Confissões de Laly

12 10. Grafia da discórdia (Laly)


Terceira pessoa off/Laly on

O que me impediu de dar cabo da própria vida foi a proximidade de viajar para Curitiba a fim de prestar vestibular nos dias seguintes, como se eu tivesse concentração para estudar com tudo que estava acontecendo. Naquela época eu deveria aproveitar o tempo livre para revisar os conteúdos que poderiam cair na prova e me preparar emocionalmente para o certame.

Solitária e incompreendida recusei visitas, inclusive de Mayra. Recolhi-me na atmosfera de meu quarto reconhecendo não ser mais a Lalinha de uma antes. Fazia muito tempo que eu não abria a última gaveta da velha cômoda de mogno. Eu estudava na parte da manhã e sendo bolsista integral tinha de manter as notas altas, almoçava e ia para o salão da D. Emília, onde passava a tarde lavando, cortando e secando cabelos, atendendo o telefone, dedicando o turno da noite para fazer os deveres de casa, as leituras integrais das obras cobradas no vestibular. Aos sábados eu trabalhava o dia inteiro e quando não estava muito cansada, ia a algum bailinho. No domingo de manhã, missa. À tarde, vez por outra, saía para dar uma volta com Iury, entretanto, estando ele também obstinado em passar num curso concorrido, abdicava dos lazeres para estudar.

Iury não pertencia a alta sociedade, entretanto, a família Saciotti tinha condições financeiras melhores que as minhas porque os pais podiam pagar as mensalidades, o uniforme e o material didático do colégio, meu ex-namorado prestou vestibular na condição de treineiro. Ele foi aprovado em uma instituição privada de Curitiba, porém por não ter se formado nos estudos regulares, perdeu a vaga. O foco dele era estudar em Florianópolis, enquanto eu visava Curitiba. Com tantos quilômetros de distância, nosso namoro seria a distância e o amor teria de ser muito grande para sobreviver a todas as provações as quais seria submetido, que não seriam poucas.

A questão ia além de não querer estudar em Florianópolis, eu queria ir embora de Guaratuba de qualquer forma, porém eu não tinha parentes ou conhecidos na capital catarinense, mas em Curitiba eu estaria sob a tutela do Tio Abílio, sem falar que eu só consegui com muito custo fazer a inscrição para o vestibular da Federal, não pude me inscrever na PUC e nas demais instituições de ensino das adjacências que oferecesse o curso, como é de praxe para quem está saindo da escola.

Fazia muito tempo que eu não falava com a minha mãe. Embora eu sempre a tenha carregado no coração, escondia um plástico que encapava discos de vinil, ele foi jogado no lixo quando eu era pequena, mas resgatei-o, escondi-o e sempre que sentia necessidade, abria-o para rever Ingrid Antunes Moraes.

Ingrid era assunto proibido na casa. Eleonora manipulou Edílson de tal modo que ele se desfez de tudo que pertencia à mamãe. As roupas foram queimadas numa fogueira. Por sorte sobraram algumas fotografias e os poucos discos que minha progenitora teve durante a breve existência. Coloquei Stevie Wonder para tocar Ma Chèrie Amour e segurando a foto dela ao lado de papai, como se estivesse realmente perto deles, mas perto de verdade, sem Eleonora, sem ninguém.

― Tudo seria tão diferente se você estivesse aqui. Você não tem ideia do quanto me faz falta. É difícil crescer sem mãe, ter pai e ao mesmo tempo resguardar a sensação de ser órfão. Eleonora, em sua concepção, faria mais falta do que eu. Qualquer coisa que diga ele acredita, mas em mim não. Eu só existo para ele na hora de levar broncas e surras. Eu não aguento mais, mãe. Eu queria muito que você estivesse aqui.

― Oi, priminha?

Milene interrompeu minhas divagações.

― Tia Eleonora disse que você estaria aqui. ― Milene estava parada em frente à porta do quarto, com as mãos para trás, riscando levemente o chão de tacos com o pé direito, mirando os olhos brilhantes e enormes em mim, por todo o recinto que embora simples nunca foi bagunçado.

Desliguei a vitrola e deixei a foto de mamãe em cima da cômoda. Receber a visita de Milene era um pequeno consolo em meio àquela tempestade de lama que afundava o meu castelo.

― Não estou te incomodando, priminha? ― Milene abriu os braços e eu a correspondi, abraçando-a com muita vontade.

― Você é da casa. ― indiquei a minha cama para que ela se sentasse. ― Entra.

― Hum, Lalinha, você não me parece estar nada bem... ― Milene lançou um rápido olhar e percebeu minha pele branca em contraste com olheiras fundas de quem chorava todas as noites.

― Imagina, eu estou ótima!

― Eu te conheço de muitos carnavais, Laly. Qual é? Eu sou sua prima do coração ou agora que ficou noiva se esquecerá da nossa longa amizade? Porque mesmo que agora você esteja noiva, atarefada e tudo o mais, espero que se lembre de mim...

― Até parece coisa de Deus você vir aqui. precisando tanto falar com alguém...

― Algum problema, priminha?

Nós nos sentamos de frente uma para a outra.

― Por que você está triste, Lalinha?

― Você nem imagina as coisas que estão acontecendo comigo, priminha. ― Suspirei, já chorando, atitude que surpreendia, porque normalmente eu era aquela que consolava.

― É algo que eu possa ajudar? ― Milene apoiou a mão direita sobre a minha, atenta a cada palavra, cada expressão corporal, tudo.

― Infelizmente não, docinho. ― Balancei a cabeça e assoei o nariz em um lenço que ela me ofereceu.

― Mesmo? ― Insistiu ela, bastante consternada. Quem sempre estava triste era minha dócil prima, a incompreendida. O inegável sorriso denunciava sinais de alegria, esta que lhe soava inédita.

num beco sem saída, Mili. Você nem imagina o quanto eu queria ter sua idade e não ter nem metade dos problemas que tenho agora...

― Mas se eu fosse você, Lalinha, ficava mais espertinha quanto ao que se diz respeito ao Iury. ― Advertiu Milene, em tom de cautela.

― E por que diz isso, priminha? Algo de errado? ― Meu coração acelerou ao ouvir falar o nome dele.

― Você sabe que eu nunca gostei muito dele e nunca achei que ele fosse um bom partido. Se ele gostasse mesmo de você, não teria ficado com a tal da Aimée Gallardo, a nova vizinha, e tampouco me mandaria esse tipo de bilhetinho...

Milene tirou um papel dobrado de dentro do bolso da calça jeans e me entregou até com vergonha de me olhar. Devia ser algo gravíssimo.

― Se você não acredita em mim, leia, por gentileza, o que está escrito e depois me diz...

O bilhete, com a grafia de Iury, me chocou.

― Foi Iury que escreveu isso?

― Asseguro pelo que me é mais sagrado.

Milene meu amor,

Não poderia estar mais feliz por estar vivendo grandes momentos ao seu lado. É meio estranho ter me apaixonado por você estando com Lalinha, mas aconteceu e nós não podemos continuar renegando este lindo e puro sentimento.

Laly é passado. Estou deixando bem claro que minhas intenções com você são as mais decentes possíveis e antes de pedir sua mão em namoro, confesso que estou aliviado por saber que Deus usou o Gustavo para tirá-la de mim.

Aquela fuga foi apenas um mal entendido. Não fique chateada comigo.

Com amor,

Iury.

Meu coração afundou no peito.

― Não é possível! Não é possível!

Milene me abraçou:

― Eu sei disso! Muitos poderiam pensar que redigi o bilhete em caráter proposital para provocá-la, mas a grafia não nos deixa dúvidas de que pertença ao Iury.

― Não diga uma besteira dessas, Mili. Você é um anjo, jamais seria capaz de tamanha imundície.

― Laly, você já olhou no espelho? Você é maravilhosa demais para perder noites em claro chorando por esse fanfarrão.

― Ele... ele já tentou algo com você?

― Não precisamos falar sobre isso... ― Milene esquivou-se.

― Por mais dolorosa que seja a verdade, quero ouvi-la. Ele tentou investir contra você? Tentou? É só isso que eu quero que você me responda, Milene.

― Laly, eu não precisaria sequer ter o dom da clarividência para te dizer que você e o Iury não têm futuro. Iury é um rapaz sem caráter, sem nenhum escrúpulo. Veja bem, você foi fiel durante esses três anos, não tenho dúvidas disso, mas quando vocês tinham lá seus desentendimentos, eu não falei para não te magoar, mas você sabe sobre a Rádio Pirata, não sabe? Pois então, Iury se divertia com outras enquanto você definhava de tristeza e deixava de sair com as meninas. Mal você terminou com ele, assanhou-se todo para aquela ruiva assanhada que se mudou para a casa ao lado da sua e agora está... dando em cima de mim. Você crê que ainda precisa de mais provas para entender que o Iury te joga no fundo do poço? Vale a pena passar humilhação diante de seu pai por um sujeitinho desses?

― Eu vou tirar satisfações com ele... Vou tirar satisfações com ele...

— Não deveria.

― Ele precisa ouvir umas verdades...

― Lalinha, não!

― Ele pode fazer o que quiser com essa ruiva assanhada que se mudou, não estou nem aí, mas mexer com você, Mili, é demais. Eu quero falar umas verdades para esse desavergonhado, safado... O que ele quer com isso?

― Seria exposição por demais. ― Aconselhou-me Milene, tomando o posto que outrora era meu, o de aconselhar. ― Além de macular a imagem dos Figueira Antares, a noiva de Gustavo Figueira Antares tirando satisfações com um João Ninguém por causa de um bilhete sem importância seria prato cheio para a Rádio Pirata ter pauta para um bom tempo. A melhor estratégia de vingança é o casamento com o Gus, Lalinha. Ele vai se arrepender por magoá-la quando você estiver muito feliz nos braços de Gustavo. Ele nunca vai ser ninguém nessa vida, iludido de que vai ser médico, sendo que como ele tem um monte por aí. Ele é um João Ninguém, nunca vai conseguir alguém como você, você foi a melhor coisa que aconteceu na vida dele e ele conseguiu perder. Deixe-o minguar pelo remorso. Seja superior a isso. Nunca te falei isso antes por receio de te magoar, mas agora que Iury é carta fora do baralho, tomo a liberdade de dizer que Iury nunca me inspirou confiança... eu nunca te contei por medo, medo de perder sua amizade, mas muitas vezes Iury me olhou de uma forma que me incomodava...

― Canalha, desavergonhado, pervertido...

― E qual será seu ganho tirando satisfações?

― Três anos da minha vida perdidos.

― Sob o risco de jogar fora uma vida feliz ao lado do Gus?

― Eu não amo o Gus.

― Ama, sim. Você ama o Gus, só tem medo que ele vá embora de novo, porque tem medo da concorrência, mas não tenha, Gus é louco por você. Esqueça Iury, não jogue sua vida fora por causa de um João Ninguém.

Milene me persuadiu a não ir até a borracharia onde Iury trabalhava e, contrariando-a, fui, fui com a restante compostura que não me impediu de cumprimentar meu ex-namorado com uns merecidos safanões vistos pelos colegas dele, rindo da situação, da palhaça que se expunha ao ridículo ao acertar as contas com quem não deveria nem mais dirigir a palavra, mas eu almejava por uma explicação. Merecia consideração pelos três anos de namoro e ele, controvertidíssimo, estava flertando com minha prima de apenas catorze anos enquanto jurava fugir comigo.

― Esse bilhete é o que eu mandei a você. Por que os gritos? Por que o barraco? ― Indagou Iury, atônito.

― Dando em cima da minha prima debaixo do meu nariz... Você não vale nada mesmo!

― Eu nunca nem cheguei perto da Milene na vida! ― Defendeu-se o rapaz, com um fio de voz, as pupilas dilatadas. Milene soava tão plena.

― Você está pensando que eu sou idiota, cara? Por que não experimenta ler o bilhete?

Ele leu, engolindo em seco, aturdido:

― Vai mentir agora? Vai dizer que não escreveu nada?

― Está havendo um grande equívoco, Lalinha. Eu juro a você que está havendo um grande engano.

— Com todas as provas acusando você? ― Comentou Milene.

— Alguém armou uma emboscada no meu nome, Laly. Acredite em mim!

― Em conto da carochinha eu não acredito mais. Nem vem que não tem!

― Lalinha, por Deus, eu não escrevi isso!

― Contra fatos não há argumentos ― enfatizou Milene. ― A grafia é sua, Iury. Aliás, eu só tenho catorze anos, ainda sou muito nova para namorar e não tenho interesse em você. Por favor, me deixe em paz, seu tarado. Nunca mais chegue perto da minha prima.

Milene rompeu em prantos.

― Milene, não jure em falso. Você sabe muito bem que eu nunca toquei um dedo em você.

Milene me abraçou apertado, escondendo a cabeça nos meus ombros.

― Seu doente, pervertido... tudo de que menos Milene precisa é de mais dor... mesmo que eu me case com o Gustavo, vou cuidar da minha prima e não vou permitir que nenhum desgraçado que nem você tire a inocência dela...

Por favor, Lalinha, me tira daqui! ― Suplicou Milene.

― Não acredita nela! ― Iury pediu, com os olhos úmidos. ― Ela é doente. Está havendo um mal-entendido! Por favor, Laly, me escuta!

― Não chega mais perto de mim! Não fale mais comigo, Iury Saciotti. Você morreu para mim!

Levando Milene para fora da borracharia, esperei-a se acalmar.

― Eu prometo que esse cara nunca vai te fazer mal.

― Ai, Lalinha! ― Milene me abraçou. ― Você sabe que é a irmã mais velha que o papai do céu não me deu, sabe?

― Você sabe que eu te considero irmã, irmã de coração, irmã não precisa ser de sangue, mas tem que morar no coração.

Segurei as mãos de Mili e disse olhando fundo nos olhos dela:

― Mili, sinto muito te expor a essa situação desagradável, mas infelizmente às vezes as coisas não dão certo. Eu fiz escolhas erradas ao insistir em querer aquilo que não era bom para mim, você não precisa seguir o meu exemplo. Acredite, no momento certo, quando Deus providenciar, um rapaz de boa índole vai notar todos os seus predicados e te oferecer amor. Por mais que seja chato ficar sozinha enquanto todas as outras namoram, é melhor ficar sozinha, estudar bastante, fazer tudo certo. Tudo tem o seu tempo. Eu olho para você na sua idade e vejo o quanto era tão menina, que não tinha ninguém para me dizer o que eu estou te dizendo, porque se tivesse, eu teria feito escolhas melhores e provavelmente hoje estaria numa situação bem melhor. Nem todos os caras são como o Iury. Nem todos são.

Sem sorte no jogo, feliz no amor. Sem sorte no amor, o vestibular ainda poderia ser um bom atalho de fuga. Mas nem tudo seria tão fácil.