Confissões de Laly
2 Pré-estreia: Azar no amor, sorte nas amizades (Laly)
Notas iniciais
São raras as amizades que ultrapassam os tempos de escola e permanecem. No entanto, apesar de poucos amigos, sou sortuda por ter os melhores. Perdi minha mãe muito cedo, não tive irmãos e conheci muitas pessoas passageiras, quebrei a cara me envolvendo com os homens errados, mas tive uma rede de apoio que se iniciou com Mayra Sanches ou May, para os íntimos. Minha melhor amiga.
Ingressei na primeira série com oito anos completos, por pura omissão de Eleonora e de papai, obcecado pela ideia de que Ingrid o traiu, viam-me uma extensão de mamãe e um mal a ser extirpado. Se pudessem, eles me jogariam num galinheiro e me dariam restos de comida, ao menos lhes restava um indício de humanidade, muito mais sustentada pelo temor divino do que por empatia.
Se eu era um estorvo tão grande assim na vida do casal, por que não me deixar na casa do Tio Abílio? Meus padrinhos me amavam muito e repetia meu tio que onde comiam quatro, comiam seis. Suportar tantos abusos por um teto e um prato de comida não tinha cabimento, se naquele terreno faltava amor.
Eleonora era merendeira da escola e reclamava todo santo dia do emprego e da mixaria recebida todo fim de mês. Ainda assim, ganhei uma bolsa de estudos e tanto minhas notas quanto minha conduta deveriam ser impecáveis. As outras crianças olhavam-me com estranheza e desprezo porque sabiam que eu era enteada da merendeira, bolsista e morava, segundo alguns, num muquifo fedorento.
A única criança que falava comigo sem desprezo nem preconceitos era a tímida Naira Sanches, filha de dois prósperos comerciantes da cidade. Ela me convidava para fazer trabalhos na casa dela e por vezes eu ficava não apenas para o jantar, mas para dormir no quarto que as irmãs dividiam.
― Não liga para o que o pessoal diz. ― Naira pousava a mão no meu ombro quando me via chorar por conta de alguma peça que me pregaram: ― Eles não sabem o que falam.
Naira afirmou incontáveis vezes ter simpatizado comigo desde o primeiro dia de aula. Passamos tantas tardes daqueles anos de mocidade brincando no salão de beleza da D. Emília, auxiliando-a a varrer o chão, lavar o cabelo das clientes, atender o telefone, fazendo o dever de casa, sabendo em primeira mão dos babados da vizinhança.
Tristes eram os dias em que eu não podia visitar as irmãs Sanches e precisava suportar Eleonora e suas calúnias, a profunda indiferença de Edílson e orar para Deus me fortalecer, para ser grande logo e dar o fora daquele inferno.
☮️
Os mesmos ventos veranais que traziam milhares de turistas para visitar nossas praias e fortalecer a economia local. Viroses e alagamentos eram os presentes de grego da longa temporada, mas a doce brisa de uma manhã ensolarada podia soprar impiedosamente e trazer uma leva de destruição consigo. Ainda hoje, fevereiro de 1987 é lembrado pelos nossos conterrâneos em razão da fatídica enchente que afetou os bairros mais pobres e ceifou muitas vidas inocentes por puro descaso dos gestores, preocupadíssimos em vender mentiras, formar alianças para nunca saírem do poder e buscar os inocentes úteis, alheios da realidade, hipnotizados pela família Figueira Antares e o fascínio geral da população.
A Família Sanches sentiu na carne os prejuízos materiais e estruturais da chuvarada porque o Sr. Mauro foi um dos mais de 50 mortos. Jordano Figueira Antares fez pouco-caso do ocorrido porque a mansão da família não ficou debaixo d’água, não perdeu tudo que conquistou a duras penas, não teve de se despedir de um membro da família. Sabia falar bonito, mas não dizia absolutamente nada valoroso.
Viúva e mãe de duas meninas em idade escolar, Emília Sanches precisou encarar toda aquela burocracia pertinente e trabalhar o dobro, chorando quando ninguém via, ouvindo as filhas perguntarem a Deus o porquê de Mauro ter partido tão cedo, com apenas 36 anos.
Naira refugiou-se ainda mais na religião, enquanto Mayra, com 10 anos recém-completados, passava os dias chorando no quarto, definhando, sem vontade de ir à escola, ver outras pessoas e brincar. Por gostar muito de mim e me considerar uma formadora de opinião, me permitia passar tempo com ela.
— Sabe por que deixo você ficar? — Mayra puxou assunto.
— Por quê?
— Porque você sabe como eu me sinto. Você perdeu a sua mãe quando era bem pequenininha, então não me aborrece com perguntas idiotas, nem me obriga a ficar contente quando eu não consigo.
— Você acabou de perder o seu pai, tem todo direito de ficar triste, chorar, mas com o tempo você vai aprender a suportar a saudade.
— Você nunca me contou como se sentiu quando a sua mãezinha morreu…
— Eu tinha seis anos à época.
Mayra detestava Eleonora e a recíproca era mútua. Ela até teorizava que minha madrasta poderia estar envolvido naquele suposto e misterioso desaparecimento de mamãe, no entanto, revisitar esse assunto me custava surras monstruosas.
— Minha mãe sempre comenta que você é órfã de pai vivo. Como pode você ser órfã se seu pai continua vivo?
Se Mayra desconhecia um bom argumento para aquele absurdo, eu tampouco.
Para desanuviar o clima fúnebre, eu me sentava na cama, ligava o som, fazia vozes engraçadas com as bonecas de pano que May tanto amava.
― Você é engraçada, Laly!
Cócegas eram o ponto fraco de Mayra Sanches. Era impossível não rir, não me comover com aqueles olhinhos amendoados tão cheios de alegria, tristeza e pureza, de passar indiferente àquela menina tão doce e carismática; a irmã caçula que nem sequer pude ter.
Apesar dos temores de Emília, tão logo nossa morena estava escaramuçando por aí, tomando banhos de mangueira comigo, apertando a campainha dos vizinhos e correndo, disputando com Naira quem iria lamber a tigela de bolo e, claro, fazendo a maior cena para fugir das aulas de matemática. A mãe das meninas me agradecia banhada em lágrimas pela amizade e dizia me considerar a filha que não teve.
☮️
Naira se sentia enciumada por eu gostar mais de brincar com a irmã do que com ela, mas pelo menos com Mayra eu me sentia livre. Minha colega de classe só queria brincar que as bonecas estavam rezando o dia todo e levando chibatadas quando pecavam, pois tudo, tudo era pecado.
Mayra Sanches, curiosa por natureza, aprendeu a cozinhar observando a mãe e ajudando-a. Em consequência disso, eu também. Nossa especialidade era preparar brigadeiros de panela, pipocas e bolinhos de chuva, ainda que isso significasse muita bagunça.
― Vocês duas só sabem sujar tudo. — reclamava Naira.
― Você é uma chata. Só sabe reclamar de tudo o tempo todo ― Mayra retrucava. ― Preferia que a Laly fosse minha irmã.
― Rebeldia não é de Deus. ― advertia uma Naira cautelosa, de pupilas dilatadas, absorta em seus rosários.
― Não briguem! ― Lá vinha eu parar ao meio delas, já trocando empurrões e beliscões: ― Briga não leva a nada.
Por mais que Naira tentasse chamar minha atenção rezando duzentas Ave-Marias por dia, eu gostava mesmo era de aprontar com Mayra; pular a cerca de madeiro do vizinho que tinha um pé de ameixa, ouvi-lo gritar quando nos encontrava no alto da árvore sem medo algum de cair; estourar canetinhas para pintar os cabelos das bonecas de cores engraçadas.
― Sabia que vou ser cabeleireira quando crescer? ― declarou May, sentada perto da cadeira onde Emília trabalhava. Sonhava em se casar, ter filhinhos e uma casa linda com quintal quando fosse adulta.
Naira reconhecia os esforços da mãe para manter o salão de beleza e preocupava tanto com a irmã mais nova que chegava a exagerar na dose, tornando-se muito intransigente, por assim dizer.
Minha amiga de cabelos curtos e olhos verdes desejava ser enfermeira, sempre teve vontade de dar alguma contribuição para a humanidade e não dava a menor importância para os modismos mundanos. Indiferente ao fervor das garotas com a chegada da puberdade e do florescer das primeiras paqueras, trocava as festinhas por missas, livros de romance pela bíblia e maquiagens por rosários. Quando encasquetou na cabeça a ideia de ser freira, ficou ainda chata do que o meu pai quando o time dele entrava em campo.
Mayra e eu costumávamos assistir novelas e suspirar pelos mocinhos, execrar os vilões e dançar muito as modas que tocavam na rádio. Sonhava com um amor puro e sentia-se complexada em relação a outras garotas, pois era a “última da turma” a tudo.
☮️
Na 4ª série, quando eu estava com 11 anos, houve um surto de piolho na nossa turma e, claro, os danados me fizeram coçar muito a cabeça. Eleonora levou-me a um barbeiro carrancudo e determinou que este tosasse o meu cabelo, que na ocasião chegava até o quadril. Ele fez um rabo-de-cavalo em mim e cortou-o na altura da orelha, traumático demais para uma menina da minha idade.
Pior era ir para o colégio com aquele cabelo que parecia um ninho de corvos, todo desajeitado. Olhava o espelho e não me reconhecia, ouvindo piada ridícula dos meus colegas e, pior, dos meus próprios pais, que não perdiam oportunidades para me alfinetar, arremedar, diminuir, desmerecer, caluniar e agredir. A língua peçonhenta de Eleonora não tirava férias.
Sorte que Naira e Mayra me ajudaram com palpites sobre como passar por aquela fase complicada de patinho feio. Tiaras coloridas, brincos, pulseiras, gargantilhas, até comentavam sobre estrelas que usavam o cabelo curto e eram lindas, charmosas, sedutoras, contavam sobre as mulheres que frequentavam o salão da D. Emília e pediam o corte Joãozinho.
Até hoje, passados tantos anos, nunca consegui superar o trauma. No máximo topo um Chanel, um longbob com ressalvas, quiçá aquela franjinha na testa… se você vir uma Lalinha por aí de cabelo Joãozinho, pode saber de uma coisa: não sou eu.
☮️
Anos após o surto de piolho, meu cabelo havia crescido, ainda não caía em cascata até o quadril, mas já cobria a cintura e me deixava parecida com uma atriz famosa que foi miss e acabava de estrear nas novelas.
Naquele verão quem veio passar uns tempos comigo foi a Dani, pois o Túlio estava com catapora. Eleonora e Edílson dissimularam bem durante o tempo em que minha prima ficou hospedada em nossa casa e a paz, ainda que falsa, reinou por algumas semanas. Foi nessa época que eu me apaixonei pela primeira vez na vida.
Eu já conhecia o Gustavo Figueira Antares, quem não?
Gustavo Figueira Antares era o primogênito do prefeito Jordano Antares. Estudava Agronomia na capital e vinha passar as férias na nossa cidade. A família sempre aparecia nos jornais por ser uma das mais tradicionais e abastadas.
Eu ainda era moleca, subia em árvore; quando me machucava, tentava esconder dos meus pais para não apanhar, nem pensava em namorar, beijar na boca, muito menos me apaixonar e ficar suspirando pelos cantos que nem uma boba, mas… aconteceu.
Daniela insistiu para eu levá-la à sorveteria, prometeu que pagaria a minha parte, então eu não tive muita resistência, queria tanto experimentar uma banana-split e fazia muito calor.
A fila estava grande, de dar voltas. Dani e eu conversávamos, era final de tarde e não tínhamos tanta pressa para voltar para casa. Quando nossos pedidos ficaram prontos, fomos até o balcão buscar nossas bandejinhas com os sorvetes, as colheres e os guardanapos. Distraída, esbarrei num cara, pior, derrubei a bandeja e sujei todo o piso de sorvete. Queria enfiar a cara num buraco, todo mundo estava me olhando.
Quando vi em quem havia esbarrado, se pudesse, sairia correndo para nunca mais entrar lá, porém ele me sorriu e não pareceu ter levado agravo do pequeno acidente.
— Me desculpa! — implorei com um fio de voz.
— Fica tranquila, isso acontece! — Gustavo disse.
— Sujei a sua calça…
— Tá tudo bem!
— Não tá tudo bem, eu sou muito estabanada! Olha só o estrago que eu fiz?
— Peça outra banana-split e coloque na minha conta.
— Imagina, que é isso? Eu não tenho como te pagar!
— Eu não pedi que você me pagasse.
Daniela, sentada na mesa que reservamos, ria da situação. Tantas vezes depois nós duas rememoraríamos detalhes desse dia.
— Quero te pagar, tudo bem?
— Tudo bem — concordei.
— Você se chama…?
— Laly?
— Lalí.
— Láli com y.
— Nome diferente. — Gustavo assentiu.
— Todo mundo me chama de Lalinha. Estou enganada ou você é o Gustavo Figueira Antares?
— Eu mesmo.
Trocamos um aperto de mão.
Foi nesse instante que reparei melhor no rosto dele, no conjunto da obra, para ser bem sincera. Até então, ele era um rapaz como qualquer outro, mas deixou de ser. Eu era apenas a órfã de pai vivo, a garota que morava numa pocilga, a bolsista do colégio religioso, o patinho feio da turma, a única que nunca tinha nada de bom para contar, que não tinha lá uma vida tão interessante, alguém por quem ninguém dava nada. Até aquele instante.
— Ele é muito bonito! — comentou Daniela quando, refeita do ocorrido, voltei para a mesa com a banana-split oferecida por Gustavo.
— Sabe que eu nem reparei?
— Ah, não acredito, Lalinha! Você vive em que planeta?
— Esse tipo de menino nem repara em meninas como eu.
— Olhar não tira pedaço, Lalinha.
Continuei apreciando o sorvete derretendo na boca, ocupada demais para confabular sobre garotos.
— Não me diga que você nunca beijou de língua? — Daniela insistiu.
— Ui, Deus me livre e guarde!
— Nunca? Nem um beijinho na boca?
— Nunca.
— Estou vendo seu futuro namorado.
— Para de falar besteira, Daniela. O Gustavo nem repara que existo, sem contar que deve ter namorada, uma namorada bem bonita da idade dele, nem repara em fedelha e eu também não penso em garotos, muito menos gosto dele.
— Você parecia bem à vontade falando com ele.
— Nem vem!
— Ele não é de se desperdiçar.
— E você vá brincar de boneca, está muito nova para pensar em namorar.
Sou seis meses mais velha que Daniela, logo, se havia acabado de completar 14, minha prima ainda tinha 13.
Naquele dia, depois que minha prima dormiu, fechei os olhos e recordei a sensação daquele aperto de mãos entre mim e Gustavo. Os meninos não eram gentis comigo e até hoje, por mais que eu tenha desabrochado e me transformado numa linda mulher, os fantasmas da fase do cabelo Joãozinho me perseguem. Os insultos eram bem pesados e eu não chorava, pelo menos não na frente deles. Acabei com a cara de muitos fora da escola porque não tinha medo de pegar os merdinhas de emboscada e socar a cara deles até sangrar. Não nos dizem para lutar como uma garota?
☮️
Eu já havia esbarrado com Gustavo outras vezes. Ele se sentava na primeira fileira do lado direito da igreja todos os domingos, tinha uma caminhonete azul e a dirigia mesmo sendo menor de idade. Via-o passear todo final de tarde com os irmãos e mais alguns amigos, ouvindo som alto, os ventos bagunçando os cabelos negros. Eu reparava nele, todas as garotas reparavam nele… e ele, na condição de um garoto bonito, bom partido e ainda por cima filho do prefeito, poderia escolher qualquer garota e jovens mais bonitas, inteligentes, com sobrenomes tradicionais e vidas mais interessantes tinham a dar com o pé. Ser realista me pouparia de levar um tombo por dar um passo maior do que a perna.
Dar-me conta de que eu não queria sofrer por ele era a resposta para a indagação de Daniela: eu tinha uma quedinha por Gustavo Figueira Antares.
Sim, respeitável público.
Eu estava apaixonada.
Aquele aperto no peito, aquela vontade de chorar, aquela mania de perder o fio da meada durante a conversa e me meter em encrenca por estar distraída eram sintomas visíveis do que se passava dentro de mim. Nem no meu diário, meu maior confidente, eu conseguia falar sobre o que se passava, era um tabu destrancar o peito e ser sincera, porque nem mesmo encontrava palavras capazes de concatenar todos os porquês que se somavam e me engoliam, me afastavam da infância.
Eu era apenas mais uma, ora bolas!
Se você perguntasse quem era mais famoso entre as meninas, Gustavo Figueira Antares ganharia disparadamente. Muitas garotas adorariam esbarrar nele, trocar um aperto de mãos, abraçá-lo, beijá-lo, serem vistas ao lado dele. A oportunidade caiu no meu colo e era um grato presente para eu refletir sobre tudo que vinha fingindo não sentir, crente de que doeria menos enterrar aquilo com que não conseguia lidar ou não havia encontrado subterfúgios dignos.
Foi o momento de perguntar à Daniela:
— Dani, você já gostou de alguém?
— Claro, ué!
Dani já se adiantou:
— Você gosta do Gustavo Figueira Antares, não gosta?
— Não sei…
— VOCÊ GOSTA DELE, LALINHA!
— Ele tem namorada.
— Perguntei à Naira e ela me disse que o Gustavo não tem namorada nenhuma.
— Dani!
— Se dependesse de você.
— Você jura para mim que só comentou isso?
— A Naira não é boba.
— Você contou à Naira que gosto do Gustavo?
— Eu não, ela já sabe.
— Dou tanto assim na vista?
— Fica fria, prima. Não é o fim do mundo gostar de um menino.
Minha prima me abraçou.
— Estou gostando de um menino que nem sabe que eu existo.
— Laly, o Gustavo não tem namorada, não é visto com ninguém e tem mais: como ele vai notar que você é linda se você se esconde?
— Olha quem sou e olha quem ele é.
— Ele me parece um cara simpático e legal, Lalinha. Se ele não fosse, eu seria a primeira a falar. Ele é bonito, educado, simpático e não é tão verdade que ele não olha para você. Olhar, ele olha. Sabe, quem tem que olhar um pouco para você é você mesma. A beleza ajuda e você tem, você é muito bonita, mas ser só bonita não ajuda. Se uma guria é bonita, mas é grossa, chata e antipática, os meninos ignoram mesmo... às vezes tem guria que nem é bonita, mas tem um monte de menino babando porque é simpática, educada, faz as pessoas rirem, se valoriza. Não estou dizendo que você não é simpática nem educada, você diz que não, mas é muito tímida. Se você vive se escondendo no casco, deixa muita coisa para trás, prima. Se você não lutar um tiquinho assim pelo Gustavo, depois não adianta chorar se ele aparecer com uma namorada. Lute, pelo menos se não der certo, você tentou, deu o seu melhor, é o que importa no fim das contas.
— Meus pais nunca vão me deixar namorar!
— Claro que vão!
— Sou uma menina comum, simples, não sou rica, não tenho nada de valor… o que vou ter para oferecer a um garoto como ele?
— Beijos, abraços, amizade, carinho, sorrisos. O seu amor não basta?
— Não quero me iludir com o que não posso ter.
— Não deixe o medo te impedir de viver. Daqui a muitos anos você rirá do que sente agora, se arrepender não do que fez, mas sim do que não fez, vai por mim.
— Já que você insiste…
Dandara Figueira Antares estava um ano à frente e eu figurava na lista de convidados para os 15 anos dela.
No início daquele ano letivo eu já era uma nova Lalinha, havia ingressado na 7ª série, iniciado uma nova etapa estudantil e também como pessoa, posto que a estadia de Daniela naquele verão me fez enxergar a vida com outros olhos.
Chorar na cama não faria Gustavo se apaixonar por mim, reclamar de ter largado atrás das outras meninas, tampouco. Eu teria de trabalhar o dobro para ter o que elas tinham, mas a esperança me acalentava e ela era tudo de que eu precisava para me transformar na Lalinha que queria ser, não só para ele, mas para o mundo que haveria de me conhecer pelo nome.
A primeira iniciativa que tomei foi conversar com a D. Emília e me oferecer para trabalhar no salão, mesmo com tão pouca idade e sem ter carteira assinada. Aquela piedosa senhora aceitou me pagar um salário para atender o telefone, agendar os horários das freguesas, varrer o chão do salão e lavar os cabelos quando a demanda estivesse grande. Aceitei com muita gratidão. O ordenado era suficiente para uma garota como eu se permitir sonhar um pouquinho.
Dandara Figueira Antares era comunicativa, carismática e vivia rodeada de pessoas. Não se era indiferente: ou a amava, ou a odiava. Estreitei laços com a minha cunhada por razão do ofício, ela adorava o salão da D. Emília porque esta era a única cabeleireira que acertava no corte e não fazia perguntas invasivas.
— Que rapagão bonito está o Gustavo… — comentou Sueli, a manicure do salão. — E quando é que ele vai começar a namorar?
— O Gus tá vidrado numa menina.
Meu coração começou a bater descompassado. Eu queria me concentrar em varrer o chão do salão e não me intrometer na conversa alheia, mas aquele assunto era do meu interesse.
— Nunca vi o Gus tão decidido a namorar uma menina.
— Quer dizer que o Gustavinho quando se trata de amor fica todo tímido?
— Lógico que ele me vê só como uma criancinha, quem deve saber melhor de tudo é o Giordano, mas que o Gus está mesmo gostando dessa menina, é certo.
— Menina de sorte! — suspirou a manicure, pintando cuidadosamente as unhas de Dandara.
— Ela tem um nome engraçado, parece de sereia, havaiano, uma coisa assim… — divulgou Dandara.
Mayra me pregou uma peça.
— Que susto, May! Qualquer dia desses ainda me mata do coração!
Dandara riu.
— Como você se chama? — Ela dirigiu a pergunta a mim, pois conhecia Naira e Mayra, só nunca havia reparado que Emília Sanches tinha uma terceira filha de consideração.
— Laly. — respondi, encabulada.
— Lalí?
— Laly… com y. Mas todo mundo me chama de Lalinha.
— Não conheço ninguém com esse nome. — Dandara parecia impressionada. — Meu irmão fala sobre uma menina chamada Lalinha, o quanto ela é linda, divertida, simpática, até quer tirar o diploma da faculdade para casar. Nunca ninguém viu o Gus se interessar por ninguém. Fico feliz em conhecer minha futura cunhada.
Engoli em seco, sem saber se corria para o banheiro, fechava a porta e chorava ou se caía de joelhos ou se mantinha a dignidade e continuava segurando a vassoura.
— O Gus gosta da nossa Lalinha? — A manicure arregalou os olhos.
D. Emília interveio:
— Conheço o seu irmão, Dandara, gosto muito dele, é verdade, mas a Lalinha é a menina dos meus olhos, ai do larápio que partir o coração dela. Já deixo avisado.
— O Gus nunca namorou firme? — Mayra sabatinou Dandara.
— A gente estuda juntas, sim? — Dandara me olhou de cima a baixo, agora com certa afeição no olhar. — Porque agora te olhando assim acho que te conheço, seu rostinho não me é estranho.
Contei por cartas para Daniela que Dandara Figueira Antares era freguesa do salão da D. Emília e entregou toda a rapadura. Tornei-me amiga da irmã de Gustavo e passei a frequentar a suntuosa mansão dos Figueira Antares com certa assiduidade, conhecendo um pouquinho dos costumes da família. Por não ter uma, sentia-me acolhida em qualquer lugar onde as pessoas me dispensassem alguma atenção.
Dandara tinha um closet cheio de roupas, calçados e acessórios. Quando renovava o guarda-roupa, doava tudo, sem o menor apego. Tinha uma penteadeira digna de uma estrela de cinema, onde passava muito tempo olhando-se no espelho, experimentando maquiagens, acessórios e enfeites de cabelo. Duas borrifadas de perfume e estava pronta. Havia vidrinhos que custavam uma nota.
Dandara era a única menina do casal Jordano Antares e Judite Figueira. A festa de 15 anos da garota seria um daqueles eventos memoráveis que a maioria dos cidadãos acompanharia na coluna social do jornal, que dedicaria (e dedicou) duas páginas inteiras para um cronista homenagear a aniversariante, contar a história de prosperidade dos Figueira Antares e as melhores fotos estamparem a matéria.
Eu, por um acaso do destino, fui convidada para o evento. Naturalmente, uma garota como eu nunca estaria naquela lista, primeiro porque eu era de origem humilde, meus pais não tinham nenhum contato com os mais abastados daquele pedacinho de mundo em que vivíamos, não éramos donos de propriedades, de quarteirões inteiros, sem falar no ponto crucial: eu não tinha um traje adequado para aquela ocasião. Sejamos francos: eu mal tinha roupas domingueiras, quanto mais roupas de festa, sapatos adequados, maquiagem, acessórios.
— Você é convidada de honra da aniversariante. — Naira refletiu.
— Não posso ir!
— Você precisa ir. O Gus vai estar lá. — Mayra, em concordância com a irmã, insistiu. — Ele gosta de você, Lalinha.
— Como amiga da irmã dele, não do jeito que gosto dele.
— Puxa vida, amiga! Você lutou tanto para conquistar a amizade da Dandara, para ser convidada para essa festa, para ser notada pelo Gustavo. Não é todo mundo que recebe um convite desses, não dá para simplesmente recusar.
— A Dandara tem muitas outras amigas e sem vocês por lá vou me sentir perdida, sem falar que o Gustavo tem muitas meninas atrás dele.
— A Dandara aquele dia no salão deixou bem claro que ele gosta de VOCÊ. — Naira enfatizou e olha que ser alcoviteira não era do feitio dela, mas notando que Gustavo Figueira Antares tinha boas intenções comigo, não restava saída senão apoiar o (provável) namoro. Mayra era otimista e ia além, já até se imaginava sendo madrinha dos meus filhos, sugeria nomes, como sonhava aquela baixinha.
— Ué, pelo menos na segunda-feira você vai ter um monte de coisa para contar para a gente. — Mayra me persuadiu. — Você não diz que parece sempre viver o mesmo dia?
☮️
Dandara me convidou para me arrumar na casa dela, me indicou uma arara repleta de vestidos de festa e autorizou-me a escolher qualquer um deles. Gostei de um azul com alças.
Um maquiador profissional preparou a aniversariante e o vestido dela, desenhado por um famoso estilista, só seria revelado à meia-noite, na hora da valsa.
A festa movimentou o clube de regatas da cidade, todos os salões estavam reservados para os convidados dos Figueira Antares. Foi uma noite memorável, mas o primeiro contato para valer, o primeiro beijo, só aconteceu na tarde seguinte, quando a aniversariante promoveu uma festa na mansão e o clima era mais descontraído do que formal.
Estávamos na piscina ouvindo música, saindo ocasionalmente para beber suco e comer sanduíches. O biquíni azul de bolinhas brancas que eu usava também era presente de Dandara, que já me tinha em alta conta não só pelo fato de Gustavo estar interessado em mim, mas porque gostava da minha presença, da minha amizade e de eu ser uma ótima ouvinte. As amigas dela não partilhavam da mesma opinião, porém a ela ignorava o que diziam pelas costas. Se fazia questão de mim por perto, me teria por perto e ponto final.
— Eita, eita, eita… — sibilou Dandara. — Meu irmão não para de olhar para cá. — E gritou para Gustavo: — Perdeu alguma coisa aqui, bobalhão?
Gustavo fez-se de desentendido.
— Como esses meninos são bobos! — suspirou a irmã mais nova de Gustavo, ajeitando os óculos de sol. — Crescem só de tamanho.
Gustavo cochichou com um amigo de Dandara sentado na beirada da piscina, este partilhou o recado para outro menino até a mensagem chegar a mim.
— Só tem tamanho… — Dandara não escondeu o sorriso. — Em vez de te chamar e falar na lata, manda recadinhos pelos outros.
— Ele q-quer f-falar c-comigo?
— Já era tempo, né? Faz um tempão que ouço falar de você, que vejo vocês se olhando, se gostando, mas sem tomar a iniciativa… valha-me Deus, se entendam de uma vez!
Saí da piscina, peguei uma toalha amarela que estava pendurada nas costas de uma cadeirinha de plástico branca, sequei o corpo e procurei a bermuda alaranjada de lona para vestir, tomando cuidado com o piso escorregadio, também calcei um chinelo e encontrei Gustavo perto do balanço, longe dos olhares curiosos. Passamos um bom tempo sem ter coragem de dizer uma só palavra.
— Você disse que queria conversar comigo.
— Sinto muito por ontem. Queria ter passado mais tempo perto de você, mas não pude…
Assenti.
— Posso te dizer uma coisa? Você promete que não fica braba?
Sorri.
— Você estava linda ontem!
— Obrigada!
— Você é linda, Laly. — Gustavo reiterou.
— Obrigada.
— Você não acredita no que eu digo?
No fundo, não.
— Sabe, faz tempo que venho te notando, mas não tenho coragem de chegar e trocar uma ideia com você. Queria saber se você tem namorado.
— Não, não tenho. Você tem namorada?
— Não, pelo menos ainda não.
— Tem alguém em vista? — sondei.
— Tenho…
Concordei com a cabeça, confusa. Se numa dessas, Dandara só estivesse sendo gentil e Gustavo tivesse interesse noutra menina?
— Imaginei, mas eu não sei no que posso ser útil porque tenho além da Dandara só mais duas amigas: a Naira e a Mayra Sanches. Se você tiver interesse na Naira, é só me falar. Não posso te prometer nada, mas posso falar com ela.
Gustavo coçou o queixo e sorriu, me olhando de cima a baixo, quase sem acreditar. Eu me surpreendia de estar falando algo porque diante dele eu simplesmente empacava. Pior ainda, passava vergonha, fosse tropeçando, esbarrando em algo ou alguém, ou falando atropelado, enfim, um desastre.
— A Dandara não falou de mim para você?
— Você gosta de mim?
— Por que não gostaria? — quis saber Gustavo.
— Não sei, acho que os meninos daqui não gostam.
— São uns bobos, não sabem o que estão perdendo.
— Eu não entendo isso, Gustavo… com tanta menina bonita, o que você viu em mim?
— O que eu sempre estive procurando: minha amada.
— O que você viu em mim?
— Minha amada.
— Não pode ser verdade.
— Você não gosta de mim?
— Não, é claro que gosto, mas… mas… olha para mim… eu não tenho nada a te oferecer.
— Claro que tem. Amor. Eu só espero que você me ame do jeito que eu te amo.
Olhei para os meus pés no gramado, senti-o aproximar-se e erguer minha cabeça com as pontas dos dedos para que eu o olhasse nos olhos, não fugisse nem desviasse. Meu coração batia na garganta e quando ele me tomou nos braços, o dele também rufava no peito.
Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, ficamos abraçados, nada além. E as lágrimas que eu escondia de todo mundo estavam acudidas nas pupilas. Ninguém me abraçava daquele jeito, ninguém entoava meu nome com um carinho tão grande, como se fosse uma canção celestial, ninguém me olhava mais de uma vez e eu já estava acostumada com o meu destino até o verão anterior, quando esbarrei com Gus na sorveteria e muitas certezas mudaram. Estar ali com ele não era apenas o final feliz digno de um livro de romance juvenil, significava dizer que consegui um feito impossível: ser notada pelo garoto mais bonito e importante da cidade. E ele parecia gostar de mim do jeito que eu era.
— E aí? Posso te dar um beijo?
Eu sabia que não era na testa nem na bochecha. E corei. Queria correr o mais rápido que meus pés aguentassem, mas cedo ou tarde, fosse com Gustavo ou não, meu primeiro beijo haveria de acontecer e eu não poderia tirar os chinelos para correr até sumir.
Gustavo foi cuidadoso, impondo um ritmo calmo ao beijo e não me importava mais se houve outra garota antes de mim, se naquele coração houve ou haveria outro amor, porque aquilo que compartilhamos naquela tarde seria marcante para nós dois, nem o passar dos anos apagaria as marcas daquele encontro.
Após o beijo, ele segurou na minha mão e continuou me olhando como se eu fosse a oitava maravilha do mundo.
— Posso te pedir só mais uma coisa?
— Outro beijo?
— Posso te chamar de Lalinha?
☮️
Gustavo fazia faculdade de Agronomia na capital durante a semana e voltava para casa ao final dela. Nas tardes de sábado ele vinha me buscar na porta do salão da D. Emília para lancharmos juntos, passear de carro e curtir a piscina da casa dele, sem investidas libidinosas, sorrindo por me fazer sorrir. Eu me sentia a menina mais sortuda do mundo e queria parar o tempo quando ele me abraçava e eu me sentia tão linda, forte, protegida… amada.
De repente, sem mais nem menos, ele sumiu. Morto não estava porque seria difícil de esconder uma informação daquele porte, considerando o papel social dele. Para piorar, algum infeliz espalhou o boato de que dormi com o filho do prefeito e este chegou aos ouvidos dos meus pais. Não bastando a enxurrada de insultos e insinuações, papai e Eleonora tiraram a minha roupa e quiseram verificar a “desonra”.
Dandara foi tirada do colégio, o que piorou a situação porque as outras meninas não mexiam comigo porque a irmã de Gustavo me defendia; sem ela, começou a temporada de perseguição contra mim. Embora homens não sejam troféus, era visível que entraram muitas recalcadas no esquema por puro despeito. Haja sangue-frio para resistir às investidas misóginas do senso comum sem surtar, todavia, se no amor eu não tinha sorte, nos estudos, tudo ia muito bem, obrigada. Devia ser difícil para as patricinhas que tinham tudo ver a bolsista pobretona ser a melhor aluna da turma.
☮️
Ter o suporte da Mayra e da D. Emília foi um importante ponto de equilíbrio para me lembrar de uma máxima que ainda aplico na vida: a mentira pode triunfar sobre a verdade uma vez, mas quando a verdade aparece, tudo que é de mentira esfarela. Aos dedinhos nervosos que queriam me julgar, os três dedos do carma estavam engatilhados para mostrar as verdadeiras criminosas.
O tempo não curou aquela ferida, mas aos poucos as pessoas se enjoaram de fofocar sobre mim e a vida voltou ao seu curso normal. Gustavo apareceu com uma namorada da mesma faixa etária e classe social, enquanto entrei no colegial e conheci dois garotos, os primos Iury e Nilton. O segundo fez amizade comigo logo de cara, enquanto o primeiro tornou-se meu namorado mais adiante.
Quando Iury e eu assumimos o relacionamento, Naira passou semanas sem falar comigo, enquanto Mayra exprimia uma felicidade genuína pela minha pessoa e guardava segredo para evitar que meus pais me batessem e tentassem me separar do meu então amado.
Foram três e intensos anos ao lado de Iury, mas nunca foram flores. Nós nos amávamos e nos odiávamos, presos a uma montanha-russa de sentimentos contraditórios, brigas terríveis e a constante pressão para entregar a chave para abrir o portão do jardim secreto. As recusas já eram pretextos para acusações insanas, até chegar a tal ponto que se continuássemos juntos, acabaríamos nos matando mutualmente.
Era sempre ele quem terminava comigo e depois voltava meloso, choroso, arrependido, prometendo mundos e fundos, tudo para voltar a ter as mesmas atitudes estúpidas que me motivaram a ter iniciativa e terminar aquele lance sem futuro, de onde não sairia nada de bom. Não foi uma decisão fácil, eu me via duvidando da realidade, dos meus pensamentos e atitudes, porém Mayra acompanhava tudo e me consolava.
Passei o colegial namorando e abdicando de muitas outras coisas para dar atenção a Iury, de modo que me permiti ir a festinhas com amigos, dançar a noite inteira, vestir as roupas que quisesse, sem macho escroto para me repreender, colocar batom vermelho, beijar na boca sem me amarrar, até porque se meus planos fossem bem-sucedidos, ao fim do verão eu partiria para a capital para estudar Jornalismo.
Minha melhor amiga apoiava meus sonhos, assim como eu apoiava os dela, porém era doloroso pensar que aquele afastamento seria praticamente inevitável e a lealdade seria colocada à prova. Nosso maior juramento era manter a amizade viva para sempre, se possível, independentemente do que acontecesse.
Fale com o autor