Confissões de Laly

30 Capítulo 27 - Um beijo e um mal-entendido (Laly)


A noite de 31 de dezembro de 1991 finalmente chegou. Aquela porção de horas que decidia o ano inteirinho. Exageros à parte, eu queria receber 1992 da melhor forma, clamar pela esperança, pelo amparo Divino, liberdade e amor, o verdadeiro amor, fosse com Iury ou não.

Tio Abílio e Tia Conceição preferiram se resguardar na virada do ano e cuidar do pequeno Túlio. Nós jovens, fomos em direção ao centro da cidade onde estava rolando uma balada ao ar livre a qual estavam sendo tocados todos os sucessos que embalaram as pistas ao longo do ano e alguns clássicos das décadas anteriores.

― Só saio daqui carregado. ― Dorminhoco abriu uma lata de cerveja e começou a dançar por entre os outros jovens:

― Ainda bem que viemos de ônibus. Eu não me arriscaria a deixar esse aí guiar a gente de carro. ― Fuinha protestou.

― Aí, cara, se quiser ser chato, seja, mas bem longe de mim. ― reclamou Dorminhoco.

― Vocês dois parem de brigar, por favor. ― interveio Daniela, já bastante acostumada com as distintas personalidades dos gêmeos.

― Não sou supersticiosa, mas nem preciso ser para saber que discutir na virada do ano não é um bom agouro. ― encerrei a discussão.

Enquanto aguardávamos a afamada contagem regressiva, percebia o olhar malicioso de Dorminhoco para cima de mim. Fuinha pigarreava, circulava a nossa volta como se algo o incomodasse e o gêmeo por sua vez o provocava se aproximando de mim, sorrindo, tentando encontrar o momento mais adequado para me beijar.

Os casais em geral, os firmes e formados naquela noite, combinaram de dar um beijo coletivo pontualmente à meia-noite, para que não faltasse amor, ainda mais que logo nos primeiros dias de 1991 ocorreu à primeira Guerra do Golfo e recentemente a URSS chegava ao fim. De calmo, aquele ano não teve nada.

Assim que saudaram 1992 com champanhes estourados, brindes improvisados e a queima de fogos iluminava o céu curitibano, Dorminhoco surpreendeu-me com um beijo e eu o correspondi, o que não faria em outra ocasião. Três anos de relacionamento sério foram suficientes para eu querer passar um bom tempo solteira, beijando sem culpa nem promessas, valendo-me daquele frase-feita: quem gosta de compromisso é agenda.

Fuinha foi embora da festa chorando, Daniela e Everton tentaram alcançá-lo, em vão. Após o beijo, Dorminhoco parecia estar noutra dimensão, sem compreender por que eu também antecipei a volta para casa. Ele pediu para me acompanhar, ao que neguei. Passei a noite toda chorando. Que belo modo de começar o ano!

Após um farto almoço em família, Daniela e eu fomos encontrar os meninos. Para Dorminhoco estávamos juntos e ele fez questão de me cumprimentar com um beijo.

― Oi, Lalinha. O que você teve ontem?

― Uma dor de cabeça, mas já estou melhor. ― respondi, sem dar muitos detalhes.

― Mesmo?

― Sim, Dorminhoco. Não foi nada de mais.

― Tem certeza?

― Você já está enchendo com essas perguntas, cara. Ela já não te respondeu? ― Fuinha ergueu a voz com o irmão.

― E você fica na tua, boca de lata. Não pedi tua opinião.

― Melhor ser boca de lata do que um bêbado. ― acusou Fuinha, revoltado com as bebedeiras do irmão.

― Pelo menos tenho competência para pegar mulher e você, não.

Fuinha, ofendido, voltou para casa.

Daniela e Everton não se pronunciaram, mas assim como eu, estavam constrangidos.

― Esse Fuinha é um chato… ― redarguiu Dorminhoco tentando me abraçar e eu me afastando para dar a entender que foi só uma ficada. Gostaria de ter a frieza do Iury e ter superado três anos de relacionamento ficando com outro, contudo, simplesmente não sei enganar.

Dorminhoco beijava bastante bem, até porque era experiente. Não fazia o tipinho cavalheiro nem na aparência. Era branco, gostava da barba por fazer e usava cabelos compridos, falava tanta gíria que eu ficava tonta, integrava o estilo que meu pai certamente repudiaria.

Fuinha usava óculos fundo de garrafa, era magrinho e ainda tinha algumas espinhas no rosto. Era branquinho, quase pálido. Não era feio, apenas inseguro, fraqueza essa que o fazia ser invisível frente à exuberância do irmão. De tão tímido que era, gaguejava para falar comigo e mal me olhava nos olhos. Envergonhado, atropelando as palavras, não gostando tanto delas quanto eu. Em seu discurso perfeito ensaiado na mente, se aproximava de mim sem se sentir ridículo. Eu o entendo porque quando me apaixonei pela primeira vez também não sabia lidar com meus sentimentos, sobretudo quando eles mudam e você se perde até afinar as cordas.

Para Fuinha, a vida consistia em estudar. Ele estava construindo seu futuro, colocando os primeiros tijolos para construir seu castelo. A princesa poderia ser eu, se Gustavo e Iury não existissem. Patético atribuir a pessoas dadas circunstâncias. Eu nunca enxergaria Fuinha como homem, isso era fato. A culpa não era dele, nem minha. Ferido já estava porque tinha pleno juízo de realidade. Aliás, era legitimista até por demais. Não mais que Naira, mas às vezes se passava por chato.

Desejava, sim, que Fuinha encontrasse uma moça que pudesse fazê-lo feliz e mostrar-lhe que o que ele sentia por mim não era amor.

Droga, como posso julgar Fuinha se não estava dentro de seu coração?

Isso era cômodo de fazer.

Os poucos programas que Fuinha fazia era porque Dorminhoco o arrastava. Segurava vela e colecionava foras. O meu era mais um, somente. Era o momento de Fuinha trocar as lentes. Enquanto ele não se enxergasse belo, o mundo continuaria compactuando com a autocomiseração dele.

Eu nunca fui o tipo mulherão. Pelo menos não se considerasse meu retrospecto no primário. Duvido muito que você desse alguma pataca pela menina dentuça que sentava nas carteiras no fundo da classe e que por não enxergar muito bem de longe precisou usar óculos, aquela que era tida como feia por maioria de votos e chacoteada até pelos “esquisitos”.

Na quarta série teve um surto de piolho na escola; quase todo mundo pegou. Por pura preguiça de estender um pano branco e passar aquela temida escovinha para caçar lêndeas, Eleonora me levou ao barbeiro que sempre acertava o corte do papai e o senhorzinho tosou o meu cabelo. Na ponta do lápis sairia muito mais barato aplicar um xampu especial em vez de me submeter a um trauma tão grande que me marcou muito. Negativamente.

Não foi surpresa alguma que as crianças fizessem troça com o meu cabelo Joãozinho. Era o fim do mundo para mim, a única menina da minha sala que não tinha uma paquerinha. Todas, todas as menininhas tinham. Pasmem, um guri mandava cartinhas para Naira Sanches, se oferecia para segurar a lancheira dela, enquanto eu era aquela que os moleques não dedicavam a menor atenção.

Naquele ano a Festa Junina foi terrível: a professora organizou a turma para dançar quadrilha e nenhum garoto queria fazer par comigo. Todos queriam a Ariane. Loira dos olhos claros, cara de anjo, esguia, filhinha da professora e sobrinha da Tia Imelda, a professora da terceira série. A Ariane tinha pelo menos uns dez querendo ficar com ela, mas apenas um teve o privilégio de poder segurar em sua mãozinha.

Apesar de ser a preterida, a professora escolheu um tal de Ulisses para dançar comigo, ninguém menos do que o menino mais repugnante da turma toda que tirava meleca do nariz, soltava pum na frente das meninas e vivia com a mão fedorenta. A nota zero teria sido muito menos deprimente que o piá mais horrendo da sala dizer que não queria segurar na sua mão porque você era muito feia.

Ariane não era arrogante e metida porque colocava os propósitos da religião bem acima da vaidade. Eu não tinha inveja da cor de seus olhos nem dos menininhos que a paqueravam e sim da sorte de ela ter sua mãe sempre por perto. Não éramos as melhores amigas do mundo, tampouco inimigas.

Eu admirava aquela relação bonita da menininha com a mãe, aqueles abraços de urso que tanto me faziam falta. Almejava ter alguma referência sólida no seio familiar, alguém em quem pudesse confiar, que me ajudasse com os deveres de casa, me encorajasse, me deixasse sonhar sem cortar minhas asas, sem debochar das minhas ambições, alguém a quem todos chamavam de mãe, menos eu.

Ariane não tinha culpa se os pais viviam bem, por ter irmãos, cachorro, gato, uma família completa e abençoada. Assim eles eram até voltarem de uma celebração em Paranaguá, a famosa festa do Rocio de que tanto Ariane comentava, pois um maldito caminhão colidiu de frente com o carro em que ela estava com os pais e todos morreram na hora.

Dizem que o mundo não gira, capota. Assim sendo, Ulisses, o menino repugnante da quarta série, dia desses me enviou um e-mail contando ser apaixonado por mim e se mostrar arrependido pela escrotice naquela fatídica festa junina. O próprio reiterou que fui o motivo pelo qual ele passou a cuidar das próprias atitudes e da aparência, além de acender nele o desejo de ser alguém.

Por incrível que pareça, Gustavo sempre gostou de mim do jeito que eu era. Sempre fazia declaração aos meus olhos castanhos, aos cabelos de ébano, afirmava que se quisesse cabide, iria a uma loja comprar. Ele gostava tanto de mim e foi então que percebi que de certo modo eu também me amava, pois transmitia essa confiança a ele. Resolvi deixar meus cabelos crescerem e me arrumar mais, nem que fosse só para ir à aula. Pouco a pouco fui descobrindo meu estilo de me vestir e na minha simplicidade investi nele. Furei as orelhas mesmo contra a vontade de papai e passei a usar batom. Maquiagem completa só em dia de festa.

Iury, por sua vez, tinha certa obsessão por meninas loiras de olhos azuis, implicava demais com as roupas que eu usava, não suportava me ver maquiada, tinha um discursinho pronto na ponta da língua quando o assunto era batom vermelho. Se ousasse perguntar por que ele sumiu no fim de semana, todas as minhas ancestrais eram insultadas.

Era engraçado pensar que os mesmos vizinhos com quem eu brincava na infância agora me viam como mulher, me desejavam, queriam minha atenção, meu prazer.

Aguenta essa, Eleonora! A menina feia cresceu!