Confissões de Laly
4 2. Em apuros (Laly)
Notas iniciais
Iury partiu para Florianópolis ainda naquela tarde de sábado. Estávamos de bem novamente. Eu tinha uma festa para ir à noite na casa de um amigo em comum, ele iria encarar três dias de prova. Toda sorte do mundo ainda era pouca para o imenso desafio.
Antes de me encontrar com Mayra e Grazielle no salão da D. Emília, me voluntariei para ajudar as freiras a organizarem a bagunça deixada pelos formandos, tudo para não ter que voltar para casa.
Quando terminei o trabalho, um pouco cansada, reconheci o carro de Gustavo Figueira Antares estacionado e com os dois vidros abertos. No mínimo era inusitado encontra-lo ali naquele dia, naquelas circunstâncias. Geralmente ele voltava da capital somente para as festas de fim de ano e ainda faltava um bom tempo para o Natal.
De qualquer maneira, o próprio, com o assobio mais irritante do mundo, me tirou do transe:
― Ei Lalinha, psiu. — Gustavo se aproximou da janela do carona e abriu aquele sorriso de galã mexicano, abaixando o volume do rádio.
— Gustavo? O que você faz aqui?
O som do rádio estava tão alto que dava para ouvir a duas quadras de distância.
— Vim ver a minha princesa. — exultou Gustavo. ― Não está surpresa por me ver?
― Não, não. É que...
― Entra aí. Vou te levar para casa.
― Não estou pensando em ir para casa agora não. Eu ia... Ver a Milene...
― Deixa de ser orgulhosa e entra aí, princesinha. Eu posso te dar uma carona até lá.
— Como soube que eu estava aqui?
— Dei uma passadinha na casa dos seus pais e eles me disseram que você estaria aqui. Que bom que não perdi a viagem.
— A casa da Milene é perto daqui, Gustavo. Não precisa se incomodar. Você vai ficar muito tempo em Guaratuba?
— Entra aí! Eu te levo até a casa da Mili e nós vamos conversando. Você sabe que não é nenhum sacrifício para mim.
Entrei no carro, fechei a porta, coloquei o cinto de segurança e Gustavo, a fim de criar uma intimidade maior comigo, sintonizou em minha estação de rádio favorita. Por mais que a sequência de músicas estivesse boa, sua presença não me agradava porque de alguma forma eu sentia falsidade naqueles elogios todos.
― Você nem imagina por que voltei antes para Guaratuba.
― Para convidar todo mundo para a sua formatura?
― Sim e não.
― Como assim? Acho que não entendi direito. ― Meu espanto denotava que aquela afirmação era um bocado incoerente. Todo mundo sabia como ele estava com o rei na barriga por ser o sucessor natural de Jordano Figueira Antares.
― Minha formatura será em janeiro e é claro que você e sua família estão mais do que convidados, mas não vim apenas para a minha velha Guaratuba com a finalidade de descansar. Vim oficializar o meu noivado.
— Noivado?
— Sim, eu estou noivo.
— Meus parabéns, Gustavo! Quem é ela?
Gustavo sorriu para mim.
— Quem é ela, Gustavo? Eu a conheço?
— Eu não conheço outra Lalinha na cidade! — Esclareceu Gustavo, presunçoso, correndo as mãos pelas minhas coxas. Tratei logo de me afastar um pouco no banco a fim de demonstrar que não tinha paciência para saliências.
— Do que você está falando?
— De nós dois. — respondeu Gustavo olhando para a rua.
― Gustavo, nós não somos namorados.
— Agora nós somos noivos. — Declarou Gustavo com uma convicção assustadora. — Eu já falei com o sogrão e ele está exultante, vendo estrelas, mal vê a hora de ser um Figueira Antares.
— Você só pode estar brincando, não é, Gustavo?
— Não estou brincando.
— Diz logo quem é a sua noiva e para de palhaçada porque eu não tenho paciência.
— Eu sou o seu noivo. — exasperou-se Gustavo.
— Desde quando?
— Desde sempre.
— Eu amo o meu namorado, Gustavo. Pare de me perseguir. Eu não gosto de você.
— O que vale mais para você: a felicidade do seu velho e bondoso pai ou um namorico sem futuro?
Gustavo Figueira Antares além de ter uma memória muito fotográfica também era conhecido pela extrema obstinação. Não fazia ideia de que um simples beijo no terraço da casa dele anos antes seria capaz de desenvolver aquela fixação pela minha pessoa. Pensei, naturalmente, que os anos fariam com que o mauricinho se esquecesse daquele beijo que não me trazia boas lembranças.
Que amor era aquele?
― Se me amasse, respeitaria minhas decisões...
― E respeito... — concordou Gustavo balançando a cabeça com cinismo.
― Então largue mão de ser egoísta e saiba que eu também tenho planos.
― Eu sei disso, Lalinha.
― Gostaria que alguém arruinasse seus sonhos?
― Mas é claro que não...
― Pois é isso que você está fazendo comigo, não sabia?
― Laly, jornalismo é um curso concorridíssimo. Entendo que seja esforçada, mas é melhor garantir um bom futuro se casando, não com aquele pobre coitado. Olha quem eu sou e olha quem ele é. Meu pai vai ser candidato a prefeito, inclusive já governou Guaratuba e muito bem, por sinal. Os Figueira Antares têm respeito, tradição, inclusive mais adiante eu pretendo lançar minha candidatura para deputado estadual e desde cedo preciso seguir os passos do meu pai, ter uma conduta ilibada, uma esposa respeitável e você é a mulher da minha vida. Você vai trocar o final feliz de um conto de fadas para ficar com um maloqueiro sem futuro? Você é uma princesa e merece viver como uma. Casando-se com o Iury, no máximo vocês conseguem um lugarzinho debaixo da ponte.
― Espero que um dia você engula tudo o que está dizendo.
― Sei que pode parecer cruel falando assim, Lalinha, mas é a realidade. Você nasceu para ser minha mulher.
― Eu não quero ser a razão dos seus sonhos, Gustavo. Essa sua obsessão doentia já extrapolou todos os limites toleráveis.
Gustavo não sabia ouvir não.
— Lalinha, nós somos adultos agora, podemos nos entender! No passado você era muito nova, ainda não estava pronta para um homem como eu, mas tudo conspirou a nosso favor. — Gustavo tinha a mania de querer falar por nós dois, algo que eu odiava, porque não era daquele jeito. — Eu sei que quando você estava com Iury era em mim que estava pensando...
Numa investida bastante ofensiva, ele tentou roubar um beijo e foi repelido. Insistente, não aceitei de maneira alguma qualquer espécie de contato físico, olhando para as casas na expectativa de logo estar perto da rua de Milene e me livrar dele que na quarta tentativa precisou pisou no acelerador porque fiz menção de abrir a porta.
Por pouco Gustavo não acertou em cheio a traseira de um carro que estava parado no semáforo.
― Leva-me para casa? — Pedi, cordata, sem clima nem mesmo para visitar Milene e contar-lhe como foi a festa de formatura.
― Tudo bem... ― assentiu ele como se tivesse entendido que eu não podia compactuar com a loucura dele de querer se casar comigo na marra.
― Estou com dor de cabeça e acho melhor descansar um pouco.
Gustavo não cumpriu o habitual trajeto para me deixar em casa, seguiu adiante, pegando a estrada.
— Gustavo, a minha casa não é por aí.
— Nós não estamos indo para a sua casa.
— Mas eu quero ir para casa!
Em razão da chuva forte que impedia até mesmo o retorno a Guaratuba, Gustavo parou o carro no acostamento daquela estrada de barro, tirou o cinto de segurança e tascou-me um beijo babado nos ombros, massageando-os. Eu repeli as investidas, mas ele insistiu com aquela língua fedorenta tocando os meus ouvidos, o meu pescoço, querendo entrar no céu da minha boca. Eu não retribuí e da maneira que podia não o deixava avançar o sinal.
― Laly, me deixe plantar em você o fruto do nosso amor. — implorou Gustavo.
― Você não vai plantar nada porque eu vou sair desse carro agora. Para com isso, por favor!
— Lalinha, eu sou seu noivo, você já pode se entregar para mim. Eu sou seu, você é minha. Faremos desse momento o nosso grande segredo. Anda, entregue-se para mim!
— Não vou me entregar coisa nenhuma! Vê se me respeita!
A chuva felizmente estava enfraquecendo e a neblina se dissipando. Poderíamos seguir viagem. Respirei fundo de alívio porque assim procedendo, Gustavo faria a volta com o carro e tão logo eu estaria em casa tomando banho para ir à festa com as meninas. No entanto, aquele cafajeste desabotoou a minha calça jeans mesmo com os meus esforços para impedi-lo e enfiou dois dedos dentro da minha calcinha. Ofendida, desferi uma cotovelada bem forte no rosto dele.
Não era não e ele tinha que entender.
Meu punho, jamais acostumado com tanta brutalidade, chegou a doer. A raiva consumia cada centímetro de meu corpo e movida por ela, uma loucura estava por vir.
― Ficou louca? O que você fez? ― Gustavo estava indignado com a minha reação. Por pouco não quebrei a mandíbula daquele traste.
― Se você fizer isso de novo, eu acabo com você.
― Eu nem toquei em você. Foi você que me agarrou. Não se lembra?
Eu, sempre conhecida por ser uma garota pacata, estranhava que a ira fizesse até o timbre da minha voz se alterar. Empurrei Gustavo contra o banco, segurei com força os lábios dele e rangendo os dentes, me impus:
— Não me trate dessa forma, pois eu não sou sua propriedade. Se você tornar a me desrespeitar, eu acabo com você.
― Eu em seu lugar não destrataria o seu futuro marido assim.
― Meu. Futuro. Marido... Nem morta!
— Você não tem escolha!
— Tenho! E uma delas é não querer olhar para a sua cara!
— Eu não estou gostando do seu comportamento, mocinha. — advertiu Gustavo, encarapitando-se no assento do motorista. — Onde é que aprendeu a ser tão mal-educada?
— Não é da sua conta.
Tentei abrir a porta do carona para sair, mas a mesma emperrou e aquilo servia de motivo para Gustavo se debulhar de tanto rir. Quando consegui dar o primeiro passo para fora do carro, o canalha me puxou pelo cabelo e me deu três bofetadas.
— Escuta aqui, sua desqualificada, você vai fazer o que eu mandar se não quiser ter problemas com o seu velho.
— Deixe-me ir embora!
— Você só vai embora quando eu quiser! ― entoou ele, deixando claro pelas entrelinhas que para ele a mulher era apenas mais um objeto de propriedade, que estando nas mãos dele devia-lhe apenas a obediência, nada mais.
― Gustavo, isso não é amor.
― Ninguém no mundo nunca vai te amar como eu te amo.
― Não vou me casar com você nunca. Por favor, me deixa em paz.
― Já falei com seu pai e com a dona Eleonora. Eles concordam que sou um bom partido para você. Não vai querer desapontá-los, né?
― Quando eles souberem quem você é, terão remorso em saber que me deixaram vulnerável a um monstro que se prevalece de sua iniquidade porque pode comprar a justiça.
― Tenho certeza de que seu pai não vai gostar nada de saber disso.
― Meu pai vai saber quem você é de verdade.
Relembrar nem sempre é viver, mas trazer ao presente fragmentos de um passado mal resolvido.
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