometeu, porque eu só vejo as consequências boas que eles nos trouxeram. Se não fosse por você, eu não teria conhecido as pessoas que eu conheço e amo tanto hoje. Você é realmente um pai cheio de defeitos — engasgou novamente com as palavras — mas você é o meu pai. E eu vou te amar pelo resto da minha vida. Adeus pai.
***
Os dias foram passando, a dor de perder seu pai era muito forte em Taila e ela ainda estava lidando com isso no meio de sua família e amigos. Choi Young Do estava ainda no hotel, teve que pedir para o sócio de seu pai pagar a sua estadia no local, já que tinha dinheiro, queria gastá-lo para algo importante.
Ele havia sido expulso do colégio Jeguk e tudo o que precisava fazer agora, era encontrar um tão bom como aquele. Encontrou e precisava voltar a Coreia para terminar seus estudos, precisava passar em uma universidade para conseguir administrar todas as empresas de seu pai.
Chamou a namorada, que não estava nada animada para sair. Taila cortou seu cabelo na altura do queixo e permanecia andando de touca por aí, com a intenção de cobrir a falta de cabelo no local da cirurgia, embora alguns jovens acreditassem que ela estava usando um novo estilo.
Levou-a para um restaurante, sentou-se de frente para ela e pediu um almoço leve para eles. Taila colocou os cotovelos na mesa e apenas brincou com a comida.
— O sócio do meu pai conseguiu uma vaga para mim em um colégio muito melhor que o Jeguk, quero até ver quando eles virem que o dono da rede de hotel Zeus, formou-se em um colégio muito melhor que o deles — ele parecia animado, enquanto ela ainda brincava com a comida de cabeça baixa. — Você ainda estuda lá, seu eu fosse você, eu abandonaria aquele colégio imediatamente — ele sorriu, de alguma forma tentando animá-la, mas não parecia estar tendo resultado nenhum. — Quando a gente voltar para casa...
— Eu não vou — ela disse rapidamente, sem olhar para ele. Choi Young Do ficou sério.
— Como?
— Não vou voltar para a Coreia com você.
— Que? E por que você não vai fazer isso? Seu currículo está lá, tudo seu está lá.
— Inclusive a Monteiro — ela olhou rapidamente para ele e depois para a comida. — Você vai voltar para casa sozinho.
— Taila, por favor, você não precisa ficar assim apenas porque eu fui expulso...
— Não é por você que estou fazendo isso — ela o olhou e tocou sua mão, que estava sobre a mesa. O olhar dele permanecia inconformado com a informação que acabou de receber. — É por mim mesma.
— Então... vai me deixar ir sozinho? — Ele apertou os lábios, não era o que ele queria fazer.
— Vou, você precisa ir. A sua vida é lá. Eu quero apenas organizar a minha mente e meus estudos aqui. Eu preciso de um tempo, minha cabeça está explodindo — o olhar dela estava sério e meio cansado. Taila ainda estava um pouco abatida, desde o seu acidente.
— Está bem — ele a olhou e colocou o cotovelo sobre a mesa e ergueu seu dedo mindinho e falou com uma expressão bastante séria: — você me promete que vai voltar para mim? E me promete que vai ser logo?
Taila soltou um sorriso com uma pequena risada calma. Arqueou seu corpo sobre a mesa e com seus lábios os selou ao de seu namorado, suavemente, movendo e o beijando ali mesmo, no meio da lanchonete. Após seus lábios se soltarem, ela o fitou intensamente e colocou seu mindinho agarrando o dele.
— Eu prometo que logo eu voltarei para os seus braços e que não vai demorar muito.
— Eu esperarei por você.
— Eu voltarei para você.
Eles se entreolhavam fixamente, como se nada ao redor existisse. Os lábios de Taila e de Choi Young Do moveram-se ao mesmo dizendo suas palavras de despedida.
— Eu te amo.
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