Confissões de Laly

5 3. O primeiro beijo


Notas iniciais
Narrado em terceira pessoa, para vocês saberem o que aconteceu na mesma noite de 30 de novembro com os outros personagens.

Laly off/terceira pessoa on

Guaratuba, 30 de novembro de 1991.

Eleonora Moraes varria a cozinha com má vontade ouvindo música no obsoleto rádio de pilhas cujo som se assemelhava a uma irritante caixa de abelhas. Estava de folga no trabalho e, nesses dias, quando não estava de porta em porta se atualizando das fofocas do bairro ou visitando algum parente, não tinha saída senão inventar algum trabalho para fazer antes de ser consumida pelo profundo tédio.

Aos sábados era impossível tirar Edílson do sofá, ele não topava nenhum programa, não tinha ânimo para nada, o que explicava também o fato de ser um funcionário medíocre que trabalhava havia quinze anos na empresa sem sequer ter sonhos mais altos. A televisão era o guru daquele homem. Os programas de palco cujas animadoras em trajes provocantes tinha toda a atenção dele, que várias vezes reprimia o desejo.

Aos domingos, depois da missa, era a vez do futebol. Eleonora esperava os domingos para ver o Programa do Rubão, pois se divertia com as câmeras escondidas, as vídeo-cacetadas e tinha esperança de ganhar prêmios nos sorteios daquele título de capitalização que o comunicador promovia semanalmente. Restava-lhe criatividade para preencher aquele tempo vazio em que um campo de futebol era o templo do esposo e as horas faziam troça dela.

— Eleonora. — berrou Edílson, na sala.

— Que é, homem? — Eleonora também respondeu aos gritos, reconhecendo em cima da geladeira vermelha os convites para a formatura de Laly.

Edílson adentrou a cozinha olhando para as panelas que estavam no fogão, coçando a barriga por baixo da regata esturricada.

— Eu estava pensando com os meus botões que a Lalinha tinha dito que hoje era a formatura dela.

— Formatura? De quê?

— Da escola. Eu acho. Ela já terminou a escola?

— Que milagre que ela se formou na escola, não concorda?

— Será que se nós nos arrumarmos ainda podemos chegar a tempo? — sugeriu Edílson.

— Pensou tarde demais nisso, Edílson. — lamentou Eleonora com cinismo. — E eu também não acho que ela nos queira por lá. Laly mais vive fora de casa do que aqui; nem dará nossa falta.

Ao som de Groove is in the heartDee Lite, Grazielle e Mayra provavam combinações de roupas ainda na expectativa da chegada de Laly, pois o combinado era de as três irem juntas à festa.

— Será que a Lalinha não vem mais? Ela prometeu que vinha se arrumar aqui. — refletiu Mayra, preocupada.

— Vai ver ela deu uma passada para ver a Milene. — supôs Grazielle apreciando um colete jeans o qual vestiu no corpo.

— Queria às vezes que a Naira fosse legal igual à Laly. — suspirou Mayra sentando-se na cama, dividindo espaço com uma pilha de roupas que teria de colocar no lugar, uma vez que Naira sempre foi muito obcecada por limpeza e organização.

— A Naira também é legal, só que é meio reservada...

— Claro que ela é legal, mas poxa, ela fica magoando o coração do Nilton falando que vai se internar no convento.

Naira, que veio chamar a irmã para jantar, acabou escutando a conversa:

— Nilton moveria céus e terra por ela — declarou Mayra. — Ele dá a entender que está apaixonado, mas ela parece que não se toca!

Mayra, usando um vestido jeans preto, colocou espuma de ombreira dentro dos sutiãs infantis e rodopiou empolgada:

— Aparento ter quase 15?

— Esse enchimento não convence a ninguém, Mayra. — confessou Grazielle.

— Fala isso porque já parece uma moça. — choramingou Mayra que tinha sérios complexos com o corpo, sobretudo porque apesar de seus catorze anos aparentava doze ou menos e em função disso não era a primeira opção dos garotos.

Mayra tirou o enchimento do sutiã e Naira entrou no quarto com a tradicional expressão de impassibilidade, como se não tivesse escutado nada atrás da porta e se espantado por saber que Nilton a enxergava muito mais do que como amiga, mas em respeito ao vínculo que os unia, aceitava a condição de amigo e guardava todo o amor que sentia dentro de si, sem sequer pedir uma chance de mostrar que podia ser um bom namorado, quem sabe até marido.

— Hora de jantar, dona apressadinha. — Naira retrucou apontando para a espuma de ombreira que Mayra tentava esconder (em vão). — Ai de você se mamãe ver isso aí.

— Ai nada. Vê se não coloca o nariz onde não é chamada! — Mayra recolocou o enchimento dentro do sutiã: — Vou a uma festa e preciso parecer mais velha.

— Nem que você quisesse. — debochou a irmã mais velha.

Aimée, Fernanda e Gabriel eram três irmãos que haviam se mudado com o pai para Guaratuba recentemente em função da transferência de Gilberto por conta do trabalho. A mudança, apesar de transtornar os jovens a princípio foi muito bem acolhida por eles que enxergaram como uma boa oportunidade para recomeçar a vida longe de Chapecó onde nasceram e cresceram, estando enterrada a distinta senhora Lílian Helena Gallardo, a falecida mãe.

Gilberto voltou para Chapecó para tratar de burocracias envolvendo questões trabalhistas e sendo assim, Aimée, a filha mais velha, ficou incumbida de olhar pelos mais novos, Fernanda e Gabriel, ambos com 15 e 14 anos, respectivamente.

O sobrado ainda estava bagunçado, nem todos os objetos estavam devidamente colocados no lugar, mas a televisão já estava apoiada numa mesa na sala e um colchão velho servia de sofá, no entanto nem mesmo as melhores câmeras escondidas eram capazes de prender a atenção de Fernanda e Gabriel que escutavam o som de Pump up the jamTechnotronic.

— Festa? — indagou Aimée, cuidando da panela onde cozinhava macarrão para servir aos irmãos.

Fernanda, curiosa, foi até a janela espiar e percebeu a movimentação. Era um carro parado. Nele entraram três jovens da mesma faixa etária que ela.

— E das boas... — suspirou Fernanda.

— É uma pena que a gente não conhece ninguém. — lamentou Gabriel que costumava ir a bailinhos com as irmãs antes de a mãe morrer.

— Que não seja por isso... — desafiou Fernanda.

— Você só pode ter ficado louca, né, Fernandoca? — censurou Gabriel que apesar de ser o mais novo, fazia juízo de (quase) tudo, contrapondo-se à espontaneidade de Fernanda. — O que a gente vai fazer na festa de um estranho?

— Vamos fazer parte da comunidade, não vamos? — explicou a filha do meio da família Gallardo. — Seria uma ótima oportunidade para nos apresentarmos aos novos vizinhos e futuros colegas de escola. Na posição de uma futura Miss Brasil, preciso desde já ter muitos contatos. Quem não tem contato nessa vida não tem nada.

— Vai que nessa festa tem um gatinho? — refletiu Aimée, que mesmo se decepcionando com garotos, nunca perdia a esperança de encontrar o tal do príncipe encantado por acaso, fosse numa praia deserta, numa festa ou até mesmo na igreja. Todo lugar podia reservar-lhe uma surpresa.

— Lá vem você com essa história de gatinho. — irritou-se Fernanda, subindo as escadas para se arrumar.

— Vão vocês! Eu fico em casa... — Gabriel avisou cruzando os braços, dividido entre passar uma noite procurando o que ver na televisão ou então entrar de penetra numa festa cheia de pessoas estranhas.

— Pode ficar aí vendo televisão, bebezinho — atiçou Aimée.

— Quem é bebezinho, hein? — Gabriel, ultrajado, levantou-se do sofá e desligou o aparelho televisor no botão: — Nós vamos, mas eu já digo de antemão que vou só para ver vocês pagarem mico.

Aimée, Fernanda e Gabriel entraram como penetras na festa. Havia tanta gente no local que o plano das irmãs Gallardo obteve imediato sucesso.

Amado Moraes bateu na porta do quarto da filha, que não objetou a sua entrada.

Milene Moraes não aceitou o convite da prima Laly para participar da formatura e por ter uma inteligência acima do normal não gostava de badalações, preferindo mil vezes a companhia de um bom livro, e em matéria de leitura superava Lalinha porque devorava uma obra atrás da outra, o que justificava o seu vocabulário refinado para uma adolescente da idade.

Amado, ainda assim, não deixava de se preocupar com a reclusão da filha, temendo que a mesma perdesse o traquejo social e não soubesse sobreviver longe dele e de Lalinha.

— A vida é tão horrível, papai. — respondeu a adolescente sem tirar os olhos de um romance policial.

— Por mais difíceis que sejam alguns dias, jamais diga isso, Milene. —

Amado pediu licença para sentar-se ao lado da filha na cama de casal:

— A vida é maravilhosa. Nma hora dessas você poderia estar em uma festa se divertindo como Grazi e May, mas está aí triste por razões que nem mesmo os médicos conseguem descobrir.

— Grazielle e Mayra têm vergonha de mim, papai. — gemeu uma Milene entristecida que colocou o marcador no livro a fim de retornar a leitura quando ficasse sozinha no quarto de novo.

— Não deve ser verdade. — objetou Amado, colocando Milene no colo.

— Elas tiram sarro de mim porque não chamo a atenção dos meninos. Eles também não dão a mínima para mim. Eu também não me importo. Não preciso de amigos. Não preciso de ninguém.

— Você não chama a atenção dos meninos ou de um em especial?

Milene abaixou a cabeça.

— Há nesse mundo um garoto que seja capaz de desprezar a joia rara que você é, Milene?

A garota fez o impossível para não falar sobre o assunto e Amado compreendeu que era o momento de deixa-la sozinha, afinal de contas, Milene não era uma criatura dada a conversar demais, preferia o silêncio e desde que estivesse satisfeita, nada mais importava para ele.

— Não sabia que o Julinho tinha tantos amigos...

— Está brincando? — lembrou Mayra. — Ele é um dos garotos mais populares do bairro, Grazi. Quem não viria à festa dele? Ainda mais a festa de formatura dele?

— Você me espera aqui? — pediu Grazielle. — Eu vou apanhar um refrigerante.

— Então pega um pra mim também... — sorriu Mayra.

— Eu não demoro!

Grazielle, distraída com a música que estava tocando, procurava a mesa onde estavam os docinhos e refrigerantes e sem querer esbarrou em Gabriel que de todos os modos tentava não ser visto, ainda temendo ser expulso da festa a vassouradas.

— Ô... Vê se olha por onde anda, moleque... — resmungou Grazielle.

— Pe... Perdão... — gaguejou Gabriel, envergonhado o dobro por estar diante de uma menina bonita.

Grazielle serviu refrigerante em um copo de plástico para si mesma e Gabriel, para disfarçar, fez o mesmo:

— Nunca te vi lá no colégio. — comentou Grazielle, apenas para quebrar o clima ruim de uma primeira impressão desastrada. — Estuda à tarde?

— Eu... Eu não sou daqui... — explicou o garoto.

— Oh que legal! Seja bem-vindo! Como se chama?

— Gabriel, mas minhas irmãs, pra me provocar, me chamam de Biel. E você?

— Eu me chamo Grazielle, mas todo mundo me chama de Grazi.

— Você é a dona da festa?

— Conhecida do dono... E você?

— Penetra... — respondeu Gabriel, atitude que arrancou risadas de Grazielle, pela sinceridade e também pelas expressões angelicais do garoto que passavam a chamar a atenção dela.

— Pudera todos os penetras serem bonitos igual a você. — pensou Grazielle, analisando a fisionomia retraída dele. — Que não seja por isso! Agora você já me conhece...

Gabriel abriu um largo sorriso em retribuição.

— E não vai demorar muito para você conhecer todo mundo.

Mayra encontrou Grazielle conversando com Gabriel, compreendendo o porquê de ter ficado sem refrigerante:

— Logo imaginei que seu sumiço tinha alguma explicação.

— May, ele é o Gabriel. Gabriel, ela é a Mayra, minha melhor amiga. — pronunciou-se Grazielle.

— Prazer. — Gabriel cumprimentou Mayra e percebeu os enchimentos de ombreira escapando do vestido da garota: — Ei, menina! Tem espuma na tua blusa...

— Espuma? — Mayra, disfarçada, riu de si mesma: — Ah, sim...

Mayra logo foi abordada por um amigo e tão logo Gabriel e Grazielle estavam sozinhos novamente, ganhando mais tempo para conversarem e se conhecerem:

— Que legal! Duas irmãs... — suspirou Grazielle que era filha única.

— Legal? — bufou Gabriel. — As duas me matam qualquer dia. Elas me deixam louco.

— Eu não tenho irmãos, mas tenho uma mãe que é quase uma irmã mais velha.

— Minha mãe morreu há um ano.

— Meus pêsames. Não é fácil perder os pais tão cedo. Eu que o diga... Meu pai morreu quando eu tinha nove anos.

A algumas mesas longe dali, Fernanda jogava xadrez com o dono da festa e ele nem sequer importou de que maneira a bela garota chegou até o local, com a condição de que pudesse olhá-la.

Aimée, que tanto tentava paquerar, sempre que se interessava por algum garoto ou ele já estava compromissado ou tirava outra garota para dançar.

— Se eu não tomo a iniciativa reclamam que sou tímida. Se chegar e pedir pensam que sou atirada. Bem que os garotos podiam entrar num consenso.

Para ela a festa não estava tendo a menor graça, enquanto que para Gabriel e Grazielle, sentados à beira da piscina, o encontro não podia ser menos do que uma transação bem feita do destino.

— Sabia que você é a menina mais bonita dessa festa? — flertou Gabriel.

— Se é assim, obrigada!

— Eu estou falando sério, Grazielle...

— Grazi... — O sorriso de Grazielle só contribuiu para Gabriel se encantasse ainda mais pela menina de cabelos cacheados caindo pelos ombros.

— Grazi. — repetiu ele bem baixinho como se sentisse cada letra na ponta da língua.

Cabisbaixo, Gabriel olhava para o reflexo turvo da piscina, escutava a música Just like you do – Carly Simon embalar o clima de romance que também estava tomando conta de outros casais, com o coração batendo num ritmo acelerado que não tinha associação direta com o medo de algo.

Aquele frio na barriga era enigmático, mas arrebatador, sintoma clássico de paixão, ele sabia mesmo nunca tendo gostado de outra garota antes, sabia disso porque tinha irmãs e as duas eram românticas, cada uma a seu modo, sendo Aimée a mais tradicional apesar de ingênua e apressada, enquanto Fernanda munia-se de coragem para aceitar a conotação metafórica dos livros, mesmo não sendo uma leitora das mais ávidas.

Elas com certeza fariam a maior troça se o encontrassem de mãos dadas com uma garota, ah como ririam, não perderiam a oportunidade de achincalhá-lo, no entanto também era de sua ciência que poderia confiar em uma delas para esclarecer dúvidas, para saber direitinho se tinha chances ou não. Era incrível como elas entendiam dessas coisas. Tudo para ele soava tão misterioso e pragmático. Elas facilitavam tudo. Era como se olhassem para os garotos e pudessem ler a alma deles antes que tocassem o corpo ou o próprio coração que sempre se rendia a tamanha doçura.

Grazielle estava ao seu lado. Gostaria de pedir o beijo, mas não se asseguraria da resposta, logo não lhe sobrou alternativa a não ser roubá-lo. Era questão de não pensar muito, porque encontraria mil motivos para se censurar.

Foi um estalo breve e instigante, o sinal verde para Grazielle aproximar-se mais e juntar as mãos, beijando dedo por dedo do garoto, até por fim beijá-lo nos lábios, sem a língua, porque afinal de contas apesar de mentir para Mayra que já havia ficado com seis garotos, aquela era a primeira vez que realmente se atraía por um e conseguia engrenar uma conversa bacana com alguém que a deixou completamente à vontade para tentar. Tendo o gesto correspondido, as línguas se encontraram e a harmonia dependeria do encaixe.

Eles descobriram sem esforço qual era o gosto do primeiro amor.