Confissões de Laly
28 Capítulo 25 - O alarde de Saturno
Notas iniciais
Meus tios me deixavam telefonar para Mayra e Milene. Lá no salão o movimento não poderia estar maior, tanto que minha amiguinha estava fazendo hora extra.
Milene, por sua vez, irradiava uma imensa alegria em sua voz e como não poderia deixar de ser, queria reparti-la comigo:
― Priminha do céu, se eu te contar essa novidade, você acredita?
― Claro que acredito em você, Mili! Qual é a novidade?
― Estou namorando.
Milene estava namorando pela primeira vez na vida e eu era a primeira pessoa para quem contava a novidade. Eu não poderia deixar de me sentir lisonjeada, mesmo com uma pontinha de ciúmes.
― Seu pai já sabe?
― O papai ainda não sabe, mas vou contar a ele. Você promete que não conta antes disso? — pediu Milene, toda encabulada, incerta acerca da reação do pai.
― Pode confiar que eu não vou contar.
― Ah, Laly! Estou tão feliz!
― É assim que quero ver você: sempre feliz!
Milene e eu crescemos unidas, apesar da nossa diferença de idade. Eu a amava como se nós duas fôssemos irmãs. Vi-a crescer dia a dia, sendo amor à primeira vista desde que a contemplei ainda pequenininha no berço, branquinha, gordinha, cheirando a talco e abandonada pela mãe que simplesmente caiu em depressão após o parto sem dedicar nenhuma afeição à filha.
Mamãe foi ama de leite de Milene logo após Silvana Moraes tentar o suicídio pela primeira vez, quando a única filha tinha apenas um mês de vida. Mesmo após receber alta do hospital psiquiátrico, Silvana ignorava o bebê, não ingeria os remédios prescritos, não colaborava para estabilizar as crises e superar os contratempos, Amado precisava de ajuda para cuidar da casa e corações dispostos não faltaram, no entanto, nunca houve gratidão por parte dele.
Quando Milene Moraes tinha apenas um ano e oito meses, Silvana Moraes foi encontrada morta. Amado, desesperado, tentou se suicidar também, mas foi salvo a tempo e internado também, tal como a esposa na primeira tentativa. Milene foi resgatada com vida pelos paramédicos e levada para a minha casa assim que recebeu alta médica.
Contou Tia Conceição que partia de Edílson o sincero desejo de criar Milene como se fosse sua filha biológica. Ingrid exultava com a ideia de receber a sobrinha. Eles pretendiam comprar um jogo de quarto, alguns brinquedos novos e oferecerem àquele pobre bebê a chance de ter uma infância feliz como a minha. Nada lhe faltaria. A carteira de vacinas sempre estaria em dia, ela iria para a escola, teria alguém para brincar, desfrutaria de ar puro, carinho, afeição e o mais importante: se algum dia tomasse conhecimento do que ocorreu com Silvana, entenderia que não foi culpa dela. No entanto, tudo mudou quando mamãe desapareceu e Eleonora destruiu todas as nossas esperanças. Papai se transformou totalmente.
Amado Moraes retornou da clínica psiquiátrica e exigiu a guarda da filha. Era notável que apesar das mesuras, não gostava que ninguém visitasse Milene, como se ela fosse uma versão em miniatura da mãe, que vivia escondida. Mayra sempre se queixava da sensação de sufocamento pousava na casa da amiguinha por conta de algum trabalho escolar. Pensava que o comportamento se devia ao fato de as duas rivalizarem para ter a minha atenção.
Hoje a verdade sobre isso me ocorre e estrangula a respiração. Naquela época, porém, eu não possuía essa percepção e invejava a minha prima por ter um pai participativo e próximo, sem saber que aquele paraíso artificial escondia segredos inconfessáveis. Para o bem ou para o mal, nunca saberei.
☮
Daniela e eu tínhamos praticamente a mesma idade, com a diferença de cinco meses. Eu completaria dezenove anos em dezoito de janeiro e ela em vinte e cinco de junho do ano seguinte, portanto nos entendíamos perfeitamente bem.
Havia certos assuntos que eu não queria nem podia dividir com Mayra e Milene pelo fato de estarmos em fases diferentes da adolescência. Daniela e eu estávamos ingressando a passos lentos na vida adulta, olhando para os quinze anos como se tudo aquilo fizesse parte de um sonho distante.
Quando comecei a namorar Iury, Daniela se envolveu com Fábio Madruga, um amigo do Dorminhoco, entretanto, a relação não prosperou e até Everton chegar, presenciei várias paixonites da minha prima, desde o menino bonitinho da igreja até o veterano da universidade.
Ninguém melhor do que Daniela para escancarar os dilemas que martelavam minha cabeça confusa. As contradições faziam parte do meu repertório e eu me dividia entre a indecisão entre o amor e o ódio porque o que eu sentia de verdade por Iury naquela época não abraçava a nenhum dos dois extremos, tinha uma definição esboçada, vaga, passível de interpretações.
― Vai procurá-lo quando voltar? ― indagou Daniela, feliz demais com Everton para se imaginar em minha pele.
― Pretendo… Isso é, se ele não me odiar… ― respondi convicta de engolir o orgulho e enfrentar milhares de protestos, mas recusava veementemente subir ao altar com Gustavo Figueira Antares de jeito nenhum.
― Vocês se despediram brigados? ― Daniela especulou, olhando as pontas das unhas descascadas.
― Ele flertou com Milene diante de meus olhos, Dani.
― Com Milene? ― As feições de Daniela esboçavam tremenda incredulidade. ― Milene não passa de uma criança.
― Milene cresceu muito no último ano. Apesar dos catorze anos, já parece uma mulher.
― Ainda assim é uma menina. Três anos pode não parecer muita diferença de idade, mas é, Lalinha. Muito me surpreende que Iury tenha feito isso e se o fez vai se arrepender porque estão entrando em fases distintas.
― Iury não é mais o mesmo de antes, Dani. ― deitei a cabeça no colo da minha prima. ― Isso é. Aquele Iury que eu achava que ele era.
― Se ele fez o que você acha que pode ter feito, de uma coisa tenho certeza: ele não merece o seu amor.
Não era essa a questão. A mentira vencia com vantagem o amor. Todos os sonhos não tinham mais nenhum sentido. Comecei a entrar numa paranoia sem fim só de imaginar Iury e Milene juntos. Era ridículo sentir ciúmes da minha prima de catorze anos apenas, aliviando-me por ter Daniela como um ancoradouro para me ajudar a recobrar os sentidos e encarar a realidade.
― Milene ainda vai entrar no colegial, enquanto Iury vai para a universidade. São mundos e ideais completamente opostos. Iury vai querer fazer certas coisas que Milene ainda não está pronta e ela vai viver situações as quais Iury já enfrentou… Tem certeza de que isso é verdade, prima? Parece-me meio surreal…
― Que seja mesmo surreal!
― Se não for, pode crer que existe alguém disposto a amá-la.
― Nem cite Gustavo.
― E acha que quero ver você com aquele louco desvairado, Lalinha? Bem capaz… Eu, se fosse você, não voltava mais.
― Eu bem que gostaria, mas não posso abandonar a vida que tenho lá em Guaratuba sem qualquer razão. Preciso voltar para resolver minhas pendências. Apesar de tudo, lá ainda é meu lar.
☮
Tio Abílio e Tia Conceição adoravam o Natal e decoravam a casa para Jesus, já ensinando ao pequeno Túlio o verdadeiro significado do nascimento de Cristo. Até 1988, toda a família subia a serra para passar as festas de fim de ano com a vó Jocasta, no entanto, após o falecimento dela, cada filho criou a sua própria tradição. Edílson, Eleonora e Amado ceavam juntos enquanto Milene e eu ficávamos conversando, assistindo TV e aguardando nossos presentes, apesar de Papai Noel não simpatizar muito com a minha pessoa.
Tio Abílio e Tia Conceição celebravam o Natal com os vizinhos, pois os parentes dela moravam em São Paulo. Eles normalmente vinham para virar o ano em Curitiba, quando não ocorria o contrário.
― Lalinha, o que acha de convidarmos o seu pai, Eleonora, Amado e Milene para passarem o Natal conosco?
― O senhor é que sabe. Por mim, tudo bem…
Fazia questão de Milene, afinal, tínhamos tanto assunto para colocar em dia, mesmo que não fosse tão agradável falar sobre o envenenamento, aquele desfecho estranho não saiu da minha cabeça. Se meus pais viessem, Gustavo seria capaz de abandonar a tradição dos Figueira Antares e fazer com que até os meus próprios tios se tornassem seus maiores admiradores debaixo do céu.
Natal era realmente uma época de milagres.Eu que o diga!
― Lamento muito, Lalinha. Eleonora está indisposta e não poderá comparecer. Sendo assim, Edílson ficará na cidade para tomar conta dela. ― divulgou Tia Conceição, sem saber que estava me dando uma ótima notícia.
☮
Nas emissoras de rádio ― com destaque às populares ― não se falava em outra coisa que não fosse astrologia. Os ouvintes, curiosos, digo isso porque Tia Conceição estava ansiosa para saber qual seria o planeta regente de 1992, até Daniela chegar com uma revistinha da banca cuja capa já dizia em letras garrafais: Saturno.
― Lalinha do céu, vai ser teu ano! ― Daniela suspirava alegremente enquanto picava tomate na mesa da cozinha.
― Não acredito nessas coisas…
― Sou canceriana, regida pela Lua; neste ano encontrei o Everton, meu leonino lindo.
Daniela e Everton. Benditos sortudos que podiam se amar em paz, sem impedimentos e noivados forçados. Câncer e Leão. Amor, ousadia, excitação e odontologia. Enquanto Daniela me contava sobre a perda da sua virgindade, eu a invejava por sentir prazer, por tudo ser maravilhoso como se espera de uma primeira vez, sem idealizações.
― E eu sou ariana e conheci Abílio numa regência de Marte… ― Tia Conceição comentava enquanto lavava o arroz. Ela e Abílio fizeram amor na noite de núpcias. Mais perfeito, impossível.
Por que tive de ser violentada e forçada a casar com alguém que nunca iria amar?
Por que comigo?
Saturno tinha alguma ligação com isso?
― Não acredito nessas coisas… ― dei de ombros ralando a cenoura.
O ano astrológico só se iniciaria no dia 20 de março, no entanto, os astrólogos de plantão já faziam seu pé de meia adiantando as tendências do próximo ano. Segundo eles, já era possível sentir no réveillon como seria a tão temida e comentada regência de Saturno.
Capricorniana do terceiro decanato, eu sou regida por Saturno, embora não confie 100% em horóscopo de jornal.
― No ano de Saturno você traça suas metas, trabalha, se organiza e tenha a certeza de que colherá os frutos do seu sacrifício. Além disso, Saturno vem para revelar o que está oculto, muitas verdades surgem, muitas estruturas se rompem, só permanece o que acrescenta. ― discursava a astróloga na rádio.
― Lalinha, isso quer dizer, em outras palavras, que você vai passar no vestibular, estudar os quatro anos aqui com titio e titia e será a nossa jornalista. ― Tia Conceição me abraçava como se a astróloga do rádio estivesse escrevendo o meu futuro num livro que chegaria aos céus.
E o espírito natalino tomava conta das ruas, avenidas, rádio e televisão. Os especiais de fim de ano já estavam marcados e, apesar da incerteza na economia, as lojas estavam lotadas.
Resolvi fazer uma surpresa para Mayra e Milene e sempre as presenteava, dentro do possível porque era uma forma de expressar a gratidão pelos momentos que passávamos juntas. Elas sabiam quase tudo sobre mim. Contagiada pela magia do primeiro amor, comprei um bloco bem lindo de papéis de carta para minha prima trocar muitas correspondências com o namorado. Para Mayra escolhi um lindo conjunto de pingente, correntinha e um par de brincos do jeitinho que ela gostava.
O Natal celebrado entre nós e os vizinhos foi lindo, farto e emocionante. Os pais de Dorminhoco e Fuinha e mais outros dois vizinhos que não viajaram compareceram e trouxeram cadeiras para arrumarmos a mesa na garagem dos meus padrinhos. Os outros moradores daquela rua sem saída viajaram.
Tio Abílio foi escolhido o patriarca e coordenou as orações, presidiu os preparativos dos presépios em tamanho natural e se encarregou de entregar os donativos aos mais necessitados. Não para sentir-se superior porque nunca foi da natureza dele apoiar-se em vantagens para menosprezar o próximo e por isso mesmo Deus era tão bondoso com ele.
Nós mulheres cuidamos da ceia e caprichamos nos pratos. Tia Conceição se encarregou da rabanada cuja apresentação era irresistível. Daniela preparou aquele arroz carreteiro que eu tanto amava e eu fiz uma maionese deliciosa que incrementou a ave congelada.
Após a ceia, quando os adultos foram jogar cartas e as crianças monopolizaram a televisão, Dorminhoco trouxe as caixas de som do potente e recém-comprado aparelho de som para fora de casa e agiu como se fosse um DJ do leste europeu, nos apresentando os clássicos da dance music.
No fim das contas, todos voltamos à infância brincando na rua e por breves momentos, talvez, me esqueci do abuso, do medo que Gustavo impunha para mostrar sua soberania. De repente eu era aquela menina alegre ralando joelho, jogando com Daniela, Dorminhoco e Fuinha, tomando banho de mangueira com eles, subindo em árvore, satisfeita ao conseguir roubar um punhado de jabuticabas do vizinho ranzinza que bem lá, no fundo, era gente boa. Tudo havia se tornado simples e mágico novamente.
Fomos nos deitar quando o sol raiava no horizonte e acordamos ao meio-dia, almoçando as sobras da ceia e caindo de boca nos sorvetes preparados pela mãe dos gêmeos, cujos sabores eram: pé-de-moleque (Fuinha amava, paçoca (preferência do Dorminhoco) e doce de leite, o meu queridinho.
Um plantão televisivo duplo me chamou a atenção: em primeiro lugar, um fato histórico, a queda da União Soviética. O outro, ainda mais curioso: o corpo do prefeito de Guaratuba desaparecido desde o início do mês foi encontrado numa represa e a cidade decretava luto oficial por sete dias. Tudo levava a crer que foi assassinato, mas as investigações corriam sob sigilo.
No ano-novo, o trio e eu estávamos decidindo se faríamos uma festa na rua ou iríamos a uma danceteria no centro da cidade para recebermos 1992 curtindo o que havia de melhor nas pistas. Lá no litoral seria como sempre: papai, Eleonora, Milene e Tio Amado confraternizando unidos, acompanhando a queima de fogos pela televisão, turistas aproveitando as praias.
— Tem certeza de que você não pode vir antes do ano novo? — insistiu Mayra.
— Eu bem que gostaria, mas não sei quando poderei ver meus tios de novo, quero aproveitar bem minhas férias. Na segunda-feira voltarei e te entregarei o presente que comprei especialmente para você.
― Também comprei um presente para você… ― avisou Mayra.
― Espero que goste do meu, pinguinho. Dediquei a você com carinho.
― É uma pena que você vem depois da virada. Esse ano a Fernanda e eu já estamos organizando uma festa bem maneira de ano-novo.
As coisas realmente estavam mudando.
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