Confissões de Laly
18 16. O Vestibular/Férias em Curitiba (Laly)
Notas iniciais
Terceira pessoa off/Laly on
No dia seguinte começava nossa maratona de três manhãs dedicadas a provas que testavam nossos conhecimentos adquiridos durante toda a vida estudantil. Antigamente o processo seletivo era aplicado pela manhã, logo os dorminhocos de plantão que não respeitassem às normas perdiam um ano inteiro de investimento. Todo cuidado era pouco quando o que estava em questão era o futuro.
O primeiro dia era dedicado às disciplinas exatas que tinham menos peso no meu curso, mas se eu me saísse bem na somatória final, poderia eliminar aquele meu concorrente que se saiu mal. O segundo ficava por conta de Biologia, Geografia e História e o último ― também o mais temido ― era composto por Língua Portuguesa, Língua Estrangeira (escolhi o Inglês), interpretação de texto e a decisiva redação.
Fazer a inscrição era, sem dúvida, uma etapa importante, porque tínhamos de viajar para Curitiba, enfrentar longas filas para preencher um formulário extenso, pagar a taxa (no caso, meus tios me presentearam) e esperar o ensalamento chegar pelo correio, o que levava até semanas para acontecer.
O esquema da prova era a somatória, ou seja, cada questão tinha várias alternativas as quais as que estivessem corretas eram somadas. Se o candidato errasse um número que fosse, perdia a questão inteira, logo às cinco horas tinham de ser aproveitadas com prudência. Por uma pergunta errada, o sonho corria o risco de ser adiado.
Na noite de véspera, nem preguei os olhos. Em virtude do vestibular, Tio Abílio e Tia Conceição despertaram às quatro horas da manhã porque os portões do meu local de prova fechavam-se pontualmente às 07h30min.
― Come direitinho, Lalinha. Boa alimentação é um dos segredos para se ter um bom desempenho na prova. ― Tio Abílio aconselhou.
― Nada de tristeza, flor. Hoje é apenas mais um daqueles desafios que você vai vencer de olhos fechados e recordar com carinho. ― Tia Conceição dizia enquanto servia mais café para mim.
Túlio dormia tranquilamente, Daniela acordou para se solidarizar a mim. No ano anterior foi à vez dela passar pela maratona e eu viajei especialmente para ficarmos juntas durante aqueles difíceis dias. Ela chorava por qualquer coisa, ficou sem unhas de tanto roer, mas apesar do nervosismo, foi aprovada na primeira chamada, orgulhando a família inteira e celebrando com um churrasco no qual pregamos várias peças nela, o nosso “trote”.
Ouvimos fortes batidas na porta principal da casa e o temor foi geral. Naquela hora da madrugada dificilmente seria um dos meninos. A hipótese de um ladrão não era descartável, mas muito real, apesar de o bairro ser bastante tranquilo. Ter medo, portanto, era uma reação normal e compartilhada.
— Aconteça o que acontecer, não abra a porta! — Conceição advertiu o marido.
As batidas continuaram persistentes e Tia Conceição ordenou que Daniela e eu nos escondêssemos debaixo da mesa quadrada e não saíssemos de lá por nada no mundo.
Abílio anunciou que acionaria a polícia se a pessoa em questão continuasse perturbando com aquelas batidas violentas, mas quando Gustavo se identificou, minha espinha se arrepiou e eu, de cócoras debaixo da mesa, paralisei, abraçando os joelhos contra o queixo para que não precisasse sair dali, muito menos para acompanhar meu noivo.
Cheguei a preferir que tivesse sido um ladrão.
― Quero ver Laly. Sei que ela está aqui. ― reiterou Gustavo como se Abílio fosse mais um de seus mordomos.
― Posso chamá-la se quiser. ― concordou Abílio.
― Então mexa-se e chame-a depressa. ― Gustavo estalou os dedos, ríspido, tratando meu tio da mesma forma que fazia com seus inúmeros capatazes que sujavam as mãos para garantir que o mauricinho não teria motivos para se aborrecer, quando contrariado.
Meu coração pulava pela boca só de pensar no que Gustavo poderia ser capaz. A sós ele mostrava quem realmente era.
― Não diz que eu tô aqui... Não diz que eu tô aqui...
― Ele é seu noivo, Lalinha. O que deu em você? Vocês brigaram antes de você vir pra cá? ― Daniela perguntou sem entender o que se passava comigo. Ela estava correta. Outra noiva estaria se atirando nos braços de seu amado, e eu, entretanto, queria ver Gustavo morto.
― Ele veio decidido a falar com você. ― Tia Conceição articulou, angustiada, provavelmente pensando em diversas razões para eu desprezá-los, sem imaginar a raiz daquele medo infrutífero que interrompeu uma refeição em família.
― Mas não é para dizer que eu tô aqui...
Estava tão desesperada que até mesmo um desconhecido sacaria a razão sem que eu precisasse contar a história toda.
― Não complique as coisas, velhote. Deixe-me ver a Lalinha.
Tia Conceição apareceu na sala. Ai de quem falasse grosso com seu amado Abílio.
― Laly não está aqui.
― Mas eu... ― interrompeu o mauricinho.
― Nós também não sabemos onde Laly está. ― confirmou Tia Conceição.
― Era isso que eu estava tentando te dizer, rapazinho. ― Tio Abílio humilhou Gustavo com tanta mansidão na fala, sem em nenhum momento apelar para palavras de baixo calão.
― Você disse que iria chamá-la. ― Gustavo não teria nenhum escrúpulo para arrombar a porta principal no meio da noite e vistoriar cada canto da casa para me capturar como se eu fosse um animal silvestre perturbando a paz nos grandes centros. Lembrando: eu era o seu estimado cachorrinho e cartazes de papel com uma foto recente e meus dados impressos estariam colados em postes por todos os locais. A recompensa, logicamente, seria expressiva. Mas meu noivo estava perdendo. Eu não era um bicho de estimação, muito menos propriedade dele. Eu era maior de idade e livre perante o estatuto universal dos Direitos Humanos. Ele não poderia teimar.
― Ao telefone. ― improvisou Abílio. ― Ela não está em casa?
― Ela não está em casa. Edílson e Eleonora estão desesperados atrás dela e...
Daniela me ensinou uma passagem secreta na lavanderia a qual eu poderia sair tranquila e sem ser vista por Gustavo. Por conhecer plenamente o monstro com quem iria me casar, sabia que ele me perseguiria sim no campus e se me encontrasse faria o maior escândalo chorando aos meus pés e fazendo todos se comoverem com a obstinação do noivo apaixonado, conseguindo reverter toda a história para que todos concluíssem que eu era uma criatura ingrata, grosseira e egoísta.
Eu não voltaria para casa trazendo na bagagem o peso inglório da derrota daquela quem nem sequer tentou. Aquele que porventura não conseguiu não deve se sentir fracassado, mas orgulhoso por ter resistido até o fim.
Não havia nada a perder senão o medo. Ridículo por ridículo seria mergulhar para morrer na praia.
Pintei as sobrancelhas de modo que as engrossasse grotescamente, coloquei um dos óculos da Daniela e usei peças de roupa de cores que não combinavam entre si. Fiz um rabo-de-cavalo bem malfeito e passei um batom vermelho que não tinha nada a ver com o contexto. Ficaria conhecida como a esquisita do vestibular, mas ainda assim era melhor que ser a boneca inflável do mauricinho até que a morte me libertasse do contrato.
Combinei de me encontrar com Dorminhoco porque iríamos fazer prova no mesmo local, mas em salas diferentes.
Ele tomou um susto:
― Você vai fazer prova desse jeito? ― perguntou ele, com os olhos arregalados.
― Algo errado? ― Desafiei-o, soando até um pouco grosseira, talvez a minha defesa contra futuros ataques. — As pessoas não têm amuletos da sorte? Pois então! Este é o meu!
Dorminhoco não se atinha a detalhes, no entanto, também não era cego para não perceber que eu estava ridícula. Não por nada. Eu percebia a malícia com que ele olhava pra mim. Percebia e tinha nojo disso.
Eram todos iguais? Todos Gustavos enrustidos?
Até parecia que eu havia saído de Marte. Dorminhoco segurou pelos meus braços na hora de atravessar a rua e fez questão de pagar meu passe.
― Tu curtes o quê?
― Sou eclética.
― Curte esse som aqui. ― Ele me ofereceu o fone de ouvido o qual encaixei na orelha. Estava tocando Pump up on the jam, do Technotronic, um grande clássico. ― Se tu gostar, me diz que eu gravo para ti.
Eu também estava gamando nas modinhas de dance music europeia.
― Se você não ficar aqui só para o vestibular, posso te levar numas discotecas bem maneiras.
― Acho que eu aceito...
No trajeto de casa até o campus, trocamos ideias sobre diversos assuntos que não envolvessem vestibular. Estudar era completamente em vão.
A sala já estava cheia quando entrei. Eram todos meus concorrentes. Meu curso ofertava apenas 30 vagas e uma delas seria minha, contudo, havia mais de 500 pessoas com o mesmo pensamento. Aquele teste decidiria para quem o sonho continuaria.
Desatei em lágrimas minutos antes dos fiscais nos autorizarem a responder os questionários. Tentei ao máximo impedir que me vissem nervosa.
― Ei moça, está tudo bem? ― Uma das fiscais de prova aproximou-se da minha carteira.
― Estou... Estou sim...
― Não quer sair para tomar água e lavar o rosto?
― Não, não. Eu tô bem...
Mesmo assim, a fiscal de prova, provavelmente consternada, cochichou com a outra colega e me emprestou um lenço de papel. Com a permissão dela fui encaminhada até o banheiro sob a vigia de um colega seu que cuidava do corredor e me submeteu à detecção de metais.
De frente para aquele espelho enorme vi-me, enfim. Uma lástima. A fantasia ridícula era dos males o menor. Pior que ver aquela maquiagem preta borrando meu rosto eram os meus sonhos que caminhavam para o ralo se eu me rendesse.
Pensei em Iury e no quanto nós dois nos tornávamos estranhos um para o outro à medida que se sucediam os dias, nos nossos três anos de namoro e na falta que minha mãe fazia.
Chorei por simplesmente estar ali concorrendo com pessoas que se não fossem aprovadas poderiam se matricular na PUC, algumas delas cursariam por puro status, por já ter a dita costa quente, pessoas essas que adorariam um recuo meu, um tropeço colossal. Chorei por constatar que apesar da minha vontade de conhecer o mundo, eu não estava pronta para ele, para reconhecer que nos inúmeros sorrisos ofertados a maldade podia se esconder. Chorei por ser adulta e não poder fugir dos meus problemas nem serrar a minha cruz. Era preciso carrega-la da maneira que me foi oferecida, sem escape. Respirei de dentro para fora, mas as lembranças dos meus seis anos vieram à tona e tudo que eu mais queria era abraçar minha mãe.
Ingrid era a mulher mais linda que eu conheci, transcendia uma alegria de viver muito grande e contagiava a todos à sua volta. Eu era o seu pequeno passarinho, ela era o meu mundo. Um dia, estranhamente, os adultos estavam me afagando demais, me olhando com cara de dó, como se eu fosse um cachorrinho abandonado. Procurava minha mãe e não a via em lugar nenhum. Quando perguntava, ninguém me respondia.
Meu pai não queria me ver. Tio Abílio e Tia Conceição ficaram encarregados em cuidar de mim. Não tenho grandes recordações daqueles dias. Tudo que sei é que quando voltei para casa, Edílson parecia mais contente e me apresentou a Eleonora afirmando que ela era minha nova mãe e nós nos entenderíamos muito bem.
Eu era menina demais e o mundo para mim ainda era pura fantasia, mas podia sentir uma energia muito pesada no olhar daquela mulher, tanto que começava a chorar quando ela se aproximava de mim.
― Lalinha e eu seremos grandes amigas. Não é mesmo, Lalinha? ― Eleonora tentava fazer carinhos na minha cabeça e forçava uma fala abobada para mostrar ao meu pai que tinha algum instinto materno. De fato não tinha e nunca teria.
Eu era muito semelhante à Ingrid. Eleonora se sentia desconfortável em ter de conviver com a miniatura de sua rival caminhando pela casa, almejando a atenção de seu homem. Eu sempre seria um estorvo em sua vida.
Se diante dos olhos de meu pai, Eleonora era um anjo, o mesmo não podia dizer quando ficávamos a sós...
― Você não é minha mãe e eu não gosto de você.
― E você acha que eu gosto de você? Não gosto nem um pouco, mas seu pai quis ficar comigo, goste você ou não.
― Quando ele souber que você é má comigo, vai se separar de você. ― repliquei batendo meu pé direito no chão e cruzando os bracinhos, repudiando aquela vulgar que queria tomar o posto de mamãe.
― Vamos ver em quem ele vai acreditar: na fedelha idiota ou na amada dele? ― Eleonora me encarou, triunfante. Soube fisgar Edílson pela isca da carência.
― Pois saiba que a amada dele é minha mãe e ela vai voltar.
Por um bom tempo da minha vida, imaginei de fato que minha mãe estava viajando pelo mundo e voltaria de repente para me salvar das garras da Eleonora, que nesse dia ela chegaria cheia de malas e muitos presentes para eu abrir, tantos que me cansaria de mexer com embalagens de todos os tipos de tamanhos, com todos os brinquedos que eu sonhava, roupas, perfumes, livros, que daquele dia em diante, minha madrasta seria apenas um pesadelo pelo qual precisei passar, que meu pai voltaria a ser aquele homem sorridente e falante que eu conheci muito pouco, mas o bastante para lembrar e fazer dele também uma memória que o tempo não destruiria, como fez com quase tudo que me proporcionava sorrisos.
Só mesmo quando tinha dez anos de idade e a mãe de uma coleguinha morreu é que minha ficha caiu. Ingrid estava morta. Nunca mais voltaria.
Meu pai sempre acreditou na Eleonora, pois sua persuasão era perfeita. Gustavo e ela formariam um casal ideal. Manipuladores, opressores, perversos. Minha madrasta se sentiria vitoriosa caso meu nome não estivesse naquele edital no final de janeiro. Não só ela como muita gente. Muita gente próxima, inclusive.
Se eu não conseguisse domar aquelas recordações tenebrosas, o tempo iria acabar e eu seria desclassificada logo na primeira etapa, portanto fechei meus olhos e comecei a imaginar a Lalinha de trinta anos de idade, independente, bem-sucedida, realizada, a Lalinha que eu queria ser e então o choro foi cessando até eu ter calma de encarar esse desafio.
Fraquejar não estava no sangue da minha família.
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