Confissões de Laly

17 15. A primeira vez de Iury


Notas iniciais
Atenção, leitores! Este capítulo contém cenas quentes de sexo, então aqueles que não gostam de hot podem pular a cena se assim lhes for conveniente, mas os que não enxergarem problema nisso, tudo bem! Como o foco da história não é o hot, ele não faz tanta diferença. Obrigada pelas visitas!

Laly off/Terceira pessoa on

Conceição sentiu-se mais aliviada por saber que não era a única que desconfiava da falsa alegria de Laly.

― Laly não está bem. ― Abílio externou com Conceição a preocupação que o atormentava desde que reviu a sobrinha.

― Está com saudades do noivo, Abílio. Daniela também fica chorosa quando está separada do Everton.

― Não creio que se limite a isso, meu bem ― prosseguiu Abílio. ― Não gostei nada de ver aqueles hematomas da minha afilhada. Alguma coisa não está certa!

― Você também percebeu os hematomas?

― Laly aparentou estar amedrontada. Quando a abracei pude perceber isso. Laly sempre foi tão efusiva, calorosa, mas me parece tão reativa, distante, chorosa...

― Temo fazer perguntas invasivas e deixar Laly constrangida, mas tem algo de muito errado acontecendo.

Nilton tinha um álbum onde guardava muitas fotos de Naira, inclusive a imagem oficial da turma, tirada especialmente para a formatura.

Deitado em seu leito, o garoto abraçava a foto e suspirava de amor, mesmo que não conseguisse tirar da cabeça a dança com Mayra que também o balançou muito. A música estava tocando na rádio.

Nilton embarcou para Curitiba no dia seguinte porque também prestaria vestibular e esses dias longe de Guaratuba seriam muito bons para colocar os sentimentos em ordem.

Mayra costumava ouvir música romântica antes de dormir e quando reconheceu o som que dançou com Nilton, fechou os olhos e reviveu toda aquela sensação maravilhosa de ser cortejada por um garoto, saber que uma canção teria o poder de guardar tantas lembranças boas e agradáveis. Ela própria não entendia como a irmã não enxergava o amor que lhe estendia a mão.

Milene, por sua vez, virou a noite em claro para arquitetar perfeitamente aquele que seria sem dúvida alguma sua pior vilania.

― Logo pela manhã entrarei em ação e farei Aimée Gallardo se arrepender do dia em que nasceu. Nem que isso me custe tempo, dinheiro e ódio, mas passo por cima de quem for para ter Iury junto a mim...

Amado, passando pelo corredor, notou que a luz do quarto da filha estava acesa e adentrou o ambiente sem bater na porta antes porque era comum que a garota adormecesse por cima dos livros e ele ajeitasse a cama para ela dormir bem, mas não era o caso.

Milene estava acordada fazendo anotações, bastante reflexiva.

― Ainda acordada, meu anjinho? ― perguntou Amado.

― Estou sem sono, papai. ― Milene, sem tirar os olhos das anotações, respondeu sem emoção.

Amado se sentou na cama da filha e a afagou:

― Quer colinho do papai? Leite quente? Água? Chá?

― Não, obrigada, papai.

― Não quer nem o colinho do papai?

Milene, aos olhos do pai, ainda era a menininha que tinha pesadelos noturnos e corria para seus braços com medo dos monstros invisíveis e imbatíveis. Embora relutasse de ser colocada no colo, sabia que fazia parte do estratagema honrar a imagem de boa menina.

― Fico muito satisfeito em ver minha princesa se esforçando para não adoecer mais.

― Minha vida tem sentido agora, papai. ― sorriu Milene.

― Sempre teve, Mili. Você é que demorou um pouco para perceber.

― Terá muito mais quando destruir Aimée e Laly. Aí sim eu poderei dizer que sou muito feliz... ― refletiu Milene em pensamento.

Aimée e Iury saíram para passear à noite, caminhar pelo Morro do Cristo, tomar água de coco no calçadão. Um típico programa a qualquer outra pessoa, sobretudo naquele verão que se avizinhava sem grandes alardes.

Aimée sentia-se plena ao caminhar de mãos dadas com o namorado e de beija-lo em público sem qualquer receio. Primeiramente os adolescentes pararam em frente a um coqueiro e se beijaram levemente, alterando com selinhos breves, pausados, molhados, convidativos, perdendo o fôlego e o pudor a cada suspiro.

Noite de maré baixa, praia deserta.

Aimée tinha consciência de que faltava muito pouco para transar com Iury e não via problema algum em dar continuidade ao ato, até porque o deslumbre do rapaz valeria a vitória, toda e qualquer tentativa, seria um bom motivo para tê-lo junto a si.

Iury demonstrava tranquilidade ao dissipar toda recriminação, justo com uma garota por quem nunca pensou que iria se interessar. A ideia de estar nu por cima dela provocou um arrepio pelo corpo inteiro, difícil de distinguir se fazia sentido pelo medo ou pelo desejo.

― Não dá. — Sugeriu um temeroso Iury, que se na proximidade dos dezoito anos de idade sentia o desejo de perder a virgindade, ainda guardava consigo uma ideia romântica das coisas. Ainda era cedo demais para saber se o relacionamento com Aimée teria um futuro ou se seria um envolvimento sem profundidade.

O resultado do vestibular seria o divisor de águas em sua jovem e movimentada vida. Qualquer que fosse ele, nada seria como antes.

― Algum problema, Iury?

― Não dá, Aimée. ― Iury deu um tapinha na camisa para tirar os grãos de areia. Já Aimée balançava os cabelos e sorria, disfarçando o descontentamento:

― E por que não, Iury?

Aimée acalmou Iury o beijando como se pudesse sugar alma e pensamentos. Uma recaída o devolveria aos braços de Laly, então por que não ir mais fundo?

O que poderia perder? O que poderia acontecer?

Recobrando o fôlego, Iury se sentou na areia e Aimée, já muito excitada, o abraçou pelas costas, beijando pescoço e orelhas, percorrendo um grande caminho até chegar aos lábios do namorado. Arrepios, calafrios, pelos eriçados.

Implore, por favor. Nem mesmo de joelhos precisa ser. Apenas um movimento labial, um piscar de olhos, um brilho a mais. Apenas um sinal. Apenas dessa vez.

― Não sei se devo fazer isso, Aimée. ― relutou Iury.

― A gente já chegou até aqui...

― Eu não me sinto bem fazendo isso.

― Porque você está pensando em Laly? É por isso?

― Não quero apressar os passos, que você pense que estou saindo com você apenas para... você sabe...

― Iury, eu já não sou mais virgem — disparou Aimée, despreocupada. — Se for esse o problema... e se por aqui tem fofoca, lá em Caçador, minha cidade natal, também tinha... eu não ligo para o que as fofoqueiras acham ou deixam de achar, que armem as cadeiras em frente às casas e me julguem, duvido que elas na minha idade eram baratas de sacristia, estavam fazendo o mesmo que nós, mas agora nos julgam...

― Acontece que eu... eu...

― Pois sim?

― Eu... eu nunca fiz...

― Nesses três anos com a Laly, vocês nunca fizeram nada?

― Ela não queria. Sempre teve medo. Não vou dizer que não entendo. Se ela engravidasse, seria uma tragédia. Os pais dela sempre me odiaram, sempre fizeram marcação cerrada em cima da gente. Mesmo querendo, se ela não quer, eu não posso fazer algo que ela não queira, sabe? O momento também tem que ser legal para ela.

― Você é um cara legal.

― Não, não sou. É bondade sua, mas eu não sou um cara legal.

― A sua história com a Laly é passado, meu amor. Eu sei que não sou ela, que não se supera um namoro de três anos em tão pouco tempo, que as chances de você não me amar como a amou são grandes, até porque tudo é tão recente, mas eu quero que seja o seu momento. Vamos curti-lo. Essa noite é nossa, eu sou toda sua, não tem nada que eu queira esconder de você, não tem nada que eu tema...

Iury e Aimée se equilibraram por entre os rochedos históricos onde muitos outros casais costumavam fazer amor na calada da noite e se sentaram de pernas cruzadas e mãos dadas. A brisa calma e abafada da noite de dezembro era um chamariz ao desejo que inflamava os jovens corações. Eles estavam compartilhando um momento histórico, uma aventura que deixaria lembranças impossíveis de serem sobrepujadas.

Os beijos de língua aprofundavam-se como as ondas que quebravam a praia. Tempestuosas, intensas, ardentes. O magnetismo do toque era o gesto mais explícito de rendição. Ficou para trás a camiseta dele, a regata justa dela, as roupas de baixo. Deitados de frente um para o outro, estavam completamente nus, calados, abençoados pelos reflexos da lua que banhavam os corpos com um ingrediente altamente afrodisíaco.

Era a sede pelo prazer proibido, negado, inatingível, que solitário não continha o mesmo esplendor de uma cena lenta e bem planejada, doce pelo improviso e apimentada por ser uma iniciativa tomada sem calcular as consequências.

― Confia em mim, Iury. — Pediu Aimée, fazendo carinhos sobre a pele do amado. — Só se arrependa daquilo que não fez. Não deixe a oportunidade passar.

Iury parecia desconfortável para se colocar sobre Aimée. Na fantasia parecia muito mais cômodo e prático, mas ela o ajudava apoiando a cabeça dele com as mãos para que mordiscasse os seios como se beijasse o fruto mais cobiçado do paraíso. Sem palavras desnecessárias, muito menos mentiras, nenhum pensamento que interferisse na grande vibração, no vulcão de desejo que entrava em erupção nos rochedos úmidos, firmes como os seios e coxas de quem tinha por hábito a entrega total e exigia que a outra parte não fizesse menos do que o melhor.

Os aflitos beiços de Iury deslizavam pelo corpo de Aimée, passeando a barriga até adentrar a porta do paraíso que o caminho da felicidade indicou com tanta perfeição sem errar um traço, nem mesmo uma placa. Era bem-vindo, sempre. Não apenas um visitante encabulado. Um grande amigo, confiante o bastante para se sentir em casa e mergulhar na própria inexperiência.

Aimée suprimiu os gemidos e os quadris contorcidos retratavam a enorme satisfação.

Sim, prossiga, não pare, não diga nada.

Iury e Nilton folheavam às escondidas revistas de mulheres nuas e fantasiavam a perda da virgindade, a exemplo de vários garotos do colégio que apesar das milhares de proezas inventadas, nunca passavam do beijo na boca. Iury Saciotti, sobretudo.

A escolhida era Lalinha. Ele tinha certeza de que um dia se entregariam um ao outro fosse ali naqueles rochedos ou na cama de solteiro onde tantas outras vezes se amassaram em segredo e não se encorajaram de explorarem o que as roupas escondiam. Era certo que nunca se esqueceriam daquele momento. Ela era sempre muito tímida, esquivava-se quando o assunto era sexo porque sem proteção e preparo, uma gravidez indesejada faria Edílson Moraes renegá-la em definitivo. As preocupações dela eram pertinentes e a imaturidade dele fazia com que pensasse o contrário, analisasse a postura dela com desdém, crendo que a manipulação funcionaria. Seria, portanto, uma falsa ilusão de prazer, apenas um meio de manter as aparências sem de fato degustar cada etapa que precede o clímax.

Aimée não se envergonhava da nudez nem repudiava os próprios desejos, auxiliava Iury, sussurrava sedutoramente aos pés do ouvido, soprando uma nuance afrodisíaca que o arrebatava de tal jeito que se tornava impossível controlar os instintos. Era um pouco diferente da fantasia e também melhor porque não havia segredo, a experiência provinha da prática.

Involuntariamente, não era o rosto de Aimée que Iury enxergava sob a sombra da lua, mas de Lalinha, por mais que estivesse lutando com todas as forças para apagá-la de seu coração. As emoções intensas o tomavam de súbito, as lágrimas também. Era natural que a libertação do desejo também desnudasse o âmago de quem compartilha com o outro muito mais do que a nudez.

Iury poderia narrar com precisão como era inebriante dedilhar cuidadosamente a pele macia da sua menina de cabelos negros espalhados pelas pedras úmidas, rir dos arrepios involuntários e tão cúmplices, perder-se nos olhos negros dela cintilando tanto quanto o reflexo da lua sobre as águas calmas de um recanto que apesar da intervenção do homem ainda resguardava a naturalidade que tanto encantava aos turistas; percorrer as curvas de um corpo imaculado e nunca antes explorado, compartilhar a perda da inocência sob a chama do mais cândido amor.

O ódio era a couraça daquele menino que via o mundinho de faz-de-conta desmoronar junto com a perda iminente de algo importante demais para simplesmente substituir.

Na manhã de domingo, Naira acendeu uma vela de sete dias. Emília, que estava preparando o almoço, inquiriu:

― Alguma causa impossível?

― Bem impossível...

― Você me parece angustiada, filha. Tudo bem?

― Eu, angustiada? ― desconversou Naira. ― Estou ótima!

― Eu te conheço, Naira. Sei que você não está bem.

― Se não estivesse bem, estaria de cama. Por acaso estou doente? Não, mãe. Não estou.

Naira se retirou.

― E essa Naira pensa que vive de vento... Não toma café, não almoça... Como é que quer parar de pé se não coloca nada na boca? ― suspirou Emília sempre muito preocupada com os hábitos da filha mais velha. ― Ai, essas paixonites!

Emília percebia que Naira não era a mesma, que algo estava a preocupando, mas a filha era tímida e orgulhosa demais para confessar. Mesmo com vontade de ajudar, a cabeleireira se mantinha calada e deixa espaço para ser procurada.

Mayra, saltitando, chegou até a cozinha, encontrando a mãe pensativa. Emília tinha um diálogo mais aberto com a caçula que não fazia questão de esconder-lhe nada. Elas muitas vezes nem precisavam de palavras para descrever o que se passava.

― Para estar contente assim ou escreveu cartinha para o Papai Noel ou viu um passarinho verde... ― sugeriu Emília.

― Bom, não vi o passarinho verde, mas desde ontem estou pra te contar um babado, mãe. ― Mayra arrastou uma cadeira para se sentar e apanhou o ralador de cenoura porque gostava de ajudar a mãe na cozinha.

― Babado, Mayra? E o que é agora?

― Ah, mãe, mãezinha... ― Mayra exultou. ― A Naira está amando...

― Naira?

― Ah, mãe! A senhora ainda não percebeu nada?

― Naira está namorando e não me falou?

― Ela ainda não está namorando, mas está apaixonada...

― E como é que sabe se ela nem te conta nada?

― O olhar não engana.

― Olhar... Olhar... Naira vai é se internar no convento...

― Não se o Niltinho for esperto...

Fernanda aproveitou a ausência de Gabriel para brincar com o Atari dele na televisão da sala (hábito que Gilberto não gostava muito) e não esperava receber nenhuma visita em especial porque todos os seus conhecidos estavam ausentes, tanto é que quando reconhecer o ressoar insistente da campainha, não sabia o que pensar.

― O Mário jamais me visitaria a essa hora do dia.

Fernanda atendeu a porta e tomou um susto ao encontrar Milene (que pulou o portão) na soleira da porta.

― Oi! ― cumprimentou Milene com uma voz adocicada e afável, portando em mãos um tapewere com vários pedaços de bolo. ― Você me conhece?

Sem Nilton, nem a missa teve graça para Naira. Ela caminhou pelo calçadão sem companhia, vendo outros adolescentes namorando, curtindo. Tinha objetivos tão certos que manter o foco não era uma missão de outro mundo. Desejava renunciar a todos os prazeres da juventude em nome de um bem maior, de uma satisfação que seria permanente e não efêmera, mas não deixava de ser adolescente, de nutrir curiosidades com relação a várias coisas, dentre elas como seria namorar como todos aqueles casais que passavam ao seu lado.

Nunca pensou que se importaria tanto com a ausência de Nilton Lopes até porque sabia que ele deixaria Guaratuba para estudar em Curitiba e se isso não a incomodava antes, agora tinha um peso enorme. Existia o fator religião pesando muito na decisão, mas havia também a vontade de se deixar cativar, de ser amada como nunca foi e poderia nunca vir a ser.

Notas finais
Genteeeeeeee, os próximos capítulos estarão pegando fogo... Milene está apelando para o tudo ou nada... será que Laly conseguirá fazer a prova?