Confissões de Laly
16 14. Férias em Curitiba (Laly)
Notas iniciais
Terceira pessoa off/Laly on
Embarcar para Curitiba significou minha carta de alforria durante aquele tumultuado fim de ano. Independentemente da permissão de meu pai, eu estava determinada a passar as festas de fim de ano com Tio Abílio, Tia Conceição e meus queridos primos Daniela e Túlio.
Meus tios e primos fizeram questão de vir me recepcionar na rodoviária. Fui recebida como se fosse uma princesa.
Abílio é irmão mais velho de meu pai, mas sempre me amou como se eu fosse sua filha. Homem de aparência calma e confiável, o pai da Geração 80. Alto, magricelo, cabelos castanho-claros, o bigode cuja seriedade não chocava. Olhos azuis-acinzentados — sempre tive minhas dúvidas se eram um tom aproximado do cinzento ou um azul mais clarinho. Ah, e um abraço único, caloroso, abraço de pai mesmo. Para esmagar, te proteger do escuro, do fim do mundo. A voz mansa, quase um chiado, confortava.
Tia Conceição sempre fez questão de frisar que sou a imagem e semelhança de minha falecida progenitora. Conceição não era riponga como Ingrid, mas mesmo com cabelos curtos, óculos para disfarçar os olhinhos pequenos e caídos, ostentava o corpo da típica mãe, sem querer parecer adolescente como Daniela ou se entregar aos quarenta e poucos anos, apesar de ter ouvido falar que a maternidade, ao contrário do que se sugere, rejuvenesce e enobrece a mulher, tornando-a mais bela pela bondade de abrir mão de todos os padrões predeterminados para gerar mais um pedacinho de mundo, mais uma esperança.
Preferiria mil vezes ter sido criada pelos meus tios a crescer num lar onde minha presença nunca foi notada.
― E por que o noivo não veio junto? ― Indagou Tio Abílio, orgulhoso pela façanha.
― Ele está muito ocupado. ― Redargui um tanto indiferente, sem esboçar um pingo de admiração sequer pelo meu (provável) futuro esposo.
― E aquele outro namorado, o Iury, cadê ele? ― Inquiriu Tia Conceição, curiosa, confusa. E com razões de sobra.
― Terminamos... ― Dei de ombros, tratando aqueles três anos de namoro com certo desdém. ― Não tinha futuro, foi melhor assim, cada um no seu canto, vida que segue.
Entretanto, os olhos ainda enchiam-se de lágrimas na calada da noite. Três anos não são três dias. Ao longo desse período eu construí um vínculo forte com meu ex-namorado. Tínhamos diferenças, tínhamos, todavia, também nos entendíamos. Se ele já havia suprido a carência física assumindo namoro com Aimée, eu ainda buscava me situar no tempo, atarantada demais com todas as pancadas que insistiam em me derrubar no chão.
― Você está triste, Lalinha? O que você tem?
Tia Conceição me abraçou.
― Saudades do noivo, provavelmente. Se não me engano, você tinha uma quedinha pelo Figueira Antares? ― Lembrou Abílio, pois até eu beijar Gustavo, tinha certa obsessão por ele e toda vez que vinha para Curitiba, Daniela ouvia falar do Figueira Antares, assim como ela também me contava sobre o Raí, o primeiro amor dela.
― A Lalinha era louca pelo Figueira Antares, o ouvido do cara queimava de tanto que a gente falava dele, nem posso acreditar que vou ser madrinha desse casamento. E o bonitão, como é que está? Porque ele era um gato. ― Quis saber Daniela.
Procurei manter a calma e mudar de assunto. Mesmo sendo visita, gostava de ajudar a Tia Conceição com as tarefas de casa.
― Deixe disso, Lalinha. Você é visita, querida. ― Frisou Tia Conceição, sem formalismos.
― Você ainda gosta de torta de limão? ― Perguntou Daniela, empolgada.
― Adoro! Aliás, faz um baita tempo que não como...
― Ah que ótimo! Preparei às pressas porque sabia que você iria chegar, mas fiquei meio preocupada que você estivesse de regime por causa do casamento, coisa e tal...
― Não estou de regime.
― Mas me parece meio abatida para uma noiva feliz. Com certeza em Guaratuba não se fala de outro assunto. Você é a Cinderela de Guaratuba.
― Ah gente, também não é para tanto...
― O Figueira Antares não é de se desperdiçar... quem diria que o mundo daria tantas voltas e vocês ficariam juntos... ― Suspirou a Tia Conceição, sem nem saber de metade do que acontecia quando as cortinas vermelhas se fechavam.
Tia Conceição e Daniela eram melhores amigas. Amigas de verdade. Não havia assunto tabu. Tio Abílio falava vagarosamente, pacientemente e continuava inabalavelmente apaixonado pela esposa. Daniela e Túlio eram os razões de sua vida e por eles todos os sacrifícios eram válidos.
― Posso pelo menos ajudar a arrumar a mesa?
Ofereci-me para ajudar a recolher os pratos e talheres e varrer a cozinha depois das refeições.
― Não, Lalinha. Apenas aproveite suas férias, seus últimos tempos de solteira... ― Tio Abílio declarou enquanto ajudava Daniela e Tia Conceição a colocar a mesa, estendendo uma toalha de linho e posicionando os copos e pratos nos lugares de sempre, trazendo as travessas com as porções de cada alimento e um pratinho para a salada de tomate e pepino picados.
― Lalinha querida, sempre que você e Gustavo vierem para Curitiba, não se esqueçam de virem nos visitar. Nossa casa pode ser simples e humilde perto do palacete onde você irá morar, mas as portas estarão sempre abertas para vocês.
― E eu quero ser dinda do Gus Júnior... ― Adiantou-se Daniela.
― Espera, Dani. Eu não pretendo engravidar tão cedo, não. Eu quero fazer faculdade...
― E o que o Gustavo acha disso? Não tem ciúmes?
― Ele não tem que achar nada. Eu decidi que vou fazer faculdade e não vou ter filho antes de receber o meu diploma. Eu, hein?
― É, mas o tempo passa, Lalinha...
― Não tenho vontade de ter filhos, não consigo me imaginar segurando bebê nos braços nem nada do tipo.
― Você diz isso agora, mas quando sentir um pedacinho do Gus crescendo dentro de você, vai mudar de ideia... e Federal é muito difícil, muito concorrido... sorte mesmo é encontrar um cara como o Figueira Antares...
Só se fosse sorte adversa, mas me contive para não ser indelicada.
Se em meu lar a hora da refeição era uma tortura por conta do silêncio ou das provocações e humilhações, na casa de meus tios sentia vontade de chorar por ser acolhida com tanto carinho, apesar de discordar da opinião de Conceição sobre a maternidade e o casamento.
― Quem diria que aquela princesa que eu peguei no colo e vi crescer já está prestando vestibular e quase casada... eu envelheci e nem percebi! ― Tio Abílio disse com brilho no olhar.
― E vai ser uma ótima jornalista. Já escolheu o seu nome de guerra? Laly Figueira Antares... A senhora Figueira Antares... você será a Sra. Figueira Antares, tem noção da responsabilidade? ― Tia Conceição até trouxe os convites do casamento e parecia mais inclinada a promover minha despedida de solteira do que me dar abrigo durante o período do vestibular.
O choro estava atravessado na garganta e enquanto Daniela me sugeria dezenas de nomes interessantes para pensar, oferecendo-se para ser a madrinha do futuro bebê, meu pensamento voou para longe porque não importava o quanto eu tentasse fugir das aflições, elas seguiam comigo.
― Você tá chorando, Lalinha? ― Túlio foi o primeiro a perceber os meus olhos vermelhos.
― Eu? Não...
― Lalinha... ― Advertiu o meu tio também notando as lágrimas que eu teimava em esconder.
Tio Abílio conheceu minha mãe, me viu nascer e crescer. Mesmo não convivendo em tempo integral, era capaz de notar se eu estava feliz ou não. Era óbvio para qualquer leigo que havia algo de muito errado comigo.
― Quer um copo de água com açúcar, querida? ― Tia Conceição se levantou da mesa e queria de todas as formas me cortejar.
― Não, tia. Eu... eu vou ficar bem.
― Nós somos sua família, Lalinha. Se estiver com vontade de chorar, não precisa disfarçar. ― Daniela se levantou para me abraçar.
Eles jamais entenderiam o que eu estava enfrentando. Ninguém jamais poderia me ajudar, seria a minha palavra contra a de Gustavo.
― Quer ouvir uma piada, Lalinha? Vou fazer você rir num instantinho com uma piada que aprendi na escola. ― Túlio era mesmo uma gracinha.
― Túlio conta umas piadas muito boas. ― Avisou Tio Abílio.
― Você é suspeito, pai... ― Brincou Daniela. ― O papai ri até das cacetadas do Rubão...
Era gostoso ficar proseando com a tia, lhe contando todas aquelas coisas que só nós mulheres entendemos enquanto lavávamos e enxugávamos a louça.
Minha prima Daniela tinha a mesma idade que eu e havia terminado o primeiro ano de Odontologia. Agradecia a Deus pelas férias de dezembro. Daniela começou a namorar o Everton nas férias de verão anteriores. Lembro-me bem de sua última carta, quando me contou que havia contado à mãe que não era mais virgem.
Tio Abílio e Tia Conceição eram mais liberais, tanto que Daniela sempre foi à vontade para falar de seus sentimentos e cresceu bem-resolvida, sabendo que era amada e querida. Eu, não. Sempre me senti uma intrusa e pensava que sem mim todos viveriam muito mais felizes.
Naquela viagem procurei esquecer-me da angústia que me rodeava. Deixei Iury e Gustavo na estrada. Pensaria um pouco mais em mim e no futuro que se avizinhava de calendário e expectativas.
Estar na casa de meus tios era como viajar na máquina do tempo e poder reviver os momentos felizes da minha infância. Deus sempre nos compensa, de algum modo, com seu jeito benevolente, sempre faz nascer uma flor em um triste jardim para que saibamos que mesmo quando nos sentimos abandonados, Ele está olhando por nós. Meus tios eram anjos disfarçados, ainda desinformados sobre os grandes furos da histórias, mas bem-intencionados de coração.
Após o jantar, Daniela e eu saíamos para conversar com os vizinhos. Todos nós crescemos juntos. Brincamos e brigamos diversas vezes, mas sempre fizemos as pazes e no final do verão sentíamos saudades de tudo, até dos machucados no joelho.
Se dissesse que fui uma criança 100% infeliz, estaria mentindo. Minha imaginação me libertou, foi a válvula de escape da realidade e me ajudou a ter objetivos, tentar sempre encontrar possibilidades dentro das maiores adversidades e não me deixar contaminar pelo ódio visceral de Eleonora por mim.
Nossos dois vizinhos de porta, gêmeos idênticos, estavam aderindo à moda da dance music europeia. Nunca cheguei a conhecer os seus nomes verdadeiros, pois todos nós os conhecíamos por Fuinha e Dorminhoco.
Fuinha era Caxias (o que se entende hoje por nerd) e estudava para concorrer a uma vaga em Engenharia Civil, um dos cursos mais concorridos na Universidade Federal. Dorminhoco nem sabia o que fazer da vida, mas se inscreveu em Direito, no turno da noite, a fim de dormir até tarde. Fuinha queria namorar, entretanto tinha um azar danado com as mulheres. Dorminhoco não se prendia a ninguém e vivia rodeado das gatinhas.
Eles se matricularam no extensivo de um cursinho pré-vestibular naquele ano. Fuinha ia à aula até nos domingos, fez da biblioteca sua segunda casa, vivia com a cara nos livros enquanto o irmão sentava lá no fundão da classe e gazeava aula pra tomar chope. Não parecia nem um pouquinho amedrontado com o vestibular enquanto o irmão estava com a saúde debilitada por conta da apreensão.
― Lalinha? ― Dorminhoco esfregou os olhos, incrédulo. ― É você?
― Uma sósia é que não é. ― Debochei.
― Desculpa, eu sou um desajeitado. É que... é que você... você... você está tão diferente!
Fuinha repreendeu o irmão.
― O Dorminhoco não muda... não pode ver um rabo de saia que já se assanha todo. Não se empolga porque ela já é comprometida.
― Assim é que eu gosto. A propósito, você pode até estar noiva, mas o que os olhos não veem, o coração não sente. O Figueira Antares não precisa saber das suas férias inesquecíveis... ― Dorminhoco deu uma piscada de olho e se aproximou de mim, recuei na hora.
― Não ligue para o Dorminhoco. Ele é um imbecil. ― Daniela achincalhou o amigo. ― Só abre a boca para falar asneira.
― Deixa de timidez, Lalinha. Seu noivo precisa saber que você arrasa corações.
― Vê se cresce, Dorminhoco! ― Fuinha bronqueou. ― Deixa a Laly em paz. Ela está comprometida e com gente comprometida a gente não mexe.
Dorminhoco revirou os olhos.
― Relaxa, rato de biblioteca. Não precisa se preocupar que eu não tenho fixação por raiz quadrada!
― Prontos para a maratona? ― Quis saber Daniela.
― Acho que nem vou dormir essa noite. ― Confessou Fuinha, já sem unhas para roer.
― Também não é pra tanto, mané. Toma umas biritas comigo que você já relaxa. ― Ralhou Dorminhoco.
― Muito nervosa Laly? ― Fuinha direcionou aquela pergunta para mim, respondendo-a, indiretamente.
― Um pouco ansiosa sim... ― Confessei, relutante. Nilton também viria para Curitiba fazer a prova, mas não nos encontraríamos porque nossos locais de provas eram diferentes.
― A prova é amanhã, gente. ― Fuinha estava irritando com esse negócio de só falar em vestibular. Isso me deixava mais apreensiva.
― E só contaram pra você? ― Debochou Dorminhoco.
Imaginei que quando entrasse na sala de aula e sentasse em minha carteira, uma folha de papel gigante entraria pela porta e apontaria uma metralhadora na direção de nós vestibulandos. Por isso o chato do Fuinha não arrumava namorada. Menina nenhuma gosta dessa pressão toda.
― O Fuinha está precisando descabelar o palhaço. ― Dorminhoco azucrinou o irmão.
― Você se enche para falar isso, mas não descabela nem sabugo de milho. ― Daniela entrou no embalo.
― Um bom conquistador não deixa rastros... ― Gabou-se Dorminhoco.
― Sei... ― Fez Daniela, me lançando um olhar cúmplice. ― Mas eu esperava mais de você, hein? Eu sabia que a coisa estava feia para o seu lado, mas que você estava matando cachorro a grito, não...
Mal sabiam eles a verdadeira onda de terror que eu sentia só de ouvir as alusões ao ato sexual porque para todos eles era algo prazeroso, divertido, rendia altos assuntos numa roda de conversa, enquanto que para mim era o tabu, a sentença de condenação, personificar a figura de Iury reclamando que eu era uma péssima namorada por não me "entregar" e de Gustavo me machucando de todas as formas que uma mulher pode ser machucada. A desculpa para me recolher foi a de que estava cansada. Antes fosse o corpo físico. Minha alma clamava por um pouco de arrego. Por todo arrego do mundo.
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