Confissões de Laly

29 Capítulo 26 - Benevolências engorovinhadas


Gustavo Figueira Antares, após o plano fracassado de arruinar o vestibular de Laly, teve tempo o bastante para analisar a situação sob um ângulo bastante pertinente. Aquela era uma ideia que ainda precisava amadurecer dentro da cabeça para ganhar uma forma concreta, mas fazia um absurdo sentido, sobretudo porque serviria para sobrepujar o desejo dela de ter um diploma universitário.

Os guaratubanos comuns liam o jornal De olho em Guaratuba, cujo proprietário era Inocêncio Figueira Antares, irmão de Jordano, assistiam à programação local da RPN, posto que Jordano Figueira Antares era um dos principais acionistas. A censura não havia acabado formalmente dentro daquelas redações. Rebeldes eram rigorosamente suprimidos pelos editores e obrigados a reescreverem reportagens se houvesse uma única insinuação contrária aos interesses da aristocracia guaratubana. Discordâncias não eram aceitas na prática, adversários sofriam boicotes e perseguições.

Entre os anos de 1984 e 1990, a cidade apresentou um aumento expressivo na criminalidade, poucos projetos de lei foram aprovados e os serviços básicos padeciam ao completo descaso. A medida impopular facilmente se justificava, mas ninguém nunca via toda essa dinheirama sendo aplicada para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Muitas regiões vulneráveis sequer tinha acesso ao saneamento básico, pavimentar as ruas de barro se limitava a ser promessa de campanha. O projeto da tal ponte que ligaria uma cidade à outra era um clamor antigo porque as obras, se concluídas, facilitaria o deslocamento dos moradores e turistas, além de evitar a sobrecarga das balsas que trabalhavam noite e dia.

Havia uma significativa e nada desprezível percentagem de jornalistas que conhecia muito bem os ditos podres da família Figueira Antares. Não era comum que muitos tivessem o silêncio comprado por um cargo executivo. Os poucos que insistiam em encarar a fúria dos mandatários da cidade não sobreviviam para escreverem uma biografia confessional.

Gustavo Figueira Antares encontraria uma maneira melhor de prender Lalinha a ele para sempre. Não seria justo mantê-la num sutil cárcere privado quando poderia ela ser um mal necessário. A nova revelação do telejornalismo guaratubano. Não seria nada difícil convencer seus amigos influentes em redações para conseguirem um bom lugar para a nora do ilustríssimo Jordano Figueira Antares.

Todos os anos os Figueira Antares promoviam um jantar especial na véspera de Natal no qual convidavam personalidades para confraternizar, trocar presentes e degustar dos pratos feitos por gastrônomos vindos de São Paulo. Pela primeira vez a família de Laly recebeu o convite por correspondência, mas Gustavo em pessoa foi convidar Edílson e Eleonora para o evento. Ambos recusaram por não terem trajes adequados para a ocasião.

Imaginando que esse seria o motivo da recusa, o noivo de Laly trouxe presentes antecipados para os pais da garota. Edílson Moraes, que chorou de alegria e se ajoelhou aos pés do rapaz para agradecer pela cortesia.

― Não há de quê, senhor Edílson. ― sugeriu um modesto Gustavo.

― Tudo isso deve ter custado uma nota. ― choramingou Edílson limpando o rosto com as mãos, esperando merecer aquelas camisas bonitas que ganhou, justamente com as cores de que tanto gostava.

Edílson Moraes chegou a beijar a mão direita do rapaz. Baixinho e atarracado, nem sequer se importava se as mangas do paletó ficassem engorovinhadas, se não levava muito jeito para dar um nó na gravata. A importância do presente não estava incutida no valor em si, que foi bem exorbitante, mas no fato de ter sido lembrado por alguém, ainda que todos os anos a filha se sacrificasse para lhe presentear.

― Não me importo. Se os meus queridos sogros estiverem felizes, já terei sido agraciado com o melhor presente de natal que um genro pode querer.

Eleonora provou o vestido verde-bandeira e deu uma olhadela no espelho embutido na porta do guarda-roupa do casal caindo aos pedaços, imaginando que se tivesse a mesma idade da enteada, encomendaria uma criança quanto antes para garantir a “boa sorte”. Nunca lhe ocorreu o desejo de ter filhos, mas para prender um Gustavo Figueira Antares da vida, trocaria fraldas e faria mamadeiras com brilho nos olhos.

Amaldiçoava-se mil vezes por investir tanto em Edílson, só pelo prazer de roubá-lo da meia-irmã e condenar-se a levar uma vida cheia de limitações financeiras que definiam aquele casamento sucateado onde dois dividiam uma cama e nunca se tocavam. Eles não mantinham relações fazia mais de três anos e uma mulher ainda razoavelmente jovem tinha lá as suas necessidades. O verdureiro também era casado e o envolvimento se mantinha incrivelmente interessante por nunca ser nada além de uma aventura.

Eleonora deitava os olhos sobre o noivo da enteada. Demoradamente. As migalhas dele valiam ouro e algum dia ela as teria. Apreciava aventuras e guardava segredo quando os mesmos fossem convenientes. As fantasias com ele melhoravam qualquer realidade.

— Vocês não vão me dizer não, não é mesmo? — insistiu Gustavo que aceitou um café por conta de Eleonora e não sairia de lá sem ter uma informação concreta acerca do paradeiro de Laly.

Apesar do medo de cometer gafes durante a ceia, Edílson aceitou o convite do genro. Às oito e meia da noite, o chofer da família Figueira Antares buscou os pais de Laly em frente à modesta casa, gerando olhares de curiosidade e cochichos marcados pelas silhuetas nas janelas das casas de toda a rua.

Antes de chegarem à propriedade dos Figueira Antares, que ocupava um quarteirão inteiro, Edílson e Eleonora ajudaram o chofer a localizar o endereço de Amado Moraes para todos juntos chegarem para os festejos.

— Estou tão ansiosa para conhecer o casarão do Gus, tia Eleonora. — comentou Milene, dissimulada.

— E eu, então? — sorriu Eleonora.

— Dizem que ocupa um quarteirão inteirinho. — exultou Edílson, que só via propriedades como aquela pela televisão e nas colunas sociais.

— Queria tanto que a Lalinha estivesse aqui. — suspirou Milene que aos olhos dos adultos presentes era uma criança inocente e desprovida de qualquer maldade.

Todos se impressionaram com a decoração natalina da propriedade dos Figueira Antares e foram bem recepcionados ao descerem do carro. Eleonora vivia sua noite de Cinderela, sonhando em estar no lugar da enteada e ser a prometida de Gustavo. O tratamento VIP a fez esquecer — ao menos por algumas horas — o abatimento de uma rotina inglória e a iludia de despertar algum interesse no jovem herdeiro, a quem olhava longa e despudoradamente.

Os empregados da família estavam de prontidão para melhor atenderem aos convidados, todos vestindo trajes natalinos e com um sorriso arreganhado no rosto segurando bandejas e repetindo mesuras de modo mecânico. Músicas instrumentais davam a impressão de se estar numa festa de Natal em Nova York ou Paris, de tamanho que era o requinte.

Uma mesa repleta de antepastos foi montada para os convidados se fartarem antes da ceia. Edílson enchia os bolsos do paletó de amendoins e deliciava com os queijos importados, as uvas fresquinhas e por ser um homem de modos simples, falava com a boca cheia e cumprimentava os outros convidados com tapinhas nas costas mesmo estando com as mãos sujas de farelos de comida.

— Laly é uma boba por estar perdendo tudo isso. — gracejou Edílson.

— Olha os modos, homem. — Eleonora beliscou a manga do paletó do esposo.

— Que modo o quê! Somos da família e com família não tem frescura, não! — replicou o pai de Laly que estava pouco se importando com regras de etiqueta, falando alto como se estivesse na sala de casa. Não era sempre que podia se dar ao luxo de comer quitutes da mais alta estirpe que queria aproveitar a ceia como poucos fariam.

Com exceção de Amado e Milene, ninguém mais dedicou atenção aos pais de Laly.

Uma equipe especial de cinegrafistas e fotógrafos estavam em pontos estratégicos para não perderem um único momento especial da festa. O melhor dela seria publicado nas colunas sociais para os guaratubanos verem.

Por volta das 23h, todos os convidados se dirigiram à sala de refeições, onde uma enorme mesa retangular chamava a atenção pelo requinte. Por pouco Edílson Moraes não cometeu uma gafe imperdoável. Acostumado a se sentar na ponta direita em casa, pensou que poderia se comportar da mesma maneira, mas Eleonora os poupou de um vexame.

— Nós não estamos na nossa casa, Edílson. — sussurrou Eleonora. — É o anfitrião da festa que se senta ali.

Edílson assentiu, envergonhado e sentado em seu lugar, olhava para o prato de entrada sem saber o porquê de haver tantos talheres à sua frente. Julgando que os pais de Gustavo o analisariam, buscou discretamente observar o que eles faziam para reproduzir o mesmo comportamento, ainda que a inexperiência fosse um ponto negativo a se considerar.

— Milene completará 15 anos em agosto próximo. Dá para acreditar? — Amado comentou para ninguém em especial. Assuntos triviais quebravam o desconforto de talheres empunhados em pratos de porcelana.

— Só acredito por estar vendo o quanto essa menina cresceu e ficou linda. — completou Eleonora.

— Fará festa? — Gustavo entrou na conversa, apesar de não ter interesse em continuar nela.

— Não gosto de agitação. — esclareceu Milene enquanto fatiava um pedaço de peru. — Quando conseguir mandar a cabelinho de fogo e a mosca-morta para o inferno, já terei os quinze anos mais felizes do mundo. — pensou a garota, distraída em seus próprios devaneios.

— Ora, como esses olhos brilham muito… — percebeu Edílson, brincalhão, como nunca costumava ser com a filha. — Bonita desse jeito já deve chamar a atenção da rapaziada.

— Milene ainda é uma criança. — protestou Amado, incomodado com as insinuações do irmão.

— Milene é uma menina muito bonita — recordou Gustavo — e deve ter vários admiradores por aí. É melhor que o senhor se acostume que, mais cedo ou mais tarde, sua menininha nos apresentará um namorado.

— Milene ainda é uma menina e só pensa em estudar… — retrucou Amado, sentindo o rosto esquentar como se em vez de elogiarem a beleza de Milene, todos estivessem zombando dela.

— Papai tem razão. — justificou Milene para atenuar o clima de animosidade que se instalou entre os irmãos Edílson e Amado. — Estou muito nova para pensar em garotos… Minha vida é estudar…

— Estudando tanto assim, não tenho dúvidas de que minha querida sobrinha haverá de ser uma grande médica ― bajulou Eleonora.

― Tenho interesse em estudar medicina, titia, e sei que os próximos anos demandarão da minha parte um esforço sobremaneira para realizar o meu sonho que é ser pediatra, mas não me importo com os sacrifícios se puder fazer o bem para o nosso mundo tão carente de benignidades.

Gustavo abaixava a cabeça e mordia o lábio inferior para não gargalhar. Milene Moraes era uma atriz nata, teria futuro se investisse na carreira e gozasse da sorte de ser escalada para papéis de vilãs memoráveis. A atuação dela era tão impecável que o próprio duvidava que aquele rostinho angelical fosse capaz de envenenar garotas inocentes, conspirar contra a própria prima e manuseasse uma arma de fogo com muito mais habilidade do que ele, um homem feito. Se a teledramaturgia fosse uma ambição aquém das expectativas para aquela jovem, havia ainda a possibilidade de aproveitar o dom de convencer para iniciar a carreira política.

— Quem me dera, Laly tivesse juízo como você, Milene. — suspirou Edílson, pesaroso.

— Laly tentou apressar o próprio destino dela, que era eu, mas tudo se encaixará no momento correto e eis que em breve iremos nos casar. No próximo Natal, se Deus quiser, estaremos todos aqui novamente ceando juntos e quem sabe até com um herdeiro Figueira Antares a caminho, não é mesmo? — Discursou Gustavo portando um cálice de vinho do porto em uma das mãos. — E isso merece um brinde.

Todos concordaram e puseram-se a brindar. Milene, falsa, mesmo já bebendo vinho e conhaque, participou da celebração simbólica com o refrigerante só para chamar a atenção dos adultos.

— Olha, que gracinha! Querendo brindar conosco. — Eleonora afagou a cabeça da sobrinha.

Após a ceia houve a troca de presentes e também a revelação do amigo oculto, mas dessa parte os parentes de Laly não participaram. A festa terminou por volta das três horas da madrugada e Edílson Moraes, mesmo cansado, sentia-se pleno, imaginando que a partir dali deixaria de ser o funcionário fracassado na repartição para ganhar o respeito que merecia, sendo o sogro de ninguém menos que Gustavo Figueira Antares.

Notas finais
Laly não tem sossego de jeito nenhum porque quando não é a Milene querendo o Iury de todo jeito, é a Eleonora desejando ser ela só para pegar o Gustavo. A madrasta da Laly tinha inveja da Ingrid (mãe da Laly), de quem era meia-irmã. Não cansou enquanto não seduziu o Edílson, achando que teria uma vida de rainha, doida para dar um filho homem para ele, porém isso nunca aconteceu. O casal se despreza, apesar de ter posicionamentos bem parecidos e um político de estimação numa época onde essa expressão não existia ou pelo menos não com esse nome. Por hoje é só, queridos. Vejo vocês no próximo capítulo! ♥